E N T R E V I S T A
CLÁUDIO JÚLIO
TOGNOLLI
PERFIL RÁPIDO
34 anos, formado em jornalismo na ECA-USP.
Trabalhou em Veja, Folha de S. Paulo. É repórter especial
do JT e da Rádio CBN. Foi correspondente nos EUA, tendo feito coberturas
em mais de 20 países. Ganhou o Grande Prêmio Folha de Jornalismo,
em 1994, com "Conexão Manágua". Em 1996 ganhou o prêmio
anual de direitos humanos do Depto de Estado dos EUA. Em 1997 ganhou o
Prêmio Jabuti de Reportagem, com o livro "O século do crime",
em coautoria de José Arbex Junior. Também editou "O mundo
Pós-Moderno" (Scipione) e está preparando "A sociedade dos
Chavões", também pela Scipione.
A ENTREVISTA
Luiz Maklouf Carvalho - Por que, como e quando você escolheu ser jornalista?
Rigorosamente acho que não tenho nada a ver com jornalismo - uma convicção que, tanto mais grave se a crermos sincera, cada vez mais me assalta. É uma honra estar aqui sendo entrevistado por jornalistas de verdade. Bem, minha família queria que eu fosse ou músico ou piloto de avião, porque todos os meus primos e tios são pilotos de Jumbo para cima e na minha casa minha irmã, por exemplo, era pianista profissional, especializada em Bela Bartók. Mas durante um exame de física para a pilotagem, no pré-colegial, tive a visão da Estrada de Damasco. Queria largar tudo e só escrever. Desisti dos aviões e fui procurar um curso de jornalismo. Encontrei somente na Penha, num colégio particular, um curso colegial que oferecia diploma de Redator-Chefe! Então fiz o colegial e depois prestei jornalismo na ECA-USP, onde me formei. Escolhi ser jornalista porque amava o Paulo Francis, queria ser o Paulo Francis. Tanto que resumi, e me levou cinco anos, TODA a Enciclopédia Britannica, na minha adolescência. A culpa é do Paulo Francis, por isso eu quis ser jornalista. O Paulo Francis superou seu tempo, seu espírito de época. O resto da jornalistada, para mim, vive de notícias perecíveis, vive para o dia. O Francis não, viveu para a eternidade, mas só o tempo vai provar isso.
Nelson Blecher (repórter especial de Exame) - Ser repórter é uma profissão ou uma missão? Por que?
Acho que, no meu caso, é missão, porque me envolvo tanto com o que apuro, e tento tanto fazer denúncias, que tenho o denuncismo como religião. Para mim ser repórter é missão, porque só um missionário para aguentar ganhar tão pouco e levar tanta porrada (tenho 30 processos). Para o Hegel, jornalista era missão. Se pegarmos no alemão, temos o trocadilho de "fahrt" (viagem) e Efahrung (descoberta), palavra que traz o fahrt (viagem) no radical. Qualquer atividade nossa é uma viagem de descoberta, uma missão. Lembremos que para o Michel Focault, também, o repórter é o "filósofo da atualidade". Ele achava que o jornalismo foi o que sobrou da filosofia. Portanto, seria um idiota da objetividade admitir que temos uma profissão. É uma missão, embora muitos achem que jornalismo é comissão.
Ricardo Setti (diretor de redação de Playboy) - Qual é a sua avaliação sobre a correção ética dos jornalistas, hoje, no Brasil?
Bem, acho que 90% dos jornalistas são éticos, "et pour cause" dos departamentos jurídicos. Sabemos que nada sai nas páginas, no terreno do acusatório, sem uma prévia avaliação do departamento jurídico. Os jornalistas são forçosamente éticos, acho que é uma ética de prateleira: ela está lá e você tem de chafurdar nos alfarrábios éticos por força da circunstância, que é a pressão do jurídico para se evitar uma ação civil indenizatória. O Adorno uma vez falou, acerca da ética jornalística, que "o jornalista é um ser quer habita um condomínio que não lhe pertence". Acho que a imprensa busca a estética antes da ética. A norma, penso, é o mais puro social-darwinismo: para bater a concorrência, vamos dar um furo bem editado, uma página bonita e o resto que se dane. Sempre se abre mão da ética, nunca da estética. E os chefões empuxam isso: a resposta dada pelo primeiro ombudsman do Washington Post, o Sam Zagoria, para esse tipo de pergunta era a seguinte: Any doubts ?? Just publish, publish, publish, ele esbravejava.
