PROFISSÃO:REPÓRTER
E N T R E V I S T A:
XICO SÁ

REPÓRTER ESPECIAL DA FOLHA DE S. PAULO


 
 
P E R F I L
R Á P I D O
Xico Sá, 34, é repórter especial da Folha de S. Paulo, onde trabalha há seis anos. Antes, foi repórter de O Estado de S. Paulo, revista Veja e passou também pelo Tablóide Esportivo e Jornal do Commércio, do Recife. Ganhou alguns prêmios, entre eles um Esso e o Prêmio Folha. Meio cearense, meio pernambucano, Xico nasceu em Santana do Cariri, no Ceará, foi registrado como tendo nascido no Crato, também no Ceará, mas foi cedo para o Recife, onde se criou.
 


A ENTREVISTA


 



Luiz Maklouf Carvalho (repórter especial do Jornal da Tarde) - Você é um repórter que dá furos de reportagem. O furo vale tudo?

O furo é muito, é quase tudo, mas também são necessárias as chamadas matérias deliciosas. São aqueles textos que não trazem praticamente nenhuma grande novidade, mas contam histórias de deixar com água na boca. Normalmente são narrativas sobre personagens interessantes.

Luiz Maklouf Carvalho - Quantos furos você contabiliza na profissão - e quais foram eles resumidamente falando?

Não sei quantos foram,. Para não ser acusado de falso modesto, faço uma lista de dez que considero mais mais importantes. Não obrigatoriamente nessa ordem que listei, pois tenho algumas dúvidas:

1 - Homem-gabiru é nova espécie no Nordeste (Folha)

2 - PC Farias está em Londres (Folha)

3 - PC revela empresas que doaram dinheiro para Collor (estas duas matérias resumem uma série de quase um ano de entrevistas com PC)

4 - Domícilio eleitoral de Sarney no Amapá é um barraco (matéria publicada no Estadão, mostrava a palhocinha que o presidente Sarney havia dado como endereço para justificar a sua mudança repentina de título de eleitor)

5 - Conheça toda a fortuna de Zé Português (publicada no Estadão, matéria listava pela primeira vez todos os imóveis e outros bens do ex-tesoureiro das campanha de Orestes Quércia)

6 - Folha revela fraude com bônus eleitorais (candidatura de Flávio Rocha, do PL, em 94)

7 - Lama do Tietê custou R$ 500 milhões(Folha)

8 - Travesti é líder político no sertão do Piauí (Folha primeiro político travesti eleito no país)

9 - Empreiteiros armam fraudes em licitações de SP (Folha- em conjunto com Oscar Pilagallo, a série ganhou Premio Esso)

10 - Esquema legaliza prostituição infantil no Brasil (Folha, em conjunto com Ari Cipola)

Obs. Na minha passagem na Veja, entre 1989 e 90, citaria uma matéria que fiz com Eduardo Oinegue e Expedito Filho: o vôo da alegria de Sarney e grande elenco para Paris (consegui a lista completa dos passageiros) daquela farra parisiense.

Luiz Maklouf Carvalho - O furo faz alguma diferença - ou tanto faz?

O furo faz toda diferença desse mundo. E o pior é que vicia, você continua perseguindo esse diabo quase a vida inteira, não é, Maklouf? É um vício, uma droga pesada.

Ricardo Setti (diretor de redação de Playboy) - Xico, qual é o principal dilema ético que você tem enfrentado como repórter?

Em algumas oportunidades, em reportagens que trazem um tom de denúncia, fico em dúvida se nao estaria sendo meio udenista, moralista demais. Esse é um dilema permanente. Outro dilema -pode ser mais paranóia do que dilema- é o de poder estar fazendo lobby, para algum grupo ou pessoa, em algumas matérias. Ser vítima de plantações, como se diz no universo jornalísitico.

Ricardo Setti (diretor de redação de Playboy) - Você, como repórter, cultivou PC Farias e sua família como fonte e conhece mais que a média dos demais jornalistas o caso PC e seus meandros. Você ficou satisfeito com a versão oficial para a morte de PC? Se não, tem uma convicção de repórter sobre quem seria ou poderia ser responsável por sua morte?

