e n t r e v i s t a
VASCONCELO QUADROS
Repórter especial do JORNAL DO BRASIL
Perguntas de Altino Machado,
Claudio Julio Tognolli, José Roberto
de Alencar, Luiz Maklouf Carvalho,
Marcos Emílio Gomes, Valdir
Sanches, e Xico Sá
PERFIL RÁPIDO
Vasconcelo Walter de Moraes Quadros, 43 anos, gaúcho nascido em Tenente Portela, iniciou a carreira no semanário Tribuna da Produção (RS). Depois trabalhou em vários veíxulos em Campo Grande (MS) - Tribuna, Presença, TV Morena, Correio do Estado - e em Cuiabá - Jornal do Dia, revista Contato (MT), Correio (MT), Fim de Semana (MT) e Rádio Inconfidência. Ainda em Cuiabá, foi correspondente de O Globo e Jornal do Brasil. Em São Paulo, passou pela Agência Estado, Folha da Tarde e Diário Popular. Atualmente é repórter especial do Jornal do Brasil na sucursal de São Paulo.
A ENTREVISTA
Luiz Maklouf Carvalho - Quando, como, porque e aonde você escolheu a profissão?
O ano eu não recordo direito. Mas o culpado por eu ter me interessado pela profissão foi um professor de português, quando eu estava na sexta série primária. Ele passou um trabalho, pedindo que recortássemos matérias de jornal e simulássemos um noticiário de rádio. Do meu grupo, fui escolhido para apresentar o "jornal". Ganhei uma nota boa e me empolguei tanto que acabei conseguindo emprego num semanário da minha terra - Palmeira das Missões, no Rio Grande do Sul, tchê. O jornal ainda existe. Chama-se Tribuna da Produção e lá eu era praticamente "pau pra toda obra": fazia matéria, fotografava, diagramava, dava título, imprimia o jornal e até ajudava a distribuí-lo.
Com o tempo, o dono do jornal me deu umas cotas da sociedade - algo entre 5% e 10% do capital - e acabei virando um "empresário". Um dia briguei com o dono do jornal - Sérgio Prates Machado, que continua meu amigo -, me enchi o saco, pedi a ele um papel em branco, assinei e mandei que tirasse meu nome da sociedade. Me libertei de todos os outros vínculos na minha cidade e caí no mundo. Saí sem levar um tostão da minha antiga "empresa".
Mais que qualquer outra coisa, o que me fascinou - e, de certa forma, acabou sendo, inicialmente o motivo principal de eu ter abraçado a profissão - foi descobrir que o papel de repórter era uma espécie de passaporte para andar pelo país. Foi o que fiz durante uns dez anos Fui gostando da aventura e jornal acabou virando vício, paixão, endorfina pura. Com respeito ao "pobre" e "indefeso" leitor, em que outra atividade a gente é pago para falar mal até de gente poderosa? Ou, como diz Gabriel Garcia Marques:
"Ninguém que não tenha nascido para isso e que esteja disposto a viver só para isso poderia persistir numa profissão tão incompreensível e voraz, cuja obra termina depois da cada notícia, como se fora para sempre, mas que não concede un instante de paz enquanto não torna a começar com mais ardor do que nunca no minuto seguinte."
José Roberto de Alencar - Desde que te conheci, no começo da década, você trabalha em sucursal, longe do fechamento, de quem decide se sua matéria sai ou não, de quem copidesca, corta, aumenta, titula e legenda. Como é que, de longe, você consegue evitar barbaridades e assassinatos de matérias? (Não se acanhe de, se preciso, me incluir entre seus bárbaros assassinos).
Olha o carrasco fazendo a mea-culpa. Caro, acho que quem já passou por sucursal tem como meta assassinar o copi da matriz. O problema é que não há o que fazer, a não ser torcer que a barbaridade tenha ao menos bom senso jornalístico. É claro que a bola está sempre nos pés do pessoal da sede, mas algumas coisas irritam: quando seguram uma matéria exclusiva com o velho argumento de "se só a gente tem, dá para segurar" ou quando você vê sua matéria retalhada na mesma página em que um assunto de menor importância está lá no alto, com um puta destaque. Quando deixam de dar tua matéria ou a transformam num colunão para dar espaço a alguma coisa melhor, nada a reclamar. Faz parte do jogo e a gente tem de compreender. Depois de dez anos de sucursal, cada vez que aperto o enter de envia, a sensação é a de que sua matéria está navegando em direção a algum buraco negro. Ainda não me conformei com isso, mas como não adianta só chorar, fico sempre com a esperança de que na próxima o aproveitamento será melhor.