Ricardo Setti - Como repórter, o que você sugere para se enfrentar a ameaça à liberdade de informação que significa esse movimento, iniciado pelo ator Antonio Fagundes junto a seus colegas, para que os profissionais do show businness só dêem entrevistas à imprensa se forem pagos para isso ?
Sugiro que os próprios jornalistas parem de aceitar os jabaculês, não em dinheiro, mas o jabaculê estatutário, de status, como faz o Caetano Veloso com o pessoal de artes e espetáculos: oferece status aos louvaminheiros de plantão em troca de puxa-saquismo abjeto. O Fagundes herdou isso dessa gente, que chamo de A Máfia do Dendê, composta por Caetano, Gil et caterva. É essa gente que sustenta o presidente do Senado, o ACM. Olha Setti, o Fagundes só está tornando público algo que já existe. Conheço um famoso cantor de rock brasileiro que dava cocaína à espartana, para que os repórteres falassem bem dele. Era pó em troca de adjetivos encomiásticos. Nos EUA, e eu conheço bem a mídia americana, isso é chamado de payola. Mas minha posição é uma só: morte aos ideais do Antônio Fagundes.
Ricardo Setti - O que mais atrapalha sua vida, como repórter ?
O que mais atrapalha minha vida é viver para o dia. Deixo de ler coisas importantes e de estudar música para sustentar o noticiário. O Karl Kraus falava "o poeta vê a eternidade a partir do dia, e o filósofo vê o dia a partir da eternidade". Sinto que não vejo nada além da superficialidade dos fatos, e em apenas 1% deles consigo noticiar os bastidores do íntimo onde as decisões são tomadas. A vida é curta e o jornalismo é longo, isso me atrapalha muito. Também me atrapalha ver o tamanho do ego da jornalistada. Ego de jornalista sofre de elefantíase. Isso me mata de ver. Os caras põem todas as suas vidas, todo o seu orgasmo, na profissão. Dá no que dá, o cara fica velho, vê que vai se aposentar disso e a amargura toma conta de sua vida. Isso acontece com todos e espero largar esta profissão antes que isso se dê comigo. O Lacan falava que devemos clivar o orgasmo (em alemão, ele chamava de spaltung). Um pouco de prazer em cada lugar, e não todo o prazer na profissão. Quando vejo que a amargura emoldura o caráter das velhas raposas de redação, fico desesperado. Olha, vou sair dessa profissão antes disso. Deus me livre dessa amargura atávica!
Leão Serva (editor chefe do jornal Lance!) - Como é ser um roqueiro frustrado, ou seja, um cara que poderia ser ídolo nacional do rock, perdeu a chance e agora fica como nós mortais, gramando. Como é isso, de ser um "quinto beatle"?
Vamos lá: não me considero roqueiro frustrado, e tampouco roqueiro. Me formei em violão erudito, em composição, jazz, country e sou aluno do professor Koellreutter, mestre do Tom Jobim. O rock atende mais ao meu espírito de época. Hoje tenho trinta e poucas guitarras raras, inclusive uma que foi do Jimmy Page do Led Zeppelin, todas amealhadas com o patibundo dinheiro que o jornalismo me dá. Na ECA fui convidado, em 1982, a tocar com um cara que tinha uma banda chamada Pif Paf, depois batizada de RPM. Ele era o Paulo Ricardo. Mantínhamos um centro anarquista que retirou a Libelu do Centro Acadêmico. Chamava-se "Os Picaretas", nome eventualmente escrito também com cê cedilha... Olha que valhacouta: também faziam parte o William Bonner, hoje global, o Marcelo Rubens Paiva, o videomaker Rui Mendes. Larguei a banda e os contatos com o Paulo Ricardo porque meu pai morreu, e tive de começar a sustentar a casa, minha mãe falava "acabou a tua chance". Mas que não seja por isso: em junho passado recebi um fax do Max Cavallera, do Sepultura, querendo conhecer meu trabalho. Como eu estava me mudando de casa e em separação da mulher, não fui fundo, deixei passar a segunda chance. Mas não há problema: estudo duas ou três horas por dia de música e fujo do mainstream, dos abusos dos roqueiros, porque sou um homem de leite e frutas. Não tenho frustrações, nesse ponto. O jornalismo me serve para comprar guitarras, e assim está bom.
Leão Serva - A cobertura do crime da Rua Cuba foi o "turning point", o splin da sua carreira?