Sempre digo, por gozação, que essa foi a pior situação que enfrentei como repórter: cheguei em Maceió e a minha principal fonte estava morta, silenciosíssima, além, muito além do off... Brincadeira à parte, ainda não estou satisfeito com a versão oficial e gostaria muito de publicar uma reportagem contando novos e reveladores detalhes e autores do assassinato na casa de praia de Guaxuma. Confesso que é uma das muitas obsessões que me acompanham em muitas horas. Persigo essa história. Fico devendo, caríssimo Setti, um palpite sobre os autores do crime, mas, por pura intuição, eu diria que acredito em uma intriga regional, coisa do poder alagoano.

Moisés Rabinovici (repórter especial de O Estado de S. Paulo) - Estive com o Xico Sá na cobertura de PC Farias - não a da morte, mas a caçada e prisão. Fomos até a Tailândia. Comprovei, lendo-o e vendo-o, o quanto estava próximo do que realmente importava. Então, a pergunta: qual o fim da história? Crime passional? Queima de arquivo?

Caro Rabinovici, embora acredite exageradamente no amor e o seu jogo de conflitos (Shakespeare explica!), não creio na versão de crime passional. Duvido um pouco (só um pouco) da queima de arquivo e, por pura intuição, chute de repórter, acredito numa intriga regional(poderoso financeiramente, PC dominaria o Estado e arredores nos próximos anos...), como respondi ao Setti. Claro que é puro chute. Caso contrário teria escrito no jornal.

Aydano André Mota (repórter de O Globo) - Xico, você acompanhou de perto a quadrilha do Collor. Qual é, na sua opinião, a verdade sobre o assassinato de PC Farias? O que você acha que de fato aconteceu?

Aydano, creio ter respondido nas duas indagações interiores. Só para reforçar, acredito até que Suzana Marcolino -a namorada- poderia ter apertado o gatilho, mas por encomenda. Só reafirmando, para não cometer uma irresponsabilidade: trata-se de um palpite, um mero chute. Pelo menos até que um dia, de muita sorte, eu me depare com um alagoano que me conte tudo o que realmente possa ter acontecido.

Fernando Rodrigues (repórter especial da Folha de S. Paulo) - Xico, qual foi a reportagem mais importante que você já fez até hoje e quais as dificuldades você teve na apuração?

Embora o caso PC tenha dado mais visibilidade aos meus serviços, acho que a reportagem mais importante foi a do Homem-gabiru, que mostrou o efeito da subnutrição radical do Nordeste em uma pessoa. Ficou como símbolo daqueles que não crescem por conta da fome. Cientificamente a denúncia é antiga: o médico pernambucano Josué de Castro (autor do clássico Geografia da Fome) havia feito várias pesquisas mostrando esse desastre. Como matéria de jornal, com aquela criatura de 1m30, não deixou de ter um grande impacto.

Essa reportagem, no entanto, não foi a mais trabalhosa. Suei mais numa série de matérias que fiz com o Oscar Pilagallo (atual editor de Economia da Folha) chamada “Anatomia de uma Licitação”. A série mostrou, creio que pela primeira vez com um flagrante de uma reunião de um cartel de empreiteiras, como as empresas ditam preços e definem, entre eles, vencedores de licitações. Outra que deu trabalho foi uma série sobre as mutretas com recursos do FGTS no governo Collor de Mello. Eu e a Elvira Lobato (atualmente na sucursal da Folha no Rio) sofremos bastante. Tivemos que checar, centavo a centavo, obras e recursos de centenas de municípios. Ufa!

Juca Kfoury (articulista de Folha de S. Paulo) - Xico, se você descobrisse 48 horas antes da final da Copa do Mundo entre Brasil e França que o juiz tava comprado pela CBF, você publicaria no dia seguinte no jornal e, assim, daria tempo para a França se defender, ou esperava Sua Senhoria cometer o crime para depois denunciá-lo?

Detonava na edição seguinte, sem a menor dúvida, caso estivesse realmente seguro da existência da armação. Não dá pra dormir com uma notícia dessa envergadura debaixo do travesseiro. Só por curiosidade, Juca: isso é uma pergunta ou uma profecia?

Luiz Maklouf Carvalho - Como é que é essa história do poeta Xico Sá? Dá pra contar e ilustrar com uma ou duas poesias?

Quando morava no Recife eu tirava uma onda de poeta. Melhor, fazedor de hai-kais. Era uma zona bem humorada. Cheguei a publicar um livreto, meio artesanal, chamado Paixão Roxa. Dois exemplos:

MAL-ESTAR DE FREUD

que coisa feia: complexo de édipo com a mãe alheia!

