Profissão:repórter

e n t r e v i s t a

JOSÉ
MEIRELLES
PASSOS

Perguntas de Luiz Maklouf Carvalho e Moisés Rabinovich,
respondidas, via e-mail, em 1/2/2001


Meirelles em Praga


A credencial, em Moscou
 
 

PERFIL RÁPIDO
 

Local e data do nascimento:

Lorena (SP), 17 Setembro 1948

Veículos, pela ordem:

"Cidade de Santos", "O Estado de S.
Paulo", "Movimento, "Jornal da República",
"IstoÉ", "Veja",  "O Globo"

Livros publicados:

"A noite dos generais - os bastidores do
terror militar na Argentina" - Editora Brasiliense - 1986

Prêmios recebidos:

Vladimir Herzog (3), por reportagens
sobre repressão político-militar na América Latina; Esso
(revelação do projeto secreto nuclear brasileiro); Febraban
(jornalismo econômico: perfil da família Dart); Icatú (jornalismo
econômico: subfaturamento nas importações de carros);
Sociedade Interamericana de Imprensa (prêmio por
jornalismo investigativo).
 
 
 

A ENTREVISTA





Luiz Maklouf Carvalho - Onde, como, por que e quando você escolheu a profissão?
Meirelles - A escolha aconteceu cedo. Ainda no ginásio. Por que? Talvez pelo gosto da leitura. Meu pai tinha muitos livros, assinava jornais, era um bom contador de histórias. Isso tudo certamente influiu. Influenciou. No curso primário eu gostava das aulas de composição. A professora dava um tema e a gente tinha de escrever a respeito. Eram coisas do tipo "O último fim de semana", "O quintal da minha casa". Quer dizer: na prática você tinha que escrever uma espécie de matéria, com um relato informativo. Às vezes acontecia uma coisa que chamavam de "Composição à vista de uma gravura". Ela colocava uma pintura ou fotografia lá na frente da sala e tínhamos de escrever a respeito: "entrar" na cena, descrevê-la, contar uma história tendo aquilo como pano de fundo.

Maklouf - Faria a mesma escolha nos dias de hoje? Por que?

Meirelles -  Sem a menor dúvida. O motivo é simples: é o que mais gosto de fazer. É um trabalho que me dá prazer. Que me ensina algo todos os dias. Que me dá chances de ver a História de perto, de registrá-la, de aprender a viver. A profissão me leva a conhecer o mundo, às vezes até do lado do avesso.

Maklouf - Quais foram, pela ordem, os veículos em que trabalhou, e que cargos exerceu?

Meirelles - Comecei no "Cidade de Santos", um jornal que a "Folha de S. Paulo" mantinha lá em Santos, onde fiz a faculdade. Comecei como se começava na época: cobrindo casos policiais. Indo às delegacias, a pronto-socorros, ligando pro Corpo de Bombeiros. Depois passei prá Geral; estive um tempo como setorista no porto, cobrindo desde questões trabalhistas até o comércio internacional; estive no Esporte, área em que acabei sendo editor. Trabalhava meio período na redação.

Aí consegui um emprego na sucursal do "Estadão" e "Jornal da Tarde". Por alguns anos trabalhei nas duas empresas. Mais tarde fiquei só no "Estadão" - como repórter-faz-tudo. Grande escola. A gente inclusive sentava no telex prá picotar fita, transmitir matéria. Ali pude também fazer outra coisa que sempre gostei (e, como correspondente, continuo fazendo): fotografar. Enquanto estava na sucursal comecei a colaborar com o "Movimento", semanário alternativo, e virei o seu correspondente no litoral paulista. Mais tarde surgiram uns frilas prá "IstoÉ". E aí, quando o Mino Carta montou o "Jornal da República", veio o convite prá ir prá São Paulo. O jornal, como se sabe, durou quatro meses. Mas sobrevivi: no dia em que ele foi fechado, o Mino me convidou prá ficar na "IstoÉ". Da redação do JR, sete acabaram ficando na revista. Lá fiz de tudo. E aprendi um bocado. A redação era pequena. Os repórteres faziam matéria prá Economia, Geral, Política, Cultura, Internacional. O que pintasse.  Exatamente o que faço hoje em dia. Aí virei editor-assistente da Internacional: cobria a América Latina morando em São Paulo. Viajei um bocado. Era época de ditaduras militares no Uruguai, Argentina, Chile, Perú e, claro, Brasil ainda.

Um dia, pouco depois da Guerra das Malvinas, que cobri prá "IstoÉ", recebi um convite da "Veja": me ofereciam ser correspondente em Buenos Aires. O acerto era ficar de dois a três anos e dali ir prá outro país. A revista faria um rodízio com o pessoal que estava fora. Um voltaria pro Brasil, os outros trocariam de postos. Mas um dia, dois anos e meio depois de eu ter chegado à Argentina, me disseram que os planos tinham mudado. Era prá voltar prá São Paulo. Mas eu já estava "contaminado". Estava determinado a fazer uma carreira como correspondente no exterior. Foi quando surgiu "O Globo". O jornal me deixou à vontade: podia ficar lá sem tempo definido. Pensei em ficar mais uns três ou quatro anos e ir prá outro país. Mas seis meses depois me ligaram com uma proposta irrecusável: ser correspondente em Washington. Não é todo dia que isso acontece. Vim prá cá, sem saber por quanto tempo. E isso... há exatamente 14 anos.

