PROFISSÃO:REPÓRTER

TESE

VEJA E OS GOVERNOS

MILITARES (68/85)
 
 

Por Juliana Gazzoti

Tese de mestrado apresentada na Universidade Federal de São Carlos (SP), sob a orientação do professor doutor João Roberto Martins Filho
 
 

ÍNDICE

INTRODUÇÃO

Capítulo I: VEJA E A INDÚSTRIA CULTURAL

O projeto editorial

A postura econômica e política

IMPRENSA E INDÚSTRIA CULTURAL

A Escola de Frankfurt

A massificação do consumo

A crítica aos frankfurtianos

A crítica à crítica aos frankfurtianos

IMPRENSA, EMPRESA E LEITOR

A importância do leitor

Imprensa e modernização

A INDÚSTRIA CULTURAL NO BRASIL

A imprensa literária e empresarial

O processo brasileiro

Ditadura e indústria cultural

IMPRENSA E CENSURA

A CENSURA POLÍTICA

O CONTROLE DA INFORMAÇÃO

Capítulo II: A REVISTA VEJA E O REGIME MILITAR
1968-1972: UM PERÍODO DE TENSÕES

O governo Costa e Silva

Veja e o recrudescimento do regime militar

Veja e o pós-AI-5

A oposição armada ao regime militar

A sucessão de Costa e Silva

As entrevistas

A luta armada e a tortura no governo Médici

1973-74: UM PERÍODO DE ESPERANÇAS

O governo Médici

A revista Veja e o processo de abertura política

A sucessão de Médici

Veja e a oposição

1977-79: UM PERÍODO DE EXPECTATIVAS FRENTE

À ABERTURA POLÍTICA

O governo Geisel

Veja e a redemocratização

A sucessão de Geisel

A oposição

Os editoriais

1983-85: O PERÍODO FINAL DO REGIME MILITAR

O governo Figueiredo

Veja e as perspectivas finais de redemocratização

A campanha pelas "Diretas-já"

A sucessão de Figueiredo

A vitória oposicionista

Capítulo III: VEJA E A CONSOLIDAÇÃO DA INDÚSTRIA CULTURAL NO BRASIL
Veja e o desenvolvimento da imprensa

Veja e a ditadura: o sucesso empresarial

A exaltação da técnica

A produção da notícia

A euforia do crescimento

O desenvolvimento dos produtos culturais

O sucesso compartilhado

O descompasso entre economia e política

Capítulo IV: VEJA E O OBSTÁCULO DA CENSURA

1968-73: a censura esporádica

1974-76: resistência e rendição à censura

A censura como notícia

CONSIDERAÇÕES FINAIS

ANEXO 1

ANEXO 2

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


 




INTRODUÇÃO


 
 

O estudo de jornais e revistas enquanto fonte para a análise e interpretação do Brasil é de grande importância, pois, com ele, podemos "acompanhar o percurso dos homens através dos tempos." A imprensa é um material de pesquisa valioso: ela registra, comenta e participa da história. Assim, "desde os primórdios, a imprensa se impôs como uma força política. Os governos e os poderosos sempre a utilizam e temem; por isto adulam, vigiam, controlam e punem os jornais."

A análise das relações entre imprensa e poder constitui uma lacuna na Ciência Política brasileira. Se pensarmos especificamente no recente período de ditadura militar - quando foram bastante tensas as relações entre o regime e certos órgãos de imprensa - apenas alguns grandes jornais, além de periódicos da chamada "imprensa alternativa" mereceram até aqui trabalhos específicos. Neste texto, cujo foco de atenção é a "grande imprensa", esta é definida como o conjunto dos jornais e revistas ligados a grandes empresas, aqueles que podem "exercer um papel de esclarecimento da sociedade, porém só até o limite dos interesses de seus proprietários, vinculados à manutenção de um complexo econômico, político e institucional." Esses periódicos se distinguiriam, assim, dos pequenos jornais - alguns deles, inclusive, de grande circulação por algum tempo - que constituíram a chamada "imprensa alternativa", que pode ser definida como os órgãos "de combate político-ideológico à ditadura".

No entanto, é preciso admitir que, no decorrer do período analisado, a grande imprensa, no Brasil, sofreu muitas transformações. De modo sucinto, é possível dizer que, entre os anos de 1964 e 1985, o próprio governo militar preparou o terreno para o desaparecimento dos órgãos familiares e relativamente independentes, fazendo surgir jornais e revistas cada vez menos "ideológicos" e mais voltados para o mercado. Além disso, foi irregular e instável o caminho das relações entre certos órgãos de imprensa e os sucessivos governos militares. Por isso, chamou nossa atenção que a revista Veja não tivesse conquistado até aqui a atenção que merecia por sua posição de principal semanário brasileiro e como exemplo da transformação de nossa imprensa, com recurso a elementos visuais importados de exemplos americanos. Veja surgiu em setembro de 1968, como órgão da Editora Abril, dirigida pelo jornalista Mino Carta, um dos principais operadores da modernização da imprensa com base em veículos formalmente avançados e voltados para uma nova classe média. Com isso, do nosso ponto de vista, Veja encaixava-se no que Habermas chamou de "jornalismo empresarial". Segundo este autor, a certa altura do desenvolvimento da imprensa, a atividade redacional passa de uma atividade literária para uma jornalística, em que "a escolha dos dados torna-se mais importante que o artigo de fundo; o tratamento e o julgamento das notícias, sua revisão e diagramação, mais urgente do que a busca literariamente efetiva de uma ‘linha’."

A partir dessas premissas, a pesquisa orientou-se pelas seguintes questões: qual a posição de Veja diante das políticas do regime militar? As posições do semanário seguiram um padrão coerente ou evoluíram em decorrência de seus interesses empresariais e das modificações na economia, no poder e na sociedade? Como Veja lidava com a censura imposta pelo governo ditatorial? Qual a atitude da revista diante do avanço da modernização capitalista?

Logo, dois processos revelaram-se importantes para a pesquisa: por um lado, o poder cerceava a revista por meio da censura, e ao mesmo tempo a estimulava, ao fomentar a indústria cultural.

Como o foco da análise recaiu nas relações da revista com o poder militar, a investigação seguiu os seguintes procedimentos: 1) pesquisa bibliográfica em livros e artigos relevantes para o trabalho; 2) análise das matérias selecionadas de Veja em conjunturas-chave representadas pelas sucessões presidenciais via eleições indiretas. Analisaram-se a cobertura do período de "campanha" dos candidatos oficiais e as atitudes oposicionistas até a posse do presidente "eleito"; 3) seleção das matérias publicadas pela revista sobre a questão da censura e também os recursos jornalísticos que Veja utilizava para mostrar aos seus leitores que estava sob censura; 4) análise dos editoriais, denominados de "Carta ao Leitor", evidenciando a forma como o semanário integrou-se ao processo de desenvolvimento da indústria cultural no país.; 5) realização de entrevistas abertas com editores e jornalistas que trabalharam na revista na fase 1968-85. Estes foram escolhidos por sua importância na formação e desenvolvimento de Veja. Por isso, o depoimento de Mino Carta, jornalista que participou da idealização da revista juntamente com os proprietários da Editora Abril, foi fundamental para compreender qual era a proposta do semanário no cenário da imprensa brasileira. Raimundo Pereira e Bernardo Kucinski participaram de uma equipe que influenciava na publicação das matérias de Veja e Marcos Sá Correa trabalhou na revista durante quase todo o período militar, contribuindo para mostrar uma visão de repórter que quase não influenciava nas decisões de pauta. Apenas um ex-editor forneceu depoimento, mas pediu anonimato, não permitindo a gravação da entrevista.

O trabalho final foi redigido em quatro capítulos. O primeiro contém a análise da literatura sobre a indústria cultural e a censura que orientou nossas hipóteses e a pesquisa empírica. O capítulo II enfoca as posições da revista diante do regime militar por meio da cobertura de momentos de crise representados por conjunturas selecionadas. O terceiro analisa como Veja participou do desenvolvimento da indústria cultural no Brasil. E, finalmente, o último capítulo identifica as diferentes maneiras de censura aplicadas ao semanário.
 
 

Capítulo I: VEJA E A INDÚSTRIA CULTURAL



A revista Veja aqui é analisada como expressão da indústria cultural brasileira - enquanto um sistema que se desenvolveu juntamente com o capitalismo no país - no período que vai de sua criação (1968) até o fim do regime militar (1985). Na produção de Veja são importantes dois fatores: 1) a constante busca de lucratividade e ampliação da tiragem; 2) o contexto histórico vivido pela revista: a ditadura militar e sua censura.
 
 

Veja presenciou o processo de organização da imprensa brasileira em grandes oligopólios que passaram a controlar os meios de difusão de idéias e informações no Brasil. "O resultado desta concentração dos meios de comunicação em poucas e silenciosas mãos - de resto incentivada pelo próprio governo, pois assim lhe é mais fácil controlar a opinião pública - leva a uma opressora uniformização das informações, colocando em risco o pluralismo das opiniões, condição essencial para uma verdadeira liberdade de informação." Os oligopólios são formados pela grande imprensa que corresponde "aos órgãos de divulgação cuja veiculação pode ser diária, semanal ou mesmo que atuem em outra periodicidade, mas cuja dimensão, em termos empresariais, atinja uma estrutura que implique na dependência de um alto financiamento publicitário para a sua sobrevivência." Ao contrário da " imprensa alternativa" (jornais como Pasquim, Opinião, Movimento, Em Tempo, etc), estes grupos possuíam uma grande infra-estrutura para a confecção e divulgação de seus produtos "ideológicos." Em contraste com os jornais da imprensa alternativa, feitos de forma artesanal e sem muitos recursos editoriais e industriais, a grande imprensa possuía, em sua maioria, facilidades oferecidas pelo governo para a importação de equipamentos que permitiam uma maior produção e uma melhor qualidade gráfica de seus jornais e revistas.
 
 

Veja surgiu em setembro de 1968, em plena fase de consolidação da indústria cultural no Brasil. Desde os anos 50, a Editora Abril firmava-se enquanto um conglomerado, diversificando cada vez mais os produtos que editava. Assim, Veja apareceu numa fase em que o jornalismo já possuía um caráter empresarial. Além de ser um dos produtos da Editora Abril com maior ênfase mercadológica, não se pode esquecer o contexto histórico e político no qual a revista estava inserida. Desta maneira, a censura é um fator importante que moldava as relações de Veja com o governo militar, e o Estado é a peça fundamental para o desenvolvimento da indústria cultural no Brasil (sendo que, em relação aos meios de comunicação, isto é notado através, principalmente, da publicidade e dos investimentos em telecomunicações).

A partir disto, Veja é analisada segundo duas perspectivas que vão nortear as suas relações com o governo militar e a produção de sua mensagem: a indústria cultural e a censura. De acordo com essa perspectiva, na produção das matérias estavam presentes tanto a constante busca de um número maior de leitores, como um posicionamento político que refletia, ainda que em última instância, as visões de seus proprietários. Assim, trabalharemos com dois pressupostos: 1) a censura imposta pelos militares era motivo de conflito com a imprensa; 2) ao mesmo tempo, os órgãos de imprensa estavam atrelados ao Estado autoritário por meio do incentivo fornecido através das concessões de publicidade e favorecimento na importação de equipamentos gráficos. Estas duas questões tinham de ser, a todo momento, levadas em conta pelos jornais e revistas, pois moldavam as suas relações com o regime, além de serem responsáveis pela sua existência enquanto órgãos que visavam lucro e ao mesmo tempo possuíam uma posição política em relação aos acontecimentos da sociedade. Desta maneira, eles estavam inseridos em um contexto de indústria cultural, em que a importância das relações econômicas era essencial.
 
 

Procura-se desvendar também uma prática constante do Estado autoritário: o controle dos meios de difusão de informações e idéias, pois esta era uma área de fundamental importância para um regime que desejava transmitir uma aparência não conflituosa para a sociedade brasileira. Ao mesmo tempo, os meios de comunicação deveriam publicar acontecimentos que não eram alheios aos seus leitores. Neste complexo contexto são descobertas diversas formas de negociações e relações entre o governo e os órgãos da imprensa escrita na tentativa destes últimos conseguirem transmitir os acontecimentos da sociedade, em todos os seus níveis: econômico, político e cultural.
 
 

O projeto editorial

Veja nasceu como uma representante da modernização da imprensa do país baseada nos elementos visuais importados de exemplos americanos. Ela começou dirigida pelo jornalista Mino Carta. Como conta Ulysses Alves de Souza, quem idealizou a revista foi Roberto Civita, filho de Victor Civita (proprietário da Editora Abril). Veja seria um semanário semelhante a Time, Look ou Life e terminou editada com um projeto gráfico inspirado em Newsweek. As características dos semanários que inspiraram o seu surgimento foram a grande quantidade de anúncios e propaganda, responsáveis pela receita da revista e uma variedade de informações para abarcar um número amplo de leitores, ou seja, um ecletismo destinado a atingir um público heterogêneo.

Quando a revista foi publicada pela primeira vez, a gráfica da Abril já realizava, desde o início dos anos 60, rentáveis serviços para terceiros e imprimia as revistas em quadrinhos (como a do Tio Patinhas) e de fotonovelas (Capricho) que consolidavam suas vendas. Também havia as revistas de moda como Manequim, de comportamento como a Cláudia e uma revista dirigida para o público masculino, a Quatro Rodas. Em 1966, uma revista mensal com grandes reportagens, Realidade, tornou-se um sucesso editorial da Abril. Victor Civita decidiu também realizar publicações em fascículos: A Bíblia Mais Bela do Mundo, Conhecer, Bom Apetite, Medicina e Saúde. Assim, as máquinas da gráfica e da distribuidora passaram a trabalhar semanalmente com grandes tiragens. Desse modo, a infra-estrutura estava pronta e já havia um incipiente Departamento de Documentação (DEDOC).

A partir daí, com o projeto da revista Realidade dando certo, a idéia de produzir Veja tornou-se mais concreta. Foi realizado o "Projeto Falcão", resumo do planejamento da revista semanal de informações que foi preparado por Raymond Cohen e apresentado para a Editora Abril por Roberto Civita. Este projeto previa uma tiragem de 250 mil exemplares para a revista e 25 páginas de publicidade, o que a tornaria um projeto rentável. Com a aprovação deste, começou o recrutamento de pessoal. Isto não foi complicado, pois, a partir da publicação de Realidade, a Editora Abril se tornou atraente para os jornalistas, não só pelos bons salários que pagava, mas também, porque dava prestígio dentro da profissão.

Veja, antes de ser colocada no mercado, já possuía um departamento de promoção, cujo chefe era o publicitário Paulo Augusto de Almeida. O seu lançamento se desenvolveu em duas frentes: de um lado, uma campanha publicitária; de outro, uma campanha de promoção. Após grande preparação, o seu primeiro número vendeu cerca de 650 mil exemplares, segundo Victor Civita. Já no segundo número, as vendas caíram para 250 mil exemplares. Os leitores desapareceram e, a partir do quarto número, o único anunciante fixo da revista era a Souza Cruz, que havia comprado 52 capas e manteve o contrato. As vendas começaram a cair e chegaram abaixo dos 40 mil exemplares, com um prejuízo potencial estimado de 1 milhão de dólares por ano.

Depois de completar dois anos de existência é que Veja deixou de dar prejuízos. Nesse sentido, Mino Carta observou que o projeto inicial incluía esta previsão. Segundo o editor, Veja não estava isolada do contexto de empresa: "a Editora Abril era um holding. Podia perder na revista, mas ganhava na gráfica e na distribuidora. Ele descobriu isso quando, logo no início da revista, propôs a redução do número de fotos em cores para diminuir o custo industrial, e essa sugestão foi vetada porque reduziria a rentabilidade da gráfica."

Nos seus primeiros anos de existência, Veja causou muitos prejuízos. Os seus rombos financeiros foram sentidos, mesmo sendo a Abril uma grande empresa, pois o investimento na revista foi muito alto e isto causou muitas demissões e remanejamentos em Veja. Mas, devido a reportagens bem elaboradas, as vendagens começaram a aumentar. Além disso, a partir de 1971, começou a venda de Veja por assinaturas (ver anexo 2).

Quando a revista passou a dar lucro, ela transformou-se em um dos maiores produtos da Editora. Como Veja atingiu uma grande vendagem, destacando-se no mercado de revistas, passou a ter um lugar especial na Abril e com isso, a necessidade de que o semanário permanecesse vendendo centenas de milhares de exemplares tornou-se maior. Esta preocupação esteve sempre presente para os proprietários e editores de Veja. Por isto, enfatizamos o caráter mercadológico presente desde o seu surgimento.

Como podemos perceber, desde a sua idealização até sua concretização, a revista foi pensada enquanto um produto inserido num contexto de empresa e que visava a obtenção de lucros, como as revistas americanas que a inspiraram. Tratava-se, portanto, de um veículo não tradicional, o que impede uma análise como a realizada por Francisco César Pinto da Fonseca mostrando o projeto político do jornal O Estado de S. Paulo e da revista Visão como porta-vozes da teoria liberal.
 
 

A postura econômica e política

Veja era fortemente orientada por questões empresariais e mercadológicas. Mas isto não excluía uma postura política diante da cobertura dos episódios históricos que ocorreram no período militar (1964-1985). Temos um exemplo: o desejo da volta às instituições democráticas era sempre defendido pela revista nos momentos em que este assunto estava mais presente e discutido nos círculos militares e também na sociedade civil, como na época das sucessões presidenciais. Com isso, a revista não era imparcial: ela posicionava-se em relação aos fatos da época. No entanto, Veja não era um órgão "ideológico" com princípios teóricos radicais que orientavam suas posições, mas posicionava-se politicamente. Mesmo com seus proprietários definindo-se como liberais, o semanário não seguia estritamente esta concepção para "olhar" a sociedade.

Em relação ao público consumidor, a imprensa escrita "atinge, no Brasil - devido ao baixíssimo número de leitores existentes - justamente a parcela formadora (ou melhor, reprodutora) de opinião. (...) O universo leitor (minoria absoluta num país marcado pelo analfabetismo de extensas parcelas da população) é constituído pelos estratos médios e superiores na hierarquia social brasileira." O mercado editorial estava condicionado pela " redistribuição da renda contra os assalariados de base e em favor dos estratos médios mais altos, decorrente da modernização da estrutura produtiva e da política econômica do pós-64, que ajudou a fazer dessas camadas médias o grande mercado, junto com a população de alta renda, para os produtos da nova indústria e também para os da indústria cultural." Desse modo, as expectativas do leitor de Veja eram consideradas importantes e suas sugestões, através da seção "Cartas", eram transformadas em relatório pela redação do semanário e levadas em consideração.

O "Milagre Econômico", ao favorecer a produção de bens duráveis, possibilitou que os anunciantes destes produtos se beneficiassem com a propaganda nos meios de comunicação. A classe média passou a adquiri-los também. Com isso, o mercado de Veja coincidia com o de seus anunciantes. "Para existirem, os meios de comunicação precisam de públicos e a fim de os conquistar e conservar, precisam agradar à maioria do mercado escolhido." Além disso, toda a parte de diagramação, de publicidade, e da montagem das matérias era cuidadosamente preparada para agradar aos leitores e aos anunciantes responsáveis também pela sobrevivência da revista.

Os editores, jornalistas e proprietários da revista começaram a perceber o tipo de matérias e temas que atraíam os leitores; além de publicar reportagens em fascículos, o que provocava no leitor a vontade de obter o próximo número de Veja. Especificamente em relação à revista, apesar da preocupação em se obter uma diversidade no conteúdo, o público composto pela classe média e alta exigia matérias mais "elaboradas" em termos de linguagem e de reportagens. Ainda assim, a diversidade das reportagens, além da estrutura interna da revista, formada por várias seções tratando de diferentes assuntos, aumentava as suas chances de venda, pois abarcava um maior número de possíveis consumidores. Neste contexto, estava presente a censura, limitando as expressões das diferentes opiniões e atrelando os meios de comunicação ao Estado. Desta maneira, analisaremos as relações entre a revista Veja e o governo militar pela ótica da teoria da indústria cultural e da censura imposta pela ditadura.
 
 


IMPRENSA E INDÚSTRIA CULTURAL


A Escola de Frankfurt

A noção de indústria cultural surgiu em contraposição ao conceito de "cultura de massa", cujos defensores davam a entender que se tratava de algo como uma cultura surgindo espontaneamente das próprias massas. Os teóricos da Escola de Frankfurt rejeitaram essa ótica funcionalista da sociologia norte-americana. É importante destacar que a visão do público como massa também esconde as diferenças de classe "e qualquer possibilidade de uma produção cultural que respeite, trabalhe e realmente considere essas diferenças, tanto no nível da produção cultural quanto no do consumo."

Para os teóricos que aqui nos interessam, a indústria cultural, "ao aspirar à integração vertical de seus consumidores, não apenas adapta seus produtos ao consumo." Interessada nos homens apenas enquanto consumidores ou empregados, ela reduz a humanidade "em seu conjunto, assim como cada um de seus elementos, às condições que representam seus interesses". A indústria cultural "traz em seu bojo todos os elementos característicos do mundo industrial moderno e nele exerce um papel específico, qual seja, o de portadora da ideologia dominante, a qual outorga sentido a todo sistema". Aliada à ideologia capitalista, e sua cúmplice, ela "contribui eficazmente para falsificar as relações entre os homens, bem como dos homens com a natureza. Criando "necessidades" ao consumidor (que deve contentar-se com o que lhe é oferecido), a indústria cultural organiza-se para que ele compreenda sua condição de mero consumidor, ou seja, ele é apenas tão somente um objeto daquela indústria. Desse modo, instaura-se a dominação natural e ideológica."

Na indústria cultural ocorre a organização dos consumidores. Com isso, cada indivíduo é organizado segundo o seu nível, determinado a priori por índices estatísticos e encaixado em uma categoria de produtos de massa preparada para o seu tipo. "Reduzindo o material estatístico, os consumidores são divididos, no mapa geográfico dos escritórios técnicos (que não se diferenciam praticamente mais dos de propaganda), em grupos de renda, em campos vermelhos, verdes e azuis." Estas questões são relevantes porque estão presentes em nossa sociedade ainda hoje. A ideologia da sociedade de consumo que imperava nos anos 50 na Europa e EUA foi "exportada" para quase todos os países da América. Os indivíduos tornaram-se importantes enquanto consumidores e, por isto, os produtos da indústria cultural propagam a ideologia capitalista e a manutenção da ordem.
 
 

Adorno afirma :

"A indústria cultural é a integração deliberada, a partir do alto, de seus consumidores. (...) Uma ordem objetivamente válida que se quer impingir aos homens porque eles estão privados dela, não tem nenhum direito, se ela não se fundamenta em si mesma e no confronto com os homens; e é precisamente isto o que todo produto da indústria cultural rejeita. As idéias de ordem que ela inculca são sempre a do status quo."
E estas idéias são aceitas sem nenhum questionamento: o conformismo substitui a consciência, ou seja, a ordem transmitida não é confrontada com os reais interesses dos homens. Com isso, os indivíduos tornam-se incapazes de decidir conscientemente, deixam de ser autônomos e independentes. É a indústria cultural que não permite a emancipação das massas que ela própria formou, já que a população estaria madura quando as forças produtivas da época permitissem. Desta maneira, um dos componentes principais desta indústria cultural seriam os meios de comunicação, que veriam os indivíduos atomizados, incapazes de "ver claramente" o que realmente acontece na sociedade. Estas produções "ideológicas" trabalham com uma visão imediata e aparente da realidade, mostrando em suas mensagens as idéias propagadas pelo status quo. A partir disto, os consumidores tornam-se incapazes de decidir por eles próprios.

Mais tarde, Adorno reviu esta questão e apontou para a presença de resistências (dentro de certos limites) na sociedade, pois os indivíduos não seriam totalmente manipulados pela indústria cultural, mas a preocupação dos autores frankfurtianos era que o sistema formado pelos produtos da indústria cultural (todos atuando no mesmo sentido) impedisse que houvesse reflexão por parte dos indivíduos. Nesse sentido, alguns autores argumentaram que "a indústria cultural é um processo em que as pessoas se entregam a um feitiço hipnótico socializado: depende de sua vontade em se deixar enganar e não de uma submissão mecânica. Portanto, ‘não podemos nos contentar simplesmente em afirmar que a espontaneidade (individual) foi substituída pela cega aceitação do material imposto’ através da indústria da cultura. O movimento poderoso que emana das mercadorias culturais esquematiza em escala cada vez maior a subjetividade, mas isso ‘não implica a absoluta eliminação da resistência’, conduzida a estratos cada vez mais profundos da alma humana. A reprodução da indústria cultural por parte dos sujeitos é um movimento precário e que carrega consigo as forças que em princípio poderiam livrá-lo do feitiço a que voluntariamente se entregam, dentro de condições históricas determinadas."