RECEITA DE HAI-KAI ZEN'BUDISTA

contemplo a lua enquanto cago na beira do lago

Luiz Maklouf Carvalho - Quais são as diferenças entre ser repórter no governo Collor e no governo Fernando Henrique?

Para fazer o nosso garimpo, ir atrás de notícia, não há nenhuma diferença. O governo FHC até tem a mesma composição política, em versão ampliada, e como quase todas as administrações parece também possuir grandes vícios. A série de reportagem de Fernando Rodrigues, o caso Senhor X e a reeleição, serviu para revelar que trabalha-se com os mesmos velhos métodos, embora o sotaque não seja mais o alagoano.

Luiz Costa Pinto (repórter especial de O Globo) - Como (com que artimanhas, usando que instrumentos de sedução profissional) você conquistou a confiança do empresário Paulo César Farias quando ele esteve preso em Brasília, como conservou isso durante sua permanência em Maceió e qual o objetivo deste trabalho? Ou seja, que expectativa de retorno de reportagem você tinha e como era possível manter isso e continuar a escrever textos independentes sobre aquele que era considerado o "inimigo público no. 1"?

Antes de responder, uma pequena bajulação, merecida, a Lula Costa Pinto. O homem é estrela e referência no lugar onde estudamos, a UFPE. Agora a resposta: foi uma conquista lenta, que começou com uma perseguição de uns 90 dias. Isso muito antes da prisão, no mesmo dia que saiu a sua entrevista-bomba com o Pedro Collor, na Veja. Persegui o carro do homem nas ruas do bairro de Cidade Jardim, aqui em São Paulo, dei plantões monstros na frente da casa de PC, fiz o cerco, meio na manha, com pelo menos oito secretárias dele, incluindo as que se notabilizariam no futuro, como Rosinete Melanias...

Tentava também mostrar aos seus advogados que PC estava no meio do tiroteio e precisava dar a sua versão, seja qual fosse, mas necessitava do tal Outro Lado...

Até que um dia, o Flávio de Almeida, o seu secretário particular, me marcou uma conversa em um flat na Vila Olímpia. Fizeram o maior mistério, marcando o encontro inicial com o Flávio em uma rua próxima...

Na frente do homem, que estava acompanhado do irmão Luiz Romero, começamos uma conversa mole danada (como se nada tivesse ocorrendo de grave no país...), até que PC começou a tomar um Ballantines -17 anos- e despencou a falar. Esse papo renderia mais tarde várias entrevistas exclusivas, incluindo a revelação de que estava em Londres, durante a sua fuga. Foi por aí. Puro suor, persistência.

Luiz Costa Pinto (repórter especial de O Globo) - A reportagem realizada pelos jornais, fora de Brasília (onde está o Poder e onde a rotina objetiva toma conta da agenda da maioria dos jornalistas), está burocratizada? Por que? Como mudar isso? O que seria ideal?

Às vezes, quando escrevemos de Brasília (trabalhei na sucursal da Veja nesta cidade), parece que estamos falando somente para o bando de políticos e os seus assessores. Ganhamos uns vícios, aprendemos o regimento do Congresso e repetimos os seus capítulos como a coisa mais importante desse mundo.

Acho muito difícil um formato novo para cobrir Brasília. Entendo que basta ser menos oficial possível e mais desrespeitoso com as autoridades para começar a sair coisa melhor. As outras sugestões parecem muito óbvias: tentar fazer sides de leitura deliciosa... traduzir as medidas burocráticas para a realidade do cidadão... essas cascatas que todo mundo fala, mas que o dia-a-dia, a agenda, acaba engolindo.

Gabriel Nogueira (O Dia) - Xico, você acredita na versão oficial, de que PC foi morto pela Suzana Marcolino?

Não creio na versão oficial, como falei na resposta ao Setti, mas infelizmente nenhum de nós temos uma versão melhor até agora para o crime da praia de Guaxuma. Um dia, espero que breve, conseguiremos.

Wagner Barreira (Editora Abril) - Como foi o seu processo de aproximação com a família Farias (e em especial, com Elma, a mulher do PC)?

Como respondi sobre a aproximação com PC em perguntas anteriores, vou ficar agora restrito a Elma, a sua mulher. Nesse caso tive uma boa ajuda de Joel, o mordomo da casa-grande dos Farias em Maceió. Ele fez os primeiros contatos e marcou a primeira conversa. Ela, mais do que PC, me passou, durante meses, a temperatura do Collorgate. Elma odiava o Collor e me passou boas dicas nesse universo. Por ela, o país teria incendiado.