Maklouf - Que matérias destacaria entre as primeiras que fez, e qual delas o fez acreditar que era mesmo do ramo?

Meirelles - Inúmeras. Sempre gostei de fazer reportagens, de preferência com tempo prá levantar dados, investigar, rechecar as informações, escrever. Mas sempre tive a mesma dedicação com as tarefas mais simples do cotidiano, notas sobre a cidade, sobre o cais, sobre o Santos FC, ainda no começo da carreira lá no "Cidade de Santos". Havia umas histórias policiais interessantes: ali você ficava cara-a-cara com a violência, via cadáveres baleados, entrevistava bandidos e policiais, vítimas. Drama. Isso, no "Jornal da Tarde" tinha um fator mais especial: as boas histórias dessa área eram publicadas sob o selo "Novelas Policiais". O texto não era telegráfico. Mergulhava-se mais no ambiente, na descrição deles e das pessoas, de suas emoções.

Eu tive consciência de que era do ramo quando percebi que estava conseguindo colocar no papel o que eu via e ouvia nas ruas. Sempre achei estranho ouvir alguns colegas (de vez em quando ainda ouço) dizendo, ao chegar à redação "agora chegou a pior parte", referindo-se ao momento de escrever. Prá mim, não dá prá separar uma coisa da outra: levantar informações é ótimo, escrever também. Com o tempo, com a experiência, tem gente que liga logo o piloto automático na hora de escrever. Como um cavalo que conhece os caminhos, de tanto percorrê-los. Acho errado. Pode até quebrar o galho. Mas é uma falta de respeito ao leitor e, claro, ao ofício.

Maklouf - Como virou um correspondente internacional? Qual foi o primeiro país em que trabalhou - e as primeiras reportagens que fez?

Meirelles - Primeiro país, profissionalmente, foi a Bolívia. Em 1980. Havia um golpe militar atrás de outro. O absurdo da situação era tal que uma vez saí de São Paulo (trabalhava na "IstoÉ") para Santa Cruz de la Sierra, sabendo que dois dias depois haveria um golpe de estado.

Era do Natush Bush, junto com um outro oficial, cujo nome não me recordo agora. Eu recebi a dica de uma fonte, político da oposição na Bolívia. Ele me disse que a coisa ia acontecer a partir de Santa Cruz: uma tentativa de tirar o general García Meza, que estabeleceu a primeira ditadura do narcotráfico. Ele tinha como uma espécie de consultor o Klaus Barbie, o chamado "Carniceiro de Lyon", nazista responsável por várias matanças do Hitler, e que vivia em La Paz. Enfim, cheguei à Santa Cruz à noite e no dia seguinte fui ao quartel, me apresentei pros caras que iam dar o golpe, usando uma senha que o político havia me passado, e eles me deram um salvo-conduto, alertando: "A coisa vai começar bem cedo. Vamos dar uns tiros por aí, mas não se assuste". Não deu outra coisa. Começou às cinco da manhã. Vi a coisa do lado de dentro. Tinha livre acesso ao quartel, com o tal documento. O aeroporto e as estradas foram fechados. Eu era o único jornalista estrangeiro na cidade. As comunicações foram cortadas, mas eu tinha um telex aberto prá transmitir o material. Foi divertido.

Virei correspondente querendo ser um. Sempre quis. Tive a chance na "IstoÉ", cobrindo a América Latina tendo São Paulo como base. Viajava bastante. O que não pintava lá era uma vaga no exterior. Aí veio o convite da "Veja", e fui morar em Buenos Aires. Agora estou aqui, não sei até quando. Não tenho um tempo determinado. Gosto muito do que faço e quero continuar nisso, fazendo carreira de correspondente estrangeiro. Um dia, quem sabe, a Europa.

Maklouf - Em quanto países você esteve até hoje?

Meirelles - Até aqui... 35 países. Esse é, para mim, um bom efeito da globalização - sem trocadilho com o nome do jornal para o qual trabalho. Se você se dedicar a acompanhar o que acontece, com atenção, pode ir sem problemas, a qualquer momento, fazer matérias em qualquer parte do mundo. O"Globo" tem me propiciado ir além da, digamos, minha jurisdição. Estar baseado em Washington ajuda, creio. Porque as notícias nascem aqui ou passam por aqui, inevitavelmente.

O fato de ter de cobrir FMI, Banco Mundial, Casa Branca, Banco Interamericano de Desenvolvimento, Pentágono, acaba ajudando nesse aspecto. Os bancos multilaterais promovem suas reuniões anuais em outros países, e sempre é bom que vá cobrir um repórter que conheça os bastidores, as pessoas que de fato dão informações. E há também assuntos iniciados/provocados pelos EUA que acabam afetando a todos, ou interessando a todo o mundo. Exemplo? Guerra do Golfo. Invasão do Panamá. Estou sempre pronto prá viajar, seja para o que for.

Maklouf - Qual foi a melhor experiência? E a pior?