A indústria cultural desenvolve-se com o capitalismo e consolida-se em sua fase monopolista. Suas mensagens estão submetidas à mesma lógica das demais mercadorias nesta etapa. Neste sentido:

"São elaboradas no interior de grandes complexos industriais, altamente concentrados do ponto de vista técnico e centralizados do ponto de vista do capital; são produzidas em escala industrial, num esquema marcado, na maioria das vezes, por um alto grau de divisão de trabalho, embora possam coexistir, em alguns casos, formas artesanais e industriais de produção; como produto, são padronizadas; sua produção e distribuição orientam-se por um critério de rentabilidade."
Com o desenvolvimento da indústria cultural, a propaganda tornou-se muito importante e assumiu o papel de reforçar o vínculo do consumidor com o sistema capitalista. Propaganda e indústria cultural são uma só coisa: "a repetição mecânica do mesmo produto cultural já é a repetição do mesmo slogan da propaganda." Como exemplo, os autores citam as revistas semanais americanas Life e Fortune e comentam que é só "dar uma rápida olhadela e mal conseguimos distinguir figuras e textos publicitários da parte redacional." No entanto, a propaganda não basta para fazer as pessoas agirem. Os comportamentos de massas não são resultado de pura e simples doutrinação pelos meios de comunicação: "os indivíduos têm consciência de que são alvo da publicidade, embora sem saber até que ponto se tornaram produto dela, assumindo perante a mesma uma postura de reserva, suspeita ou desconfiança."

A utilização da propaganda, pelos órgãos de imprensa, tornou-se uma maneira essencial de conquista dos seus consumidores, além dos anúncios publicados que participam como fonte de recursos para mantê-los no mercado. Desta maneira, o desenvolvimento da propaganda acompanhou o desenvolvimento do capitalismo que proporcionou a diversificação do público leitor.
 
 

A massificação do consumo

A massificação dos meios de comunicação explica-se pela multi-significação do produto e não pela padronização do consumidor. Assim, a notícia (na imprensa informativa) é uma "entidade suscetível de leituras diversas, contraditórias mesmo, mas não infinitas nem arbitrárias. O produto é carregado de ambigüidades porque incorpora os conflitos que marcam as relações sociais da sua produção." A ambigüidade, a duplicidade, não seria causal na obra, nem a prejudicaria:

"Muito ao contrário, seria exatamente o segredo de seu sucesso, pois ampliaria as "chaves de fruição", aumentaria as possibilidades reinterpretativas do receptor de modo a que ele possa adequar a estória aos seus próprios desígnios e não o contrário. Enfim, um público diferenciado poderia absorver os mesmos produtos, dotando-os de significado diverso. (...) A "massificação" obtida seria aquela correspondente a uma intenção do produtor visando encontrar produtos aceitos por um mercado diversificado, isto é, dar-se-ia uma massificação ao nível do consumo, sem que, no entanto, isso corresponda a uma padronização dos significados transmitidos, recebidos e aceitos."
Com isso, notamos que se põe em xeque a noção de comunicação enquanto transmissão de significados específicos, como era defendida pelos autores clássicos da noção de indústria cultural. Isto pode ser observado na imprensa brasileira, principalmente ao longo da ditadura militar, em que tinha que lidar também com a censura. "Sendo a constante uma divergência de opiniões bastante pronunciada, e que se manifesta nas várias etapas do processo de produção, a conseqüência no final é um "híbrido", que, se levarmos em conta toda a redação da matéria, poderá incluir nuances tendentes a influenciar o leitor num sentido ou em outro, ou pelo menos, fornecer certos dados que permitam "abrir" a ideologia contida na mensagem, possibilitando uma margem de reinterpretação. Essa característica provavelmente levará a que a leitura se processe como um recebimento de novas informações que, todavia, se localizam de acordo com o estereótipo pre-existente no consumidor." Nessas condições, se o editor quiser manter um controle ideológico mais rígido das matérias poderá acarretar uma diminuição na vendagem do órgão de imprensa, pois a possibilidade de que diferentes estereótipos de leitores reinterpretem, de acordo com suas opiniões, o que foi publicado, diminuirá. Assim, as matérias e os anunciantes não questionam a conservação da ordem, mas também seus interesses não devem ser defendidos tão radicalmente a ponto de causar prejuízos econômicos.

O meio de comunicação que está inserido num contexto de indústria cultural preocupa-se também com a questão econômica, pois esta é a lógica que rege o mercado, ou seja, se ele sofrer prejuízos deixará de existir e este não é o objetivo de quem é proprietário ou editor destes órgãos. Com isso, podemos perceber como é predominante o caráter empresarial na produção da notícia em detrimento da opinião do editor, pois isto poderia acarretar uma diminuição das vendagens. Destaca-se, também, o caráter conservador das publicações, sendo importante ainda mostrar que a diversidade das matérias e da estrutura dos órgãos de imprensa não significa uma diversidade de conteúdos no sentido em que eles permanecem sem questionar a forma em que a economia é organizada.

Edgar Morin já apontava para esta questão, mostrando que "revistas como Life ou Paris-Match, grandes jornais ilustrados como o France-Soir, superproduções de Hollywood ou grandes co-produções cosmopolitas se dirigem efetivamente a todos e a ninguém, às diferentes idades, aos dois sexos, às diversas classes da sociedade, isto é, ao conjunto de um público nacional e, eventualmente, ao público mundial. A procura de um público variado implica a procura de variedade de informação ou no imaginário..." Desta maneira, os semanários tendem ao ecletismo, que visa a satisfazer todos os interesses e gostos de modo a obter o máximo de consumo. Além disso, em relação ao desenvolvimento das revistas, "o maior emprego de cores vivas, o destaque dado ao desenho de um modo geral, constituem uma das mudanças mais notáveis da revista moderna. (...) Em todas elas, a fotografia colorida se tornou, não uma decoração a mais, senão um elemento editorial indispensável. O maior emprego de fotografias e o uso mais liberal da ilustração foram acompanhados da modernização e da renovação gerais das revistas de massa." Ao mesmo tempo, "à proporção que se foi transformando em negócio, a revista de assuntos gerais ou de consumidor precisou seguir métodos comerciais para poder sobreviver. À proporção que o periódico especializado se foi convertendo em porta-voz dos negócios ou em manual da indústria, precisou também dar uma atenção cada vez maior à própria sobrevivência comercial. Em tais condições, a revista tende a invocar bênçãos sobre a ordem social existente e a fazer que os leitores se acautelem contra experiências que ameaçam modificar a economia fundamental de que ela depende."

Com isto, ocorreu a diminuição da existência de jornais e revistas com matérias possuindo um posicionamento ideológico radical no sentido de não permitir uma reinterpretação mais diversificada por parte do público consumidor, o que poderia implicar numa diminuição do número de anunciantes e no lucro da empresa jornalística.

Na análise dos órgãos de comunicação:

"O meio encontrado para não ferir interesses de um público de composição policlassista geralmente resulta em mensagens que se mantêm na imediaticidade do real e tratam de maneira conservadora os diversos temas de que se ocupam, pois a estratégia publicitária busca canalizar e não contrariar valores já existentes na sociedade. (...) O importante é que a lógica que rege a construção da mensagem é a do lucro: a empresa domina o jornal."
Por analogia, vale lembrar a análise de Robert Stam sobre os telejornais: "como determinada informação poderia ser aplaudida por uma parte da audiência e deplorada por outra - a sujeição dos sindicatos pelo poder agrada à classe empresarial, mas não à classe trabalhadora - , e como a audiência é heterogênea, atravessada por tensões em torno de questões de classe, étnicas e sexuais, qualquer expressão inequívoca de aprovação ou desaprovação afastaria automaticamente uma parte da audiência. A retórica da diplomacia do canal de televisão fornece, assim, um tipo de exposição atenuada dos fatos, cultivando a ambigüidade, acionando significados patentes mas que podem ser contraditórios, a acreditar que os apresentadores não estão tão longe daquilo em que eles próprios acreditam."

Neste relato sobre a importância da lógica mercadológica que rege os produtos da indústria cultural, queremos ressaltar que isso não significa dizer que os órgãos de imprensa não possuíam uma posição política relacionada aos acontecimentos da sociedade. Esta posição é defendida, contudo, até o momento em que não provocasse prejuízos econômicos à empresa. Com isso, suas crenças políticas estavam unidas aos interesses econômicos responsáveis pela sobrevivência dos jornais e revistas. No entanto, isto não é tão simples quanto parece. Quando as posições políticas dos órgãos de imprensa são contraditórias em relação ao regime político vigente criam-se conflitos em que serão levados em consideração os prejuízos econômicos que poderão acarretar e o momento político pelo qual passa o país. Mas este assunto será tratado posteriormente.
 
 

A crítica aos frankfurtianos

Outros estudos relativizam o enorme poder que teria a indústria cultural, de acordo com os seus primeiros teóricos.

Segundo Elihu Katz, "o estudo sobre comunicação de massa concentrou-se na persuasão, ou seja, na capacidade do mass media de influenciar, e usualmente mudar opiniões, atitudes e ações numa direção dada. (...) A imagem da sociedade na mente da maior parte dos estudiosos da comunicação era de indivíduos atomizados, ligados aos mass media mas não entre si." O que a pesquisa sobre comunicações de massa aprendeu "é que os mass media são muito menos potentes do que se esperava. Uma série de estudos indicam que as pessoas não são persuadidas com facilidade a mudarem as suas opiniões e comportamentos. A procura das fontes de resistência à mudança, assim como das fontes efetivas de influência quando as mudanças ocorrem, conduziu à descoberta do papel das relações interpessoais." O que importa são os valores compartilhados em grupos familiares, de amigos e de companheiros de trabalho e as redes de comunicação que formam a sua estrutura, sendo importante o papel dos membros influentes para aceitar ou rejeitar uma nova idéia. "Quando o processo de tomada de decisão é subdividido em fases (por exemplo, tomar conhecimento de uma inovação, interessar-se por ela, avaliá-la, decidir experimentá-la, etc.) os mass media parecem ser mais influentes nas fases informacionais iniciais, ao passo que as influências pessoais exercem maior efeito nas fases subseqüentes, de deliberação e decisão." Desta maneira, este autor reconhece a influência dos meios de comunicação na mudança de comportamento, mas entende que ocorre uma influência conjunta dos meios de comunicação e do grupo ao qual a pessoa pertence. Uma outra questão seria analisar os meios de comunicação enquanto formadores de opinião, por exemplo, em se tratando de algum assunto polêmico. Talvez aí, a sua influência seja mais direta.

Muitos estudiosos dos meios de comunicação de massa argumentam que as idéias "reforçam" mais do que "mudam" a visão prévia das pessoas, seus hábitos e suas ações. Para eles, deve-se encontrar um equilíbrio entre a ênfase da estrutura social e a ênfase da ação individual. Em relação aos meios de comunicação não há simples respostas sobre a questão da influência da cultura nas atitudes, crenças e comportamentos das pessoas. Os objetos culturais não trabalham com todas as pessoas. Nenhum dos objetos tem somente uma mensagem e nem seus autores normalmente controlam qual mensagem as pessoas recebem e quais pessoas recebem a mensagem.

Uma outra vertente de análise levanta um novo problema: "os meios de comunicação elevam o nível de informação, mas canalizam as energias do homem para um conhecimento passivo, em lugar de uma participação ativa. O indivíduo limita-se a ler relatos de questões e problemas e acaba confundindo conhecer os problemas do momento com fazer algo a seu respeito. Os meios de comunicação, além de reiterar a ordem vigente, recusam-se a levantar as questões essenciais no tocante à estrutura social." Esses meios incentivam o conformismo e restringem o desenvolvimento crítico do indivíduo. Desta maneira, os órgãos de imprensa, por serem economicamente comprometidos, não se empenham num trabalho de transformação, mesmo limitada, da sociedade. "Estes meios comercializados renunciam imediatamente a seus objetivos sociais quando estes se mostram incompatíveis com os lucros econômicos. (...) Em suma, as mesmas condições que permitem a máxima eficácia dos meios de comunicação de massa, ao invés de propiciarem quaisquer mudanças, auxiliam na manutenção da presente estrutura social e cultural."

Com isso, mesmo que a influência dos meios de comunicação não seja totalmente direta nos indivíduos e dependa também de suas relações interpessoais, esta influência atua no sentido de que estes indivíduos apenas conheçam os problemas, e não reflitam sobre a estrutura da sociedade. Então, ainda que a influência dos órgãos de imprensa não seja sentida diretamente, as questões colocadas por eles apenas apontam os problemas da sociedade, mas não questionam a ordem capitalista.
 
 

A crítica à crítica aos frankfurtianos

Os autores que apontam este processo desmistificando o enorme poder dos meios de comunicação estão realizando uma crítica à Escola de Frankfurt. No entanto:

"Ao contrário do suposto pelos seus adversários, a crítica à indústria cultural não procede a uma reificação dos sujeitos sociais e, por extensão, do consumidor dos bens culturais (o receptor). Partindo da idéia de que no enfoque adorniano as comunicações não são um processo unidimensional através do qual se manipula os receptores, sugere-se antes que, segundo ele, o indivíduo moderno conduz-se com ambigüidades diante das estratégias com as quais as empresas culturais procuram cativá-lo..."
Conforme Rüdiger, a corrente dos estudos culturais defende que o paradigma frankfurtiano não tem um conceito de público como receptor ativo e criador de significados. Mas esta crítica não procede à suposta reificação do receptor, pois este é tratado como sujeito. O autor exemplifica com uma citação de Adorno afirmando que as massas não vêem e aceitam o mundo tal como lhes é preparado pela indústria cultural. Adorno afirma que os indivíduos podem resistir, de acordo com seus interesses, e dentro de certos limites, ao aprisionamento da indústria cultural; e que as formações ideológicas que circulam através das mercadorias não são necessariamente as mesmas dos seus consumidores. Com isso, percebemos que os frankfurtianos não construíram uma visão impositiva da cultura de massa, reduzindo as comunicações a um processo unidimensional em que a indústria cultural manipula seus consumidores (não há apenas uma passividade na audiência). Para os frankfurtianos:
"As comunicações de massa reforçam as exigências que a sociedade coloca a cada indivíduo para poder funcionar e para que este funcione conforme ela necessita. No entanto, para que seja assim precisam coadunar-se com suas inclinações. Raramente transmitem algo que seus clientes não tenham aprendido antes em sua vida cotidiana. Embora possamos discutir até que ponto são artificiais, as mercadorias culturais são produtos da práxis humana que estão baseadas, antes, na exploração do que na negação das aspirações e desejos do indivíduo."
Rüdiger realiza um estudo dos livros escritos por Adorno depois da publicação da Dialética do Iluminismo, em que foi formulado inicialmente o conceito de indústria cultural. Anos mais tarde, Adorno reviu algumas posições mais radicais, como por exemplo, a de que os indivíduos não conseguiriam "ver claramente" o que realmente acontecia na sociedade devido à influência dos produtos da indústria cultural. Ele apontou também para a questão das resistências dos indivíduos que não possuíam comportamentos simplesmente doutrinados pelos meios de comunicação. Com isso, os frankfurtianos enriqueceram a primeira análise que haviam feito sobre o processo de mercantilização da cultura sem perder o argumento central de que, com o mundo industrial moderno, a sociedade passou a ser regida pelo consumo e portanto, os indivíduos passaram a servir aos interesses daqueles que detinham o capital e difundiam a ideologia capitalista. Desta maneira, não passou a existir uma sociedade amorfa e indiferenciada, mas uma "ideologia produtora de cultura de massa, que serve a todos da mesma maneira... (...) O indivíduo passa a fazer parte da imensa maioria que tem o consumo como maior estímulo, o conformismo como traço de caráter e a maleabilidade como formadora de hábitos e conceitos."

Em relação aos meios de comunicação, é importante ressaltar que eles transmitem as "visões de mundo" da sociedade capitalista, pois estão economicamente atrelados a ela. Preocupam-se em obter um maior número de leitores e, por isto, há uma diversidade de assuntos com a intenção de conquistar o público consumidor, mesmo possuindo um conteúdo conservador em suas mensagens. No entanto, muitas vezes, os jornais e revistas entram em contradição com o regime vigente quando este fere os interesses destes órgãos de imprensa. Com isso, as relações entre imprensa, empresa e leitor devem ser situadas num sistema maior que envolve o Estado e a sociedade.
 
 


IMPRENSA, EMPRESA E LEITOR


A importância do leitor

A questão fundamental para os jornais e revistas é a obtenção e atração dos leitores, pois, além do aspecto político, a imprensa é orientada, principalmente, pela lógica do lucro. Os empresários-jornalistas "enfrentam os concorrentes com todas as armas de que dispõem: notícias, opiniões e atrativos diversos para atender a todos os gostos." Entra-se, com isso, no assunto do público consumidor:
 
 

"O leitor não é nada mais do que meio para um objetivo, para a maximização dos lucros dos editores e dos promotores da publicidade, assim como para o asseguramento necessário do sistema capitalista existente. Como tal, o leitor é tudo, menos "desprezado" ou abandonado. Ao contrário, o leitor está, para o editor, no centro, pois ele é a base de sua existência. Sem ele, o editor não recebe nenhum contrato de anúncio e sem este, nenhum lucro. É por isto que a luta pelo leitor, necessária para a sobrevivência, é conduzida em todos os frontes."
No entanto, como outros autores já notaram, nas pesquisas realizadas com o leitor "não se questiona por que ele observou isto e não outra coisa; não se diz nada a respeito do fato, se ele realmente leu ou apenas o viu e se ele o entendeu. Não se pergunta também se o leitor talvez tenha necessidade de algo que não está de forma alguma nos jornais apresentados. Não se examina absolutamente se o leitor, objetivamente avaliado segundo os seus interesses reais, que talvez não lhe sejam conscientes, não necessitaria de um jornal com conteúdos totalmente diferentes." Assim, "com base no interesse do lucro privado, a imprensa não pode preencher sua "incumbência pública" em proveito da grande maioria de seus leitores, pois sua função informativa para a massa dos leitores termina no máximo onde ela colide com o interesse privado do capital e com o direito do editor-empresário ao funcionamento organizado e eficiente da empresa."

Os proprietários dos meios de comunicação têm consciência de que o público possui uma composição heterogênea e, por isto, pode haver diferentes formas de recepção da mensagem fornecida por eles. Desta maneira, há uma preocupação em agradar diferentes tipos de leitores e um exemplo disto é que os periódicos e semanários dividem o espaço da política com outros assuntos como o suplemento feminino, o de lazer, o cultural, o de esporte, etc, tentando atingir vários segmentos da população. "Ao apresentar a defesa do capitalismo, a partir da ótica do ‘interesse público e da imparcialidade’ com relação a partidos e segmentos de classe, é uma orientação coerente, em princípio, com um produto da indústria cultural, pois, ao mesmo tempo que se torna a publicidade do sistema, faz isso em termos que abrem a possibilidade de que o jornal se torne uma imprensa de massa - no sentido de se dirigir a um grande número de leitores, de composição heterogênea policlassista, ou seja, expanda o seu mercado potencial." Isto não significa dizer que o órgão de comunicação não possua uma mensagem política para seus leitores. Além disso, "pode-se trabalhar por meio de um sistema de segmentação de mercado também, desde que haja um segmento com um número absoluto de leitores suficiente para a escala de produção do jornal."
 
 

Imprensa e modernização

A transmissão, pela imprensa, dos acontecimentos que ocorrem na sociedade não é neutra, nem imparcial, pois esta constitui "um instrumento de manipulação de interesses e intervenção na vida social." Assim, é importante "captar o movimento vivo das idéias e personagens que circulam pelas páginas dos jornais" e revistas, não deixando de lado o contexto histórico no qual estavam inseridos, além dos interesses econômicos que regiam estes órgãos de imprensa.

"A imprensa, tal como a produz a classe dominante, já constitui um discurso específico. Pode-se dizer que o discurso jornalístico assenta-se em técnicas de composição, montagem, texto e ilustração que asseguram um estatuto de verdade - objetiva e imparcial - ao fato relatado. Esse estatuto entretanto se define por um escamotear do ‘como se relata’, em favor da ilusão de uma exposição transparente do fato. Ou seja: mover a ilusão de uma acessibilidade imediata ao real. Se a função econômica do jornal é trazer ao público os fatos a que esse público não tem acesso, sua função política é configurá-los segundo determinações ideológicas e de mercado. Esse mecanismo nos lembra o do mito que não pretende ocultar, mas provocar uma distorção, evocar uma significação. Uma fala que despolitiza e naturaliza."
Por isto, os órgãos da imprensa devem ser relacionados a determinadas condições sociais, políticas e econômicas de uma época.

Para mostrar o desenvolvimento da imprensa na Europa, Jürgen Habermas aponta três fases:

Inicialmente, a empresa jornalística era organizada em forma de pequena empresa artesanal, os cálculos orientavam-se por princípios de uma maximização modesta dos lucros, mantida dentro dos limites tradicionais do capitalismo iniciante. Temos, então, a imprensa informativa, em que a atividade do editor limitava-se à organização de notícias e à própria coleta de informações.

Numa segunda fase, os jornais transformaram-se em portadores e condutores da opinião pública, e mais tarde, meios de luta da política partidária. Ainda aqui, o capital empresarial é investido secundariamente para uma utilização rentável. Esta fase é chamada de jornalismo literário, pois possuía um impulso pedagógico e mais tarde político, sendo que, em sua maioria, os jornais surgiram da iniciativa individual de eruditos, escritores e intelectuais. Este tipo de jornalismo permanecerá até o século XIX quando iniciou-se a última fase.

Finalmente, com o estabelecimento do Estado de Direito burguês e com a legalização da difusão pública, a imprensa opinativa passou a considerar as oportunidades de venda como uma empresa comercial. Esta é a fase da imprensa de negócios ou jornalismo empresarial e inicia-se, na Europa, durante os anos 30 do século XIX. O jornal assume o caráter de uma empresa que produz espaço de anúncios como mercadoria que é vendável pela parte redacional. Isto institui o jornal no caráter de empresa capitalista lucrativa e privada. Este desenvolvimento ocorreu junto com o aumento e o aperfeiçoamento dos aparelhos técnicos, principalmente o telégrafo. Além disso, desenvolveu-se a publicidade e fixou-se comportamentos de consumo. Os jornais que não se adequaram a este caráter empresarial, segundo Habermas, estavam economicamente liqüidados. Portanto, os produtos da imprensa passam a ser comercializados como mercadorias e seus conteúdos assumem formas de mercadorias, ou seja, é um conteúdo capitalista que estabiliza o sistema.
 
 

A INDÚSTRIA CULTURAL NO BRASIL


A imprensa literária e empresarial

Na imprensa brasileira também ocorreu a passagem dos jornais políticos para os mercadológicos, ou seja, a transformação do jornalismo literário em jornalismo empresarial. Os jornais que não se adequaram a esta transformação não sobreviveram ou foram comprados por organizações empresariais. Um exemplo disto é analisado por Gisela Taschner, que mostrou a formação do conglomerado do grupo Folhas. Este grupo comprou importantes jornais como Última Hora e o Notícias Populares (que não se adequaram à lógica industrial que passou a mover a imprensa brasileira), além de editar a Folha da Tarde e a Folha de S. Paulo. O grupo Folhas se ajustou à lógica empresarial para a produção de seus meios de comunicação, nos quadros de desenvolvimento do capitalismo no Brasil e de apoio estatal à indústria cultural.

Em contraste, um importante estudo de um jornalismo ainda literário é realizado por Maria Helena Capelato e Maria Lígia Prado, que mostraram a trajetória do jornal O Estado de S. Paulo, no período 1927-37. A análise ressalta a defesa dos princípios liberais presentes nas matérias do diário. Assim, a confecção da mensagem era regida mais pelas idéias defendidas pelos proprietários do jornal do que por um caráter mercadológico de sua produção.

Em relação ainda ao O Estado de S. Paulo, os estudos de Maria Aparecida Aquino analisam a censura ocorrida no jornal durante o período ditatorial e também suas relações com o governo, mas ainda não há uma análise da época em que se consolidou a indústria cultural no Brasil e como o jornal se adaptou e se ajustou a isto.