Wagner Barreira (Editora Abril) - Você fez uma das matérias mais formidáveis que já li: o Homem Gabiru. Por que os jornais não investem mais em matérias que fujam das fontes oficiais e óbvias de informação?

Também considero essa uma das matérias mais importantes que fiz. Estava no Nordeste e fui informado sobre o assunto no Centro Josué de Castro, uma ONG que estuda exclusivamente a fome e as suas conseqências na região.

Acho que os jornais deveriam investir mesmo nesse tipo de assunto. Essa matéria teve grande repercussão internacional, sendo pauta depois de revistas científicas e dos jornais mais importantes.

O mais louco é que esse tipo de história não costuma sequer ser considerado furo no Brasil, onde convencionou-se a definir como grandes furos os casos mais políticos no sentido oficial.

Leão Serva - De todas as matérias que você fez nesses anos todos, qual foi a mais momentosa, a mais badalada, a de maior repercussão, enfim? E qual foi a mais importante? OBS: Se a mais momentosa não foi a mais importante, eu gostaria que você desenvolvesse um pouco essa questão do importante vs do interessante mas efêmero, que é uma questão que parece intrigar muitos jornalistas mas de forma tão pessoal que não chega a influir no dia a dia da imprensa.

Fico dividido sobre a mais importante entre duas: a do homem-gabiru e a do conluio de empreiteiros reunidos na Apeop, em São Paulo, para fraudar licitações -em parceria com Oscar Pillagalo. Na categoria espalhafato, repercussão, outras duas, de naturezas diferentes, empataram: a descoberta de PC em Londres e a do travesti do PFL eleito no sertão do Piauí. Leão, é muito verdadeira essa angústia de fazer uma matéria que a gente julga importante e ela não ter o eco desejado.

Leão Serva - Como foi que você chegou ao homem gabiru e também como chegou à expressão "homem gabiru". Qual foi o "making off" da matéria?

A expressão homem-gabiru é um derivativo de homem-caranguejo, do livro de Josué de Castro, especialista em literatura sobre a fome. A expressão foi usada pela primeira vez pelo Centro Josué de Castro, uma ONG do Recife, que fez uma exposição sobre o tema. A ONG foi a fonte inicial da matéria da Folha.

Cláudio Tognolli - Você, um dos mitos brasileiros do jornalismo, omite do povão leitor algumas das tuas características: é um conquistador indesviável, ama fazer hai kais e adora múusica. Então aqui vão as perguntas: o que você pensa das mulheres? continua fazendo frases de efeito e hai kais (como aquele, hoje popular em Recife, "na bunda não fecunda")? Porque resolveu fazer crítica musical? Acha que a música produzida em Recife é tão inovadora assim?

Claudíssimo, essa história de conquistador é pura lenda. Basta olhar para o meu rosto mal-diagramado de sertanejo que essa história vai por água abaixo. Claro que tenho as minhas obsessões e tento arrumar o meu desejo, quase sempre à deriva... o resto é intriga.

Sobre os hai-kais, deixei dois exemplos em uma questão anterior levantada pelo perigoso Maklouf. Por falar nisso, até voltei a juntar uns novos, mas somente por pura diversão particular.

Essa história do “na bunda”, Claudinho, foi feita originalmente como grafite de banheiro de um curta-metragem de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, que hoje dirigem o filme O Baile Perfumado, em cartaz na cidade. Depois disso, ganhou fama no Recife, há uns 16 anos atrás, e passou a ser grafitado e cantado em bares e similares. Pura literatura de banheiro, com todo respeito aos bons WCs da vida.

No mundo musical, caríssimo, também já cometi minhas aventuras, mas longe de ser o guitarrista que você é. Revelo, em primeira mão, que o próximo disco do Mundo Livre S\A, banda precussora do mangue beat recifense, tem uma música minha em parceria com Fred Zero Quatro, o vocalista do grupo. É uma parceria antiga, que eu até havia esquecido.

Sobre a música do Recife, acho que Chico Science e Nação Zumbi trouxeram não simplesmente novidade, mas tiraram a tal da música pop brasileira da leseira que se encontrava. E não misturaram nada, como costuma aparentar. O que eles fizeram não foi nada mais nada menos que hip hop e vez por outra um funkão envenenado.



1