José Roberto de Alencar - Você não se cansa de trabalhar tantos anos no mesmo jornal?
Dez anos na sucursal do JB é mesmo um longo tempo. Às vezes me canso mesmo. Por outro lado, passei um tempo ainda maior zanzando pelo país, parando, no máximo, um ano em cada lugar e trocando de emprego com mais freqüência ainda. Já deixei muitos fundos de garantia para trás, sem voltar nem para receber o saldo do salário do mês. Nessa época, andava sozinho pelo mundo e era bem mais fácil jogar tudo para o alto no primeiro aborrecimento. Acho que mudar de emprego faz bem ao jornalista. Talvez eu tenha me acomodado um pouco. Por outro lado, cada vez que penso em trocar, olho nas alternativas e, confesso, não me animo muito. Além disso, gosto do JB.
Marcos Emílio Gomes - Desejo saber sua opinião sobre a omissão de muitos repórteres policiais quanto a torturas e maus tratos infringidos a presos em várias delegacias. Por que há tão poucas denúncias?
Caro Marcos Emílio, acho que o assunto é interessante, mas polêmico. O jornalismo policial tem alguns vícios - isso é verdade -, mas acho que nessa cadeia de omissões a que você se refere o repórter é o elo mais frágil. É mais grave o desinteresse dos editores por esse tipo de assunto. Parece que depois das denúncias de tortura e assassinato de presos políticos, acabou a brutalidade nas cadeias. A rigor, só se consegue espaço para esse assunto, quando a barbárie é no atacado - como nos casos do massacre do Carandiru, as mortes no DP do Parque São Lucas e tantos outros. Acho, no entanto, que o repórter que souber de qualquer caso de brutalidade, deve fazer a matéria sempre. Nada justifica a omissão, e quem compactua com isso deveria mudar de profissão. Agora, se olharmos direito e sem preconceito, é possível que o repórter de polícia se transforme num anjinho se comparado com a omissão em outras áreas. Veja o caso dos presos políticos desaparecidos. É claro que a conjuntura era outra - havia uma forte censura -, mas o que é que justifica o fato de até hoje quase duas centenas de brasileiros ainda figurarem numa lista de desaparecidos? Será que não houve omissão do pessoal que cobria política e que freqüentava palácios, câmaras de vereadores, assembléias e o Congresso? O país começou a se redemocratizar em 1982 e até agora, 17 anos depois, essas pessoas continuam desaparecidas. Está certo que não se podia divulgar antes. Mas ninguém teve condições de acompanhar para divulgar mais tarde? As grandes revelações desse período estão partindo de gente que "trabalhava" nos porões e, muito raramente, por algum repórter de política que tenha colhido informações para - no momento oportuno - fazer a denúncia. E a promiscuidade nas áreas de economia e política? O país está afundando e o que a gente vê no noticiário é um adesismo quase total ao Fernando Henrique. Acho que isso é, também, uma grave omissão.
Marcos Emílio Gomes - Um repórter policial pode ser convidado a funcionar como testemunha de sessões de reconhecimento de suspeitos, quando sua única participação no caso é o trabalho de cobertura para um determinado veículo?
Acho que repórter é repórter e polícia é polícia, coisas distintas. Investigar para o processo criminal é função da polícia. O jornalista só está numa delegacia de polícia ou local de um crime para fazer a cobertura. Fora sua reportagem, qualquer "colaboração" é coonestar com a ação da polícia e do Estado - que a gente sempre deve ouvir e olhar com fundadas reservas. Mesmo que seja intimado a participar, o repórter deve tentar não comparecer, entregando o caso ao departamento jurídico do veículo em que trabalha. É mais ou menos como o jornalista que vai cobrir um seqüestro ou uma tentativa de assalto frustrado e acaba se oferecendo para trocar de lugar com o refém. Quer coisa mais ridícula e burra? Não é a função dele. Acho que esse tipo de "heroísmo" só vai acabar no dia que um bandido ou um policial acabar acertando alguém.
Xico Sá - Vasco, como sou xeleléu (bajulador, no idioma do meu povo nordestino), deixo aqui a minha saudação a um dos maiores repórteres do país. Agora pergunto: por anos, você fuçou as ações e as próprias sujeiras da Polícia Federal como poucos. Vocô acha que essa instituição ainda merece a atenção jornalística que demos tempos atrás, ou é uma fonte morta de notícias?