Com efeito, no período ditatorial, a grande imprensa sofreu grandes transformações. De modo sucinto, pode-se dizer que entre os anos de 1964 a 1985 o governo militar incentivou o desaparecimento dos órgãos de propriedade familiar e relativamente independentes, fazendo surgir jornais e revistas cada vez menos "ideológicos" e mais voltados para o mercado.
 
 

O processo brasileiro

Este trabalho focaliza um período histórico determinado: a ditadura militar brasileira (1964-85). Justamente a época em que, segundo Gisela Taschner, começou a se tornar perceptível a formação de uma indústria cultural no Brasil, isto é, um sistema de complexos empresariais ligados ao setor da chamada comunicação de massa. Como ressaltou Tânia Pellegrini, "a instauração do Estado militar aponta no nível econômico, para um aprofundamento das tendências já verificadas no período anterior, do governo Juscelino, ou seja, a paulatina introdução do Brasil no circuito do capitalismo avançado." Dois fatores facilitaram esse desenvolvimento: 1) o ingresso do Brasil na etapa monopolista do capitalismo que se fez apoiado não só no capital privado nacional, mas também no estrangeiro e no Estado; 2) o reordenamento político do país, após o Golpe de 64, que gradualmente desembocou em um período de autoritarismo, com a conseqüente construção de um novo pacto de poder baseado em uma aliança entre a burguesia, classes médias e militares, que excluía as classes populares.

Entre os aspectos favoráveis ao desenvolvimento da indústria cultural podemos destacar:

- a industrialização, o desenvolvimento do comércio e serviços e o crescimento do setor produtivo estatal que forneceram quadros para os novos setores médios da sociedade. A redistribuição da renda em favor dos estratos médios mais altos e da população de alta renda formou o grande mercado para a indústria cultural. Além disso, devido ao aumento de trabalhadores em cada família, parcelas das camadas mais baixas tiveram acesso a este mercado, embora ele excluísse grande parte da população brasileira.

- os governos pós-64 que realizaram a reforma do ensino entre 1968 e 1971. O ensino do terceiro grau passou a crescer promovido pela iniciativa privada para atender à demanda das novas ocupações abertas pela grande indústria. Os ensinos do primeiro e segundo graus também foram reformulados dentro da ideologia do "Brasil Grande" : o ensino era uma área importante para que o regime autoritário pudesse impor seus valores sobre a população. Assim, houve algum progresso nesta área, que deve ter aumentado o número de leitores dos produtos da indústria cultural.

- o desenvolvimento da publicidade, enquanto técnica privilegiada de competição entre as grandes empresas. Destacava-se a presença da indústria automobilística e suas concessionárias, dos bancos, sociedades imobiliárias, lojas de departamentos, agências de viagens, lojas de material de construção e de outros órgãos da mídia como a televisão e o rádio. Entre estes anunciantes estão incluídos os de setores modernos da economia. O crescimento da publicidade teve um personagem importante: o Estado que foi um grande anunciante, com os anúncios que promoviam as estatais, as obras do governo, e o governo propriamente dito, federal, estatal e local. Foi a época do "Brasil, ame-o ou deixe-o" e "Ninguém segura este país". Além disso, o aumento da publicidade é vital para o desenvolvimento da indústria cultural, pois ela financia, em parte ou no todo, a maioria dos meios de comunicação. Entre 1970 e 1974, por exemplo, os investimentos em publicidade no Brasil passaram de 370 para 900 milhões de dólares, além dela ter se organizado empresarialmente.

- o desenvolvimento da infra-estrutura das telecomunicações, da qual se beneficiou a indústria cultural. Um exemplo foi o desenvolvimento da indústria gráfica e editorial, com incentivo para importação de equipamentos.

Assim, o Estado foi fundamental para o desenvolvimento da indústria cultural. Nesta época, ele gastou em publicidade, investiu nas telecomunicações, cuidou da área de educação, forneceu subsídios para a renovação e ampliação de equipamentos das empresas, deu sustentação a um modelo econômico apoiado no setor de bens duráveis, mas em compensação, "calou vozes", o que incluiu a intervenção em sindicatos, cassações, extinção dos partidos, prisões arbitrárias, torturas, "desaparecimentos", restrições à liberdade de expressão, etc.
 
 

Ditadura e indústria cultural

Após o Golpe de 1964, ocorreu a consolidação de uma poderosa indústria cultural em bases não só capitalistas, mas cada vez mais monopolistas de Estado. O processo atingiu mais duramente os grandes meios de comunicação de massa como a televisão, a grande imprensa, a produção de discos e o cinema. Este processo de monopolização da indústria cultural gerou uma forte expansão quantitativa dos chamados bens culturais, o que, antes de mais nada, serviu para ocultar o fenômeno do vazio cultural, que é obviamente um fenômeno de natureza qualitativa.

Mesmo sendo baixos os orçamentos destinados pelo Estado à área cultural, existia um projeto cultural no Brasil, que era o projeto de mercado, era a indústria cultural. "Não era um projeto engendrado e implementado pelo Estado, mas sim por empresas privadas, sendo por ele consentido". Assim, além de ter consentido na implementação da indústria cultural no Brasil, o Estado também possibilitou e incentivou o seu surgimento. Por este motivo, os investimentos na cultura por parte do Estado não foram baixos como afirma o autor, mas sim, direcionados a setores de bens culturais que interessavam ao governo e que não o contestavam.

Nesse quadro, a indústria cultural vale como um "novo lugar - direta ou indiretamente supervisionado pelo Estado - de fabricação de idéias afins ao jogo do poder, em substituição progressiva das antigas redes escolares, cada vez mais atravessadas por crises de eficácia ou de desempenho produtivo ou ainda por crises políticas. Com os novos dispositivos de mercado cultural, abre-se a oportunidade para que as classes dirigentes de certo modo "corrijam" um fracasso histórico: a integração das diferentes camadas sociais (burguesia, classe média, operários, subempregados) através da cultura objetivada, da culturalização". Desta maneira, os meios de comunicação funcionam como mobilizadores e integradores das populações e não suscitam a compreensão e a descoberta.

O Estado autoritário permitiu consolidar no Brasil um capitalismo tardio. Em termos culturais esta reorientação econômica trouxe conseqüências imediatas, pois, paralelamente ao crescimento do parque industrial e do mercado interno de bens materiais, fortaleceu-se o parque industrial de produção de cultura e o mercado de bens culturais. No Brasil, a constituição de um sistema de comunicações economicamente forte, dependente da publicidade, passou necessariamente pelo Estado (que era um dos principais anunciantes). O governo, com suas agências, detinha um poder de "censura econômica", pois ele era uma das forças que compunham o mercado. A censura "excessiva" era certamente um incômodo para o crescimento da indústria cultural, mas este era o preço a ser pago pelo fato de ser o pólo militar o incentivador do próprio desenvolvimento brasileiro. Com o Golpe Militar e o avanço da sociedade de consumo, ocorreu um desenvolvimento e uma especialização do mercado (a lógica mercadológica despolitizava a discussão, pois se aceitava o consumo como categoria última para se medir a relevância dos produtos culturais). Além disso, a indústria cultural não podia fugir do quadro mais amplo que correspondia à questão cultural como um confronto entre o nacional e o estrangeiro (dependência cultural). Os meios de comunicação apareciam, desta forma, como um processo de dominação que reforçava a posição dos países centrais.

Como podemos perceber, no regime ditatorial ocorreu a consolidação da indústria cultural no Brasil. Ao mesmo tempo que o Estado censurou a produção de determinados bens culturais, também foi o grande incentivador do desenvolvimento desta indústria, principalmente através da publicidade - o Estado e as multinacionais eram os principais anunciantes nos órgãos de imprensa - e da facilidade de importação de equipamentos para a indústria gráfica e editorial. Através destes "incentivos" é que o governo controlava economicamente estes canais de produção cultural e assim fazia com estes mesmos canais realizassem a autocensura, além daquela já realizada pelos órgãos de repressão, como por exemplo, o Sistema Nacional de Informação (SNI). Assim, tendo estas diversas formas de controle, o Estado foi o grande promotor e censor dos produtos culturais colocados no mercado. Desta maneira, no período ditatorial, ocorreu o deslocamento do Estado para o centro da produção cultural e de tudo aquilo que envolvia a divulgação de idéias, incluindo aí, os meios de comunicação. Neste quadro, temos o estímulo da produção de bens culturais que não questionavam a situação do país, gerando um aumento da quantidade destes bens disponíveis no mercado e a coibição daquilo que não condizia aos interesses do Estado; e também uma diminuição da qualidade dos produtos culturais disponíveis no mercado. Junto a isto, a presença da censura aos produtos da indústria cultural e especificamente aos órgãos de imprensa mostra o controle pretendido pelo Estado neste processo cultural brasileiro. Para melhor entender isto, analisaremos o mecanismo de funcionamento da censura.
 
 

IMPRENSA E CENSURA



A censura pode ser definida, de acordo com o Aurélio, como uma condenação, reprovação, crítica, exame de qualquer texto de caráter artístico ou informativo, feito por censor a fim de autorizar sua publicação, exibição ou divulgação. Desta maneira, a censura é o ato de julgar qualquer forma de expressão para autorização ou não de sua manifestação. Segundo Maria Aquino, a censura pode ser: empresarial, ou seja, as pressões econômicas são exercidas internamente dentro dos órgãos de divulgação e estão presentes em todos os períodos, não ficando presas a determinadas circunstâncias históricas; e política, ou seja, restrita a limites temporais específicos, de orientação externa ao periódico e utilizada enquanto um instrumental repressivo. Assim, existe um tipo de censura que "se exerce internamente e pode ser denominado de empresarial sendo fruto de pressões econômicas às quais, particularmente, os órgãos da grande imprensa cedem, pois, parcela significativa de suas receitas se origina da publicidade". Neste caso, as pressões podem advir "do grupo cujos interesses estão representados através dos proprietários do periódico, ou de seus anunciantes. Ambos podem sentir-se incomodados com a divulgação de determinadas notícias e assim, interferir em sua veiculação. Este tipo de censura, entretanto, independe do momento histórico vivenciado pelo país, sendo inerente à estrutura de uma grande empresa capitalista, obrigada a fazer concessões e a ceder a pressões". Já a "censura política, exercida pelo Estado, para proteger interesses nele representados, interfere na divulgação de informações, determinando o que pode ou não ser veiculado."

Aquino trata da censura política realizada nos jornais O Estado de S. Paulo e Movimento. Neste trabalho, no entanto, ao analisarmos a revista Veja, levaremos também em consideração a censura empresarial, pois entendemos que o Estado exercia pressão a favor de seus interesses por meio do grande número de anúncios que publicava. A censura empresarial continuou a ser exercida quando a censura política foi extinta ainda no período ditatorial, e continuou moldando as relações do governo com a revista Veja. "Os militares que se sucederam no poder a partir de 1964 também lançaram mão de não menos condenáveis pressões econômicas e administrativas, capazes de reenquadrar os meios de comunicação na dócil linha mestra traçada pelo governo. Essas represálias contra a independência de certos órgãos de imprensa se materializaram na maior ou menor dificuldade de conceder empréstimos, na maior facilidade de permitir a importação de equipamentos vitais, na concessão ou não de publicidade oficial, nas pressões sobre anunciantes particulares..."

Assim, a censura empresarial é relevante neste trabalho, pois também é um indicador das relações dos governos militares com a imprensa. Para exemplificar esta importância, temos alguns depoimentos de jornalistas censurados, coletados por Paolo Marconi:

"O governo sempre usa o seguinte recurso: ameaçar ou favorecer. É uma faca de dois gumes utilizada pelos dois lados. De um lado está o favorecimento, o pequeno favorecimento - não o favorecimento que gera a independência completa - aquele que tira a corda do pescoço do cidadão e coloca na altura da orelha. De outro, está a ameaça pura e simples. Exemplo: facilitar a importação de um equipamento gráfico ou impedir a sua importação, ou então favorecer ou impedir o crédito para o capital de giro. Na verdade, o poder político aliado ao poder econômico que o sistema dá ao arbítrio é irresistível." (depoimento de Pompeu de Souza).

"Havia a censura da polícia e aquela que era feita através da troca de favores. Os donos dos jornais telefonavam para o governo pedindo favores e assim também o governo se achava no direito de telefonar para pedir que não fossem publicadas certas notícias. (...) O jornal-empresa, que tem os mesmos problemas de uma fábrica de sabonetes, de uma siderúrgica, de uma fábrica de cimento, não pode se dar ao luxo de ter a liberdade que vai afetar o desenvolvimento da sua empresa." (depoimento de Hélio Fernandes).

"Eu não acho nada de estranho nos donos das empresas jornalísticas aceitarem as pressões do governo. Não há nada de estranho nisso: os donos de jornais pertencem a uma classe social definida que estão ou tem estado até agora protegidos pelo sistema." (depoimento de Claudio Abramo).

"O jornal brasileiro sempre viveu à sombra do poder e, segundo, sempre controlando a informação". (depoimento de Alberto Dines).

"Acho também que se desenvolveu nestes 15 anos uma censura da maior inteligência, porque primeiro foi à força, à força se manteve até 1975 em maiores e menores órgãos da imprensa brasileira. A partir daí, descobriu que tinha o controle econômico de toda a imprensa e que então não precisava mais censurá-la. E hoje a imprensa continua absolutamente sob censura, não mudou nada porque agora está sob rígido controle econômico. A censura policial deixou de existir porque deixou de ser necessária." (depoimento de Hamilton Almeida Filho).

A partir destes depoimentos podemos perceber que aliada à censura política estava a censura empresarial. Os jornais e os semanários eram veículos com muita publicidade e anúncios, responsáveis em parte pela renda que sustentava estes órgãos. "Retirar a publicidade ou então pressionar os anunciantes particulares para não programarem os órgãos incômodos ao governo foi uma técnica largamente utilizada." Com isso, a censura deve ser analisada no contexto de um Estado política e economicamente intervencionista. "Num país em que o Estado desempenha um papel econômico e financeiro fundamental, houve até efeitos secundários, isto é, empresas privadas que, diretamente coagidas ou simplesmente receosas da suspensão de negócios com o Estado, suspenderam a sua própria publicidade."

Desta maneira, "parece claro que o próprio êxito comercial de muitos jornais, que passavam de pequenos produtores artesanais a grandes empresas capitalistas, criou limites ao que eles poderiam publicar." Gláucio Ary Dillon Soares destaca, entretanto, que os grandes anunciantes não possuíam um poder ilimitado, pois retirar a publicidade de uma grande empresa jornalística ou de televisão significava não atingir o público servido pelo jornal ou estação de televisão, uma decisão que poderia ser comercialmente desastrosa para a empresa anunciante. Deve-se levar em consideração isto, mas, a censura empresarial é um importante componente das pressões do Estado sobre os meios de comunicação. Com isso:

"A censura foi, principalmente, um instrumento de proteção autoritária do próprio Estado. Ela procurou esconder o autoritarismo de forma autoritária, assim como as resistências a ele."
 
 

A CENSURA POLÍTICA



No período ditatorial brasileiro, procurou-se impedir a crítica aos governos militares por parte da população e também por parte da imprensa. Para isto, foi montado e desenvolvido um sistema para controlar a divulgação de idéias, pensamentos e informações através dos meios de comunicação, além de um aparato "legal" para enquadrar os jornalistas que fossem contra a ordem estabelecida.

No governo do general Castelo Branco foi editado o Ato Institucional n. 2, em 27 de outubro de 1965. O seu artigo 24 "retirou do júri a competência para o julgamento dos abusos da imprensa e aumentou o prazo de prescrição das correspondentes ações penais. (...) No artigo 12 instituía-se: não será tolerada propaganda de guerra, de subversão da ordem ou de preconceitos de raça ou de classe. Assim, caso o governo pretendesse, poderia reprimir até mesmo a simples veiculação de idéias, desde que estas fossem contrárias à ordem vigente."

Em dezembro de 1966 foi editada a Lei de Imprensa que "incorporava a Doutrina de Segurança Nacional da Escola Superior de Guerra, tornando vulneráveis quaisquer jornalistas ou donos de jornal que praticassem ‘alguns dos crimes definidos em lei contra a segurança nacional ou instituições militares’." Ainda na presidência de Castelo Branco, logo após a sanção da Lei de Imprensa, "decretou o Executivo, nova Lei de Segurança, que incidia largamente sobre delitos cometidos por meio da imprensa, remetendo seu julgamento a tribunal militar." Desta maneira, qualquer agente do Estado protegia-se sob a Lei de Segurança, que incluía também "crimes" cometidos pelos órgãos de comunicação. Com esta lei ocorreu a censura para toda imprensa, determinando o que a população deveria ou não saber. A chamada grande imprensa, afetada pela censura do Estado autoritário, foi a mesma que apoiou o Golpe Militar em 1964 e, entre seus órgãos mais expressivos, podemos citar: O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, O Globo, Correio da Manhã e Jornal do Brasil. Estes meios de comunicação apostaram na solução militar e mais tarde sofreram as suas conseqüências.

Além disso, no governo Castelo Branco, foi criado pela lei 4.341 de junho de 1964, o SNI (Serviço Nacional de Informações) idealizado pelo general Golbery do Couto e Silva com a finalidade de centralizar as informações obtidas por outros órgãos do governo. Segundo Ana Lagôa, o SNI tinha competência legal para produzir informações para uso do presidente da República e do Conselho de Segurança Nacional. A agência central se ligava às agências regionais que trabalhavam com arquivos setoriais e assessoravam os governos estaduais. O titular do SNI tinha status de ministro de Estado e seu gabinete funcionava no Palácio do Planalto. Além de um aparelho repressivo sofisticado, o serviço fazia parte de uma estratégia global que nasceu dos preceitos colocados pela Doutrina de Segurança Nacional. Segundo esta Doutrina, a segurança nacional, " ‘é a garantia que, em grau variável, é proporcionada à nação, principalmente sob a égide do Estado, através de ações políticas, econômicas, psicossociais e militares, para a conquista e manutenção dos Objetivos Nacionais, a despeito dos antagonismos e pressões latentes ou potenciais.’ " Para os militares, defensores do Ocidente contra o comunismo, "estaria em marcha um processo de destruição da cultura ocidental, na qual os movimentos subversivos internacionais, utilizando-se dos meios de comunicação, tentam destruir as bases morais e culturais do mundo ocidental. (...) Grande parte das Forças Armadas, principalmente dos integrantes dos órgãos de segurança e informação, não só achava que os meios de comunicação do Brasil faziam o jogo do inimigo, como também estava convicta de que eles estavam infiltrados ‘de agentes treinados e especializados na técnica revolucionária de conquista da opinião pública e do poder.’ (Boletim especial n.2 do documento do III Exército, in: O Globo, 28/03/78, p.8)."

Alguns órgãos tributários do SNI como o CIE (Centro de Informação do Exército), o CISA (Centro de Informação e Segurança da Aeronáutica) e o CENIMAR (Centro de Informação da Marinha) "tinham autonomia para, em entendimento com o respectivo ministro, elaborar os informes, produzir informações, planejar e coordenar ações de seus escalões subordinados. Enfim, esses órgãos se encarregavam do grosso das operações, solicitando orientação do SNI só em caso de muita gravidade." Havia também o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), que estava sob o controle das Forças Armadas, além do Departamento de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), que realizava ações repressivas e torturas para manter a ‘segurança nacional’. No entanto, a ditadura não era monolítica. "A jurisdição da censura, da informação e da segurança nunca foi ponto pacífico, sendo freqüentes os conflitos entre os serviços de informação, principalmente entre o CIE e o SNI."

Com o Ato Institucional n.5, editado em 13 de dezembro de 1968, já no governo Costa e Silva, a censura instalou-se de forma definitiva. O AI-5 só foi revogado em dezembro de 1978 e durante dez anos "o presidente da República teve poderes - exercendo-os plenamente - para determinar a censura da correspondência, da imprensa e das telecomunicações, acobertado pelo manto discricionário do artigo 9 do AI-5 que lhe permitia adotar estas medidas ‘se necessário à defesa da Revolução’."

Já "em janeiro de 1970, o presidente Emílio Garrastazu Médici baixou o Decreto-lei n. 1.077, que objetivava reprimir as publicações e exteriorizações obscenas. Nesse sentido, afirmava o artigo n.1 que ‘não seriam toleradas as publicações e exteriorizações contrárias à moral e aos bons costumes, quaisquer que fossem os meios de comunicação.’ Para tornar efetiva essa disposição legal, o artigo n.2 atribuiu ao Ministro da Justiça o dever de, ‘através do Departamento de Polícia Federal, verificar, quando julgar necessário, antes da divulgação de livros e periódicos, a existência de matéria infringente da proibição enunciada.’ Verificada a existência de tal tipo de matéria, o mesmo Ministro proibirá a divulgação da publicação ou exteriorização e determinará a busca e a apreensão de todos os seus exemplares." Assim, a censura prévia passou a ser instituída e o caráter subjetivo para julgar aquilo que se encaixava como ‘matéria ofensiva à moral e aos bons costumes’ ficava à mercê do censor.

Como vimos, foi montado no Brasil um forte aparato de segurança para controlar as informações e responsável também pela repressão a qualquer manifestação contrária aos interesses dos militares no poder. A censura, à primeira vista, parecia ser desordenada e inconsistente, mas ela possuía uma lógica que estava ligada ao Estado autoritário e ao seu ideário de transmitir uma aparência "democrática" ao país. A censura era a própria negação do conhecimento, por isto, censuravam-se também as matérias dos meios de comunicação que mostravam o mecanismo de funcionamento da censura.

Segundo Maria Aquino, as formas de atuação da censura política à imprensa escrita, no Brasil, foram:

1) através de telefonemas, anônimos ou não, de ordens escritas, apócrifas ou não, encaminhados às redações dos jornais ou de acordos fechados com os proprietários de grandes órgãos de divulgação. Isto determinava o que deveria ou não ser publicado e a sua aceitação levava à autocensura (o papel censório ficava transferido do Estado para o âmbito da direção do órgão de divulgação).

Segundo Rivaldo Chinem, a censura seguia uma espécie de decálogo que proibia: "1) Inconformidade com a censura de livros, periódicos, jornais e diversões; 2) Campanha pela revogação dos Atos Institucionais, nomeadamente do AI-5; 3) Contestação ao regime vigente - difere da oposição que é legal; 4) Notícias sensacionalistas que prejudicam a imagem do Brasil e as tendentes a desnaturar as vitórias conquistadas pelo país; 5) Campanha de descrédito da política habitacional, do mercado de capitais e de outros assuntos de vital importância para o governo; 6) Notícias de assaltos a estabelecimentos de crédito e comerciais, acompanhadas de relato detalhado e instrutivo; 7) Referências à tensão entre a Igreja católica e o Estado e à agitação nos meios sindicais e estudantis; 8) Publicidade sobre nações comunistas e pessoas do mundo comunista; 9) Críticas contundentes aos governadores estaduais, procurando demonstrar o desacerto da escolha pelo governo federal; 10) Exaltação da imoralidade, com notícias sobre homossexuais, prostituição e tóxico."

2) através da censura prévia aos órgãos de comunicação que resolvessem publicar o que não era permitido. Ela atuava de duas maneiras:

a) instalando seus censores na redação do periódico, sendo que, estes, após a preparação de todas as matérias, realizavam uma leitura selecionando e cortando aquilo que, segundo suas instruções, não poderia ser divulgado;

b) no caso de órgãos de divulgação cuja periodicidade não fosse diária, muitas vezes, para penalizá-los mais, a censura exigia que em data pré-fixada todo o material preparado para publicação fosse entregue, ou na Delegacia Regional da Polícia Federal, correspondente ao Estado de localização do periódico, ou enviado diretamente à Brasília, onde o departamento responsável na Polícia Federal, examinaria as reportagens, charges, fotos, capas e anúncios. Esse material, após leituras e cortes, era devolvido para publicação pela Delegacia Regional ou pela Polícia Federal de Brasília, de acordo com o caso (ver anexo 1).

O recrudescimento e a "evolução" da censura podem ser relacionados com o momento histórico do país. Inicialmente, no governo Castelo Branco, havia uma certa liberdade da imprensa. Mas, quando os órgãos da grande imprensa (que haviam apoiado o Golpe de 64) passaram a criticar a forma de governo dos militares, os trâmites legais para barrar a liberdade de expressão foram cada vez mais aumentando. Isso pode ser exemplificado pela instituição da Lei de Imprensa no final do governo Castelo Branco realizada em dezembro de 1966, citada anteriormente; além de outras medidas como a Lei de Segurança Nacional e a Constituição de 1967, que provocaram o avanço da militarização do regime.