Meirelles - Difícil dizer qual foi a melhor. Várias histórias foram gratificantes. Como esses dois conflitos militares que acabo de mencionar. Sem contar entrevistas saborosas com gente como Woody Allen, Michael Jordan, Mick Jagger, Muhammad Ali, Jorge Luís Borges, Gabriel García Márquez, Júlio Cortázar, Mário Vargas Llosa, Astor Piazzola. Uma vez fiz uma viagem de 25 dias pela Amazonia, de São Gabriel da Cachoeira até Mitú, na Colômbia, o grande entreposto do narcotráfico, indo a aldeias indígenas em busca dos índios brasileiros que plantavam o epadú (a nossa 'coca') e que trabalhavam pros cartéis colombianos - na Colômbia e no Brasil.

Houve também uma investigação longa, trabalhosa, sobre uns pilantras brasileiros que exportavam carros pro Brasil, desde Miami, todos subfaturados, prá enganar o fisco. Virou uma série de reportagens excitantes, que resultou na mudança do sistema de importação. Uma boa também foi um vôo de quatro horas sobre o deserto na divisa da Arábia Saudita com o Kuwait, durante a guerra do Golfo Pérsico. Foi uma carona num avião-tanque, aqueles postos de gasolina ambulantes, que ficam circulando numa determinada área, para reabastecer os caças em pleno vôo. Não há assentos. Há a cabine com piloto, co-piloto e navegador. Dali até a cauda do avião é apenas um tanque cheio de gasolina. Lá atrás, na ponta, fica o sujeito que encaixa a mangueira nos caças que encostam pro reabastecimento, com mísseis sob as asas, prontos prá ação. Ficamos ali, voando sobre a guerra, por assim dizer.

Dias depois, já com os iraquianos se rendendo, peguei uma carona num helicóptero americano que sobrevoou os estragos que os bombardeios provocaram no Sul do Iraque, aquela fumaceira, cadáveres espalhados no deserto, corpos carbonizados. Um cheiro acre, tão inesquecível quanto o ruido da hélice do helicóptero abafando intermitentemente o rock de Jimi Hendrix brotava a todo volume de um  boom box que um dos pilotos mantinha a bordo. A pior experiência? Não consigo me lembrar de alguma coisa que não tenha valido a pena.

Maklouf - Dê uma idéia do seu dia-a-dia citando os países que esteve no ano passado.

Meirelles - O dia começa cedo e termina tarde, sempre. Às vezes, não há fim de semana. Tampouco feriados. A leitura dos jornais é o primeiro passo. Na mão: "Washington Post", "New York Times", "Wall Street Journal", prá começar. Depois, uma olhada nos brasileiros, via Internet. Uma checada no "Financial Times", uma ou outra vez no "Los Angeles Times". Ficar com a CNN ligada o dia todo no escritório. Ir à briefings em instituições multilaterais como FMI, Banco Mundial, além de centros de estudos sócio-político-economicos que estão sempre promovendo seminários, divulgando informes. Ligar prá uma fonte ou outra. Mandar e-mail prá outras. Propor matérias prá redação. Há dias de três, quatro matérias: Internacional, Economia, Nacional, Esporte. Ciência, às vezes. Receber pautas.

O duro, nos EUA, é que o fato de que o Brasil, aparentemente, está sempre interessado em tudo o que acontece aqui. Além do fato de que estamos sempre brigando contra o relógio, por causa do fechamento. O Brasil está duas horas à frente. Mas de dezembro a fins de fevereiro é pior: com o horário de verão aí, a diferença aumenta para três horas. Quando ele acaba voltamos à duas. E, em fins de março, quando começa a primavera aqui, entramos no horário de verão americano. Isso alivia um pouco: o Brasil passa a ficar apenas uma hora à frente. Quanto à viagens prá fora dos EUA, ano passado estive na Colômbia, na Venezuela, na Rússia e na República Tcheca.

Maklouf - Quais foram as reportagens mais difíceis e perigosas?

Meirelles - Uma, trabalhosa, foi o perfil da família Dart, uns bilionários esquisitos americanos, que se tornaram credores de uma parcela razoável da dívida externa do Brasil. Na hora do governo renegociá-la com os grandes bancos eles surgiram, de repente. E colocaram areia, aproveitando-se da situação. Sem a assinatura deles, o acordo geral com mais de 600 credores não sairia. E ninguém sabia nada sobre os Dart.

Levei uns dois ou três meses prá montar o quebra-cabeça. Eles não davam entrevistas. Apesar de aparecerem na lista de bilionários da "Fortune" e da "Forbes", nunca tinham sido publicadas fotos deles, perfis. A fortuna da família surgiu basicamente da fabricação de copos e pratos de isopor. Os Dart criaram uma tecnologia específica, são donos das patentes. São os maiores fabricantes desses produtos nos EUA. E nunca ninguém tinha ouvido falar deles. Montar um perfil foi trabalho de formiguinha. Muita investigação, cruzamento de informações, viagens a New York e à Flórida. No fim, levantamos muita coisa, inclusive os podres da família. E conseguimos fotos de álbum de família, bem pessoais. Foi uma grande satisfação.

