PROFISSÃO:REPÓRTER

 e n t r e v i s t a

VALDIR SANCHES

REPÓRTER ESPECIAL DO JORNAL DA TARDE



 

Cada jornalista tem sempre um mestre maior - aquele a quem ouve e respeita acima de todos os outros, a quem recorre nos piores momentos, a quem abraça nos melhores, a quem confia segredos profissionais normalmente não compartilhados numa profissão de concorrência altamente (e tristemente) predatória. O meu é o jornalista Valdir Sanches, repórter especial do Jornal da Tarde. 

Saiba o leitor, já, que sou suspeitíssimo para falar do tal. Basta dizer que há oito anos e uns trocados sentamos na mesma mesa de trabalho. Oito anos não são oito dias - estou usando um clichê que ele, artífice do texto, jamais (o)usaria -, de forma que não é difícil imaginar o quanto aprendi a respeito do ofício, e mais importante do que isso, sobre a administração do ofício, esta sim uma arte maior. 

Valdir é fera nas duas coisas - com a grande, enorme vantagem de raramente usar as garras. Há nele o toque sutil da luva de pelica: no relacionamento pessoal com os colegas (estão aí todos, que não me deixam mentir), no trabalho hard da reportagem de campo (todos os campos), no faro com que destrincha a melhor informação, na sacada de um texto maravilhosamente singular. Tive (e tenho) essa sorte na vida profissional - a de conviver tanto tempo com uma figura que é a melhor combinação que conheço entre as equações ser repórter e ser um grande sujeito, no que isso tenha de realmente melhor. Valdir é avesso a entrevistas - é a primeira do gênero que concede - mas capitulou à minha insistência. Convidei outros jornalistas a fazerem perguntas - e aí está o resultado.

Luiz Maklouf Carvalho
PERFIL RÁPIDO
Valdir Sanches teve sua ansiada chance de ingressar no jornalismo em 1963, como repórter policial estagiário da Folha de S. Paulo. Agarrou-a e foi assim que pisou pela primeira vez em uma dependência policial. Com poucos meses, transferiu-se para o Notícias Populares, então lançado. Dois anos depois (1965) voltou para a Folha, agora como repórter. Fez sua primeira viagem profissional para fora do Estado, cobrindo o confinamento do ex-presidente Jânio Quadros, em Corumbá, Mato Grosso (hoje Mato Grosso do Sul). Foi no Jornal da Tarde, onde chegou em 1968, que Valdir encontrou campo para as chamadas “reportagens de texto”, em que o repórter usa seu estilo pessoal. Como seus colegas de redação, viajou pelo País em busca da “matéria prima” para tais reportagens. Em 1984, deixou o JT para integrar a equipe fundadora da Revista Afinal. Três anos depois (1987) mudou-se para a sucursal de São Paulo do Jornal do Brasil, mas ficou apenas seis meses. O JT chamou-o de volta - e ele continua lá, até hoje.
 
 

A ENTREVISTA





Ricardo Setti (diretor de redação de Playboy) - Quais foram os jornalistas que mais influenciaram sua carreira, e por que motivo em cada caso?

SANCHES - O primeiro foi o americano Fraser Bond, autor de Introdução ao Jornalismo, livro que comprei quando era um colegial que queria ser jornalista (num tempo em que não havia faculdades). Impressionei-me com “os deveres do jornalismo”, enunciados logo na página três. A imprensa deve ser independente (seguia-se a defesa da premissa). A imprensa deve ser ... seguiam-se imparcial, exata, honesta, responsável, decente. Prosseguindo a leitura, aprendi também “os principais tipos de lead”. Veja o de apelo direto:

”Se você acha que é aborrecido ver a sua filha caçula tocar piano, tenha então pena do Alfredo Smith. Pois nos últimos trinta anos ele teve que ouvir 20.500 audições infantis. E no entanto ele gosta do que faz”.

Na qualidade de aspirante a foca, e depois, em pleno exercício do status conquistado - foca - , aprendi o que é um lead na prática com três jornalistas da Folha (a antiga, do Nabantino Ramos): Antonio Ágio Júnior, Carlos Torres e Ebrahim Ramadan. Mais tarde, no Notícias Populares (na época um jornal bem escrito), tive bons exemplos de profissionalismo com um grande editor, Romão Gomes Portão, já falecido. Daí para frente, houve tanta gente que me influenciou e ensinou, que fica difícil citar nomes - embora, assinando a pergunta aí em cima, esteja um que consta no meu caderninho de gratidão.