Acho que foi. Você mesmo havia me contratado para cobrir polícia na Folha, razão pela qual eu saí da revista Veja, da editoria de Brasil. Peguei o caso da Rua Cuba e arrasei, meti bala. Até ter sido afastado do caso pela direção da Folha de S. Paulo. Os motivos só eu e minha sombra sabemos. Mas o afastamento me rendeu boas amizades, entre elas a do então promotor do caso e hoje procurador-geral de justiça de SP, Luiz Marrey. Quer minha opinião ? O Jorginho Bouchabki meteu bala nos pais, mas o Tribunal de Justiça o inocentou, então ele é inocente. Mas não para mim, que dormi com esse caso meses e meses. Soube que no dia do meu afastamento do caso que o Otavio Frias Filho disse de mim o seguinte: "Esse louco é obcecado por notícia". A Rua Cuba me rendeu vários convites de emprego, mas preferi ficar na Folha porque amava aquela casa.
Luiz Henrique Amaral (repórter de política da Folha de S. Paulo) - Cláudio, entre as situações de perigo que você viveu como repórter, parece que a mais difícil foi no Haiti. Como você escapou de ser morto no meio daquela loucura?
Fui duas vezes ao Haiti, uma no golpe de 91 e outra na invasão americana, em 94. Na primeira fez fui preso por um tonton macoute e só me soltaram quando inventei que era amigo do Pelé. Vi muita gente morrer na minha frente, mas aprendi ali a desenvolver alguma frieza para essas cenas. Nessa primeira vez minha mulher, sino francesa, foi comigo na viagem e o fato de ela ser amarela despertou simpatia em gente repleta de animosidade e armamentos. Nunca vou me esquecer um tonton armado parando a gente à noite, num toque de recolher, e falando, "só te solto porque ela é chinois". Haja cinema francês!. Na segunda vez no Haiti eu me ferrei, fui torturado e só me soltaram porque eu falei que minha mãe (mentira) tinha um templo de vudu que poderia amaldiçoá-los. "Ma mamman est mambo, mon papa est hougan". Eles acreditaram que meus pais eram bruxos, e ficaram espantados por eu saber falar creolle (estudei muito a língua depois de minha primeira ida ao país). Na tortura tomei 11 porradas com cabo de AK-47, uma para cada jogador da seleção brasileira, que os haitianos tanto amam. Passados três anos, em decorrência das porradas, tive de extrair TODOS meus dentes frontais para reimplantá-los, processo doloroso a que me submeto agora. Quer uma coisa engraçada ? Levei o Hermano Henning, do SBT, conhecer os templos de vudu. Ele fez matéria para o Fantástico. Para concluir, te juro que quase morri. Mas lá no Haiti aprendi a não temer morrer. Temo a morte cotidiana do jornalista, lenta, a conta-gotas, que se processa na arruaça pré-coerente que é o porão do couraçado Potemkim das redações. A notícia come pela borda e nos mata a prazo. Veja o que o dr. Rennó, da Petrobrás, fez com o Francis. Disso eu tenho medo, o vudu mora aí, nos recessos das redações, e não no Haiti.
Fernando Rodrigues (repórter especial da Folha de S. Paulo) - Jornalismo tem futuro? Jornalismo no Brasil tem futuro?
Fernando, acho você o melhor jornalista brasileiro e alardeio isso por aí. Acho que você provou, com o Senhor X, que podemos encontrar futuros para o jornalismo, mesmo na era FHC, quando o presidente tem acordos ocultos com as direções de redação de todo o Brasil. A vida é curta e o jornalismo é longo, por isso ele tem futuro. Você e eu temos cursos no Investigative Reporters and Editors, o sindicato dos jornalistas investigativos dos EUA. Sabemos por eles que nos últimos 4 anos nove prêmios Pulitzer foram ganhos somente com o uso da Internet. Mas para isso as autoridades-fontes têm de ser transparentes e dispor nas telinhas os seus dados, para que investiguemos. Esse seria um futuro plausível. Mas como no Brasil essa transparência nunca vai ocorrer, dependemos de insights geniais como foi o teu caso do senhor X. Mas uma bomba como essa tua do senhor X soa, por muito tempo, como um oráculo aos deuses do jornalismo.
Fernando Rodrigues - Como é mesmo a história de sua passagem pelo RPM? Dê detalhes até hoje nunca revelados.
Tenho detalhes que convocariam os escrúpulos de um Carlos Zéfiro e até criariam escrúpulos no Pablo Escobar. Mas prefiro me omitir. O Paulo Ricardo é na minha opinião um dos melhores cantores do Brasil, devo respeitá-lo. Só que ele embregou. Ele é um cara brilhante, super culto, e não sei como entrou no mundo macho-feudo-católico-brega com tanta bagagem mental inata. Mas a porta-larga das gravadoras faz isso mesmo, até com gente inteligente.