Você pergunta sobre reportagens perigosas. Sempre surgem, né? Cobrir golpes de estado na América Latina nunca foi um refresco. De vez em quando você se vê no meio do fogo, dos tiros cruzados. Na época das ditaduras militares latino-americanas havia ameaças veladas.

Maklouf - Entre as entrevistas com personalidades internacionais quais destacaria? Como foi, por exemplo, a do Norman Mailer?

Meirelles - Um bom papo. Mailer é o tipo de entrevistado que precisa apenas de um cutucão. Aí é só deixar rolar: o homem não pára de falar. E topa todas as provocações.

Entrevistar Woody Allen, anos atrás, foi muito interessante também. O agente dele, em New York, vivia me embromando. Dizia que ele estava ocupado filmando, editando, ensaiando, enfim, sempre tinha desculpas prá não realizar a entrevista. E eu nunca conseguia um contato direto. Até que um dia Woody Allen veio a Washington, com Steven Spielberg, para um depoimento no Congresso, onde uma comissão parlamentar discutia a colorização artificial de filmes. Havia uma briga grande, porque vários estúdios estavam colocando cor em filmes preto e branco. Fui lá cobrir e no final, quando chamaram os jornalistas para uma sala à parte, para um papo com os dois diretores, engrenei uma segunda e disse pro Woody Allen que estava há meses tentando obter uma entrevista, etc, etc. Prá minha surpresa, ele simplesmente perguntou se eu não me importava de acompanhá-lo até o hotel onde estava hospedado, prá conversarmos. Ele teria outro compromisso mais tarde, e o tempo que sobrava era a ida de carro até o hotel e mais uns 20 minutos lá. Ganhei a carona e a entrevista.

Houve também um papo ótimo com o Michael Jordan, logo depois do Chicago Bulls ter vencido o quarto ou quinto título, já não me lembro bem. O fato é que à certa altura, quando lhe perguntei o que mais ele ainda queria na vida, uma vez que era considerado uma estrela-maior do esporte, e ele respondeu que um dia ainda queria ser tão famoso  e querido no mundo todo quanto o Pelé.

Maklouf - Qual é a melhor coisa em ser correspondente? E a pior?

Meirelles - Uma das coisas boas é a de poder escrever sobre qualquer assunto, não ficar preso à uma área. Dá mais trabalho, é óbvio. Porque você tem de acompanhar vários assuntos ao mesmo tempo, em áreas totalmente distintas. Mas vale a pena. Impede a rotina. Evita o risco de você usar vocabulários cifrados prá escrever. A outra coisa boa é ter uma certa autonomia: gerar 90 por cento das pautas. Pior? Pior?!?! Ainda não conheço.

Maklouf - Como avalia a relação com a matriz, nos veículos em que passou?

Meirelles - Nesses 17 anos no exterior foram duas experiências (uma delas continua sendo): "Veja" e "Globo". Boas relações. No caso da revista, eu cheguei a Buenos Aires numa época excitante: Raúl Alfonsín no poder, colocando os militares nos bancos dos réus. Sempre havia muito o que produzir, especialmante para a seção Internacional. Marco Antônio Rezende era o editor e foi ótimo trabalhar com ele. Ele acabara de voltar da Europa, onde tinha sido correspondente por mais de dez anos. Sabia exatamente como era a vida de um repórter sózinho no exterior, os eventuais problemas com a edição de matérias. Discutíamos pautas, avaliávamos sugestões, e tive ainda uma oportunidade rara naquela revista onde a norma era a do pessoal produzir relatórios, informes, para alguém depois escrever o texto final: na grande maioria das vezes eu conseguia combinar o tamanho das matérias; mandar o texto fechado. No "Globo", a relação tem sido muito boa. Respeito mútuo, confiança mútua. Diálogo aberto.

Maklouf - Como avalia, no geral, o trabalho dos correspondentes brasileiros no exterior? Que episódios já viveu com colegas brasileiros?

Meirelles - Acho que poderíamos ser mais. O Brasil tem uma imprensa forte e suficientemente rica prá manter mais repórteres no exterior. Para ser país grande, influente, para entrar no clube dos desenvolvidos, é preciso ter boas informações do exterior, através do olhar brasileiro - e não apenas dos serviços estrangeiros, e aí incluo tanto as agências quanto os direitos de reprodução de matérias dos grandes jornais. Creio que os correspondentes continuam sendo mal utilizados, no geral. Jornais e revistas recebem noticiário de cinco, seis agências. Têm acesso à Internet. E ainda assim continuam pedindo aos correspondentes matérias do dia-a-dia que um bom redator, com tantas agências fornecendo informações, pode resolver bem na sede.

O repórter que está no exterior deveria ter mais tempo prá investir em histórias próprias, investigar mais, ler mais, acrescentar algo ao noticiário que chega pelas agências. No geral, os correspondentes continuam fazendo o mesmo trabalho. Um correspondente americano, inglês, francês, espanhol, no Brasil, na Europa, na Ásia, tem mais tempo de produzir reportagens que os brasileiros que estão no exterior. E isso não é uma questão de dinheiro: é de política, de mentalidade.

Maklouf - O que vai mal e o que vai bem na mídia brasileira como um todo?