No Jornal da Tarde recém-lançado, tínhamos um guru: Gay Talese. Sim, o new journalism, a não-ficção. Eu não queria ler Talese , para não dizerem que estava me “inspirando nele”, nas minhas matérias - de não-ficção, claro, no melhor estilo JT. (“Frank Sinatra está resfriado” - assim começa uma série de primorosos textos em Aos Olhos da Multidão, se não me engano, porque emprestei o livro ao Maklouf, ele disse que era presente e não devolveu). Bem, acabei não resistindo à leitura do livro, que aliás tomei emprestado do Anélio Barreto e também não devolvi. Gay Talese era mesmo muito bom... mas eu gostava mais de Marcos Faermann.

Luiz Henrique Amaral (repórter da editoria Brasil da Folha de S. Paulo) - Jornalismo pode virar aventura. Você já passou por momentos de perigo, exercendo a profissão? Qual foi o mais marcante?

SANCHES - Uma pergunta como esta já é um perigo. Estimula a gente a contar aqueles “casos” que narramos em mesa de bar, ou com que aborrecemos o fotógrafo, em viagens longas. Histórias que, por timidez ou falta de oportunidade, jamais colocamos no papel (da impressora). Já que a oferta está feita, aproveito para registrar já não uma, mas duas (a pergunta é perigosa ...) situações.

(Intercoleguinhas: não vale chamar o texto acima de nariz de cera)

“Nosso repórter no meio das bombas” - foi a manchete do Jornal da Tarde de certo dia de julho 1979, sobre a guerra da Nicarágua. Como se o fato mais importante da véspera tivesse sido o que acontecera ao nosso enviado especial... O enviado já tinha viajado pela Nicarágua, a partir de Manágua, de onde Anastácio Somoza bombardeava as cidades do interior. Chinandega, Diriamba... os aviões despejavam bomba. Os sandinistas conquistavam o país, com apoio das populações; portanto, para Somoza, proprietário da Nicarágua, o povo era o inimigo.

Mas o enviado especial foi mandado tardiamente. Somoza censurara a guerra. Os jornalistas só entravam nas cidades, depois que La Guardia do ditador controlasse a situação e amenizasse o cenário. Seguiu-se um período calmo e o “nosso homem na Nicarágua” tomou o avião de volta.

Alguns meses depois, o enviado foi reenviado. Mas a situação agora estava muito quente e o jornal vetou Manágua. De modo que o nosso escriba pousou em São José da Costa Rica, alugou um carro branco (o que foi um erro, como verão) e se mandou para a cidade mais extrema ao Norte, na fronteira sul da Nicarágua.

Bem, tratava-se de atravessar a ponte sobre o rio que separa os dois países, para entrar na guerra. A ponte era guardada, do lado costarriquenho, por homens da Guarda Nacional, já que, como sabem, o país não tem exército. Os guardas tinham por missão ou capricho não deixar ninguém passar. Então o brasileiro, com a velha malandragem, desenvolveu o seguinte aplique. Fechava os vidros do carro, diminuía a velocidade ao chegar na ponte, mas não parava. Gesticulava e falava, agitadamente, alguma coisa que os guardas não ouviam (vidros fechados), como se fosse uma terrível emergência, e ia passando - e passava. Assim encontrou e entrevistou no lado nicaraguense o lengendário Comandante Zero que, depois, os sandinistas acharam que estava mais para lendário, por seus posicionamentos moderados.

Certo dia, o enviado deu carona a uma coleguinha fotógrafa da AP e a um repórter e um cinegrafista da ainda viva TV Tupi. Mas desta vez os guardas devem ter pensado ay viene el hijo de una gran con el coche blanco e fecharam a ponte, com suas carabinas em posição de pare. E o nosso enviado forçou demais a barra, investiu com o carro e abriu caminho de maneira nada educada (afinal, a guerra estava na Nicarágua, não na Costa Rica) e mais uma vez passou. Na volta, entrou em cana.