Em primeiro lugar acho que é uma instituição contaminada pela corrupção, como os demais órgãos policiais e a própria sociedade - no fundo herdeiros das nossas matrizes coloniais. Mas se a gente olhar por esse aspecto, se generalizar, não chegamos a lugar nenhum. Acho que a Polícia Federal é uma fonte inesgotável de notícias pelas atribuições que a Constituição lhe confere: drogas, crimes financeiros, corrupção no governo federal, contrabando, crimes internacionais e até por suas próprias mazelas. São assuntos que vão estar sempre na pauta. O problema é que essa instituição continua funcionando como um apêndice do governo e não com a independência que poderia ter como policia judiciária da União. Ficou muito politizada e, há muito tempo, deixou de fazer polícia de verdade.
Xico Sá - Agora o nosso Brasil real. O que acha daquele plantãozinho obrigatório na porteira de Ibiúna, sítio do príncipe Fernando Henrique? (Quero desabafo, valendo inclusive palavrão!)
Eu e o Falcão, ex-Estadão, somos os recordistas de plantão das sucessivas visitas que o príncipe faz a Sampa e a Ibiúna. Certa época até fizemos uma divisão: ele era o "comandante em chefe" da turma que cobria Ibiúna, e eu da Rua Maranhão. São os plantões mais enfadonhos que já passei, mas lá em Ibiuna pelo menos tem aquele barzinho da estrada, onde uma vez você foi "alugado" pelos bêbados do pedaço. Por sugestão da gente - não lembro quem mais estava lá-, apresentamos você como "chegado" do homem. Lembro de um bêbado que não te largava do pé. Não fossem essas brincadeiras, esses plantões seriam muito monótonos.
O que eu acho absurdo é a freqüência com que FH faz essas viagens e a puta estrutura mobilizada para servi-lo. Direito de tirar férias, descansar, etc, acho que ele tem. Mas exagera. São Paulo, então, é como rotatividade de motel. O homem vem toda hora. Às vezes brinco que ele vai me fazer odiar teatro. Já fui obrigado a "assistir", com ele, cinco peças. O problema é que muito raramente o homem fala algo que dê leite.
Altino Machado - Ouço, desde criança, que o JB está no vermelho, prestes a fechar. Cresci, trabalhei no mesmo e enfrentei dificuldades por causa dessa realidade. Como é ser repórter de um jornal legendário e ter que conviver com tanto aperto na hora de cair em campo em busca de histórias?
Eu também ouço essas mesmas histórias há muito tempo, mas até hoje o JB não fechou. Acho que não dá para escapar da seguinte realidade: o JB vive uma situação particularmente crítica e o mercado inteiro sabe disso. É claro que essas dificuldades prejudicam nosso trabalho, mas temos que aprender a conviver com limitações e acreditar que as coisas melhorem. Eu, particularmente, acho que não é papel de um repórter assimilar problemas que dizem respeito a outras áreas da empresa. Nossa função é buscar a matéria -prima que permita tornar o produto melhor.
Altino Machado - O mercado comporta o surgimento de um jornal de jornalistas no país? Algo semelhante aos projetos que se desenvolveram sobretudo nos anos 70 e 80?
Acho que o momento é complicado. A questão se resume em ter ou não ter grana para bancar um projeto dessa natureza. Além disso, eu acho que a crise deixou um sub-produto muito nocivo: ao contrário do período a que você se refere, hoje há uma grande carência de criatividade e de coragem para encarar o desafio de colocar nas ruas um projeto desses.
Valdir Sanches - Você compraria um carro usado dos personagens de suas combativas matérias?
De jeito nenhum. Você já imaginou eu andando por aí num carro que pertenceu ao professor Leonardo Teodoro de Castro, aquele da bomba no avião da TAM?
Luiz Maklouf Carvalho - Quais os jornalistas que fizeram a sua cabeça, no melhor sentido da expressão?
Nenhum outro colega influiu tanto na minha opção pelo jornalismo como Oscar Ramos Gaspar, um dos poucos profissionais que, a meu ver, tem conteúdo e consistência. Sem paternalismo ou tom professoral nas lides de redação, Oscar me incentivou sem que percebesse. Até hoje, em nenhum momento conversamos pessoalmente sobre isso. Foi exigente como chefe, mas jamais elogiou uma matéria que não tivesse valor. É também um daqueles raros amigos e companheiros. Ex-correspondente do Estadão em Cuiabá, Oscar dirigiu várias publicações em Campo Grande e Cuiabá. Atualmente é editor do jornal Folha do Povo, em Campo Grande.
Claudio Tognolli - Considero você e o Fausto Macedo os dois caras que mais entendem de Polícia Federal no Brasil. Queria que você me desse tua opinião sincera sobre o senador Romeu Tuma e sobre o secretário nacional de Entorpecentes, o Walter Fanganiello Maierovitch - que, pessoalmente, em se tratando de combater o crime organizado, o considero, na melhor das hipóteses, um picareta, ou, com respeito ao cargo, um beletrista abúlico.