Meirelles - Acho que a divisão do trabalho ainda anda mal. Há menos gente do que o necessário nas redações. O que, obviamente, gera um acúmulo de trabalho. Todo mundo se refere à "loucura do fechamento". O desespero do fechamento, por falta de mão de obra, no geral. Os textos acabam sendo mal cuidados; as pautas são mal discutidas, destrinchadas. Há profissionais muito bons. A média é bastante boa. Não perderia para os meios dos países ricos. Mas se dessem um pouco mais de tempo, de condições, os nossos produtos seriam bem melhores.

O diabo é que se aceita (aceitamos, né?) nivelar por baixo. Há também a subestimação do leitor. Ainda persiste o conceito de que ele é burro. Na era da Internet, das notícias em tempo real, do bombardeio de informações por todos os lados - rádio, TV, até pelo celular e pelo +pager+ - os jornais diários continuam escrevendo como há 10, 20 anos. Usam os mesmos clichês. Sem perceber que quem se dá ao trabalho de comprar jornal certamente já sabe algo sobre as notícias que vai ler, porque já as recebeu por outros meios. E está buscando algo mais nos jornais. Mas no geral encontra um mero registro repetitivo, telegráfico, que acrescenta muito pouco. Há uma grande preocupação em registrar, seja como for. O espírito, me parece, é o de evitar cobranças - no sentido de que o jornal deu tudo o que os concorrentes deram. Como deu? Ah, nem todo mundo se importa com isso. Não é à toa que anda difícil atrair novos leitores.

Em termos de estrutura profissional, creio que é hora de mudar também. Continuamos no esquema do repórter que quando já sabe escrever uma frase com sujeito, verbo e predicado vira editor. Essa é a maneira de promovê-lo, de lhe dar uma graninha a mais. Por isso há excelentes repórteres que terminam sendo editores medíocres ou apenas razoáveis. Porque, no fundo, nem tiveram tempo de aprender o ofício de repórter e viraram chefes, sem saber tampouco o que é ser editor.

Acho que é preciso ter a pessoa certa no lugar certo. É melhor prá todo mundo. O profissional estará à vontade, fazendo o que gosta de fazer. E certamente produzirá melhor. Mas há ainda o recurso de dar uma coluna prá alguém da redação, geralmente prá reforçar o salário. Aliás, tenho a impressão de que temos nos jornais brasileiros mais colunas por centímetro quadrado do que favelas nas grandes cidades. Seria melhor haver uma distribuição diferente de trabalho. Carreiras diferentes: de repórter, de editor, de correspondente. Cada uma com a sua graduação, os seus degraus específicos. No Brasil ainda é um sacrilégio um repórter ganhar mais do que um editor, por exemplo. Isso é inimaginável. Por isso, bons repórteres que não pensam em ser editores têm de aceitar o cargo, prá poder ganhar um pouco mais, e vão ser infelizes. Era preciso manter carreiras paralelas, com graduações próprias que permitam as promoções de acordo com o desenvolvimento do profissional, com os méritos. Esse sistema de funil frustra muitas carreiras.

Maklouf - Quem fez/faz a sua cabeça? No melhor sentido da expressão.

Meirelles - A lista é grande. Aprende-se muito e sempre. Se bem que, pelo que ouço, raramente alguém passa experiências, conhecimento, a outros dentro de uma redação hoje. São tantos os nomes. Bons tempos, por exemplo, quando Cláudio Abramo andava pela redação e dava dicas, contava histórias que continham ensinamentos práticos. Ou quando Mino Carta mandava reescrever uma matéria cinco, seis, nove vezes, até ficar no ponto. Em vez de meter a caneta no texto, ele fazia uma crítica, devolvia a matéria, dava dicas, e pedia prá escrever de novo. Ou então, quando um repórter empacava diante da máquina e o texto não saía, ele o entrevistava sobre o assunto que tinha de escrever, ouvia as informações, sentava-se à máquina, escrevia um ou dois parágrafos e dizia: "Agora você toca daqui prá frente". Você olhava o que ele tinha escrito e podia ver o esqueleto do texto, o processo da escrita. Não há escola melhor. Sem contar as cobranças específicas. Como, por exemplo, uma descrição do ambiente, da roupa do entrevistado, dos gestos, do clima, enfim. Era preciso compor o quadro, além de registrar a informação direta e seca.

Mas é preciso considerar também as leituras, né? Em termos jornalisticos, especificamente, há várias influências A maioria, curiosamente, composta de estrangeiros. Certamente pelo fato de que só mais recentemente começaram a ser publicados livros de reportagens escritas por brasileiros. Gay Talese, em especial com "Aos Olhos da Multidão", que numa época foi uma espécie de bíblia no "Jornal da Tarde", sempre serviu como bússola. Tom Wolfe. Ernest Hemingway. Gabriel García Márquez.  Ryszard Kápuscinski, um jornalista polonês praticamente desconhecido no Brasil, que foi correspondente na África e América Latina, tem livros ótimos (como o "Soccer War"). John Burns, veterano correspondente do "New York Times", cujas matérias geralmente são exemplares.

Maklouf - Existe um relacionamento com a mídia e com os jornalistas locais? Como ele se dá?