Os guardas estavam muito zangados. Fizeram a gente parar (não houve chance para apliques) e nos passaram tremenda descompostura. Por fim, mandaram que seguíssemos, com o emblemático carro branco, o jipe deles. Tudo bem, fomos. Uns dois, três quillômetros depois, chegamos ao posto da Guarda Nacional. O jipe estacionou. Estacionei a uns cinco metros dele. E a bomba explodiu.

A aviação sandinista costumava “errar” alvos na Nicarágua e “sem querer” despejar quantidades de bombas sobre a Costa Rica. Não era nenhum segredo que a Costa Rica apoiava as ações contra Somoza. A nossa cota desse “sem querer” foram duas, acho que três bombas. A mais assustadora foi a primeira, que explodiu a coisa de um quilômetro da gente.

É uma situação absurda. Você ouve aquela tremenda explosão e demora alguns segundos para saber o que está acontecendo e reagir. Mesmo assim, antes de me raspar, ainda tive a preocupação de pegar o microfone da televisão, largado no banco de trás do carro (deve ser esse instinto de salvar alguma coisa, a carteira com documentos...). Logo surgiram pela estrada camponeses apavorados, chorando e correndo. Os guardas praguejavam: “El coche blanco, el coche blanco”. Queriam que se tirasse dali aquele referencial perfeito de alvo, um carro branco sobre o asfalto negro.

Voltei ao carro e só então percebi o tamanho do meu susto. Nenhum motorista sai do carro sem desligar o motor. Eu saí.

O segundo episódio inclui aquele velho parceiro compulsório de aventura, o avião de garimpo. Neste caso, nosso repórter amanheceu no garimpo de Paranaíta, no Mato Grosso. Ao café (de caneca), um maluco varreu a pista com um monomotor, num rasante que fez muita gente se abaixar. (À noite, a pista tinha outro papel: saiam os aviões, entravam mesas de jogo e trotoir) O repórter já tinha ouvido, na região, o nome de um piloto muito doido: Botinha. Era ele mesmo, no rasante. E com quem o experiente profissional volta, do garimpo para a cidade vizinha, uma recém-nascida Alta Floresta?

Botinha instalou o incauto entre ele e o bravo Coronha, seu auxiliar. Este Coronha, menor de idade, ajudava a atirar pacotes de alimento lá para baixo, na abertura de novos garimpos. Por que três no banco da frente? Para balancear o avião, cara pálida. Pois bem, o Piper levantou vôo, subiu e subiu e subitamente mergulhou lá de cima como uma gaivota atacando o peixe, nivelou não sei como sobre a pista e deu um tremendo rasante. Meu fígado e meu coração ficaram grudados no teto. Requinte: o rasante foi no sentido inverso da pista, o que fez o avião, ao arremeter, tirar uma fina da mata amazônica - não rebaixada naquele lado. 

O melhor viria durante o vôo. Botinha começou a levantar do seu assento. Onde será que esse cara vai?, pensei. Numa complicada manobra, ele troca de lugar com Coronha, que agora viajava no banco de trás. E o bravo Coronha, menor de idade, sem brevê, assume os comandos!

Há poucos anos, quando o exército venezuelano matou garimpeiros brasileiros, reencontrei Botinha lá em cima, na fronteira Brasil-Venezuela. E o Coronha?, pergunto. Morreu num acidente de avião, responde o piloto, com naturalidade.

Aydano André Motta (editoria Rio de O Globo) - Por que a imprensa paulista cobre tão pouco e mal os fatos da cidade de São Paulo? Assuntos como violência urbana têm pouco espaço, especialmente na Folha e no Estadão. É uma questão de cultura? 

SANCHES - Porque, a meu ver, os jornais cobrem a cidade como cobrem o Congresso, o Palácio do Planalto ou a Fiesp. Só interessa o factual. Toda força no assunto quente, que dê uma boa manchete de página. A cidade é o lugar onde as pessoas moram, trabalham, por onde caminham, mas o pequeno fato do cotidiano, ou os fenômenos da megalópole - violência urbana, por exemplo - perdem para os assuntos “obrigatórios”, geralmente áridos e de feição oficial. Como nos escândalos do Congresso, brota o assunto: PAS. Superlotação carcerária. Rodízio de carros. Enchentes. E lá vem a suíte, da suíte, da suíte... Tudo bem, são temas de interesse, que não podem ficar sem cobertura.

