PROFISSÃO:REPÓRTER

LULA VETA REPÓRTER

E RODA-VIVA ACATA

Luiz Maklouf Carvalho

(4/10/99)

O presidente de honra da PT, Luiz Inácio Lula da Silva, assumiu a responsabilidade pelo veto de seus assessores à participação deste jornalista como um de seus entrevistadores no programa Roda-Viva, da TV Cultura, na última segunda-feira (4/10).

"Eu estava em Paris, voltei sábado à noite e domingo de manhã fiquei sabendo do veto. E eu concordo com o veto. Porque o problema meu com o Maklouf é um problema pessoal, não é um problema político. E eu acho que a minha assessoria agiu corretamente", disse Lula ao responder um questionamento do jornalista Ricardo Noblat, diretor de redação do jornal Correio Brasiliense e um dos cinco entrevistadores.

A informação sobre o veto da assessoria do Lula apareceu no começo do programa, logo após a apresentação dos jornalistas presentes. "Gostaríamos também de registrar que o jornalista Luiz Maklouf Carvalho foi convidado pela produção do Roda-Viva para participar da bancada dos entrevistadores. A assessoria de Lula vetou a participação de Maklouf em nosso programa", disse o apresentador Heródoto Barbeiro, sem mais comentários. Em sua primeira intervenção, Noblat questionou:

"Você anunciou que um jornalista tinha sido convidado e tinha sido vetado pela assessoria do Lula. Como eu nunca vi isso no Roda-Viva, pelo menos publicamente, eu gostaria de entender porque houve o convite e o nome do jornalista foi vetado".

Lula deu a resposta acima transcrita, e Noblat retomou: "Eu não vou entrar na discussão do pessoal, mas eu não sabia que essa prática existia no Roda Viva". "E nem no PT", acrescentou Eliane Catanhede, diretora da sucursal da Folha de S. Paulo em Brasília. Noblat concluiu: "Eu pelo menos participo há muito tempo e nunca tinha tomado conhecimento de uma questão dessas".

"Sempre há uma primeira vez", disse Lula.

O próximo e último a tratar da questão foi José Paulo Kupfer, jornalista da TV Bandeirantes e colunista do Diário Popular e de mais 30 jornais. "O PT tem feito coisas esquisitas, além desse veto a um jornalista, mesmo que você tenha um caso pessoal..."

"Não tenho caso nenhum", respondeu Lula dando risada.

"Um problema pessoal", corrigiu Kupfer, arrematando com "Isso é muito esquisito". Os outros entrevistadores foram Carlos Alberto Sardenberg, da TV Cultura e da CBN; Roberto Muller, diretor de redação de "A Gazeta", de Vitória; e Luiz Felipe D'Ávila, diretor e colunista político das revistas "Bravo!" e "República". Os três, assim como Heródoto,   não se pronunciaram a respeito do veto. (LMC)

"Problema pessoal"

é conversa fiada

Luiz Maklouf Carvalho

Devo dizer, a título de esclarecimento, que nunca tive qualquer relacionamento de natureza pessoal com Luiz Inácio Lula da Silva. Todos os contatos que tive com ele ao longo dos últimos anos foram estritamente profissionais - o que me dá o direito de desqualificar sua "explicação" sobre "problemas pessoais". O que sempre fiz - e vou continuar fazendo - foram diversas reportagens sobre Lula e o PT. Fiz perfil, entrevistas exclusivas e coletivas, entrevistas pelo telefone. Juntando tudo, dá pra fazer um livrinho.

Três dessas reportagens ficaram mais conhecidas: o furo sobre sua filha Lurian (abril de 89, no Jornal do Brasil), a entrevista exclusiva com Paulo de Tarso Venceslau, denunciando tráfico de influência no chamado caso CPEM (Jornal da Tarde); e a matéria documentada que desmontou parte da versão contada pelo petista para explicar a compra de seu apartamento de cobertura em São Bernardo do Campo (Folha de S. Paulo), de resto ainda obscura.

Em todas elas, Lula foi procurado para dar sua versão. Não quis fazê-lo no caso CPEM e na matéria sobre a cobertura. Em todas elas e nas demais não sofri pessoalmentente um único processo. Nos que existiram, contra os veículos que as publicaram, Lula e o PT perderam. Também perderam as oito ações (oito, repito, porque deve ser um recorde!) que moveram contra o economista Paulo de Tarso Venceslau.

Desconfio que está aí o motivo real do veto vergonhoso. Talvez seja o medo das perguntas incômodas ao vivo e a cores, talvez seja a falta de respostas claras,  talvez seja a impossibilidade de dá-las, talvez seja o fato de não ter como explicar com a toda a transparência que deve seu crescimento patrimonial dos últimos anos.  Seja o que for, não é dignificante, não é democrático, não é limpo. É essencialmente covarde. Mas são problemas do Lula e do PT do Lula. Como diz o ditado, quem não deve, não teme. Ou, como dizia um jornalista norte-americano: "Não existem perguntas embaraçosas. Só respostas embaraçosas".

Devo dizer, também, que lamento a postura do Roda-Viva, onde tantas vezes compareci. Primeiro,  porque aceitou a censura prévia, de tristíssima memória. Segundo,  porque o fez passivamente - como se a assessoria de Lula mandasse no programa - sem sequer marcar uma posição de protesto.  (LMC)



O DESCONVITE INÉDITO

Luiz Maklouf Carvalho

Recebi  e aceitei o convite da produção do "Roda-viva" na terça-feita, 28/9, à tarde. Como sempre fazem, confirmaram o endereço para enviar o material de pesquisa sobre o entrevistado. Na sexta, 1/10, também à tarde, recebi um telefonema constrangido em que a produção me desconvidava. Marco Antônio Coelho, o jornalista que dirige o programa, confirmou o desconvite. "A assessoria do Lula vetou o teu nome", disse, manifestando surpresa e indignação. Logo após a conversa ligou novamente para a assessoria, tentando demovê-la. Não conseguiu. A resposta, taxativa, foi na base do "ou ele ou o Lula".

Na noite da segunda, dia do programa, Marco Antônio ligou, perguntando se eu queria me manifestar. Não quis. Achei, e ainda acho, que seria coonestar.

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