Meirelles - Existe, mas é basicamente eventual. Pelo menos no caso de Washington, onde o convívio acaba sendo maior com correspondentes de outros países. O escritório do "Globo" fica no National Press Building, onde há 12 andares de escritórios de publicações do mundo todo, e sucursais de jornais americanos. Funciona 24 horas por dia. Uma babel. Eventualmente se trocam idéias com os repórteres locais, em geral em meio à uma cobertura. Mas não existe uma convivência freqüente, não. O contato entre estrangeiros acaba sendo maior.

Maklouf - Como vê o tratamento da imprensa brasileira ao governo FHC? E o da imprensa americana?

Meirelles - Acho que a cobertura brasileira é boa, no geral. Há cobranças firmes, uma vigilância constante. De vez em quando surgem exageros, no geral bobagens motivadas por excesso de zelo ou por implicâncias, nem sempre bem fundamentadas. O problema que noto, às vezes, é a preocupação em denunciar algo sem contar com muitos dados a respeito. Aí a versão acaba tendo uma importância maior que os fatos. E esse é um jogo arriscado: geralmente acaba causando desprestígio, desconfiança. E dá prá perceber que quando isso acontece geralmente é mais por preguiça do que por outra coisa. Ou pela ânsia de publicar logo, antes de todo mundo. A imprensa americana vê FHC com boa vontade, no geral.

Maklouf - Quais foram as melhores reportagens que você já fez - e não vale dizer que serão as próximas?

Meirelles - A cobertura do julgamento (oito meses seguidos) das juntas militares argentinas foi uma delas. A revelação das manobras sigilosas para a construção do submarino nuclear brasileiro, foi outra. A história dos índios brasileiros que trabalhavam para os cartéis da cocaína da Colombia também vale ser mencionada. O perfil da família Dart. A morte (suicídio) do roqueiro Kurt Cobain (Nirvana). Algumas histórias da Guerra do Golfo. Um perfil da ditadura narcotraficante do García Meza, na Bolívia. Um perfil das crianças, filhos de desaparecidos, na Argentina.

Maklouf - Você escreveu, para a Editora Brasiliense, "A noite dos generais - Os bastidores do terror militar na Argentina". Qual é a história do livro?

Meirelles - Passei oito meses indo diariamente ao Tribunal de Justiça de Buenos Aires, cobrindo o julgamento das três juntas militares que fizeram desaparecer 30 mil pessoas. À certa altura, logo depois de um mês, ficou claro que ali havia material abundante, que certamente ficaria fora das páginas de jornais e revistas. As histórias se repetiam de maneira quase idêntica, porque os militares eram metódicos em sua repressão. As operações obedeciam a um certo padrão. Algumas, no entanto, eram exemplares. Eu decidi, então, me aprofundar mais nessas histórias.

Para isso, além de ouvir os depoimentos no tribunal, tanto de vítimas, quanto de acusados, eu obtive depois as transcrições de tudo o que se falou ali dentro, e procurei as pessoas envolvidas, para conhecer detalhes da história. Num tribunal, como se sabe, promotores e advogados de defesa se prendem a determinados fatos, muitas vezes deixando de
lado minúcias que dão um teor mais dramático, mais real, ao que aconteceu. Sem contar que ficavam de fora, no noticiário do dia-a-dia, por falta de espaço, muitos fatos que compunham o drama sofrido pelos argentinos durante a ditadura. Um livro seria o veículo ideal para isso. Seria possível escrever as reportagens numa forma mais literária, como contos reais.

Então, depois de ler minhas notas e as transcrições, entrevistei as vítimas, familiares e amigos de desaparecidos, fui aos locais de onde eles tinham sido tirados - na capital e no interior do país - conversei com vizinhos, e estive em vários locais que tinham utilizados como centros de tortura. Por fora, eram residências normais, oficinas mecânicas, depósitos de mercadorias. Foi um trabalho ao mesmo gratificante e sofrido. As entrevistas eram carregadas de muita emoção,
muita dor e creio que isso está claro no livro. De vez em quando encontro colegas mais jovens que me dizem terem lido o livro na faculdade de jornalismo, indicado por algum professor. Isso dá uma satisfação enorme."Mais surpreendente, ainda, foi saber - e depois confirmar pessoalmente - que ele também foi incluído na imensa coleção da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, aqui em Washington."
 
 

Maklouf - O que é que um repórter nunca deve fazer?

Meirelles - Enganar o leitor. Forçar a barra. Esquentar uma matéria. Mentir.

Maklouf - Acha correto esconder ou mudar identidade para obter informação? Já fez isso?

Meirelles - Há casos e casos. O desafio é utilizar esse recurso com parcimônia (assim como aquelas "câmeras escondidas", das quais as TVs têm abusado). Creio que depende muito do, digamos, freguês. É óbvio que isso se dá em casos de investigação.Que eu me lembre, fiz isso uma única vez, para conseguir entrevistar um sujeito que tinha sido seqüestrado no Brasil, pela polícia paraguaia, com a ajuda da nossa Polícia Federal. Era uma troca de favores de policiais da fronteira. Um velho inimigo do regime do general Stroessner, que estava vivendo em São Paulo há décadas, casado com uma brasileira, um dia foi apanhado numa rua em Foz do Iguaçu e levado à força pro Paraguai. O cara simplesmente sumiu. A família não sabia do seqüestro. Meses mais tarde, depois dele ter sido procurado por toda parte, a mulher recebeu um bilhete dele, escrito num papel de cigarro - enviado por correio, desde Assunción, por alguém que esteve na cadeia com esse sujeito. Ele contava que estava preso, sem nenhuma acusação, num quartel do Exército na capital paraguaia. Oficialmente ele não existia. Viajei com a mulher dele até lá. Com a ajuda da Igreja Católica ela conseguiu autorização para visitá-lo e lhe disse que eu queria conversar com ele.