Mas, e a cidade? Os personagens, lugares, ruas e becos, histórias, dramas, alegrias? Já são barrados no vestibular da pauta. Que pauteiro vai investir num assunto que não vai emplacar? A violência urbana, no entanto, não tem sido tão esquecida. Basta a notícia quente. Os crimes do Bar Bodega. Aí teremos, na suite da suíte da suíte, a incansável discussão acadêmicoburocrática do tema... 

Leão Serva (jornalista) - Como um jornalista experiente se sente diante dos mais jovens que entram na carreira, na Redação, hoje: são chatos, são pretensiosos, são despreparados, têm muita garra, são criativos? 

SANCHES - Acho os focas de hoje, com quem convivo assiduamente no JT, ótimos focas. Muito mais preparados do que eu fui, no meu tempo (como você viu na resposta acima, cheguei nu e cru). A faculdade não faz o jornalista, mas um foca com faculdade de jornalismo, como os de hoje, é outra coisa. No JT, a garotada corre bem, pega, traz e escreve. Revelam-se bons talentos. Quanto aos jovens não-focas, cruzamos às vezes com figurinhas carimbadas, pretensiosas, que afetam certa soberba. Felizmente, casos raros. O bom, na profissão, é que temos a prova documental de quem é e quem parece: no caso do jornal, as pretinhas, em centímetros de coluna.

Leão Serva (jornalista) - Há um aspecto que sempre se comenta de que os textos de imprensa estão ficando menos sofisticados e você mostra sempre uma angústia com isso. Ao mesmo tempo, dizemos que os leitores têm menos tempo para a leitura, etc.. Como você está se virando para dar a mensagem, ter matérias destacadas, etc., sem ficar dando murro em ponta de faca (por murro, entenda-se, se frustrando à toa com restrições de tamanho, texto, etc.)? 

SANCHES - Eu me recuso a aceitar que um fato dramático, cômico, intenso, surpreendente, seja enfiado na camisa de força do “lead perfeito” ou da mera descrição relatorial (sinônimo de eficiência, hoje). Se há um menino de dez anos entre os assaltantes de banco, existe uma realidade dramática, chocante, que não pode ser desprezada pela crueza do texto. O repórter pode muito bem passar isso, sem qualificativos ou carregar de tintas. O pobre Crispim, migrante, sem-teto, levou um tiro na nuca, dado por um PM, no recente episódio da Fazenda da Juta. Provavelmente jamais mereceria uma linha num jornal, mas, morto, ganhou fotos abertas nas primeiras páginas. No dia seguinte, correu-se para a suíte. “O sem-teto Crispim José da Silva, 28 anos...” Não dá, não é? Vou me permitir reproduzir a minha abertura, apenas para mostrar o que estou defendendo: “Do interior da Bahia para as primeiras páginas dos jornais de São Paulo. Não, Crispim José da Silva não é um sucesso. É um cadáver (...)”. Se considerarem que está excessivo, ou desnecessáriamente chocante, posso concordar. Mas a medida está dada.

Na política e na economia, fica difícil. O contexto é outro. Nada impede que uma matéria sobre o mau humor de Covas ganhe com o bom humor do repórter. Mas a regra é o lead convencional. Quanto ao tamanho do texto, admito que, hoje, não há como (senão excepcionalmente) impingir páginas de letrinhas ao leitor. Mas pode-se fazer muito bem um texto curto, grosso - e ao champignon na manteiga.

Cláudio Tognolli (repórter especial do Jornal da Tarde) - Mestre, você ficou famoso por ter sido um dos primeiros a adotar no Brasil texto do new journalism. Mas agora, com o jornalismo de serviços, o texto, genericamente falando, murchou. Ficou seco. Foram adotadas campanhas, nas redações, que nos remetem a um novo realismo socialista, ou seja, o chamado “texto didático” - até mesmo nas críticas de artes e espetáculos. O estilo está esvaziado, o conteúdo venceu a forma. A seu ver, qual a saída? Devemos adotar uma desburocratização do texto impresso? Ou está bom como está? 