Castelo Branco fazia parte do grupo da "Sorbonne" , ou seja, os militares ligados à ESG, que justificavam o Golpe como uma medida necessária para afastar o perigo comunista que rondava o país. Entre os seus membros mais famosos estavam também o general Golbery do Couto e Silva, o grande ‘teórico’ do grupo e o general Ernesto Geisel. Com a posse do general Costa e Silva, assumiu o poder um representante apoiado pelo grupo "linha-dura". Este grupo defendia medidas repressivas para combater a oposição à ditadura. No governo Costa e Silva editou-se o AI-5, que entrou para a história com um dos atos mais repressivos e responsável pela castração da liberdade de expressão dos cidadãos. O general Médici, sucessor de Costa e Silva, também apoiado pelo grupo "linha-dura", fez com que o AI-5 se concretizasse na prática. Foi nesta época que os órgãos de serviços de informação mais se desenvolveram e ganharam uma relativa autonomia em relação ao Estado. Estes órgãos foram responsáveis pelo cumprimento da censura aos meios de comunicação, além de recorrer à tortura daqueles que consideravam contrários ao regime militar. "Pode-se afirmar que os objetivos estratégicos do Estado com a edição do AI-5 foram finalmente alcançados, pois ele modernizou - à sua maneira - a produção cultural por meio do estabelecimento de monopólios - como o da Editora Abril ou da Rede Globo de Televisão - que tornaram viáveis o planejamento e o controle da vida cultural." Com a posse do general Ernesto Geisel, representante do grupo da "Sorbonne", iniciou-se um processo de abertura política ‘lento, seguro e gradual’. No entanto, permaneceu a censura a imprensa. O AI-5 foi revogado no final de seu mandato, mas manteve-se a Lei de Imprensa e o Decreto 1.077. No governo do general Figueiredo, também do grupo da "Sorbonne", permaneceu a censura à televisão e ao rádio. "A cultura foi, neste sentido, eficientemente administrada mediante a gradativa supressão da censura e a conseqüente adoção da política de abertura. O Estado, neste setor, continuava a desenvolver condições capitalistas modernas para a produção cultural pela implantação dirigida da indústria cultural, mas almejava neste processo, ‘dar as diretrizes e prover as facilidades’: em outros termos, sua meta última era poder controlar e administrar - ainda que indiretamente - toda a vida cultural."

Obviamente, os órgãos da chamada grande imprensa clamavam pela liberdade de imprensa dentro dos limites de uma sociedade capitalista, em que prevalecia a opinião dos grandes empresários dos meios de comunicação. Eles não procuravam a diversidade de opiniões e discussões, mas sim liberdade para defender os princípios que lhes interessavam, ou seja, a manutenção do status quo dentro de uma sociedade dita democrática. Na defesa da "liberdade de imprensa", o que valia era a liberdade de escolha dos conteúdos favoráveis aos proprietários dos meios de comunicação. Neste sentido, podemos argumentar que eles clamavam por uma "liberdade de propriedade", ou seja, desejavam que seus órgãos de comunicação fossem livres para transmitir o que era de interesse deles. "A utilização da imprensa na sociedade de classes não pode ser vista, portanto, separada de sua ‘função capitalista’. A imprensa e, mais especificamente, a sua bandeira ‘liberdade de imprensa’ são a expressão real dos detentores do poder econômico no modo de produção capitalista. O jornalismo organizado nos moldes da forma privada de produção é ... o pressuposto para a liberdade de imprensa. Esta não está, portanto, no direito constitucional do cidadão, de se manifestar como, quando, onde e da forma como bem desejar. Aqui, ao contrário, ela se baseia pura e simplesmente no caráter privado: este caráter é o que deve garantir a livre manifestação e não o direito constitucional."

Quando houve o recrudescimento do regime, a partir de 1968, os órgãos de imprensa se viram acossados, sem conseguirem transmitir suas idéias em relação ao próprio cotidiano da sociedade capitalista e muito menos realizarem qualquer tipo de crítica ao regime militar. Por isto, mesmo tendo apoiado o Golpe Militar de 1964, a grande imprensa passou a defender o retorno ao regime democrático, depois que as formas de repressão governamentais se tornaram um aparato que a atingia, bloqueando as manifestações de expressão e de informação.
 
 




O CONTROLE DA INFORMAÇÃO



A transmissão de informações e opiniões era considerada uma área vital de segurança pelos militares.

Segundo Octávio Ianni, entre 1964-78, qualquer atividade intelectual, jornalística, artística ou científica, podia ser encarada como algo que prejudicava ou irritava os governantes. "A atividade do intelectual, seja ela de que tipo for, podia ser tomada como incômoda, ou então perigosa, em si ou potencialmente". Daí a política "cultural" do governo que reprimia a atividade intelectual realizada fora de seu alcance. A necessidade de discussão, pesquisa, controvérsia, crítica e da liberdade de informação para toda atividade jornalística, artística ou científica não era tolerada pelo Estado que detinha o monopólio da única interpretação que ele próprio considerava válida para o conjunto da sociedade.

O autor relaciona a repressão política e cultural realizada através das prisões, cassações, aposentadorias e censuras ao desejo do governo de criar uma estabilidade política pregada pelo grande capital nacional e estrangeiro. Calavam-se vozes da população, de políticos, de intelectuais para que o modelo político-econômico adotado pelos governantes - segurança e desenvolvimento - fosse o único viável ao povo brasileiro. Realizava-se, então, uma política cultural dos governantes, em que o poder estatal decidia o que era novo ou velho, permitido ou proibido, certo ou errado.

Conforme Ianni, o sistema de poder que passou a dominar o país em 1964 se propôs eliminar ou controlar o espírito crítico, inerente a toda atividade intelectual, jornalística, artística, filosófica ou científica. "Para os governantes, qualquer dúvida ou crítica mais substantiva perturbava a estabilidade política e social conveniente à continuidade da sua política econômica". Usavam-se, então, forças policiais para calar as vozes daqueles que questionavam ou propunham soluções de cunho democrático. Além disso, para manter seus interesses econômicos, o Estado posicionou-se no centro da produção cultural do país. Assim, "praticamente todas as condições de produção, comunicação e debate das produções artísticas e científicas passaram a ser controladas ou influenciadas pelos ministérios, conselhos, comissões, institutos, ou outros órgãos do Estado. A televisão, o rádio, o jornal, a revista, a editora, a escola , o teatro, o cinema, a música, todas as esferas da criação e debate culturais achavam-se sob controle ou influência do poder estatal; por estímulo, tolerância ou censura".

Neste contexto, Carlos Nelson Coutinho, nos quadros de sua análise gramsciana da cultura, afirma que, após o Golpe de 1964, ocorreu a generalização da censura como prática de relacionamento entre o Poder e a cultura, que refletiu a tentativa de quebrar a autonomia da sociedade civil e de reprimir o pluralismo em nome da onipotência do Estado. A prática sistemática da censura aliada ao terrorismo ideológico eram as faces abertas da "política cultural" no pós-64.

Segundo Octávio Ianni, "a censura, direta ou indireta, aberta ou velada, discreta ou agressiva, estava cotidianamente presente nas condições objetivas e subjetivas nas quais o jornalista, o artista, o professor e o pesquisador desempenhavam o seu trabalho. Praticamente todos os trabalhadores intelectuais - no cinema, teatro, televisão, rádio, jornal, revista, editora, faculdade, universidade - trabalhavam cientes de que a sua fala ou escrita, o seu gesto ou imagem, a sua aula ou pesquisa estavam sob observação, controle, suspeita: autorizados, tolerados ou proibidos". Para o autor, é ilusório imaginar que a liberdade de pensamento - informar, ensinar, pesquisar, debater - possa existir à parte da liberdade política.

Ruben George Oliven mostrou que se desenvolveram duas tendências complementares do Estado em relação à cultura: ele interferia proibindo e censurando aquilo que era visto como prejudicial à imagem "séria" do Brasil, mas, em contrapartida, atuava promovendo a imagem sui generis de nossa cultura. Assim, o papel do Estado em relação à cultura era bastante complexo: ele não era apenas o agente de repressão e de censura, mas também o incentivador da produção cultural e, acima de tudo, o criador de uma imagem integrada do Brasil que tentava se apropriar do monopólio da memória nacional. Desta maneira, o Estado passou a assumir o papel de usar a cultura como um espaço para a construção de um projeto de hegemonia.

Renato Ortiz constata que durante o período de 1964-80, a censura não se definiu exclusivamente pelo veto a todo e qualquer produto cultural; ela agiu como repressão seletiva que impossibilitava a emergência de um determinado pensamento ou obra artística. Isto ocorreu pois o raciocínio da Ideologia de Segurança Nacional colocava o Estado como uma instância que integrava, a partir do centro, a diversidade social, uma vez que a sociedade era formada por partes diferenciadas. Desta maneira, era importante a utilização dos meios de comunicação de massa, a sua capacidade de difundir idéias, de se comunicar diretamente com as massas, e, sobretudo, a possibilidade que tinham em criar estados emocionais coletivos.

A partir das análises destes autores, podemos perceber que eles colocam o paradoxo estatal que existia no período ditatorial (1964-85): ao mesmo tempo em que o Estado censurava as produções culturais, ele também as incentivava. Mas, este incentivo tinha por trás uma pregação integradora da sociedade, em que o Estado determinava o que deveria ou não ser produzido. Na época do "Milagre Econômico" têm-se as campanhas nacionais através de frases como "Brasil, ame-o ou deixe-o", "Ninguém segura este país", além da valorização do futebol, temas que procuravam integrar toda a população e colocá-la na defesa do regime militar. Assim, o Estado apresentava-se como neutro, defensor das questões nacionais (ao mesmo tempo que favorecia o capital estrangeiro) de acordo com sua ideologia de "segurança e desenvolvimento". Como lembra Tânia Pellegrini, o desenvolvimento do mercado de bens culturais carregou-se com toda uma implicação ideológica que se expressava na censura:

"Esta, mal ou bem, representava o tipo de orientação que o Estado pretendia conferir à cultura e acabou funcionando como uma espécie de emblema da época, por meio do qual seria possível interpretar toda a produção cultural, como se interpreta um código cifrado, acessível apenas aos iniciados. Entretanto, a censura não agiu de modo uniforme, o que significa que seus efeitos também não o foram; foi seletiva: impedia um tipo de orientação, mas incentivava outro."

Os meios de comunicação ficaram coagidos durante o período militar, mas apresentaram algumas formas de resistência para que os leitores identificassem a presença da censura: o jornal O Estado de S. Paulo editava o poema "Os Lusíadas", de Luís de Camões nos espaços censurados, o Jornal da Tarde apresentava receitas culinárias, a revista Veja mostrava o símbolo da Editora Abril e realizou uma brincadeira com anjos e demônios para defender a distensão política, os órgãos da imprensa alternativa apresentavam espaços em branco ou tarjas pretas com propagandas deles próprios, etc. A censura a estes órgãos mostrava a necessidade do Estado autoritário de transmitir a existência de uma sociedade sem conflitos, "democrática", com uma aparência harmônica. Por isto, os militares tentavam determinar o que deveria ser conhecido ou não pelo público leitor. No entanto, apesar de algumas formas de resistência realizadas pela grande imprensa, a maioria destes órgãos acatou as ordens de censura dos militares, que, além da repressão policial, utilizavam-se de pressões econômicas para cooptar os meios de comunicação.

Em relação ao mecanismo de funcionamento da censura, notamos como os governos militares reprimiam a liberdade de expressão. Este mecanismo de controle enquadrou os órgãos da grande imprensa e da imprensa alternativa no aparato repressivo do governo, pois os meios de comunicação eram considerados, pelos militares, um dos itens de segurança nacional que seriam responsáveis pela transmissão da "ideologia" do regime. A censura aos órgãos de imprensa provocava a diminuição de matérias com críticas políticas diretas ao governo, ou então, à tortura e aos problemas sociais do país. Os censores não permitiam alusões a alguma coisa que não estivesse de acordo com os ditames do governo. Assim, as decisões que envolviam os rumos do país e que faziam parte da vida da população restringiam-se a um grupo de militares no poder. As questões de interesse público faziam parte, muitas vezes, da lista de assuntos proibidos distribuída pelo governo, a não ser que fossem uma forma de realizar propaganda favorável ao regime militar. Com isso, os jornalistas tiveram que aprender a burlar a censura ou se sujeitarem a ela. E é neste contexto que as relações entre imprensa e ditadura foram sendo moldadas.

No decorrer deste trabalho, a seleção das matérias de Veja, principalmente nos momentos de crise da ditadura militar (como nas sucessões presidenciais e na oposição ao regime) orientou a busca do seu posicionamento em relação ao governo. Estes eram pontos conflitantes para os militares e observar como a revista posicionou-se nestas questões nos ajuda a esclarecer sua postura na forma de crítica ou adesão ao regime.
 
 

Veja foi analisada num contexto em que o Estado não era apenas fundamental para o desenvolvimento da indústria cultural, mas também atuava com o objetivo de controle dos meios de comunicação, vistos pelos militares como uma ameaça à segurança nacional. A grande imprensa sempre atuou na vida política defendendo a permanência da estrutura da sociedade, e por isto recebeu muitas concessões e facilidades por parte do Estado para seus próprios interesses. Com isso, as suas questões apenas apontavam os problemas da sociedade, mas não realizavam uma discussão aprofundada como era feita pela imprensa alternativa.

Como foi dito anteriormente, a censura tanto política quanto empresarial praticada nos meios de comunicação provocou uma contradição entre os órgãos de imprensa e o regime militar. A grande imprensa, que inicialmente havia apoiado o Golpe Militar, passou a questioná-lo. Isto porque, quando as posições políticas dos órgãos de imprensa eram contraditórias em relação ao regime político vigente, criavam-se conflitos entre ambos. Desta maneira, a censura era um forte indicador que moldava as relações entre imprensa e ditadura.

Um outro importante indicador era o fato de que estes órgãos de imprensa estavam inseridos em um contexto de indústria cultural. Desta maneira, eles estavam atrelados economicamente a este sistema e, com isto, não questionavam a ordem capitalista. Por isto, era essencial para os jornais e revistas a obtenção de um número cada vez maior e mais heterogêneo de leitores (o que explica um conteúdo diversificado de suas matérias, sem deixar de ser conservador); além de dependerem do Estado para a obtenção de concessões para a importação de equipamentos gráficos. Foi por essa razão que a maioria dos órgãos da grande imprensa apoiou inicialmente a política econômica do Estado autoritário. Além disso, a produção da chamada grande imprensa orientava-se por um critério de rentabilidade (importância dos anunciantes e dos leitores) e manifestava um caráter industrial, enquanto a imprensa alternativa era produzida de forma mais artesanal e orientava-se por um caráter ideológico. Por isso, tendo em vista a análise da indústria cultural, realizada principalmente pelos autores da Escola de Frankfurt, destacamos no estudo de Veja: o caráter empresarial deste órgão que preservava as relações capitalistas; o caráter conservador de suas matérias mesmo quando clamava por mudanças; a importância da publicidade e dos leitores para a sua permanência no mercado; e a presença de posições políticas do semanário, sem uma "linha" ideológica militante.

Estes assuntos obedecem a uma periodicidade e o posicionamento da revista pode ser circunstancial ou seguir uma homogeneidade durante o período estudado. É isto que buscaremos esclarecer para, a partir daí, analisar como foram as relações entre Veja e os governos militares.
 
 




Capítulo II: A REVISTA VEJA E O REGIME MILITAR


 
 

O objetivo deste capítulo é desvendar as relações entre a revista Veja e o regime militar no período de 1968 a 1985. Nesse sentido, a análise das matérias do semanário foi importante para esclarecer sua posição frente a alguns assuntos políticos selecionados: priorizou-se o comportamento de Veja diante das sucessões presidenciais, que sempre provocavam crises internas e diante das oposições ao regime, que contestavam a forma de governo instaurada com o Golpe de 1964.

A hipótese sugerida é que Veja manteve-se coerente politicamente na defesa da redemocratização durante os diferentes governos militares. Com isso, podemos indagar: a revista defendia uma abertura política conservadora, ou seja, deveria ser realizada pelos membros do governo para que a ordem fosse mantida? Ou defendia a participação da população neste processo? Como Veja enfrentou este dilema?

Neste capítulo, foram selecionados os períodos cronológicos que antecederam as "eleições" presidenciais, ou seja, a época de "campanha" dos candidatos até a escolha definitiva. Nestas fases, também foram analisadas as oposições ao regime militar. A única exceção a este corte foi a análise da luta armada, pois este tema permaneceu importante mesmo depois da escolha do general Médici para substituir o presidente Costa e Silva.

Desta maneira, priorizaram-se os momentos do regime militar marcados em geral por crises internas e, a partir deles, analisamos como Veja lidava com estas situações. Observamos, assim, de que maneira o semanário mostrava o seu pensamento. Numa época de censura, Veja falava claramente através dos seus editoriais? A revista manteve-se coerente politicamente durante o período militar? Estas questões nortearam a pesquisa e ajudaram a esclarecer como Veja portou-se frente ao governo ditatorial.
 
 

1968-1972: UM PERÍODO DE TENSÕES



O primeiro ano de existência de Veja - setembro de 1968 a setembro de 1969 - foi marcado por importantes acontecimentos na história brasileira. Este foi um período conturbado, em que o país presenciou a edição de um Ato Institucional (o AI-5), responsável pelo recesso do Congresso e pela eliminação das garantias institucionais democráticas ainda vigentes. Também intensificaram-se a censura e a repressão a qualquer tipo de oposição ao regime militar, sendo reprimidas a liberdade de expressão de pensamento e as manifestações da sociedade civil contrárias ao governo.

Logo após o AI-5, Veja sentiu o impacto da censura quando uma de suas edições sobre este Ato foi apreendida nas bancas. A partir daí, a revista recebia listas com assuntos que não deveriam ser publicados.

Neste período inicial, os principais temas políticos destacados por Veja foram: o AI-5, a reforma constitucional, a oposição armada ao regime militar e a sucessão do general Costa e Silva. Nesta fase, interessa-nos saber como a revista interpretou a implantação de medidas coercitivas e como portou-se diante da substituição militar para a presidência do país. Além disso, focalizaremos a questão da reforma constitucional em 1969. E finalmente, a posição de Veja sobre a oposição armada ao governo ditatorial.

Faremos agora uma rápida exposição do contexto histórico presenciado pela revista naqueles meses.
 
 

O governo Costa e Silva

O presidente Costa e Silva tomou posse em 15 de março de 1967, já com o avanço da militarização institucionalizada no governo Castelo Branco. No decorrer de 1968, diversos setores da sociedade passaram a opor-se ao regime militar, culminando com as grandes passeatas estudantis de fins de junho. No segundo semestre, a situação agravou-se com o discurso do deputado do MDB, Márcio Moreira Alves, em protesto contra a violência ditatorial. Ele conclamou o povo a não comparecer ao desfile de comemoração do Dia da Independência. Este discurso foi usado pelos militares como motivo para pedir a licença à Câmara para processar o deputado. Como se esperava, o pedido foi recusado. Em 13 de dezembro de 1968,o presidente Costa e Silva decretou o AI-5 que estabeleceu o fechamento do Congresso por tempo indeterminado, censura à imprensa, cassações e prisões em massa. Com isso, "desde os acontecimentos de 13 de dezembro, caíram por terra quaisquer chances de uma sucessão presidencial política, civil e partidária, mesmo indireta, como estabelecia a Constituição."

Depois do AI-5, iniciou-se um período de aumento da repressão aos setores de oposição à ditadura (principalmente às guerrilhas urbanas). Alguns autores associam o aparecimento da luta armada e da oposição à ditadura como a causa da virada autoritária e do abandono pelo presidente da sua promessa de humanizar o regime. Deve-se levar em conta, no entanto, que os grupos militares no poder já eram partidários do aumento da repressão e de um regime mais duro.

Com a doença do presidente Costa e Silva, no final de agosto de 1969, tomou posse, no início de setembro, a Junta Militar, um governo militar transitório: os ministros militares rejeitaram a Constituição de 1967 que determinava a posse do vice-presidente, Pedro Aleixo. Essa decisão foi tomada pelo Alto Comando das Forças Armadas, que reduziu o Congresso a mero espectador dos acontecimentos. Começa, assim, a crise do processo sucessório, agora com a "presença virtual de duas alternativas de consolidação do regime militar brasileiro - a "via dos quartéis" ou "do partido militar" e a "via do sistema" ou "hierárquica"." Neste contexto, a candidatura de Albuquerque Lima provocou uma cisão nas Forças Armadas e em oposição a esta alternativa iria "se constituir uma frente defensora do princípio da hierarquia como fundamento para a solução da crise sucessória, bem como da variante de regime militar que almejavam. O nome do general Emílio Médici apareceria como o pólo de aglutinação dos partidários dessa via. A alta cúpula das Forças Armadas seria o agente no esforço para impedir a vitória da candidatura rebelde. Assim, empenhou-se em controlar o processo de escolha, o que significou restringir o colégio eleitoral na base e impor o princípio de hierarquia no topo."

A Junta Militar, que não concordava com as idéias de Albuquerque Lima, estabeleceu que o presidente da República deveria ser um general com quatro estrelas. O general Albuquerque Lima só possuía três. Devido à possibilidade da interrupção na continuidade do regime, novamente as regras do jogo foram mudadas. Jayme Portella declarou depois que o general Afonso Albuquerque Lima iria contestar tudo o que fora realizado pelo presidente enfermo e não daria continuidade ao seu programa de governo, além de contestar a sua administração e política. Desta maneira, a alta hierarquia resolveu apoiar outro caminho.

Conforme o relato do então Secretário de Imprensa da presidência, "a proposta do Estado-Maior do Exército desenvolve o raciocínio de que o novo presidente terá de contar com o apoio efetivo das Forças Armadas e que o processo de sua escolha, então, deve ser forçosamente definido através de reuniões representativas e restritas ao Exército, Marinha e Aeronáutica, a fim de evitar a eclosão de disputas em torno de chefes militares e a divulgação de possíveis desentendimentos preliminares entre seus adeptos. Uma vez feita a escolha, deveria ser seguido o processo democrático, pois apenas o Congresso poderia legitimar um presidente capaz de ser reconhecido como tal pelo povo brasileiro e a opinião mundial." Com isso, pretendia-se passar a imagem tanto para a população brasileira, quanto para a opinião mundial, que no Brasil não havia ditadura e tudo era resolvido dentro dos processos democráticos.

Desta maneira, o general Médici foi escolhido sucessor à presidência. Convocou-se a Arena (partido do governo) e abriu-se o Congresso para "legitimar" a votação, passando-se a imagem de uma unidade patriótica num quadro em que mudava-se o presidente, mas o aparato continuava o mesmo. O general Médici assumiu o governo, a 30 de outubro de 1969, prometendo redemocratizar o país até o término de seu período administrativo. Mas o novo governo ditatorial viria a ser o mais repressivo e arbitrário do ciclo revolucionário.
 
 

Veja e o recrudescimento do regime militar

Durante o processo sucessório do general Costa e Silva havia uma conjuntura de crise política, com diferentes grupos militares lutando pelo poder. Desta maneira, interessa-nos saber qual a posição de Veja diante destes acontecimentos. Para tanto, propomos verificar a quem ela "deu voz" durante a sucessão presidencial. Isto pode ser observado através das entrevistas que publicou. A sucessão de Costa e Silva foi marcada por crises e prováveis candidatos com suas diferentes posições. Em nossa hipótese, a posição de Veja pode ser observada através da escolha do que publicar e de quem ouvir em suas entrevistas e reportagens.

No período de setembro de 1968 até o final de outubro de 1969, quando o general Garrastazu Médici foi escolhido presidente, a revista destacou dois processos: a escalada das ações armadas da esquerda, e a esperança de retorno às instituições democráticas representada pela atuação dos liberais (simbolizados na figura do vice-presidente Pedro Aleixo) na proposta de reforma constitucional. Com isso, interessa-nos saber se Veja foi ou não favorável à reforma constitucional enquanto um meio para a abertura do regime; além de constatar se o semanário apoiou ou não o aumento da repressão às atividades ditas "subversivas" temendo um fechamento maior do regime. A partir disto, analisaremos o posicionamento de Veja frente a três temas: a sua relação com o poder; com a oposição ao regime representada pela luta armada; e com a alternativa ao governo militar através da abertura política.

Além disso, depois do processo sucessório, um tema que permaneceu na revista foi a questão da luta armada a das torturas aos presos políticos. Aqui, interessa saber se ela posicionou-se ou podia posicionar-se contrariamente ao regime na questão das torturas e se manteve sua posição durante todo o governo repressor do general Médici. E também como portou-se frente à questão da luta armada depois das denúncias de torturas. Ou seja, ela defendeu a luta oposicionista ou condenou-a mesmo com as denúncias de que os presos políticos estavam sendo torturados?
 