Obviamente, repórteres, muito menos estrangeiros, não tinham acesso a uma prisão de presos políticos num quartel paraguaio. Mesmo porque aqueles presos oficialmente nem existiam. Mas a Igreja conseguiu que a mulher visitasse o marido. E ela então avisou aos oficiais que no dia seguinte um sobrinho brasileiro dele iria visitá-lo. E eu fui lá, usando o meu próprio nome, a minha própria carteira de identidade. Só não disse que era jornalista. Não levei gravador, caderno de notas, câmera, nada. Conversamos por mais de uma hora, sob os olhares de uns soldados que ficaram à distância. Eles não ouviam a nossa conversa. Num determinado momento, quando acendi mais um cigarro pro sujeito, ele me passou, num gesto rápido, vários papéis de maço de cigarro que ele tinha dobrado, cheios de anotações sobre a sua história ali dentro. Moral da história: a matéria foi publicada (na "IstoÉ"), houve um escândalo (afinal, a PF ajudara no seqüestro), houve denúncia no Congresso em Brasília (pelo então deputado, e grande repórter Audálio Dantas), e o sujeito acabou sendo liberado pelo Stroessner e voltou a viver no Brasil.

Maklouf - Qual é o limite ético nas relações com a fonte?

Meirelles - Há, basicamente, a ética em si. Respeito total. Trata-se de um jogo de confiança, de credibilidade, o que permite que tenhamos fontes em vários grupos que esteja em conflito, por exemplo,. Com isso adquirimos boas informações para escrever a respeito do caso, sem trair nenhuma das fontes. Um exemplo recente: o caso da Colômbia, onde tenho ido com certa freqüência, por causa da guerra civil não declarada naquele país. Tenho fontes entre os militares, entre os guerrilheiros, entre os narcotraficantes, na sociedade civil, e creio que estou prestes a obter uma ou duas, firmes, também entre os paramilitares. Todos, obviamente, sabem que tenho informações obtidas com os demais. A ética é simples. Não dou dicas de um prá outro. Não levo recados. Respeito a opinião de cada facção, por mais absurda que ela seja. Anoto. Transcrevo. Relato. Até aqui tenho obtido respeito. E, graças a isso, boas informações.

Maklouf - Jornalista pode receber jabá?

Meirelles - Não deve. As empresas devem estabelecer um limite com relação aos presentinhos. Não acho que haja algo demais em aceitar uma esferográfica do assessor de imprensa de uma empresa. Um boné da escuderia de um piloto. A gente, afinal, aceita amostra grátis dos médicos, não? Mas não se pode aceitar objetos de valor, ou favores - sejam eles financeiros ou não. Noto que é comum, e é encarado com naturalidade,  upgrade de passagens aéreas, por exemplo. Quero dizer: jornalista comprando passagem da classe econômica e, em seguida, ligando para alguém da empresa aérea, prá pedir que o coloquem na classe executiva ou na primeira. Isso não deve acontecer. Um dia podem cobrar esse favor.

Em termos de viagens patrocinadas por um anunciante, ou por uma empresa ou governo qualquer, creio que é correto mencionar num pé de matéria que o repórter que a escreveu viajou a tal lugar, para trabalhar naquela reportagem, com despesas pagas pela empresa ou governo que aparece mencionado ali naquele texto.

Maklouf - Qual foi/é a importância da leitura na sua formação profissional? Algum livro teve uma importância maior do que outros? Quais? Que livros consideraria obrigatórios para a formação específica de um jornalista?

Meirelles - A leitura é tudo. É a base de tudo. As palavras são o nosso instrumento e, portanto, devem estar bem afiadas. Uma preocupação extra para um correspondente no exterior é a de não perder o contato com o idioma. E a melhor maneira de evitar isso é a leitura. E não só dos jornais, obviamente. Jornalista precisa ler livros de jornalismo. Mas também deve ler os clássicos da literatura. Deve ler poesia. Ficção. Nossa matéria prima é a linguagem. Nosso negócio é a informação e ela tem de ser transmitida através do texto. Muitos livros foram e têm sido importantes na minha formação. Mas eu não saberia, ou melhor, preferiria não destacar um ou outro. Cada um tem o seu momento. O essencial é ler.

Maklouf - Que filmes sobre jornalismo/jornalistas entram na sua lista dos dez mais?

Meirelles - "Todos os Homens do Presidente". "A Primeira Página". "Cidadão Kane". "Welcome to Sarajevo". Há outros...