SANCHES - Que coisa: até ler essa pergunta, não sabia que tinha ficado famoso! O texto didático imposto linearmente já está dando, a meu ver, sinais de fadiga. Tenho lido coisas criativas, bem sacadas, na própria Folha de S. Paulo. Digo, em matérias que usualmente seriam vazadas no conhecido padrão da casa. Acho que há um componente, no noticiário, que jamais morrerá: oferecer ao leitor, junto com a informação, o prazer da leitura. Estou diferenciando o prazer da informação do prazer da leitura. O fato que será notícia pode ter todos os ingredientes da melhor ficção: drama, ação, supense. Acho um despropósito jogá-los fora, em nome da síntese e de uma objetividade burocrática.

Ronald Junqueiro (editor de O Liberal) - Os grandes jornais do Sul/Sudeste conseguem fazer um bom retrato do Brasil quando a cobertura do fato jornalístico foge desse contexto regional, ou há uma visão colonialista no noticiário em relação a outras regiões brasileiras? Você pode ilustrar com algum caso? 

SANCHES - Acho que os jornais aqui mais para o Sul fazem um bom trabalho, equilibrado, com relação ao País. Amazonino e Orleir (para não falar em Jader) não são tratados com mais severidade ou descaso do que foram Qúercia e Fleury, ou está sendo Paulo Afonso Vieira. O massacre de Eldorado de Carajás recebeu a mesma carga crítica que os 111 mortos da Casa de Detenção. O noticiário às vezes mostra uma realidade mais bruta que o cenário do Sul/Sudeste, como no caso da prostituição infantil. Mas, a meu ver, apenas retrata as diferenças regionais. Na morte de PC Farias, os alagoanos achavam que a imprensa (não gosto da palavra mídia; é coisa de publicitário) estava implodindo propositalmente a imagem do Estado. É lógico que, com todas as atenções voltadas para Maceió (só nós do Grupo Estado estávamos em onze repórteres e fotógrafos), sobre um fato por si só de repercurssão negativa (sem contar o empurrãozinho dado pelo doutor Sanguinetti), a imagem de Alagoas ficou mesmo prejudicada. Acabou sendo associada à violência, com o que também contribuiu a primeira-dama que carregava um trabuco na bolsa, seu filho que matou um empregado pelas costas, etc. Agora, é a falência do Estado. Admito que, visto do Nordeste, o noticiário pode parecer impregnado de certo ranço colonialista. Mas Fleury, aqui, por menos, também levou muita bucha de canhão.

Alceu Nader (jornalista) - Durante esses anos todos em que você vem sendo repórter, e um dos melhores, deu para desenvolver algum método investigativo? Se sim, como ele é? 

SANCHES - Agradeço a gentileza desse “um dos melhores”. É realmente muita generosidade. Se eu tivesse um bom método investigativo não ia revelá-lo aqui; ia guardá-lo para mim e continuar furando todo mundo... (se isto não é verdadeiro, pelo menos é uma bela bravata, não?). Mas digo-lhe humildemente: não tenho tal método. Uso o que a profissão (e a vida) me ensinaram. Na profissão, somos um pouco como o garimpeiro: o ouro existe, mas não está à vista. Toca cavar.

Luiz Maklouf Carvalho (repórter especial do Jornal da Tarde) - Como um repórter de texto convive com os copies nem tanto?

SANCHES - Dramaticamente. Acho que a nossa é a única profissão em que um principiante revisa o trabalho de um veterano, com a prerrogativa - que ele sempre exerce - de modificá-lo. Todos conhecem o focopy. O focopy é uma calamidade, mas não é só isso. Temos também o mão-grossa. Este é especializado no feijão e arroz do dia-a-dia, sem sal e sem tempero. Diante de um prato um pouco mais sofisticado, reage. Esse sabor inusitado não lhe cai bem. Portanto, no que lhe for possível, reduzirá tudo ao feijão com arroz. O feijão com arroz é a sua glória - e sua medida. Você evita o lugar comum... por exemplo, certa vez tive todo cuidado em não reduzir certa situação a vulgarização do manjado “o jeito é...”. “ Se não pode ser assim e assado, o jeito é... “ No dia seguinte estava lá, mudado pelo copy: “O jeito é...”.