 

Veja e o pós-AI-5

Em 04/12/68 (vol. 13), Veja previu que alguma coisa poderia acontecer ao Congresso caso não aprovasse a licença para cassar o mandato do deputado Márcio Moreira Alves, acusado de realizar um discurso desrespeitoso às Forças Armadas. A revista começou a sua reportagem com a seguinte frase: "O pior Congresso é melhor do que nenhum Congresso. É uma velha e válida frase repetida com freqüência nos momentos graves para a vida política brasileira." O semanário informava que a oposição estava disposta a enfrentar as "estranhas forças" que ameaçavam o fechamento do Congresso, e que também havia boatos sobre a edição de um Ato Institucional.

Após a decretação do Ato, Veja (vol. 15, 18/12/68) informou que o AI-5 foi uma censura ao partido do governo:

"Na decretação do recesso do Congresso por tempo indeterminado está o sinal mais evidente de uma nova fase em que a Revolução se reinicia sem a classe política."
O título desta matéria era bastante sugestivo: "Revolução, ano zero", mostrando como, a partir de 13 de dezembro de 1968, iniciou-se um período que se diferenciava do anterior em que ainda era possível "manter a legitimidade", mesmo com o AI-1 e o AI-2. Era o chamado "golpe dentro do golpe" que aumentava os poderes do Executivo e deixava totalmente de escanteio a "classe política".

Neste quadro de crise, Veja recorreu ao método de expor várias posições do poder, sendo esta uma maneira encontrada pela revista para tentar burlar a censura e publicar reportagens sobre os assuntos importantes. Na edição 16 (25/12/68), o ministro do Exército, Lyra Tavares declarava que "o objetivo do AI-5 é tornar possível a obra de reconstrução nacional cujo desenvolvimento normal, toda nação sabe, exige um clima de ordem, o fortalecimento da autoridade e o combate sem tréguas à subversão". Por sua vez, o general Albuquerque Lima afirmava: "agora o governo está realmente de posse de todos os instrumentos para promover a reforma das estruturas superadas e que resistiam aos esforços de atualização pelos caminhos normais".

O deputado Clóvis Stenzel (vol.18, 08/01/69), homem identificado com a "linha-dura", calculou "três meses para a ‘limpeza da área’ ", e disse que "o Congresso será reaberto para funcionar em favor da Revolução".

Como podemos perceber, pelas matérias apresentadas, Veja realizou uma crítica sutil ao processo de fechamento do regime causado pelo AI-5, pois este deixaria de lado a participação da classe política. No entanto, ao publicar a opinião de diferentes vozes participantes do governo, a revista mostrou que o AI-5 era necessário para controlar a "subversão" e, depois disso, o Congresso seria reaberto para funcionar normalmente e promover a abertura política de acordo com o governo militar.

Uma outra questão destacada por Veja, no imediato pós-AI-5, foi a reforma constitucional que seria chefiada pelo vice-presidente, Pedro Aleixo.

Já no título, a primeira matéria sobre este assunto apontava para tempos melhores: "Os sinais da primavera" (vol.37, 21/05/69). Seriam os sinais, para a revista, de que os rumos políticos do país poderiam mudar. Observamos, aqui, a utilização da linguagem metafórica para expressar o desejo do semanário. Desta maneira, segundo Veja, "cinco meses depois da edição do AI-5 entreabre-se a porta para a volta à normalidade. Em dois episódios sucessivos, o presidente Costa e Silva demonstrou há dias que está chegando a hora. Primeiro, reduzindo a punição revolucionária imposta a dois jornalistas, e, logo em seguida, recebendo em audiência previamente anunciada o vice-presidente Pedro Aleixo, para tratar da reforma constitucional." Conforme o semanário:

"Ao contrário do ocorrido na Argentina, a Revolução de 64 em nenhum momento negou - e, pelo contrário, afirmou sempre - que o regime democrático é uma reivindicação e um

objetivo permanente da nação brasileira."

Em uma outra reportagem (vol.39, 04/06/69), Veja afirmou: "o júbilo dos políticos decresce na medida em que se verifica que ao vice-presidente da República - ao político - não se encomendou um trabalho final e definitivo, mas tão somente uma sugestão para a reforma. Mesmo assim, a reforma constitucional está em debate." De acordo com o semanário, Pedro Aleixo trabalhava no pressuposto de que, feita a reforma, cessariam os motivos que mantinham vivo o AI-5. Aleixo concordava em que os poderes presidenciais deveriam ser aumentados, mas "entendia indispensável a autonomia parlamentar, sem a qual seria inútil falar em abertura democrática."

Na edição 43 (02/07/69), Veja mostrava esperança em relação à promessa de suspensão do recesso do Congresso, o que para a revista era uma "verdade alegre, estimulante - e definitiva."

Para a revista (vol.48, 06/08/69), o presidente Costa e Silva estava empenhando-se para decretar a abertura e para assegurar que ela se tornasse permanente. "O Ato Institucional com que encaminhará ao Congresso, para referendo, o projeto da reforma constitucional deverá ser o último baixado por Costa e Silva. Este seria o caminho percorrido para limitar os poderes excepcionais conferidos pelo AI-5. Após isto, o presidente deverá marcar a data para que o Congresso volte a se reunir." Segundo Veja, com o Congresso reaberto, ele decidiria a revogação das medidas excepcionais, com o gradual restabelecimento dos direitos e garantias constitucionais.

"Para que tudo ocorra a passos lentos mas seguros, bastará que o Congresso, com realismo, renuncie a qualquer veleidade de contestação do regime e passe afinal a concentrar-se na atividade criadora dedicando-se à elaboração das numerosas leis complementares que a Constituição exige."
Nessa altura, o presidente Costa e Silva editou o AI-11 que, de acordo com a revista (vol. 50, 20/08/69), foi o primeiro passo para promover a abertura política antes da reforma constitucional. "O AI-11 abriu o leque democrático com a convocação de eleições municipais não apenas em Goiás e Mato Grosso, como estava previsto, mas em mais oito Estados, num total de 870 municípios." De acordo com Veja, "Costa e Silva participa de uma partida de xadrez em que enfrenta, como adversário, os setores favoráveis à institucionalização de um regime verdadeiramente autoritário. Sabe o presidente que, nessa partida, além de paciência, ele precisará ter sempre a iniciativa dos lances, estar sempre em ofensiva e sem que nenhum passo malogre, porque ela não é o tipo de competição em que se permitem recuos táticos."

Na semana seguinte, Veja (vol. 51, 27/08/69) informou que, depois de três meses como coordenador da reforma Constitucional, as posições mais importantes defendidas por Pedro Aleixo foram pouco a pouco superadas. Assim, na redação final não foram aceitas por Costa e Silva: as eleições diretas nos Estados, a transferência para o futuro Congresso da missão de eleger o próximo presidente da República, o restabelecimento da "habeas corpus" para crimes políticos.

"Mas tudo indica que o objetivo fundamental de Pedro Aleixo, na reforma da Constituição, está fora do texto constitucional: é a reabertura do Congresso, que poderá, mais tarde, emendar a mesma Constituição que agora surge impondo ao Congresso severas restrições. A motivação principal desse objetivo é a certeza de que o Congresso funcionando amplia as perspectivas democráticas e permite esperar que novas aberturas venham a surgir."
Ao acompanharmos esta exposição sobre o que Veja publicou em relação à reforma constitucional, podemos perceber como a revista tinha grandes esperanças no restabelecimento das instituições democráticas, na reabertura do Congresso e até mesmo numa reabertura política. A publicação das matérias sobre a reforma constitucional indica que Veja acreditava na curta duração do AI-5 que a prejudicava, principalmente em relação à censura. O semanário acreditava na volta do funcionamento do Congresso que havia entrado em recesso com o AI-5 e, posteriormente, na condução da abertura política pelo presidente Costa e Silva. Com isso, esperava, voltaria a importância dos civis no cenário político e estes poderiam concorrer à sucessão presidencial que se realizaria em 1970. A partir daí, voltariam ao funcionamento normal as instituições democráticas. Para expressar estas visões, Veja utilizava-se das "vozes" de todos aqueles que proclamavam a abertura do regime. Já o grupo que pregava um regime mais autoritário não possuía espaço na revista. Veja falava por meio dos "políticos" e do "povo brasileiro" para ocultar e mostrar o seu próprio desejo de redemocratização, além de ser mais facilmente liberada pela censura utilizando este recurso para demonstrar o que pensava. Por isso, o semanário assumiu e incentivou o "clima de abertura" e, desta maneira, destacava a reforma constitucional como necessária para esse processo, atribuindo uma importância maior para este episódio do que ele realmente teve.
 
 

A oposição armada ao regime militar

Veja destacou as reportagens sobre o aumento do "terrorismo" praticado pelos grupos de esquerda clandestinos. No dia 20/11/1968 (vol.11), trouxe uma matéria sobre a caça aos subversivos. A revista apontou que "os assaltos a bancos renderam um bom dinheiro para os bandidos" e destacou Carlos Marighella como o "líder mais importante das pouco importantes esquerdas clandestinas, a ponto de todos os policiais federais e estaduais estarem a sua procura".

O semanário publicou (vol. 23, 12/02/69) o depoimento do general Jaime Portella sobre as guerrilhas urbanas, em documento da Secretaria-Geral do Conselho de Segurança Nacional, no qual dizia que o movimento comunista internacional, no Brasil, já estava caracterizado como "um inimigo interno que ultrapassou a fase de planejamento e já se lançou para a conquista do poder". E finalmente explicava: "a falta de coordenação e de uma ação maciça de repressão à onda de violências parece constituir o principal fator de êxito do plano subversivo". Para impedir a persistência desta situação deveria haver uma coordenação maior das ações das polícias civis e militares dos Estados.

Na edição de 21 de maio de 1969 (vol. 37), o semanário realizou uma reportagem especial sobre Carlos Lamarca com um título ilustrativo: "Ele assalta em nome do terror." Segundo a revista, "o ex-capitão de Infantaria, Carlos Lamarca, um homem nervoso e frio, conhecido como "João" pelos companheiros de terrorismo, trocou a farda pela subversão." Conforme Veja, Lamarca era membro de uma organização, a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), que se preparava para a luta armada e o seu papel, dentro deste grupo, era o de liderar ações para obter dinheiro e armamentos. De acordo com o semanário, parte do dinheiro roubado aos bancos se destinava à sobrevivência e outra parte, a maior, subia a escada hierárquica da organização.
 
 

Veja entrevistou técnicos militares, estudiosos e especialistas no combate à subversão e ao "terrorismo" e mostrou suas respostas sobre este tema. A principal questão era que, para os militares, o "terrorismo" de esquerda era um estágio da guerra revolucionária, imposta ao povo, com o objetivo de implantar um regime de esquerda, de fundo ideológico marxista-leninista. Mas, segundo os militares, a população estava contra o terrorismo e era necessária a participação dela prestando toda e qualquer informação que seria útil no combate ao inimigo comum.

Conforme o semanário (vol.49, 13/08/69):

"Quase a totalidade dos terroristas - menos os poucos que não são de esquerda - quer, de diferentes formas, um único fim: a destruição do "sistema capitalista" e a instauração do socialismo no país. A população, que já conhece a violência do terrorismo através de ações cada vez mais freqüentes nos últimos anos, começa agora a conhecer suas verdadeiras intenções."
É importante destacar que Veja usou palavras como assalto, bandido, subversivo e terror. Estes termos pejorativos indicam que as atividades oposicionistas realizadas por organizações de esquerda eram tratadas pela revista como atividades terroristas e associadas ao banditismo. Desta maneira, como veremos posteriormente, Veja preocupava-se com o fortalecimento da esquerda e temia que suas atividades "subversivas" provocassem o fortalecimento também da extrema direita e um fechamento cada vez maior do regime. No entanto, é importante destacar que o uso de palavras como "subversivo" e "terrorismo" era permitido pelo governo militar e, por isto, as matérias com o uso destas palavras eram mais facilmente aceitas pelos censores para serem publicadas. O objetivo do governo era passar para a população uma imagem de que a oposição ao regime identificava-se com terroristas e bandidos. Assim, o semanário defendia o controle das organizações de esquerda para evitar o fortalecimento no governo dos grupos ligados à repressão.

Neste sentido, aparece aqui, uma questão-chave para a análise: em relação à luta armada, a voz de Veja era a voz do governo. Como podemos perceber, pelas matérias citadas, a revista obtinha informações que provavelmente eram fornecidas por alguém influente dentro da comunidade de informações. Como exemplo, temos informações sobre a VPR, Carlos Lamarca e Carlos Marighella. Tudo indica que Veja identificava-se com o regime militar nesta questão e obtinha dados governamentais para criticar as organizações de esquerda. Esta pode ser a razão pela qual a revista ainda não publicava sobre as denúncias de torturas aos presos políticos. E também porque era facilmente liberada pela censura.

Assim, a revista nitidamente criticava as organizações de esquerda que apontavam para a luta armada e defendiam a implantação do socialismo no Brasil. Ela defendia uma forma de protesto pacífica que não perturbasse a segurança do país e a ordem vigente. Veja acreditava que, se não houvesse reações extremistas em relação ao regime militar, isto facilitaria a abertura política almejada por ela. Desta maneira, o período iniciado após o AI-5 não agradou à Veja nesta questão da permanência e do recrudescimento da ditadura, pois pregava a volta às instituições democráticas e, devido à reforma constitucional, teve esperanças em relação à abertura política. Nesta época, a revista não realizou críticas rigorosas ao governo, pois acreditava que poderiam provocar um fechamento ainda maior do regime militar. Por isto, a posição de Veja era defendida com todo cuidado, para não prejudicar o andamento daquilo que ela desejava ser a abertura política e não acirrar os ânimos do grupo que defendia o aumento da militarização. Ela incentivava os seus leitores a realizarem uma oposição pacífica e contida para que os rumos políticos não piorassem.
 
 

A sucessão de Costa e Silva

Em 03/09/69, Veja (vol.52) anunciou a doença do presidente Costa e Silva e, por isso, "a nova Constituição do país e a reabertura do Congresso foram adiadas." Os ministros militares informaram que a situação do Brasil impedia a transferência do poder para o vice-presidente da República, Pedro Aleixo, como previa a Constituição de 1967 em vigor. Segundo o semanário:

"O vice Pedro Aleixo teria conversado com o ministro do Supremo Tribunal Adauto Lúcio Cardoso e ambos já então reconheceriam a inviabilidade de ascensão do vice-presidente à presidência interina. Os políticos também já tinham certeza de que o anúncio da reabertura do Congresso estava automaticamente adiado."
A partir daí, o assunto mais comentado pela publicação passou a ser a sucessão do presidente enfermo, depois do diagnóstico de um médico estrangeiro afirmando que Costa e Silva não tinha mais condições de reassumir o seu posto. Conforme Veja (17/09/69, vol.54), "se o presidente não se recuperar logo - e esta possibilidade se apresenta como a mais provável - a solução provisória do governo dos ministros militares aparentemente não tem condições de manter-se. De acordo com o AI-12, a Junta se comprometeu a aplicar os planos do governo Costa e Silva, que previam a reabertura do Congresso e uma nova Constituição. Mas desde o seqüestro do embaixador americano, o combate à subversão ficou sendo o primeiro objetivo da Revolução." Também, desde o AI-12, começaram a surgir rumores sobre a sucessão de Costa e Silva. Os nomes mais cotados foram apresentados por Veja: chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Orlando Geisel; chefe do Estado-Maior do Exército, Antônio Carlos da Silva Muricy; comandante do Primeiro Exército, Syzeno Sarmento; comandante do Terceiro Exército e ex-chefe do SNI, Garastazu Médici; ministro do Exército, Lyra Tavares e o general Albuquerque Lima. A revista levantou algumas questões: que papel teria o Congresso na indicação e no governo do novo presidente, quanto tempo duraria seu mandato e o país teria ou não uma nova Constituição?

Na edição de 24/09/69 (vol.55), com o título: "A Revolução dentro da Revolução", Veja dizia que a nação esperava a todo instante um novo presidente e a convocação do Congresso para referendá-lo. Segundo a revista, para os políticos havia pouca ou nenhuma participação e eles estavam de férias forçadas e longas. Com as primeiras reuniões dos Altos Comandos militares realizadas nos ministérios da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, no Rio de Janeiro, a "solução civil" mostrou ser de vida curta e inglória (a resolução já era óbvia desde que os ministros militares não julgaram oportuna a posse do vice-presidente civil Pedro Aleixo).

A seguir (01/10/69, vol.56) Veja mostrou que os militares, embora contrários a um ou outro nome, estavam unidos em torno dos princípios do movimento de 64: todos eles eram nacionalistas, todos queriam combater a subversão e a corrupção e todos defendiam o desenvolvimento. "Para acertar todos os detalhes dentro dos objetivos comuns, em busca da unidade, generais e oficiais das demais patentes reuniram-se e falaram em duas pessoas: general-de-Exército Emílio Garrastazu Médici e general-de-Divisão Afonso Albuquerque Lima." De acordo com a revista, saíram boatos sobre as listas com os resultados das consultas realizadas a todas as altas patentes das Forças Armadas. "Fontes bem informadas" apresentavam os números da pesquisa: o Exército iria indicar o general Médici que teria obtido mais de 60% do apoio de seus 118 generais. Nas listas apareciam em seguida os nomes dos generais Orlando Geisel e Albuquerque Lima. Segundo Veja, nem Médici, nem Albuquerque Lima se consideram candidatos:

"Ambos são generais e sabem que as eventuais divergências com relação ao futuro da Revolução devem ser resolvidas dentro de um esquema que não abale a unidade das Forças Armadas."
O general da reserva Hugo Bethlem fez uma síntese da situação: "o general Garrastazu representaria, em primeiro lugar, a continuidade do governo Costa e Silva e, secundariamente, a continuidade da Revolução. O general Orlando Geisel representaria, acima de tudo, a continuidade da Revolução. E o general Albuquerque Lima representaria uma mudança nos rumos da Revolução." Conforme o semanário, o general Médici, racionalizando a administração, procuraria facilitar a execução de um programa igual ao do presidente Costa e Silva. Já Albuquerque Lima possuía um programa dentro da Revolução, quase radical.

Nesta mesma edição, Veja mostrou que a crise política, com a doença do presidente Costa e Silva, reanimou o movimento no porão do Palácio Monroe ou "senadinho" - "reduto da classe política no ostracismo." Os políticos estavam ansiosos pelo desfecho da crise: o Congresso reabriria, consagraria a posse do novo presidente e o poder civil reiniciaria suas atividades.

Finalmente, foi anunciada a "eleição" para a presidência do general Médici e para a vice-presidência do almirante Augusto Rademaker na edição 60 (29/10/69); eles receberam 293 votos e houve 76 abstenções num total de 369 votos do Congresso. Veja publicou o discurso do presidente do MDB, Oscar Passos: "a eleição do presidente da República, no momento atual, traduz a expectativa do retorno à normalidade democrática. Aqui presentes, queremos significar que damos um crédito à prometida normalização da vida nacional." O semanário concluiu:

"A oposição não insultou, a maioria (Arena) não tripudiou sobre o vencido, como se os dois pensassem no destino comum, na necessidade de marcharem juntos no caminho da normalização da vida democrática brasileira."
As matérias sobre este processo sucessório foram chefiadas pelo editor Raimundo Pereira e pelos repórteres Armando Salem, Dirceu Brisola e Nelson Silva, além do editor Sebastião Rubens Gomes Pinto e dos editores assistentes Katsuto Matsumoto, Luís Gutemberg e Bernardo Kucinski, com a ajuda das sucursais do Rio de Janeiro, Brasília e Porto Alegre. Esta equipe foi responsável pela reportagem da capa desde a doença de Costa e Silva até a posse do general Médici. Segundo o jornalista Bernardo Kucinski, "esta equipe, a partir do domínio que teve na cobertura de ciência, de vôo à Lua, passou a ter um domínio na cobertura de política e aí essa equipe desabrochou realmente, deslanchou e ganhou uma autonomia."

Ao ser escolhido presidente, o general Médici prometeu democratizar o país e a revista incentivou, inicialmente, este discurso. De acordo com Bernardo Kucinski, "talvez houvesse uma esperança no ar, de todo mundo, de que ele (o presidente Médici) fosse abrir, cada um que entrava sempre dizia. Nesse sentido sim, mas acho que durou muito pouco. Se isso existiu foi como parte do clima geral, não como coisa de que a gente apostava numa facção contra a outra."
 
 

As entrevistas

A quem a revista "deu voz" durante a crise do processo sucessório?

Durante o processo sucessório do general Costa e Silva, já no início de 1968, é possível localizar pelo menos quatro grupos diferenciados no interior das Forças Armadas: os castelistas (ligados à Escola Superior de Guerra, representados no governo Costa e Silva pelo ministro do Exército, Lyra Tavares e pelo chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Orlando Geisel); os duros (grupos de oficiais ligados aos coronéis Boaventura e Ruy Castro, representados pelo ministro das Minas e Energia, o coronel Costa Cavalcanti e pelo importante comando do I Exército, cujo chefe era o general Syzeno Sarmento); os albuquerquistas (ligados ao ministro do interior, Affonso Albuquerque Lima, que era portador de um nacionalismo militar mais articulado que os "duros" e voltado para a crítica dos aspectos centrais da política de desenvolvimento castelista); e o grupo palaciano (colaboradores de Costa e Silva como o general Jayme Portella, chefe do Gabinete Militar; o coronel Mário Andreazza, ministro dos transportes; o coronel Jarbas Passarinho, do Trabalho; e o general Garrastazu Médici, chefe do SNI), que não possuíam um ideário definido, fazendo da proximidade com Costa e Silva seu maior trunfo. No plano estratégico, parecia não haver discordância de que a sucessão deveria ser resolvida no seio das Forças Armadas.
 
 

Veja percebeu muito bem que, após a doença de Costa e Silva, qualquer tipo de "solução civil" para o processo sucessório estaria vetada. A solução se daria de acordo com as Forças Armadas e seria escolhido um militar que não contestasse o governo do general Costa e Silva e seguisse uma linha de governo que praticasse o fortalecimento da militarização e do controle do país. Esta constatação é facilmente percebida através das entrevistas publicadas pela revista.

Ao dar voz a dois representantes da linha-dura (Meira Mattos, em 01/10/69, vol. 56 e Sizeno Sarmento, em 08/10/69, vol. 57), Veja evidenciou a questão do "terrorismo" e das "atividades subversivas", sendo estes assuntos condenados pelos generais e também pela revista. Era preocupante, para o semanário, a organização das atividades "subversivas" da esquerda porque isto causaria também um fechamento cada vez maior do regime. Com isso, era justificável a intervenção das Forças Armadas no combate à guerrilha urbana. O aumento das "medidas extremas" praticadas pelo governo era válido devido ao aumento do "terrorismo".

Com a entrevista do ministro dos Transportes, Mário Andreazza (em 24/09/69 vol. 55), ligado ao presidente Costa e Silva, havia a esperança de que o presidente se recuperasse e continuasse o seu compromisso de restabelecimento da normalidade democrática. O general Jayme Portella contou depois que, após esta entrevista, em que Andreazza declarou que todos deveriam esperar a recuperação do presidente, e não transmitir o cargo, a Junta Militar proibiu o ministro de falar sobre o assunto sucessório e ordenou que se dedicasse ou desse entrevistas apenas em relação aos aspectos políticos das realizações de seu ministério.

E, finalmente, após ouvir o senador Mem de Sá (em 08/10/69, vol. 57), ficou claro o fim da possibilidade de participação civil no processo sucessório e o controle total dos militares. Numa entrevista com o título: "O velho liberal está morto, não existe mais", o senador declarava que havia a possibilidade de volta à democracia, mas só se o poder fosse ocupado por um militar com mentalidade liberal. Ele defendia o sacrifício de alguns princípios liberais como forma de combater a subversão. Desta maneira, aceitava uma legislação dura para manter a ordem do país.