Obrigado pela suspeita deferência , mas quem entende mesmo de PF é o Fausto Macedo. A Antônio de Godoy, a Piauí e a Prestes Maia são territórios controlados pelo "Canalha".
Sobre o Tuma, acho que há dois enfoques. Se compará-lo com outros chefes de polícia famosos (Felinto Müller e Sérgio Fleury) ele não é dos mais truculentos. Pelo lado policial, propriamente dito, não conheço um inquérito ou uma investigação que ele tenha botado a mão na massa. O Tuma sempre foi o homem dos holofotes, que se aproveitou de algumas operações para se projetar. Enquanto a Polícia Federal como instituição afundava, ele emergia como senador. Acho que ele é produto de uma época em que o país saía de uma ditadura e, talvez por essa razão, os jornalistas não questionavam os personagens de suas histórias. Como em terra de cego quem tem um olho é rei, o Tuma virou o xerife que caçava boi no pasto, descobria a ossada do Mengele, prendia o mafioso Buschetta, e usava a mídia para cavar seu lugar no paraíso.
Quanto ao Maierovitch, acho ele um teórico, que lê muito sobre crimes transnacionais, entende como poucos de máfia italiana, mas que não tem vivência prática sobre o mundo do tráfico. Acho que não dura muito no cargo. Ele está inaugurando no país a fase das operações fictícias, que só existem no noticiário. É outro que também gosta de um holofote.
Luiz Maklouf Carvalho - Você é um jornalista que lê - e muito -, hábito que miseravelmente vai ficando raro na categoria. Como vê esse desinteresse pela leitura? E qual a relação de livros/autores que considera importantes na sua formação?
Acho, sinceramente, que leio pouco diante da necessidade de um jornalista, mas tento me virar como posso. Quando se conversa com o pessoal da nova geração, principalmente, o nível de desinformação é impressionante. Acho que as escolas de jornalismo não contribuem quase nada para melhorar o perfil do jornalista , onde o livro é fundamental. Mais que a escola, os livros são mais úteis a um jornalista. É só pegar os casos dos bons jornalistas brasileiros: grande parte deles era - ou é - autodidata. Acho que a leitura - das grandes bobagens às maiores reflexões - é fundamental para o exercício do jornalismo.
Para entender um pouco de Brasil, tanto através de livros de pesquisa sociológicas quanto romances, acho que alguns autores foram, para mim, fundamentais: Caio Prado Júnior ("Formação do Brasil Contemporâneo); Sérgio Buarque de Holanda ( "Caminhos e Fronteiras", e "Raízes do Brasil"); Gilberto Freire ("Casa Grande e Senzala"), Darcy Ribeiro ("O Povo Brasileiro"); Euclides da Cunha ("Os Sertões"); Guimarães Rosa ("Grande Sertões Veredas"); Érico Veríssimo ("O Tempo e o Vento"). Autores estrangeiros: Marcel Proust ("Em Busca do Tempo Perdido"), Gabriel Garcia Marquez ("Cem anos de solidão"), Eric Hobsbawm ("Era dos Extremos, o Breve Século XX 1914-1991"), entre outros.
Luiz Maklouf Carvalho - O que um repórter nunca deve fazer?
Deixar que a matéria seja publicada se ele tiver alguma suspeita sobre a informação ou as informações que está divulgando.
Luiz Maklouf Carvalho - O que um repórter deve sempre fazer?
Checar com o máximo rigor uma informação; fica o menor tempo possível dentro de uma redação; estar em contato freqüente com suas fontes ; e sempre levar em conta que determinada versão pode não sobreviver à luz da realidade.
Luiz Maklouf Carvalho - Como avalia o tratamento que a mídia vem dando ao governo FHC?
Acho que raramente, na história do país, houve um adesismo tão generalizado da mídia em relação a qualquer outro governante. O país está caindo aos pedaços e o único questionamento que se observa é a careta da Lilian Wite Fibe no Jornal da Globo. Fernando Henrique talvez seja o governante mais poupado da história do Brasil. O episódio mais triste a gente viu no caso do grampo no BNDES, no diálogo entre ele e o Mendonça de Barros, quando FH afirma que a imprensa estava até exagerando nas matérias que levantavam a privatização das teles. Acho que FH governa sem oposição e sem um jornalismo que o fiscalize com isenção. As grandes turbulências que esse governo tem enfrentado são provocadas por personagens que não sobreviveriam num ambiente sério: Itamar Franco e Antônio Carlos Magalhães. Os casos do grampo no BNDES e do dossiê Cayman, por exemplo, chegaram à imprensa por iniciativa de personagens do governo e não tiveram o tratamento jornalístico que mereciam.