Moisés Rabinovici - Conte as "manias" que o mantém um belo correspondente. Me lembro, por exemplo, dos bloquinhos de notas que você usa: sempre aqueles "Reporter's Notebooks" que a gente comprava no National Press Building (em Washington). Você os guarda anotados inteirinhos com as coberturas? E a maquininha fotográfica, aquela automática, com zoom, que um dia flagrou e celebrizou a liberação de nossos dois companheiros presos na Guerra do Golfo (William Waack e Hélio Campos Mello): continua a mesma? O laptop sempre à mão, indo e vindo de metrô diariamente?

Meirelles - Ô Rabino velho de guerra, sempre observador. Vamos por partes, como diria o esquartejador de Boston. Os cadernos de notas continuam aqueles, que agora já compro direto da fábrica, em caixas de 100. Guardo alguns, sim, com anotações feitas para matérias especiais, principalmente de assuntos que a gente sabe que um dia voltará a tratar. E continuo usando aquelas canetas hidrográficas "Futura - PaperMate" - fabricadas no Brasil. De vez em quando um amigo manda algumas, ou alguém traz prá mim. As originais são feitas aqui nos EUA, mas prefiro as tupiniquins: elas são mais macias. E aquela câmera  à que você se refere (Olympus) foi trocada por uma nova Leica compacta, também com zoom, que, sim, está sempre no bolso, pronta pro que der e vier. Nas viagens levo também uma Leica M-3 e a velha Nikon FM. E o laptop continua viajando de metrô diariamente, sim, de casa pro escritório e vice-versa.

Rabinovici - Qual a reunião do FMI e Banco Mundial pelo mundo afora que você mais gostou? Você foi à todas, não?

Meirelles - À todas, não. Fui às que aconteceram nos últimos 14 anos. O FMI e o Banco Mundial têm pouco mais de 50 anos. A mais interessante? Difícil escolher. Elas são muito parecidas. A de Bangcoc foi legal. A de Hong Kong também. A mais recente, em Praga, rendeu bem - sem contar que a cidade é uma maravilha. Você bem sabe que nessas reuniões o blablabla é basicamente o mesmo: mas, por sorte, mudam alguns personagens. Aliás, Nicolas George, ex-editor-chefe da ABC News, repete sempre um conselho útil. Ele diz que tôdas as histórias são essencialmente as mesmas: só as pessoas são diferentes. E, portanto, se você se concentrar nas pessoas, a história será contada por si mesma.

Rabinovici - E se a pergunta fôr sobre os conflitos que cobrimos juntos e separados muitas vezes. Qual o marcou mais? Ou: quais?

Meirelles - A guerra do Golfo foi uma boa experiência, se bem que a invasão do Panamá, que o presidente George Bush determinou, para a captura do general Noriega - em que chegamos lá logo no segundo dia - teve até lances mais excitantes.

Rabinovici - A sua versatilidade sempre me impressionou: a gente no avião indo para uma cobertura e você detilhando no laptop uma notícia completamente fora das nossas cogitações. No trem para New York, para cobrir a renegociação da dívida, e você escrevendo uma entrevista com algum escritor para o domingo. Pô, como é que você consegue equilibrar tantas notícias, e tão variadas, num dia só? Como passar da Fórmula Indy, que você acompanhou muito, para uma reunião no Departamento de Estado? A gente estava no avião, indo para a invasão do Panamá, e aquele furo de esporte ia crescendo no seu computador. Como é isso?

Meirelles - Ganas, Rabino. Ganas. Gosto de notícias. De contar histórias. O ímpeto de apurar, o prazer de escrever. A observação dos detalhes, dos gestos. Tem bula de remédio que pode acabar resultando numa reportagem.

Rabinovici - Quando é que você vai voltar? Precisamos de gente como você para formar novas gerações de repórteres.

Meirelles - Um dia, quem sabe? Logo depois que saí do Brasil percebi que havia comprado um bilhete de ida. Percebi isso já nas primeiras férias em que estive aí. Quanto mais passa o tempo, mais claro isso fica. Você jamais volta para o país que deixou. Ele não é o mesmo. Você não é o mesmo. Portanto, uma volta seria quase como se fôsse uma transferência para um outro país, em que você de certa forma tem de começar tudo de novo, com a diferença que a sua base de conhecimentos brasileiros é sempre maior. Você bem sabe que nessa vida de correspondente temos sempre o olhar estrangeiro. E é assim que deve ser. Porque somos brasileiros. E escrevemos para brasileiros. Voltando ao Brasil não seria diferente: porque já não olhamos mais o país com os mesmos olhos de quem o via de dentro, anos atrás. Aprendemos a olhá-lo por fora. E esse distanciamento acaba sendo muito produtivo. Dá uma dimensão maior ao seu senso crítico, em especial por você conhecer o lado de dentro, a alma do país.

Mas, por enquanto, vou ficando por aqui. Ainda há muito o que contar, muito o que aprender, muito que viajar, quem sabe abrir fronteiras em outro continente. Comecei na profissão sonhando em ser correspondente no exterior, e quero continuar sendo-o, continuar escrevendo cartas para o Brasil contando as novidades. Afinal, no fundo, é isso que nós basicamente fazemos, não? E quero ir aí com alguma freqüência prá recarregar as baterias, para poder continuar buscando histórias, e torcendo para que os editores cada vez mais se interessem muito mais por aquelas que verdadeiramente valham a pena.


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