Como podemos perceber, esta é uma época em que Veja procurou ter uma posição conciliatória com o governo militar. Ela sentiu o impacto inicial da censura quando, após o AI-5, teve uma edição apreendida. Depois, passou a sofrer censura através de bilhetes e telefonemas contendo assuntos que não deveriam ser publicados. Desde o início, a revista pregava a volta às instituições democráticas e destacava em suas reportagens tudo aquilo que poderia indicar uma abertura do regime. O recurso utilizado por Veja para driblar a censura era, principalmente, a utilização de metáforas como, por exemplo, "os sinais da primavera" indicando a vinda de novos tempos e da abertura política com a reforma constitucional; a publicação das posições dos diferentes grupos que estavam no poder ou querendo conquistá-lo; e também o uso das palavras permitidas pelo governo como "terrorismo" e "subversivos" em suas matérias. No entanto, essas palavras também eram compartilhadas pela revista, pois ela não queria o aumento da oposição armada que, segundo Veja, causaria o recrudescimento do regime. Aliado a isto, estavam as preocupações econômicas da revista, que estava se firmando no mercado e não poderia sofrer perdas com edições apreendidas. Esta também é uma explicação para a posição de não contestar o regime e manter-se numa posição central, publicando entrevistas com representantes dos diversos grupos presentes na crise sucessória, após a doença de Costa e Silva. A estratégia adotada passou a ser, então, a publicação, com uma pretensa neutralidade, das posições dos diferentes grupos que participavam do governo. "Muito habilmente, Veja explora a divisão existente no Alto Comando do Exército, o colégio eleitoral que escolhe o sucessor de Costa e Silva. A revista publica sucessivas entrevistas e perfis de generais, mantendo-se inatacável pela censura."

Em relação a isto, Ulysses Alves de Souza publicou o comentário do secretário de redação nos primeiros anos de Veja, Henrique Caban,: "Raimundo Pereira se entusiasma pelo general Albuquerque Lima e a revista embarca nessa candidatura. É uma opção claramente impossível, além de equivocada: Albuquerque Lima, que se declarava nacionalista, é na verdade um ultradireitista, observa Caban. Além disso, um general de três estrelas jamais seria eleito presidente da República passando por cima de um general de quatro estrelas, num colégio eleitoral formado por militares. Apesar do equívoco, a revista começa a se firmar depois desta crise. Raimundo Pereira marca um novo estilo. Ele vai às fontes, entrevista as pessoas, comanda diretamente o local, faz o planejamento, volta para a redação, cuida do fechamento, redige o texto final."

Raimundo Pereira, em carta-resposta à revista Imprensa, respondeu: "não é verdade o que sugere o Henrique Caban, de que eu fiz a revista embarcar na candidatura do general Albuquerque Lima, um ultradireitista. Nem o general Albuquerque Lima era um ultradireitista e nem a revista o apoiou. Sugiro ao Caban reler os números de Veja que cobrem a sucessão de Costa e Silva (oito edições entre o início de setembro e o final de outubro de 1969). A despeito do tom amável adotado em relação aos militares em geral, que a revista assumiu para viabilizar-se, o que já exclui qualquer pretensão oposicionista, ali está um cobertura viva e isenta dos acontecimentos, consideradas as forças reais daquela bizarra "eleição presidencial", com muitos fatos e entrevistas dos lados em que se polarizou a escolha dos generais - de início, o pólo Albuquerque Lima e a média oficialidade contra o pólo Médici e o Alto Comando."

Esta declaração de Raimundo Pereira parece mais próxima ao que constatamos nas matérias de Veja. Ou seja, a revista manteve uma posição conciliatória com o governo militar por três motivos principais: primeiro, era uma tentativa de ser liberada pelos censores; segundo, os militares eram "fontes" para as reportagens; e terceiro, precisava firmar-se no mercado e não poderia sofrer perdas com edições apreendidas pelos aparelhos censores do governo. Assim, o nome do general Médici foi aceito pela revista como um "mal menor", ou seja, Veja inicialmente preferiu incentivar a continuidade do processo de abertura política supostamente iniciado pelo presidente Costa e Silva.
 
 

A luta armada e a tortura no governo Médici

Ainda antes do general Médici assumir efetivamente o governo, Veja realizou duas reportagens mostrando o sucesso dos militares em relação ao que a revista denominava de terrorismo. Em 22/10/69 (vol. 59), a matéria com o título "O terror está cercado" informava: "de prisão em prisão, os assaltos diminuem, os líderes fogem. Policiais e militares já anunciam o fim do terrorismo". Com isso:

"Encerrada a fase dos bem sucedidos assaltos de surpresa, o terrorismo enfrenta agora uma luta aberta contra a polícia e as Forças Armadas. E está perdendo pontos. Os líderes mais importantes, já identificados, deixam pistas por onde passam e encontram dificuldades para se esconder. Alguns grupos de subversão ativa foram desmantelados com a prisão de muitos de seus membros. E, a cada semana, reúnem-se informações novas sobre os que ainda restam. (...) Segundo um terrorista preso, os líderes do terror acreditam que, estimulado por drogas, o assaltante preso resiste por mais tempo aos interrogatórios e, assim, consegue atrasar a caçada aos seus companheiros".
De acordo com a revista, "o primeiro grupo terrorista inteiramente desfeito foi o Colina, em Minas, no início do ano. Preso um dos seus componentes, esse informou sobre os outros e, um por um, todos foram encontrados. A mesma mecânica foi aplicada contra o segundo grupo desmantelado, o MR-8... Da mesma forma, informam policiais paulistas, acabaram a VPR, a Palmares, a Ala Vermelha e outros, menos perigosos". Para o semanário, "em São Paulo e no Rio, policiais e militares acreditam que o terrorismo está com seus dias contados. (...) Poderão ainda realizar algum assalto...mas não conseguirão sobreviver à repressão até o próximo ano."

Na edição seguinte (vol. 60, 29/10/69), o título da reportagem também era bastante ilustrativo: "O terror sem saídas". Segundo Veja:

"As prisões e morte de homens importantes, alguns pertencentes às cúpulas do terrorismo, são apontadas como a principal causa da interrupção das ações. Outros policiais, porém, pensam que a interrupção tem uma segunda causa, igualmente desfavorável para os terroristas. Acreditam que os terroristas já estão no campo, preparando-se para iniciar a fase das guerrilhas e - segundo os policiais - serem derrotados rapidamente."
Podemos perceber que, através de ambas as reportagens, Veja apresentava a versão do governo, divulgando as informações recebidas de policiais envolvidos na "caça aos terroristas". E, a partir disso, aplaudia a repressão e o combate aos grupos ligados à luta armada. Além disso, na primeira matéria apresentada, há uma referência à resistência aos "interrogatórios" por parte dos presos políticos caso estivessem estimulados por drogas. Este já é um primeiro indício de tortura realizada pelos policiais, mas ainda não aceito pela revista que não a denunciou e a mostrou apenas como um "interrogatório".

Já com o general Médici no poder, Veja (vol.62, 12/11/69) anunciou a morte de Carlos Marighella numa armadilha armada pelo DOPS de São Paulo. "Sua última batalha acabou com o mito de que os generais do terror eram perfeitos estrategistas". Para a revista, "a morte de Carlos Marighella, se não significa o fim do terrorismo, põe por terra pelo menos a impressão de uma estrutura sólida e imbatível da subversão." O semanário informou que os responsáveis pela morte de Marighella foram os delegados do DOPS paulista, Sérgio Paranhos Fleury e Rubens Cardoso de Mello Tucunduva.

No entanto, na edição seguinte (vol.63, 19/11/69), Veja surpreendentemente enfocou a existência de violências por parte do governo na reportagem intitulada: "Tortura nas prisões?" Conforme o semanário, "setores da opinião pública começavam a inquietar-se com os boatos de que a proibição de tortura, imposta a 145 anos, não estaria sendo observada no caso de dezenas de presos políticos, principalmente jovens estudantes". A revista disse que o jornalista carioca Hélio Fernandes, através do jornal Tribuna da Imprensa, dirigiu uma carta ao presidente Médici em que pedia o fim da tortura aos presos. A partir desta carta, "a inquietação a respeito das torturas deixou de atingir apenas setores isolados para começar a alcançar largas faixas da opinião pública." Segundo Veja:

"Boatos ou fatos, as torturas nas prisões do país têm realmente ocupado espaço na imprensa estrangeira. No Brasil, nas conversas de rua, nas grandes cidades, citam-se detalhes: choques elétricos na língua, a "maquininha de ensurdecer", a "cadeira do dragão" que também dá choques, o "pau-de-arara"."
 
 
Para o semanário, "de qualquer forma, é certo que alguns direitos dos presos políticos não estão sendo respeitados..." A solução, de acordo com a revista, estava na conclusão de Hélio Fernandes: "a liberdade de imprensa para denunciar os abusos cometidos pode representar uma sincera colaboração com o próprio governo".

Em 03/12/69 (vol.65), outro texto falava sobre a "violência fora da lei": "Garrastazu Médici quer uma mudança nos métodos de combate à subversão e acha que o terrorismo está contido num círculo de ferro e sua importância não deve ser exagerada".

"O presidente não admitirá tortura em seu governo e determinou aos órgãos responsáveis pela segurança pública e combate à subversão - vários deles acusados de torturar presos políticos e até simples suspeitos depois inocentados - que devem rever imediatamente seus esquemas de repressão e por fim ao uso de métodos violentos."

Veja noticiou que um porta voz da Presidência da República confirmou "as repetidas declarações do presidente de que deseja a reabertura política e o restabelecimento da Justiça e dos direitos civis no país e está disposto a transformar essas intenções em atos concretos e firmes. A informação, porém, mostra outro fato importante: o presidente Médici mudou radicalmente a estratégia oficial do governo brasileiro para enfrentar as ofensivas do terrorismo político. Ao contrário do ex-presidente Costa e Silva e dos ministros militares que o sucederam, o presidente Garrastazu Médici demonstra não aceitar a afirmação de que o país está mergulhado num estado de "guerra revolucionária", como eram interpretadas oficialmente as ações de assalto, roubo e crime praticados por grupos terroristas. (...) O presidente acha mesmo que os terroristas brasileiros foram superestimados, pela importância com que suas ações isoladas - apesar de alguns lances sensacionais - foram recebidas pelas autoridades." Para a revista, o controle da tortura significava um grande passo rumo ao estado de direito, e por isto declarou: "muitos advogados acham que as maiores dificuldades na defesa do réu são duas: as disposições em vigor que cancelaram o habeas corpus nos delitos políticos e estabeleceram a incomunicabilidade do preso por dez dias; e a atitude de muitos encarregados de IPMs, que não informam imediatamente à autoridade judicial competente a prisão de elementos envolvidos nos inquéritos, conforme determina a nova Lei de Segurança Nacional." Veja concluiu que a disposição do presidente Garrastazu Médici, de não tolerar o arbítrio em nome da lei, poderia levar o país ao encontro do princípio jurídico perseguido pelo direito durante vários séculos: "a lei é o resultado do compromisso entre a Segurança e a Justiça. O ideal é a maior segurança, com a mais perfeita justiça".

Na edição 66 (10/12/69), Veja publicou importante reportagem de capa com o título: "Torturas". Nela, a revista publicou o argumento dos torturadores: "em nossa opinião, há duas coisas básicas quando se considera a questão das torturas. A primeira é que nós estamos em guerra - uma guerra contra a subversão - e que essas pessoas (isto é, os torturados) são os inimigos", informou um alto oficial dos serviços de inteligência brasileiros. "A outra coisa, é que uma pessoa com uma ideologia não dá informação de presente". Conforme o semanário:

"Os torturadores passam a ser encobertos por autoridades que se recusam a iniciar investigações sistemáticas em torno de seus crimes com medo de que esses inquéritos paralisem a força repressiva do Estado policial. Na solidão do cárcere o cidadão perde definitivamente a segurança proporcionada pela lei, que não tem mais sua presença simbólica dentro da cela para paralisar o braço truculento do torturador. Os direitos duramente conquistados pelos cidadãos de diferentes épocas sociais são substituídos pelos direitos dos policiais que defendem o Estado e sua minoria dirigente."
E também : "a horrível ingenuidade dos torturadores pode interessar a minorias fascistas interessadas em dominar o povo por meio de uma elite policial-militar. Não interessa, seguramente, a quem pretende estabelecer num país a normalidade democrática." A revista publicou a declaração do advogado Modesto da Silveira em relação à tortura, ou seja, mais uma vez utilizava-se de outras "vozes" para mostrar o que queria dizer: "o governo deve antes de tudo restabelecer o direito multissecular do habeas corpus, sem o qual as garantias individuais são mera letra morta. Deve favorecer o desenvolvimento de uma plena e séria liberdade de imprensa, para que os fatos que ocorrem no país se convertam em informações e denúncias seguras e permanentes. Deve criar as condições de segurança e de diálogo necessárias ao estabelecimento de um Estado democrático".

Estas reportagens sobre as torturas aos presos políticos representam o maior momento de crítica ao regime militar realizado pela Veja. A equipe responsável por estas matérias foi a mesma que cobriu o processo sucessório após a doença do marechal Costa e Silva. Após estas reportagens, este grupo não trabalhou mais junto na revista e alguns jornalistas deixaram a Veja. Estes jornalistas tiveram uma grande perspicácia ao apresentar o combate à tortura como uma proposta do presidente Garrastazu Médici, mostrando-o também como o homem que iria promover a abertura política. Marcos Sá Correa lembrou: "Raimundo (Pereira) apostou ou fingiu que apostou na decisão do ministro Buzaid, que era ministro da Justiça, de proibir tortura. Então fez-se, na época, uma capa que serviu para denunciar a existência de tortura, chamava-se: "Presidente não admite tortura". Então, uma parte dessa coisa era vista pela gente que, eu trabalhei especificamente nessa matéria, era vista pela gente como um apoio tático, você fingia que apoiava." E Bernardo Kucinski complementou: "alguns desses jornalistas tinham vínculos com grupos de esquerda, além de que quase todos tinham simpatias sólidas por grupos de esquerda, a nossa tradição era essa e havia uma grande simpatia por esses grupos, mas desta circunstância surgiu a idéia de fazer as capas sobre torturas e que deram grande impacto, mas ficamos pendurados na brocha, o resto da imprensa não nos acompanhou e essa falta de acompanhamento trouxe depois o retrocesso. A genialidade do Raimundo (Pereira) foi que nós trabalhamos em cima das promessas do novo presidente, do Médici. Ele fez a besteira, aliás provocada por um jornalista do Rio, de que ele iria acabar com as torturas e tal e aí nós usamos isso como se fosse um mandato dele: vamos ajudar o presidente a acabar com as torturas. (...) Agora, depois que saem as matérias de tortura, a coisa engrossou. Aí a equipe ficou sob suspeita, imagino, é a primeira vez que eu estou usando esta palavra, mas é como se a gente já estivesse. Aí o Raimundo fez uma entrevista com o Reis Veloso na qual ele ridicularizou o Reis Veloso, e esse foi o pretexto para a demissão dessa equipe, o pretexto porque a causa foram aquelas matérias de tortura, na minha avaliação pelo menos."

Uma questão-chave , neste momento político presenciado por Veja, era o reflexo interno da revista em relação à sociedade. Os anos de 1968 e 69 mostraram uma grande mobilização da população contra a ditadura: o movimento estudantil, a Igreja, as greves operárias, as passeatas de oposição ao regime, a luta armada, etc. E dentro do semanário, a presença de duas principais equipes de jornalistas refletia a postura política desta época: uma mais "radical", liderada por Raimundo Pereira e outra mais "conciliadora", liderada por Mino Carta. O jornalista Bernardo Kucinski contou que a equipe de Raimundo Pereira ganhou destaque na Veja depois da cobertura do "Vôo à Lua". A partir daí, tornaram-se dominantes e começaram a ter influência em toda a revista. Já a equipe do Mino Carta era "uma turma jornalisticamente fraca que ele trouxe, uns amigos, enfim, por isso também que o Raimundo atropelou e ocupou espaço." No entanto, o jornalista afirmou que Mino Carta "sempre apoiou todas as iniciativas jornalísticas genuínas, ele não era um censor, ao contrário, também estimulava." Depois das reportagens sobre tortura, a equipe mais "radical" não trabalhou junta por muito mais tempo em Veja, mas deixou registrada nas páginas da revista um período de grandes acontecimentos e uma tentativa de resistência ao governo militar.

Como era de esperar, depois destas reportagens em que Veja proclamava o fim das torturas como necessário para o restabelecimento do Estado de Direito, a revista teve problemas com a censura e o governo militar. A edição 66 foi apreendida nas bancas. Isto porque a luta armada e a tortura eram assuntos tabus para os militares, sendo proibida qualquer publicação contrária ao regime no que dizia respeito a estes temas. A partir daí, voltaram as matérias sobre o combate ao "terrorismo" e sumiram as matérias sobre torturas.

Meses depois, em 13/ 05/70 (vol. 88), Veja informou:

"Foi em 1969 que a guerrilha deixou de ser uma ameaça: grupos subversivos, com atentados a bomba e assaltos a bancos, desencadearam um novo processo, o terrorismo urbano. (...) As Forças Armadas, sempre se aperfeiçoando para qualquer eventualidade, estavam alertas".
 
 
Mas Veja perguntou: e a guerrilha rural? Segundo a revista, a resposta veio através de um terrorista preso que indicou o novo foco de treinamento no Vale do Ribeira, que foi considerado pelo Exército como local estratégico para este tipo de ação. No entanto, o semanário informou que as tropas do Exército já haviam desarticulado dois campos de treinamento e prendido cerca de trinta pessoas., entre elas, um "elemento da cúpula da organização terrorista VPR..."

Sobre Carlos Lamarca, Veja (vol. 91, 03/06/70) afirmou que ele realizou uma operação plástica num hospital do Rio de Janeiro e esta "decisão de modificar a aparência revela um ousadia próxima do desespero". Segundo a revista, as investigações e informações dos terroristas presos estavam permitindo seguir os passos de Lamarca. Ele estaria no Vale do Ribeira para organizar um centro de treinamento de guerrilheiros. As autoridades informaram que este objetivo era irrealizável e que a área estava toda cercada. "Segundo uma fonte militar, seriam necessários muitos focos guerrilheiros, instalados em regiões de características muito favoráveis (são poucas no Brasil), para se considerar a situação como grave". Para o semanário, "tudo indica que, nessa guerra muito peculiar, o aparecimento de novas frentes de combate e os lances de ousadia, como a operação de Carlos Lamarca, significam não uma vitória, mas apenas uma tentativa de continuar lutando".

Algumas semanas depois, a revista noticiou a morte de Joaquim Câmara Ferreira, o "Velho" ou "Toledo" em 28/10/70 (vol. 112), "apontado como um dos líderes de uma das facções ainda ativas do terrorismo, sucessor de Carlos Marighella no comando da ALN." Ele foi morto numa ação comandada pelo delegado Sérgio Fleury: "cercado pela polícia, Câmara Ferreira reagiu a socos e dentadas e morreu, segundo o laudo médico, de um ataque cardíaco ao ser transportado para o DEOPS..." Notamos aqui a versão oficial do governo que foi transmitida pela revista. Devemos levar em consideração também que Veja estava sob censura, mas aceitou a versão governamental da morte por parada cardíaca de Câmara Ferreira e publicou-a.

Na edição 132 (17/03/71), Veja informou sobre a reunião do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana cujo assunto foi a prisão do ex-deputado Rubens Paiva no dia 20 de janeiro, depois do que não se teve mais notícias dele. O líder da oposição na Câmara Federal, Pedroso Horta declarou: "a imagem de nosso país precisa livrar-se de violências praticadas em nome do governo e pelas quais não pode ser responsabilizado". A revista disse que o episódio da prisão de Rubens Paiva ainda estava nebuloso: "uma semana após a prisão do ex-deputado, os órgãos de segurança divulgaram que um preso importante fora resgatado por terroristas numa ação armada enquanto era transportado de uma prisão para outra. Seria um meio para justificar mais tarde o desaparecimento de Rubens Paiva?"

Como podemos perceber, Veja questionou o governo a respeito da prisão de Rubens Paiva numa época em que ela não mencionava desaparecimentos dos participantes da luta armada. Uma explicação para isto pode ser a não participação do ex-deputado em organizações de esquerda, além de ter sido um bem sucedido empresário. Quando a repressão atingiu um político, mesmo da "oposição", o semanário inconformou-se com o desaparecimento dele e cobrou uma solução para o caso.

Conforme a publicação (vol. 160, 29/09/71), depois da morte de Carlos Lamarca em setembro de 1971 "surgiram oposicionistas dispostos a propor uma espécie de desarmamento. Oscar Pedroso Horta, líder do MDB na Câmara, declarava no Rio que o governo perdera o último pretexto para manter em vigor medidas de exceção". Já "Geraldo Freire, líder da Arena, respondia que o restabelecimento da plenitude democrática nada tem a ver com o problema do terrorismo". Veja informou:

"Segundo uma fonte militar, embora os atentados continuem, espera-se que o movimento subversivo adote uma nova estratégia. Combalido nas suas ações terroristas, poderia voltar-se agora para atividades clandestinas de infiltração, aliciamento e proselitismo. A subversão, segundo aquela fonte, ao invés de armas, tem a pretensão de passar a deflagrar idéias".

Durante o ano de 1972 a revista publicou poucas reportagens sobre este assunto. Apenas em 12/01/72 (vol. 175) a matéria dizia: "cinco homens morreram na semana passada, em São Paulo, vítimas do combate entre os órgãos de segurança e o terrorismo. Praticamente aniquilados, sem líderes, incapazes de realizar grandes golpes e sem dúvida cada vez mais distantes dos seus objetivos políticos, os terroristas ainda insistem em continuar na linha da violência, a cada dia mais absurda." E alguns meses depois (05/07/72, vol. 200), Veja publicou sobre uma denúncia de tortura, assunto que o semanário estava proibido de noticiar. "Confiante, o investigador Lázaro Pacheco dizia a jornalistas sobre o inquérito em que o juiz de Piracicaba, São Paulo, ouve presos que se dizem torturados: "não adianta denunciar torturas às autoridades porque tenho proteção na Secretaria de Segurança". Lázaro (ou, como ele prefere, "o famoso Lazinho de São Paulo, da equipe do delegado Fleury") talvez esteja enganado quanto aos favores da autoridade que por ventura o acoberte. (...) Na delegacia de Bebedouro, onde apurava denúncias de torturas, o juiz Álvaro Breves de Menezes encontrou uma engenhosa máquina de dar choques, movida a manivela, usada para obter confissões."

Podemos perceber que, depois do início do governo Médici, Veja continuou condenando o movimento de luta armada, mas realizou algumas edições com reportagens denunciando a tortura. A revista assumiu a existência de torturas nas prisões realizadas pelos militares e condenou, principalmente, esta prática utilizada em jovens estudantes. A condenação do uso da tortura pelo semanário era condizente com os seus princípios como a volta dos direitos legais dos cidadãos. Por isso, na defesa da abertura política, condenava a existência dos mecanismos de exceção instalados com o AI-5. O semanário apresentou, inicialmente, o combate às torturas como uma proposta do general Médici e depois realizou uma edição histórica denunciando a existência de torturas aos presos políticos, inclusive um dossiê que seria enviado ao presidente. No entanto, devido a estas reportagens, a revista passou a sofrer pressões governamentais e censura, e após isto, Veja continuou publicando apenas a derrocada do movimento de luta armada e condenando a sua prática. Realizou apenas mais uma matéria sobre denúncia de torturas e deixou de publicar sobre estes assuntos, já que o movimento de luta armada estava quase totalmente derrotado e a tortura estava proibida de ser noticiada.
 
 

1973-74: UM PERÍODO DE ESPERANÇAS



O segundo período enfocado nesta análise engloba o ano de 1973 até a posse do general Geisel em 15 de março de 1974. Este período é marcado por uma censura rigorosa ao semanário, havendo um censor na redação para ler as matérias antes de serem publicadas.
 
 

Uma questão crucial para o semanário era a abertura do regime, pois viria com ela a liberdade de imprensa. Como Veja estava sofrendo censura, utilizava-se de linguagem metafórica e de recursos gráficos para mostrar seu posicionamento.

Neste período, dois temas foram destacados pela revista: a sucessão do general Médici, e a participação da oposição "oficial", representada pelo MDB, na campanha para a eleição presidencial. Desta maneira, como foi recebida a indicação de Ernesto Geisel para substituir o presidente? Veja apostou no processo de redemocratização apresentado pelo candidato? Qual o papel da oposição para a revista?

No entanto, antes de analisarmos o posicionamento de Veja através de suas reportagens, mostraremos alguns acontecimentos do governo Médici interessantes para o trabalho.
 