Luiz Maklouf Carvalho - A quantas anda o chamado jornalismo investigativo na imprensa brasileira?
Acho que o grande momento do tal de jornalismo investigativo - eu sempre entendo que jornalismo e investigação são sinônimos - foi o processo que terminou no impeachment do Collor. De lá para cá, a imprensa desencavou alguns grandes assuntos, mas parece que perdeu o saudável hábito de ir atrás das mazelas do poder. Acho que não há estratégia de reportagem nesse sentido. No momento, as redações estão mais preocupadas com a subida ou descida do dólar do que em investir na investigação. Com o enxugamento das redações, muitos profissionais qualificados saíram dos grandes veículos. Há um marasmo quase total nessa área.
Luiz Maklouf Carvalho - Quais são os principais problemas que um repórter enfrenta no dia a dia da profissão?
Acho que há uma crise de comando em grande parte das redações. Não temos muita gente qualificada na retaguarda.
LMC - O que vai mal na imprensa brasileira? E o que vai bem?
Acho que falta diversidade. Do rádio à televisão, passando pelos jornais, se fizermos uma comparação, é uma mesmice só. Isso é ruim porque raramente encontramos uma matéria diferente. Quem nada de braçada nesse universo são as revistas semanais que, por terem tempo, têm trazido os melhores assuntos desde a época do caso PC-Collor.
LMC - Que matéria considera mais importantes entre aquelas que fez? E por que?
Acho que uma matéria interessante talvez tenha sido a que mostrou que o delegado Aparecido Laertes Calandra, que ocupava uma sala na superintendência da Polícia Federal - levado para lá pelo hoje senador Romeu Tuma -, era acusado por ativistas de esquerda de ter sido o torturador que, na época da ditadura, usava o codinome de Capitão Ubirajara. A luta armada foi travada por quem tinha consciência do que estava fazendo, mas acho que quem participou ou colaborou com a tortura não pode escapar impune - no mínimo tem de ser lembrado pelo que fez.
Luiz Maklouf Carvalho - Que importância tem o furo jornalístico para você?
O furo é como uma conquista. Raras coisas oxigenam e renovam profissionalmente um jornalista como um furo. Acho que deveria ser a meta de todo jornalista. Não há nada melhor que a gente acertar a mão numa determinada história e ajudar a melhorar uma estrutura.
Luiz Maklouf Carvalho - Repórteres podem/devem esconder a identidade quando estão em ação?
Acho que cada caso é um caso. Não temos o direito de invadir a privacidade de ninguém inventando outra identidade ou mentindo para contar uma fofoca. Se você puder participar de alguma reunião em que alguma grande falcatrua esteja sendo tramada, e para isso for necessário ocultar momentaneamente sua condição de jornalista, acho normal - desde que depois se apresente. Em 1980, por exemplo, eu cobria, em Campo Grande, um debate da Escola Superior de Guerra com o então governador do Mato Grosso do Sul, Marcelo Miranda. Naquela a época, os militares só permitiam que os jornalistas registrassem o começo da reunião e depois obrigavam todos a se retirar. Eu havia sentado mais ou menos no meio da platéia e, como não me notaram, lá permaneci, como se fosse um convidado. No debate, o governador criticou os militares e, pela primeira vez, reclamou por eleições diretas, ele que era biônico, indicado pelo general Figueiredo. Esse tipo de debate, naquela época, era sempre travado em segredo. Naquele dia ganhei a manchete do jornal em que trabalhava. Acho que numa circunstância assim também é legítimo ficar na moita.
Luiz Maklouf Carvalho - Como vê a questão do off the record e do relacionamento com as fontes?
Acho que o off é a matéria-prima da reportagem. Mas qualquer jornalista responsável deve tomar muito cuidado com as informações passadas em off e não se deixar levar pela tentação de divulgar uma história só porque ela é bombástica. É preciso cuidado redobrado com o off, mesmo que as informações partam de fontes com quem nunca se teve problema de veracidade.
Uma fonte séria deve ser preservada e só aberta em casos extremos. Exemplos: se estiver participando de uma trama que represente risco de vida a alguém, ou uma conspiração para um golpe de estado, ou coisa do gênero. Uma fonte séria é a certeza de boas matérias a vida toda. A relação com ela, na minha opinião, deve ser aquela que a ética jornalística permite.