Temos também o copy “eu existo”. Este acha que é seu dever mexer em alguma coisa no texto - nem que seja para justificar o salário. Há alguns anos fiz uma matéria bonita - dessas em que o tema já é metade da beleza - sobre os emigrantes do Laos que vieram dar em Posadas, na Argentina. A copy fez modificações miúdas, tipo marcar presença. Numa delas, trocou um ponto e vírgula (pontuação em desuso, mas constante da língua portuguesa; além do que, cabia bem) por dois pontos. Ora, se uma pessoa escreve uma página sem problemas, não vai errar num ponto e vírgula. Além disso, com a mexida, mudou o ritmo da frase - o ritmo, esse fenômeno que o esquadrão alma de granito (têm a sensibilidade de um bloco de granito) não suspeita que exista. 

Sofro também com o copy que quer explicar o que já está mais do que explicado. Você escreve que os presos cavaram um túnel para fugir, ele liquida com a harmonia da abertura (o mão grossa), para detalhar que o túnel os levará para fora do presídio. O que esperava, que cavassem para baixo e fugissem pelo Japão? Certa vez fiz uma matéria no município de Doutor Ulysses Guimarães, no Paraná, só por causa do nome (estava nas vizinhanças, fazendo outra reportagem). A matéria falava no jovem e dinâmico Doutor Ulysses, para logo explicar que era um município recém emancipado. Às tantas, dentro do espírito da matéria, entro com esta frase: “A Voz de Doutor Ulysses está dizendo aos moradores...”. Ora, a Voz de Doutor Ulysses não tinha saído do túmulo (embora eu jogasse com isso), era o nome do jornal da cidade, recém criado, como eu explicava a seguir. O copy corrigiu: “A Voz de Doutor Ulysses, o jornal da cidade, está dizendo aos moradores...”. Preciso. Mas se algum leitor não entendeu nada do espírito da matéria, esse foi o copy.

Esses são os copies ruins. Agora, há os bons, os ótimos. Como juíz de futebol: atuam tão bem que você não nota que estiveram em campo. Se precisar cortar a matéria, têm o dom de um cirurgião. Não desfiguram; apenas cortam o que for preciso, com maestria. Também pegam nossos erros, a acentuação defeituosa, o personagem que começamos chamando de Cássio e terminamos por Castro, etc. e muitos etecéteras. E há os redatores que às vezes ajudam no copy, são consagradamente ótimos, mas podem nos aprontar coisas terríveis. Renato Pompeu, o bom e grande Renato, resolveu um problema - faltava uma linha no texto - encompridando a frase com um qualificativo. Saiu: fulano afirmou peremptoriamente que...

Ubiratan Muarrek (repórter do Jornal da Tarde) - Gostaria de levantar a bola de uma questão que veio à tona por Ricardo Valladares, na Veja. O cinegrafista de Diadema, como se sabe, filmou em três sessões o episódio da violência policial. Na terceira, acabou por registrar o assassinato. O comentário de Valladares foi oportuno: se a denúncia tivesse sido feito após a primeira sessão de espancamentos, uma morte teria sido evitada. Mas é evidente que o escândalo teria sido muito menor. Caro Valdir, na sua opinião, o cinegrafista agiu correntamente? 

SANCHES - Bem, para começar, o cinegrafista não era um profissional de um canal de televisão, pautado por uma chefia, que poderia decidir se ele devia parar ou não. Era um frila, até onde se sabe contratado por traficantes (o que, na minha opinião, não desmerece seu trabalho). Outro ponto, é que os PMs estavam baixando a lenha no pessoal, mas não tinha havido, até então, nenhum homicídio. Acho que o cinegrafista estava tendo uma boa pescaria - e continuou pescando, estava lá para isso. Ele não esperava - acho - que poderia chegar no que chegou. Se ele pudesse imaginar que daria em homicídio, teria divulgado antes? Não sei. Sem a morte, a fita poderia ter demorado mais para chegar à Globo. Talvez, quando e SE fosse mostrada, a pobre vítima já estivesse morta e enterrada. 


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