 

O governo Médici

Na presidência do general Médici iniciou-se um período de grande repressão à população que passou a viver sob ameaça de violência e tortura. O governo Médici (1969-1974) foi o período mais sombrio da ditadura militar. Nesta fase intensificou-se a luta armada contra o regime, formou-se um aparelho de repressão extremamente violento, generalizou-se a tortura e implantou-se rigorosa censura à imprensa e à manifestação das idéias em geral. "O Exército brasileiro institucionalizou e protegeu a tortura e a brutalidade como instrumentos de controle social." Os órgãos repressivos adquiriram grande autonomia e derrotaram a esquerda envolvida na luta armada para combater a ditadura. Após isto, há o reconhecimento, por parte da esquerda, da situação de inferioridade e de impasse político decorrente do isolamento das massas. Os militares viam a repressão como uma maneira de restringir as exigências econômicas, políticas e também para obterem estabilidade financeira, investimentos e rápido crescimento econômico. Desta maneira, a ditadura militar aplicava aos oposicionistas vários instrumentos de repressão como as cassações políticas e as prisões com torturas e assassinatos.

No governo Médici, o movimento sindical era fraco e a tecnocracia governante era eficiente e poderosa. Não houve mobilização estudantil, além de poucas greves que não eram noticiadas pela imprensa, isto devido ao estreito controle das comunicações de massa e irrestrito poder militar.

Também ocorreu o "Milagre Brasileiro" que favoreceu principalmente o grande capital e a classe média e incentivou o consumo de bens duráveis. Assim, a economia tornou-se muito importante no governo Médici, pois incentivou o consumo de massa através de créditos ao consumidor. O regime era, com isso, "legitimado" pela classe média.

Neste contexto de centralização crescente em que as decisões eram tomadas sem nenhuma participação popular, o presidente Médici proibiu o assunto de sua sucessão até o segundo semestre de 1973. Depois que o influente jornal O Estado de S. Paulo (que estava sob censura) publicou uma série de artigos especulando sobre a sucessão, o governo decidiu reforçar a censura, proibindo qualquer discussão do tema. As proibições sobre especulações da imprensa quanto à sucessão ilustravam o grau em que os militares dependiam da censura aos meios de comunicação. Através dela, poderiam manter o processo de tomada de decisão do governo restrito a um pequeno círculo de oficiais e tecnocratas governantes.

Com isso, "a censura era outro instrumento governamental de repressão. O trabalho dos censores era impedir que a mídia lançasse qualquer dúvida sobre a eficiência do governo." Nesta época, diminuíram as matérias com críticas políticas diretas ao governo, ou então, à tortura ocorrida no período. Isto devido à censura prévia das matérias: os censores não permitiam alusões a alguma coisa que não estivesse de acordo com os ditames do governo. Os jornalistas tiveram que aprender a burlar a censura.

Desta maneira, a imprensa, principalmente a imprensa alternativa, tornou-se um dos poucos lugares em que intelectuais e jornalistas conseguiram expressar seu repúdio ao regime ditatorial. No entanto, o governo conhecia o poder dos meios de comunicação e começou a não gostar das críticas que passou a receber através destes jornais. Assim, os jornais alternativos passaram a receber censura prévia e os que conseguiram sobreviver tornaram-se símbolos de resistência, pois muitos fecharam devido à severa censura.

A substituição do presidente Garrastazu Médici foi a menos conflituosa das sucessões, comparando-se com as outras ocorridas durante o período ditatorial e deu-se em meio a uma relativa unidade política, não havendo um conflito acirrado entre os grupos militares que disputavam o poder. Ao contrário, no período Médici, houve uma latência dos conflitos internos nas Forças Armadas, pois estas estavam unidas para combater a oposição armada. Nesta época, houve o fortalecimento dos setores voltados para a repressão que a justificavam em termos de uma guerra. A oposição liberal silenciou-se e os movimentos operário e estudantil foram destruídos.

A primeira referência à candidatura de Ernesto Geisel ocorreu, segundo Carlos Chagas, em uma reunião, realizada em janeiro de 1972, entre o presidente Médici e o ministro do Exército, Orlando Geisel. O ministro era favorável à prorrogação do mandato do presidente, mas este não aceitou a proposta, e sugeriu que Orlando Geisel fosse seu sucessor. Ele não aceitou, mas indicou o nome de seu irmão, Ernesto Geisel. Outros articuladores da candidatura Geisel foram o general Golbery do Couto e Silva, então afastado da vida política; o general João Baptista Figueiredo, chefe do Gabinete Militar; e o senador arenista Daniel Krieger que manifestava esperanças de ver a democracia restabelecida com Geisel. Contra a sua candidatura estavam o presidente do Senado e da Arena, Filinto Muller e o chefe do SNI, Carlos Alberto Fontoura que não queriam a volta ao castelismo. O nome escolhido por este grupo, para suceder Médici, era o do general Lyra Tavares, sondado também pelo próprio presidente, mas preferiu ficar em Paris, onde era embaixador. O grupo articulador em torno do nome de Geisel prevaleceu e o confirmou como sucessor. Deste modo, em 19 de setembro de 1973, a convenção da Arena aclamou por unanimidade o candidato Ernesto Geisel e o vice Adalberto Pereira dos Santos.

Nessa altura, "os Altos Comandos do Exército, Marinha e Aeronáutica se haviam reunido, para tomar conhecimento da indicação. Não agiram com poder decisório, à maneira do acontecido em 1969, quando da eleição de Garrastazu Médici. Apoiaram a escolha, uma semana antes dela ter sido anunciada." Para o próprio filho de Médici, "o Alto Comando, que até então tinha sido a natureza criadora de todos os governos revolucionários, foi, nessa ocasião (escolha de Geisel), mero espectador."

Durante a campanha do general Geisel foi importante o papel da oposição, cujo candidato pelo MDB era o deputado Ulysses Guimarães. Foi realizada, então, uma "anticampanha", devido à derrota já assegurada, em que o partido político de "oposição oficial" esperava um resultado positivo na divulgação de suas posições e seus princípios. Isto deu-se através de cadeias de rádio e televisão, inicialmente, e logo após, com a negação pelo Supremo Tribunal Eleitoral do acesso gratuito do partido oposicionista a estes veículos de comunicação, a campanha passou a concentrar-se em comícios. O MDB concentrou sua campanha em três questões: justiça social (denunciando a tendência a uma distribuição desigual da renda), liberdades civis (violação dos direitos humanos) e a desnacionalização (denunciando a infiltração estrangeira na economia brasileira). Além disso, foi importante a luta pela redemocratização realizada pelo partido oposicionista.

A oposição, através do MDB, lançou-se em uma campanha que visava colher frutos nas eleições parlamentares de novembro de 1974. E este objetivo foi atingido (o MDB elegeu 16 das 22 cadeiras para o Senado e dobrou sua representação na Câmara para 160 contra 204 da Arena). Esta foi uma campanha simbólica que "contribuiu para evidenciar a legitimidade do processo eleitoral indireto. Mas teve outra função: renovar esperanças e diminuir o medo e o isolamento paralisantes causados pela repressão. A oposição alia-se à Igreja católica e começa a organizar um amplo movimento social de base pela defesa dos direitos humanos e dos direitos econômicos e sociais fundamentais."

O general Geisel foi "eleito" no dia 15 de janeiro de 1974 e assumiu o governo em 15 de março do mesmo ano. Ele possuía uma proposta de abertura do regime "lenta, segura e gradual." Mas seu período ainda foi marcado por muitas denúncias de tortura, crises no interior dos círculos militares e pelo abrandamento da censura à imprensa e da extinção do AI-5, já no final de seu governo.
 
 

A revista Veja e o processo de abertura política

Na sucessão do general Médici houve um clima de esperança em relação à volta das instituições democráticas devido à indicação do general Ernesto Geisel. Esta esperança foi alimentada principalmente pela grande imprensa que, durante o governo Médici, esteve sob censura férrea. Com isso, analisaremos se a revista Veja embarcou nesta campanha e se foi ou não favorável a esta indicação como uma maneira para sair do regime ditatorial. Nesta época, o general Golbery do Couto e Silva (principal assessor de Geisel) iniciou contato com vários representantes da grande imprensa para conseguir apoio ao projeto de distensão. Ele reuniu-se "por diversas vezes com jornalistas proeminentes, aos quais apresentava o projeto político do novo governo e garantia que a censura seria brevemente suspensa. Estabeleceu-se de imediato um clima de grande esperança."

A partir disto, interessa-nos saber se a revista Veja apostou na redemocratização do país e assumiu esta campanha apoiando a candidatura Geisel. O "candidato da abertura", para a imprensa, abriu a possibilidade de rompimento dos vínculos de solidariedade direta entre a presidência e os órgãos de repressão e inclusive o rompimento da censura. Assim, o fim do regime militar provocaria também o fim da censura que atingia e mutilava os órgãos de imprensa e, entre eles, Veja. É importante frisar que o período Médici foi marcado pelo aumento da repressão e da censura à imprensa. Desta maneira, verificaremos se a revista apostou na candidatura Geisel visando também o fim da censura e dos órgãos de repressão que ganharam grande autonomia no governo Médici. Este posicionamento é mais facilmente observado durante o processo sucessório em que o futuro presidente lançou as bases de sua campanha por uma distensão do regime. Com isso, as posições políticas assumidas por Veja podem ser demonstradas a partir dos temas que foram destacados em suas matérias e como eles foram tratados.
 
 

A sucessão de Médici

A revista só vai noticiar o nome do candidato a presidente da República após a data estabelecida pelo general Médici. Por isso, em junho de 1973, Veja publicou uma edição-extra (vol. 250-A) para anunciar o nome do sucessor de Médici: o general Ernesto Geisel. Esta edição foi importante, pois trouxe reportagens sobre a sucessão dizendo que esta cultivou a unidade das Forças Armadas.

Com isso, em junho de 1973 (Veja , edição-extra, vol. 250-A), o presidente Médici declarou: "o candidato em que me detive preenche de modo superabundante os pressupostos, havendo a mais completa segurança de que não permitirá, uma vez investido na presidência da República, qualquer desvio à filosofia econômica, social e política a que se filia a ordem revolucionária. É natural, por isso, que o nome deste candidato encontre a maior receptividade em todos os setores, cabendo afirmar que, a respeito de sua indicação, se registra geral consenso".

De acordo com o semanário, "uma forte satisfação se apossou da nação no mesmo momento em que ficou evidente a tranqüilidade da sucessão. (...) Assim, o país saboreia agora a sensação de que, pela primeira vez desde 1946, o presidente da República passa a faixa a quem deseja como sucessor e o vislumbra como continuador de sua obra". Em relação ao general Geisel, Veja disse:

"Olhado a partir de suas relações com o movimento ectoplásmico conhecido como ‘linha-dura’, que afligiu o governo Castelo, pode ser confundido, equivocadamente, com um liberal. Visto através de uma pesquisa de seus votos no Superior Tribunal Militar onde permaneceu até o fim do governo Costa e Silva, pode ser entendido como um duro. (...) Se o general é um liberal, então, anda com a chave da reabertura no bolso. Mas, se o general é um duro, traz o cadeado."
 
 
Esta matéria é bastante demonstrativa em relação às expectativas iniciais de Veja face à indicação de Ernesto Geisel para a presidência. O clima era de incerteza, pois os presidentes anteriores haviam prometido a volta às instituições democráticas, mas não haviam cumprido. Por isto, a revista foi bastante cautelosa quando tocou neste assunto, mas já demonstrava uma certa euforia com a candidatura Geisel. Desta maneira, o último trecho citado mostra as dúvidas sobre o futuro político, que poderia caminhar para a abertura, caso Geisel fosse um liberal, ou para um fechamento maior, caso fosse um duro.

Nesta mesma edição, conforme Veja, "mais importante do que o apoio e a autoridade moral de Orlando Geisel, foi, entretanto, a operosidade demonstrada por Ernesto na direção da Petrobrás que o credenciou à presidência da República, numa atmosfera bem mais tranqüila do que as sucessões anteriores." A revista publicou que o general Ernesto Geisel era o suposto herdeiro das idéias políticas castelistas, mas manteve-se distante desta seita. De acordo com o semanário, dez anos depois, Geisel assumia o país em circunstâncias muito diversas das que Castelo enfrentou: "ao longo deste tempo, a Revolução criou hábitos e incorporou à sua rotina decisões que a Castelo custaram crises." Assim, também, o governo de "Geisel não poderá mais ser ‘esguiano’ porque, se uma parte da doutrina da Escola foi também assimilada pelo metabolismo da Revolução, suas formulações perderam a função de alimentar diretamente as decisões administrativas. (...) O castelismo como repetição não pode existir mais."

Em uma outra matéria, nesta edição-extra, Veja declarou: "duas vezes a Revolução trocou de chefe, na presidência da República. E nas duas o país ficou suspenso, atento a um debate que a todos interessava, mas era tratado muito acima de qualquer possibilidade de participação..." De acordo com a revista:

"A terceira troca na chefia começou com a nação em paz e o governo senhor de todos os problemas porque a unidade militar da Revolução permaneceu intacta".
 
 
Para o semanário, Geisel se encaminhava para o governo praticamente sem ter se empenhado pessoalmente em negociações complicadas e desgastantes, e por isto teria condições para desenvolver um completo programa de governo. "A lembrança de que Castelo, Costa e Silva e Médici não puderam atender ao compromisso espontaneamente assumido diante do país talvez recomende ao futuro presidente a conveniência de não se comprometer a tão delicado tema. Pois se é importante restabelecer plenamente as liberdades democráticas, também não deixa de ser importante não fazer promessas."
 
 

Ainda nesta edição, Veja realizou uma entrevista com o senador Daniel Krieger, defensor do grupo do general Geisel e esperançoso do retorno ao diálogo com a classe política. O senador declarou: "os partidos políticos e o Congresso são essenciais à prática da democracia". E "não concebo uma democracia em que não sejam assegurados os direitos e garantias individuais, mesmo se compreendendo que, em certos momentos, as emergências as suprimam. (...) É claro que, entre os deveres dos governantes, encontra-se em primeiro plano o de manter a ordem material, sem o que não sobrevivem os direitos e garantias. Mas creio que esses eclipses devam ser transitórios". Para Krieger, Médici acertou na escolha de seu sucessor: "tenho, como tem o presidente Médici, como tem toda nação, a certeza de que ele prosseguirá no processo de desenvolvimento do país, na manutenção da ordem política, na defesa da probidade administrativa e, o que é mais importante, no encaminhamento do país, dentro do tempo e das possibilidades, ao Estado de Direito. (...) Estou certo de que haverá diálogo".

Percebemos que, nesta edição-extra, Veja se mostrava esperançosa em relação ao retorno das instituições democráticas. No entanto, ela o fazia com reservas, tendo em vista as experiências anteriores em que os ex-presidentes prometeram a redemocratização do país, mas não cumpriram o prometido.

A revista começou a se declarar abertamente favorável à distensão em 22/08/73 (vol.259) quando publicou o encontro do general Geisel com o presidente da Arena, o senador Petrônio Portella. Para Veja:

"A decisão de ir à Brasília para encontrar a Arena foi, no mínimo, uma decisão gentil e, no máximo, um indício por onde se pode avaliar um período das relações mais intensas entre o Executivo e o Legislativo. Na verdade, a visita à Arena e o ambiente de cordialidade do próprio general são suficientes para indicar alguma distensão e, sobretudo, uma evidente boa vontade do futuro presidente para com os políticos."
Na edição de 23/01/74 (vol. 281), Veja noticiou a vitória do general Geisel para presidente da República e fez o seguinte comentário: "com razão, o general Portella afirmou não ter o MDB estrutura política nem densidade popular para eleger o presidente." Dando a palavra a Ulysses Guimarães, a revista dizia: "o general Geisel foi um servidor honrado das Forças Armadas e tem experiência administrativa. Por isto dispõe de condições para liderar o país e conduzi-lo à normalidade democrática." Para o semanário, "deve-se analisar os nomes que Geisel vai escolher para compor o Ministério e assim, o presidente eleito tornará mais explícitas as linhas gerais do seu governo".

Na semana em que o general Geisel tomou posse, Veja (27/03/74, vol. 290) expôs seu programa de governo e o discurso em que anunciou o objetivo tão esperado: "o gradual, mas seguro, aperfeiçoamento democrático".

Dessa forma, podemos notar como o semanário assumiu o projeto de abertura proposto pelo governo, pois seria viável e não causaria retrocessos. Vai neste sentido, o depoimento de Mino Carta, então diretor de redação de Veja: "Veja havia feito uma opção política no sentido de dizer, entre o governo Médici e um governo que se propõe acabar com a censura e com a tortura, achamos melhor isso. Não só, é um governo que pretende acabar com a censura, acabar com a tortura, acabar com o AI-5, fazer a anistia, fazer uma reforma partidária, organizar eleições diretas para governadores de Estado e, finalmente, uma eleição direta para presidente da República. Quer dizer, era o processo de abertura, então, nós preferimos quem vai fazer a abertura do quem não vai fazer. (...) Enfim, entre não ter nada e a distensão lenta, gradual, porém, segura, a revista Veja era a favor da distensão lenta, gradual, porém, segura. Não que fosse o sonho da revista Veja, mas ela achava que por aí o país abriria e de fato o país abriu, não só abriu, isso não impediu que se cometessem coisas hediondas no decorrer do período e que a anistia não fosse a anistia certa, e que a reforma partidária não fosse a reforma partidária certa, enfim, tudo mais, não impediu as bombas do Riocentro, não impediu as bombas na OAB, não impediu um monte de coisas horríveis, mas houve. (...) Mas eu estou lhe dizendo o seguinte: aquilo era a posição que a revista tomava de caso pensado e era para produzir efeitos, quer dizer, a abertura pode ser. (...) Não houve concessão no caso da candidatura Geisel. A revista achou que por aí se podia chegar a uma situação mais fácil e eu acho que a revista estava certa e de fato era um encaminhamento, tinha a situação, era muito complicada e havia uma complexidade que implicava, inclusive, num salto interno dentro do próprio regime." O jornalista Marcos Sá Correa complementou: "você tinha duas linhas, realmente, de ação, quer dizer, quem não era governo, no Brasil, mas também não era oposição da luta armada, não tinha outra oposição a fazer se não apostar na linha mais branda do governo, você apostava em alas do governo que supunha que fossem contra o regime, que indicassem a tendência de abrandamento do regime." Assim, a revista apoiou o que considerava a ala mais "branda" do governo e sua proposta de abertura política.
 
 

Veja e a oposição

Durante o ano de 1973, Veja publicou o debate que ocorria no partido de "oposição" entre os "autênticos" e "moderados" sobre o lançamento da candidatura própria do MDB. De acordo com o semanário (20/06/73, vol.250), "enquanto o presidente do MDB, Ulysses Guimarães prefere guardar distâncias das eleições indiretas, Francisco Pinto e Freitas Nobre acham que o partido deve ter candidato, certamente para ser derrotado, mas também para conseguir chegar à opinião pública com alguns dos recados oposicionistas."

Para a oposição, o ideal seria que o general Geisel realizasse um processo de redemocratização (Veja, 11/07/73, vol.253). Segundo a revista, o MDB tinha o direito incontestável de participar da sessão histórica que escolheria o general Geisel para presidente. Para o líder do MDB na Câmara, o deputado Aldo Fagundes, o fato de serem a favor das eleições diretas não impedia que participassem de pleitos indiretos. Conforme Veja:

"As relações entre o MDB e o general Geisel atravessam todo o oceano das dúvidas políticas do país. Para a oposição, o ideal seria que ele a procurasse, oferecendo um processo de redemocratização. Para o futuro presidente, ainda que desnecessário a princípio, seria estimulante se a oposição lhe oferecesse apoio incondicional."
Desse modo, a revista falava também sobre a volta à democracia como sendo uma proposta da oposição.

Em 22/08/73 (vol.259), Veja declarou que, com o lançamento do candidato próprio, Ulysses Guimarães, "o MDB deveria realizar uma campanha suficientemente agressiva para conquistar o eleitorado dos votos nulos e ao mesmo tempo bastante moderada para não comprometer as tênues linhas de contato estabelecidas com o futuro governo."
 
 

Veja tratou desta questão porque havia um debate entre "moderados" e "autênticos" dentro do partido de "oposição oficial". Prevaleceu, neste debate, a tese dos "moderados" de que o MDB deveria realizar uma campanha agressiva a fim de conquistar o eleitorado para as eleições parlamentares de 1974, mas moderada para não comprometer os contatos com o futuro governo. No entanto, a idéia de lançar candidato próprio partiu do grupo "autêntico" e foi encampada pelo grupo "moderado". Os "autênticos" achavam válida a campanha, mas queriam a retirada dos candidatos do processo eleitoral.

Barbosa Lima Sobrinho foi lançado à vice-presidência pelo MDB e Veja (05/09/73, vol. 261) trouxe os temas que pareciam importantes para o candidato: 1) o desenvolvimento baseado na criação de capitais nacionais e no fortalecimento das empresas brasileiras; 2) a liberdade de imprensa; 3) a reabertura democrática. Para a revista, "os moderados, que têm a maioria do comando partidário, lançaram o nome do presidente do partido, Ulysses Guimarães e numa hábil manobra desarticularam as resistências dos radicais colocando na vice-presidência o próprio candidato em que eles haviam pensado para a presidência."

Por sua vez, em entrevista nas páginas amarelas da revista (12/09/73, vol. 262), Ulysses Guimarães declarou que sua candidatura ensejava uma crítica ao processo sucessório que estava sendo feito sem o voto popular; sobre Geisel, ele esperava que cumpriria os objetivos da reforma política no sentido da democracia, ou seja, teria "uma oportunidade histórica de devolver ao país a liberdade". De acordo com Veja:

"Como um semeador, o MDB vai para a campanha eleitoral pensando no futuro".
Segundo Ulysses Guimarães, a abstenção não teria dado a oportunidade de levar o programa do MDB às ruas, às praças, aos programas de rádio e TV. Assim, ele seria o anticandidato que iria mostrar o absurdo do colégio eleitoral que usurpou o direito dos brasileiros de escolher seus governantes: "a campanha será simbólica, mostrando a grave mutilação que se fez na vida política do país, onde foi tirado aos cidadãos o direito de eleger seu presidente."

No dia 19/09/73 (vol.263), o deputado do MDB, Luís Henrique da Silveira, acreditava que a campanha presidencial serviria para a conquista de maiorias nas assembléias legislativas, os colégios eleitorais dos Estados, em 1978. Segundo Veja, os dirigentes do partido tinham aspirações mais modestas: "a pregação dos candidatos, previamente condenados à derrota, pelo menos mostrará que é difícil fazer oposição." Esta matéria é bastante ilustrativa pois mostra como a revista não apostava na campanha realizada pelo partido de "oposição". Ela não acreditava que esta campanha daria frutos em eleições posteriores, além de questionar a dificuldade em se realizar oposição. A revista temia que uma oposição acirrada pudesse reverter o processo de reabertura proposto pelo então candidato Geisel ao qual apoiava.

Na convenção do MDB que homologou a candidatura de Ulysses Guimarães e Barbosa Lima Sobrinho, o discurso de Ulysses mostrou que na oposição não havia candidato, "pois não podia haver candidato a lugar de antemão provido". Disse que a censura à imprensa, rádio e TV "venda os olhos e tapa os ouvidos do povo". Conforme Veja (26/09/73, vol. 264) "não se pode dizer que Ulysses montou um edifício de críticas ao governo. Foi sobretudo sensato e não condenou casos específicos". Segundo Ulysses, "a oposição dará à próxima administração a mais alta, leal e eficiente das colaborações: a crítica e a fiscalização". Para o semanário, "a sua campanha pode ser a entrada efetiva da oposição no cenário político vigente". O anticandidato dizia que o MDB pretendia conquistar os eleitores e divulgar as idéias do partido através dos meios de comunicação, mas não sabia se isto seria possível. Veja opinou:

"Como as fórmulas primárias e violentas de contestação, desprezadas pela população, revelam-se controláveis, a oposição, felizmente, só poderá viver do MDB e, assim, verifica-se que, apesar dos autorizados e insistentes desejos de união manifestados pelos últimos governos, talvez a melhor fórmula fosse permitir que Ulysses Guimarães fizesse seu trabalho pelo menos livre de suspeitas e censuras ostensivas."
No final de outubro, Ulysses Guimarães (Veja, 24/10/73, vol.268) declarou que sua campanha era um protesto contra as eleições indiretas, a censura e o aumento do custo de vida. Para o candidato do MDB, "nossa campanha é um protesto e não uma contestação, porque sabemos que não temos nenhuma chance". Em 14/11/73 (vol. 271), Ulysses falou que o MDB estava fazendo uma "campanha imitando a democracia grega em que não havia meios de comunicação de massa e os candidatos saíam de porta em porta, chamando o povo para as ruas". De acordo com a revista (21/11/73, vol. 272):
"O MDB não duvida da derrota, mas parece conformado. Seus dirigentes moderados confessam-se maravilhados com os resultados obtidos com as visitas aos Estados, e acreditam que no ano seguinte, nas eleições parlamentares, será possível contar com uma colheita abundante, apesar dos meios rústicos que teriam de ser utilizados na semeadura".