Luiz Maklouf Carvalho - Sua tese de mestrado aborda a questão sempre presente dos uso dos chavões na mídia. Por que se usa tanto chavão? E quais são aqueles que você realmente não pode ler?
Elenquei 3 mil chavões de imprensa, da imprensa de todo o mundo. Fiz uma tese empuxada por uma matéria de capa, do Caderno B do JB, que mostrava meu trabalho de coleta dos chavões. Com essa matéria conheci muita gente que ficou deslumbrada com o trabalho, como o Fernando Sabino e o Paulo Rónai. Agora ela vai virar livro. Mostra como se dá o espírito de época, o szeitgeist, pela forma, e não pelo conteúdo. A tese é basicamente sobre Wittgenstein, Lacan e Hegel. O Timothy Leary, pai do LSD, foi um dos meus orientadores. A tese tem como base uma frase do marxista húngaro Gyorgy Lukács, de 1991, de "A Alma e as Formas", onde ele fala "é a forma que marca uma época, não o conteúdo". Por isso a tese não impõe barreiras ao uso de chavões. Apenas os discrimina.
Valdir Sanches (repórter especial do Jornal da Tarde) - Você trabalha em rádio (CBN) e no Jornal da Tarde. Em qual deles você acha que dá mais suficientemente o seu recado, atinge mais o seu público?
Valdir, é um prazer te responder, você tem o melhor texto da casa. Devo dizer que a rádio me apaixona mais, por causa da velocidade. Gosto de desovar as coisas na hora, rapidinho, correndo por fora. Além disso todo o Brasil me ouve. Acho demais.
Luiz Maklouf Carvalho - Discute-se, hoje, em função da globalização e da Internet, se o furo de reportagem ainda é a pedra de toque do melhor jornalismo. É?
Sim, o furo ainda sobrevive mesmo com a Internet. Quer um exemplo estranho ? Um cara do Depto. de Estado dos EUA ia me dar um texto inédito sobre máfias no Brasil e disse "olha, publica até amanhã porque daqui a 48 horas o texto entra na Internet. A ordem é furar a Internet.
Luiz Maklouf Carvalho - Você tem três atividades profissionais: o JT, a rádio CBN e a Universidade em que dá aulas. Qual é o macete para administrar essa roda-viva?
Não tenho macete nenhum. Trabalho como um animal, vivo estressado, mas acho que uma coisa que muito me ajuda é minha boa memória. Gostaria de ter apenas um emprego e me matar menos, ter mais tempo para a música.
Luiz Maklouf Carvalho - Entre inúmeras reportagens que você fez, quais são aquelas que considera mais importantes em sua carreira profissional?
A mais importante foi a Conexão Manágua, com o Fernando Rodrigues, provando a ligação dos sequestradores do Abílio Diniz com 12 grupos terroristas internacionais. Fomos citados no Washington Post, Miami Herald, etc. E ganhamos o Grande Prêmio Folha de jornalismo.
Luiz Maklouf Carvalho - Por que você saiu da Folha de S. Paulo? Que diferenças básicas vê entre o jornalismo feito na Folha e no Jornal da Tarde?
Saí da Folha porque minha ex-mulher falava "ou eu ou a loucura da Folha". Também por brigas com o melhor jornalista que lá trabalhava, o então secretário de redação Marcelo Beraba, que não quis deixar eu ter a CBN também. Na Folha eu ia muito pro exterior, muito mesmo, me especializei em coberturas internacionais. No JT isso não acontece, o jornal quer coisas locais.
Luiz Maklouf Carvalho - Quais foram os jornalistas que "fizeram a sua cabeça", no melhor sentido do termo?
Paulo Francis e Elio Gaspari, o maior gênio do jornalismo brasileiro. Também amo o Jânio de Freitas.
Luiz Maklouf Carvalho - Além de jornalista, como já ficou claro, você é músico, guitarrista. Quais são os melhores guitarristas do mundo na sua opinião?
Jimmy Page, Andy Summers, Steve Howe,
Steve Hackett, George Harrison, Keith Ricards. Jimmy Page criou novas afinações.
Summers a guitarra dos anos 80. Howe é o mais completo. Hackett,
o mais intrincado, obscuro. Harrison é o pai do the less is more.
Keith Richards é dono dos melhores riffs. No Brasil, o melhor guitarrista
é Marcus Rampazzo, do Beatles 4 ever, único brasileiro elogiado
pelo George Harrison.