Veja refere-se, aqui, à não utilização do acesso à televisão para a "campanha eleitoral" do partido oposicionista. Por isto, utilizavam-se de "meios rústicos para a semeadura", ou seja, realizar uma campanha de "corpo a corpo" para tentar colher os frutos numa próxima eleição. Isto ocorreu porque, como a campanha realizada pelo MDB estava atingindo grande parte da população, o Supremo Tribunal Eleitoral (STE) proibiu a presença do partido nos horários gratuitos de rádio e televisão. Este assunto foi tratado por Veja em 28/11/73, (vol. 273). Mesmo assim, a Convenção do MDB estabeleceu a continuidade da campanha dos "anticandidatos". Conforme o semanário (05/12/73, vol. 274), os " "moderados" querem manter as anticandidaturas de Ulysses Guimarães e Barbosa Lima Sobrinho à presidência e vice-presidência da República, apesar da Justiça Eleitoral negar-lhes o direito ao uso gratuito do rádio e TV. Os "radicais", que preferem chamar-se "autênticos", querem manter as anticandidaturas e prosseguir na campanha, mas retirá-las com o maior estardalhaço possível no dia das eleições." Na convenção do MDB verificou-se a vitória da tese moderada.

Na edição 280 (16/01/74), Veja fez uma crítica sutil às eleições indiretas ao publicar um elogio do senador Petrônio Portella ao general Geisel. Portella declarou: "creio na eleição indireta para presidente da República, como sendo a melhor. E acho que esta é a opinião da maioria dos brasileiros." Segundo a revista:

"O senador Portella não exagera ao falar da capacidade do general Geisel, mas misturar as virtudes do candidato com as virtudes do sistema preparado para elegê-lo, e supor que estas são responsáveis por aquelas pode ser uma distração tão grande quanto falar em nome do povo brasileiro, sem que esse fosse chamado a manifestar diretamente a sua opinião."
A partir da análise destas matérias, podemos perceber como Veja claramente apostou na proposta de redemocratização do país feita pelo general Geisel. Para isto, a revista utilizou-se da linguagem metafórica e de recursos gráficos, pois esta era uma época em que já sofria censura prévia circunstancial. Este é um dos motivos principais pelo qual Veja embarcou na candidatura Geisel: o general era visto como uma alternativa para o fim da ditadura e da censura. Esta posição foi assumida inicialmente com ressalvas devido às experiências anteriores (os ex-presidentes também haviam prometido a redemocratização do país), mas, logo após, apostou-se nesta solução como retorno à democracia. O partido "oposicionista" (MDB), por meio da "anticandidatura" de Ulysses Guimarães, foi visto pelo semanário como "aventureiro", no sentido de que sua campanha não resultaria em grandes transformações, mesmo tendo em vista as eleições parlamentares que se realizariam no final de 1974. Neste sentido, as movimentações do MDB foram bastante noticiadas pela revista, mas sem crédito à campanha que realizava. A esperança de Veja era que o general Geisel retomasse o processo democrático e devolvesse ao país o funcionamento das instituições democráticas. Com isso, a abertura política se daria a partir do regime militar e com a participação dos políticos, mas sem a ajuda da população nesta transformação. Através do objetivo "gradual, mas seguro aperfeiçoamento democrático", as mudanças ocorreriam "de cima" para "baixo" e refletiriam, segundo Veja, a melhoria de todo o país. Como já apontou uma estudiosa, "apesar do abrandamento da censura, permaneceu o medo, incentivado pelo próprio governo, de que atitudes mais agressivas por parte da imprensa, pudessem por em risco o processo de abertura. (...) Grande parte da imprensa se convenceu de que, na luta pela democracia, era muitas vezes mais conveniente deixar calmo o ambiente político, a fim de facilitar a implantação do projeto de distensão, do que assumir atitudes mais agressivas que pudessem provocar uma interferência mais decisiva dos setores militares radicais. Havia uma consciência mais ou menos generalizada de que a melhor postura política no momento era, se não apoiar, pelo menos não atrapalhar o projeto político do presidente Geisel." Com efeito, este sentimento apontado por Duarte foi assumido pela revista Veja.
 
 




1977-79: UM PERÍODO DE EXPECTATIVAS FRENTE

À ABERTURA POLÍTICA


 
 

Este período engloba os anos de 1977, quando a imprensa começou a noticiar sobre o possível nome do futuro presidente; 1978 com a intensificação da campanha para a "eleição"; e chegamos até 15 de março de 1979, quando o general João Baptista Figueiredo tomou posse. Nesta época, ocorreu o fim da censura política à imprensa e o fim do AI-5, mas permaneceram a Lei de Segurança Nacional e as salvaguardas institucionais que davam plenos poderes ao Executivo. Iniciou-se efetivamente o processo de abertura e, no entanto, mantiveram-se poderes excepcionais, caso o governo precisasse deles.
 
 

Veja foi liberada pela censura em junho de 1976 e, por isto, realizou a cobertura da sucessão presidencial sem a pressão dos censores na redação. No entanto, permaneceu uma autocensura na revista, pois ainda havia o medo de que qualquer atitude mais agressiva e contrária ao regime militar pudesse provocar um retrocesso. Como já vimos, isto era um receio incentivado pelo próprio governo. E os jornalistas do semanário aceitaram estas regras como uma tentativa de favorecer o retorno às instituições democráticas.

Neste período, mesmo com o fim da censura, ainda havia a incerteza em relação à continuação ou não do processo de abertura política que deveria ser cumprido pelo então candidato a presidente da República, o general João Baptista Figueiredo. Desta maneira, os temas aqui destacados foram: a sucessão do general Ernesto Geisel e a oposição "oficial" representada pela Frente Nacional pela Redemocratização. Agora, a opinião do semanário era expressa através dos editoriais ("Carta ao Leitor") que ganharam destaque com o fim da censura à imprensa. Podemos, então, indagar: como Veja recebeu a indicação do general Figueiredo para substituir o presidente? Como a oposição era vista neste processo? A revista manifestava-se declaradamente, depois do fim da censura?

Veremos agora, alguns acontecimentos do governo Geisel que ajudarão no entendimento da análise das matérias de Veja.
 
 

O governo Geisel

O general Geisel iniciou o processo de distensão, que resultaria numa abertura "lenta, segura e gradativa". Segundo o jornalista Bernardo Kucinski, que estudou este processo, "a ênfase era posta não na mudança do sistema, mas, ao contrário, na cristalização do que ele tinha de essencial através da eliminação de algumas impurezas." Em 31 de dezembro de 1978, foi extinto o AI-5, mas em seu lugar estabeleceram-se salvaguardas constitucionais (medidas de emergência e estado de emergência, que dava poderes totais ao Executivo). Além disso, o governo havia retirado a censura à imprensa, mas permaneceu a Lei de Segurança Nacional mantendo, assim, uma legislação autoritária.

O processo de abertura foi marcado, como mostram estes exemplos, por muitas contradições, e também foi um processo controlado principalmente pelo presidente Geisel e pelo general Golbery do Couto e Silva. Este controle é explicado por Alfred Stepan, que mostrou a diferença entre liberalização (defendida pelos militares) e a democratização (defendida pela oposição representada pelo MDB). A liberalização significava mudanças de orientação política e sociais como o abrandamento à censura, maior espaço para a atuação da classe trabalhadora, reintrodução de leis como, por exemplo, o habeas corpus, libertação de prisioneiros políticos e tolerância em relação à oposição política. Já a democratização, além de tudo isto, requeria uma contestação aberta pelo direito de disputar o governo e isto requeria eleições livres.

A crise no processo sucessório iniciou-se com a morte do general Dale Coutinho, Ministro do Exército. Em seu lugar, foi nomeado o general Sílvio Frota que era contra o processo de distensão, queria manter o fechamento do regime e passou a articular sua própria candidatura presidencial.
 
 

Além disso, o general Geisel ainda possuía outro problema: a oposição. Percebendo a força do rádio e da televisão nas campanhas eleitorais e para contê-la, aprovou-se a Lei Falcão que proibia a veiculação de propaganda política nestes meios de comunicação. Outra medida tomada para evitar que a oposição ganhasse as eleições em 1978 foi o Pacote de Abril lançado em 1977. O Congresso foi colocado em recesso; as eleições para governadores tornaram-se novamente indiretas e criaram-se senadores "biônicos", eleitos indiretamente. Tudo isso para evitar a maioria da oposição no Congresso, o que poderia provocar a não aprovação das medidas do governo pelo Legislativo. O Executivo mudou mais uma vez as regras do jogo e estabeleceu as suas próprias, para não perdê-lo.

Neste quadro, o MDB lançou o general Euler Bentes Monteiro como candidato da oposição. Desejava-se, com isso, conseguir votos de dissidentes da Arena que não concordavam com o candidato do governo. Foi uma "adaptação" da oposição para tentar vencer as eleições através de um general e assim obter votos no Colégio Eleitoral. O general Bentes Monteiro iniciou sua campanha pelo país através da Frente Única pela Redemocratização, pregando a democratização imediata, a revogação dos instrumentos de exceção, anistia ampla e irrestrita, redução do mandato presidencial para quatro anos e volta às eleições diretas, e o direito de greve e liberdade sindical. Como lembrou Bernardo Kucinski, "essa decisão reflete uma nova disposição do MDB em relação à questão do poder, pois a candidatura Euler propõe-se efetivamente a vencer, ao contrário da "anticandidatura" de Ulysses Guimarães, que se constituiu numa campanha de conscientização e protesto."

Por seu lado, o general Geisel adiou o quanto pôde o lançamento do nome de seu candidato. Mas com o aumento das mobilizações do general Sílvio Frota, que queria impor sua candidatura apoiado nos quartéis, o presidente Geisel tomou mais uma vez uma atitude drástica: demitiu o Ministro do Exército e colocou, em seu lugar, o general Fernando Belford Bethlem. Esta atitude mostrou como o general Geisel impunha suas decisões. Isto também foi demonstrado com a demissão do general Ednardo d'Ávila Mello do comando do II Exército, devido à morte do jornalista Wladimir Herzog em outubro de 1975 e do operário Manuel Fiel Filho em janeiro de 1976 nas dependências do DOI-CODI.

Desta maneira, "Geisel afastara não o ministro do Exército, mas o candidato com o qual não concordava." Assim, esperado o momento certo, o grupo palaciano lançou a candidatura do general João Baptista Figueiredo. Nesta sucessão, houve grande cobertura da imprensa. Já em julho de 1977, o assessor do general Geisel, Heitor de Aquino Ferreira, "começou a distribuir biografias do general João Baptista Figueiredo para os principais jornais e revistas."

Dia 5 de janeiro de 1978, o presidente reuniu a comissão executiva da Arena e anunciou a candidatura do general Figueiredo e do governador Aureliano Chaves para presidente e vice, respectivamente. Segundo Carlos Chagas, "a candidatura de João Baptista Figueiredo nada mais foi do que outra imposição militar. A diferença esteve em que, ao invés do Alto Comando, quem o indicou foi um general só. Ou um grupo extremamente competente na arte da conspiração." No entanto, ainda era preciso resolver um problema: como o general Figueiredo possuía apenas três estrelas, ele deveria possuir quatro como seus antecessores. Geisel então promoveu "Figueiredo à patente de general-do-exército, preterindo, pelo menos, dez outros generais que, por antigüidade, estavam antes na fila das promoções". Entre eles estava o general Hugo Abreu que, inconformado com isto, passou a ser um grande crítico do processo sucessório.

A eleição realizou-se dia 14 de outubro de 1978: o general Figueiredo obteve 355 votos e o general Bentes Monteiro 226 votos, já que não conseguiu obter os votos dos dissidentes da Arena. A posse realizou-se no dia 15 de março de 1979.
 
 

Veja e a redemocratização

A imprensa, de modo geral, e a revista Veja, em particular, apoiaram o projeto de abertura política proposto pelo governo. A imprensa manteve-se numa posição de não realizar críticas rigorosas ao regime, justamente para que isso não causasse uma volta aos "anos de chumbo" do governo Médici.

Neste contexto, interessa-nos saber se a sucessão do general Geisel significou para Veja uma continuidade em relação aos princípios de defesa das instituições democráticas e se a candidatura do general Figueiredo era vista como necessária para que a redemocratização se concretizasse.

Nesta época, destacamos uma maior importância dos editoriais (denominados de "Carta ao Leitor") devido ao fim da censura. Com isso, a revista passou a mostrar mais claramente o seu posicionamento e já não precisava tanto da utilização de linguagem metafórica e recursos gráficos para falar o que pensava. Além disso, a censura empresarial adquire um peso maior em relação à censura política, pois a revista dependia do governo quanto à liberação de verbas para o seu próprio desenvolvimento.

Observaremos, agora, como Veja lidou com os temas destacados em sua parte política.
 
 

A sucessão de Geisel

A sucessão do presidente Ernesto Geisel teve algumas particularidades: já haviam sido eliminadas algumas medidas coercitivas do regime e, entre elas, a censura férrea à imprensa. Por isso, como já dissemos, a candidatura Figueiredo foi bastante noticiada pela imprensa antes mesmo do prazo estabelecido pelo general Geisel (janeiro de 1978). Assim, em julho de 1977, o Jornal de Brasília publicou a possibilidade do general João Baptista Figueiredo ser candidato a presidente da República. Para Veja (vol. 462, 13/07/77), este episódio inaugurou o assunto sucessório. Nesta matéria, o presidente da Caixa Econômica Federal, Humberto Barreto, declarou à revista: "assim que o presidente abrir a temporada, eu estarei ao lado da candidatura do Figueiredo a candidato". Veja também comentou a abertura de três vagas para general-de-exército, mostrando as chances dos generais Hugo de Abreu e João Baptista Figueiredo. E declarou: "Abreu e Figueiredo é claro, não dependem de tal interpretação para chegar à quarta estrela - mas ela poderá facilitar bastante a pavimentação da estrada por onde será conduzida a sucessão presidencial." Como podemos observar, mesmo falando abertamente sobre a sucessão do general Geisel, Veja ainda utilizava-se da linguagem metafórica no final do texto para mostrar a situação da candidatura Figueiredo.

Na edição seguinte, Veja (vol. 463, 20/07/77) publicou que Figueiredo negou a sua candidatura. Para o semanário, a solução final resultaria de árduas articulações.

"A movimentação se registrou no cerne da assessoria direta de Geisel, dentro do qual o general Figueiredo, até por sua presença importante em vários governos revolucionários, se situa, sem dúvida, como o único nome em condições de chegar à presidência. Esse núcleo vem do governo Castelo Branco, ampliando-se apenas com a presença de Humberto Barreto. E constitui, exatamente, o principal centro palaciano de estímulo ao esforço de distensão e institucionalização do regime."
Conforme Veja "no temperamento de Figueiredo convivem posições de rigidez e de tolerância e seu lado flexível não vem de hoje. Desde 1964, dizem seus amigos, o general se preocupa com a distensão política e com o cumprimento dos propósitos democratizantes da revolução. Há quem suponha, mesmo, que, se chegar à presidência da república, estará entre os seus principais objetivos a busca de caminhos que permitam devolver o posto a um político civil." Podemos notar a incerteza quanto à escolha do general Figueiredo e quanto ao seu futuro comportamento frente a abertura política, que se expressava na caracterização do comportamento do candidato como, ao mesmo tempo, rígido e flexível. Pode-se fazer uma analogia ao futuro do país que, para a revista, poderia caminhar para o retorno às instituições democráticas ou para um fechamento mais rigoroso.

Na edição 464 (27/07/77) Veja registrou que o governo e a Arena desautorizaram o lançamento de nomes para a sucessão presidencial, diante das repercussões negativas no meio militar:

"A principal dessas repercussões, anunciava-se na semana passada, seria uma próxima iniciativa dos partidários do ministro do Exército, general Sylvio Frota, o que poderia provocar uma perigosa aparência de divisão entre os militares."
Para a revista, permanecia "a intenção do governo de patrocinar conversas com o MDB que tornem possível a definitiva institucionalização do regime. Essas conversações, naturalmente, estarão condicionadas à definição do problema sucessório, e assim só deverão tomar feições concretas no próximo ano. Então, acredita-se, elas poderão renascer sob o aval também do sucessor - e há quem acredite que somente essa circunstância poderá garantir ao futuro presidente o apoio dos votos e da confiança do MDB. O presidente Ernesto Geisel, sabe-se com segurança, não pertence a essa corrente de otimistas."

No começo de agosto, o senador José Magalhães Pinto lançou-se candidato e declarou à Veja (vol. 465, 03/08/77): "o problema sucessório só deve ser tratado em janeiro. Mas não sou insincero: estou aí, circulando como candidato". Segundo a revista, Magalhães Pinto tinha boas relações nas áreas políticas civis "onde poderia ser recebido como um restaurador, aureolado por sua condição de deflagrador do movimento de março de 1964." Para o semanário, a maior parte dos políticos "seja na Arena, seja no MDB, está no momento despreocupada com a escolha de bons nomes - e mais interessada em compor uma rol de compromissos que permita, de uma vez por todas, a efetiva retomada do processo democrático." No entanto:

"A redemocratização, e seu futuro mais próximo, a sucessão do presidente Geisel, inevitavelmente passam pelos quartéis..."
Neste período incerto, Veja (vol.466, 10/08/77) mostrou o projeto político do senador Magalhães Pinto, visto como o nome da conciliação entre civis e militares. Conforme o semanário, Magalhães Pinto "sabe que só chegará à presidência da República se contar, tecnicamente, com o apoio da Arena - e sobretudo com o apoio do Presidente Ernesto Geisel, hoje perfeitamente em condições para articular a escolha de seu sucessor." O projeto de redemocratização do senador começaria "pela reformulação do quadro partidário, para em seguida se chegar ao entendimento em torno de uma fórmula que permitisse a substituição do AI-5 por mecanismos eficientes de defesa do Estado". O governo dele esboçaria uma democracia baseada no desenvolvimento da iniciativa privada, "e eis aí um apelo capaz de sensibilizar uma das áreas onde mais preocupantes vêm se tornando as dificuldades do governo Geisel." No entanto, para os arenistas, Figueiredo ainda possuía as melhores possibilidades, seguido de outros militares como os generais Dilermando Gomes Monteiro, Reynaldo Mello de Almeida, Ariel Pacca da Fonseca e Belfort Bethlem.

Dois meses depois, Veja (vol. 475, 12/10/77) noticiou a certeza da candidatura do ministro do Exército, Sylvio Frota. "Depois de uma série de pronunciamentos, sendo quatro na tribuna da Câmara, a candidatura Frota estava tão ostensivamente posta quanto a do chefe do SNI, general João Baptista Figueiredo..." Para a revista, o grupo dos deputados "frotistas" tinha duas características: "reunia deputados conhecidos como radicais da Arena e muitos parlamentares de reduzida ou nenhuma expressão política." Assim, "partidários de Frota afirmam que o ministro, lançado por políticos militantes, tenderá a assumir com eles um compromisso pela constitucionalização - justamente o compromisso que atraiu para o lado de Figueiredo o senador Daniel Krieger, com sua aura de liberal sacrificado."

Mas, na edição seguinte, Veja publicou a exoneração do ministro. Segundo a revista, pela primeira vez, desde 1964, "um ministro do Exército foi exonerado - e, mais grave, sem que o solicitasse, ainda que formalmente, como manda a praxe da administração pública." Para o general Hugo de Abreu esta foi "uma decisão de caráter pessoal sem qualquer vinculação com o problema político da sucessão presidencial". Conforme o semanário, "é possível que eventuais ambições sucessórias não tenham sido o móvel da exoneração, mas não há dúvida de que o mal esboçado processo foi duramente atingido pelo episódio." Além disso, "a vigorosa ação do presidente da República, com o apoio ostensivo dos integrantes do Alto Comando do Exército, e a incapacidade de reação do ministro exonerado acabaram por produzir um evidente fortalecimento da autoridade de Geisel, política e militarmente." Segundo Afonso Arinos de Mello Franco, "os últimos episódios na área militar confirmam o presidente Geisel como centro dinâmico e orientador da política nacional". De acordo com Veja:

"De agora em diante, o Palácio do Planalto dispõe de terreno livre para fazer marchar o carro que, em tempos mais remotos, tentou transportar a bandeira da distensão política, e agora se apresenta com a do restabelecimento das principais franquias democráticas, consubstanciadas na extinção do AI-5, do Decreto 477 e a volta do habeas corpus, fundamentalmente. (...) Pois não há mais o candidato da contrademocratização no panorama sucessório."
A partir disto, observamos que, para a revista, a candidatura Frota representava uma posição contrária à abertura política e, por isto, era condenável. Ao mesmo tempo, Veja ainda utilizava-se da linguagem metafórica para falar sobre o processo de redemocratização.

Na edição 487 (04/01/78), a revista resolveu a questão entre o general Figueiredo e o senador Magalhães Pinto. Segundo Veja, "a queda de Frota não só deixou livre o campo para atuação dos figueiredistas, porque desde então desapareceram as condições para o nascimento de outra candidatura nas Forças Armadas, como principalmente evidenciou que o presidente Geisel assumira o controle absoluto do processo sucessório." Já o senador Magalhães Pinto manteve contato com o ex-ministro Severo Gomes e também com membros influentes do MDB, "embora a meta continue a ser a convenção da Arena..." De acordo com o semanário, "a pregação nitidamente oposicionista de Magalhães, no entender do Palácio do Planalto, poderia pôr em xeque o programa político arquitetado pelo presidente Geisel." No entanto, "ao expirar o ano e iniciar-se o mais esperado janeiro pós-64, as decisões já estavam tomadas, havia um só homem sob a luz do palco - e ele era o general João Baptista Figueiredo."

Logo a seguir, o presidente Geisel lançou oficialmente a candidatura do general Figueiredo publicada na edição 488 (11/01/78), comunicando também a da vice-presidência para o governador de Minas Gerais, Aureliano Chaves. Conforme a revista, esta fora a mais peculiar sucessão presidencial desde 1964: "a mais fechada, porque só um eleitor votou, e a mais aberta, porque a imprensa, livre de censura, pôde anunciar o resultado antes mesmo da votação. (...) É princípio elementar de jornalismo que candidatos à presidência da República, sobretudo quando franco favoritos, são notícia de importância para eleitores e leitores em geral. No Brasil, entretanto, esse conceito largamente aceito em inúmeros países não pôde ser colocado em prática durante o processo de sucessão do governo Emílio Médici, quando, até a unção oficial, a imprensa se viu impossibilitada de divulgar notícias das articulações em torno do general Ernesto Geisel, o então candidato que acabaria vitorioso. Desta vez o procedimento não se repetiu. Em primeiro lugar, o general João Baptista Figueiredo, já há meses, vinha recebendo jornalistas em seu gabinete - embora não desse entrevistas formais. E, na movimentadíssima semana passada, jornais, revistas e emissoras de televisão tiveram oportunidade de se exercitar num trabalho a que haviam se desacostumado: a cobertura do cotidiano do general João Baptista Figueiredo, antes, durante e depois da oficialização de sua candidatura à presidência." No entanto:

"O relevante é notar a singela e repetida verdade da extrema solidão que cercou o processo. Dele, resta a evidência de um país urgentemente necessitado de reformar o cerne de seu regime. Não é o acerto específico da decisão anunciada na última quinta-feira que está em causa - pode até ter sido a melhor decisão possível. Tampouco trata-se de condenar por definição o projeto político do presidente Geisel. Quem sabe, ele seja o primeiro líder pós-64 a colocar o país efetivamente no rumo da democracia. O que está em julgamento é o processo. A nação esteve tão distante dele, do início ao fim, que fica difícil imaginar sua repetição no futuro."
Na mesma edição, o general Figueiredo concedeu uma entrevista à Veja, feita pelo chefe da redação em Brasília, D’Alembert Jaccoud. Segundo Figueiredo: "se queremos todos acabar com o arbítrio, a primeira pergunta é: quais as salvaguardas?" E "se o MDB chegar a um lugar comum com a Arena, este é um passo importante para a normalização total. Mas, para isso, nenhum dos dois lados pode se colocar em posição intransigente, procurando impor a vitória de suas idéias. (...) Quanto mais cedo o diálogo com a oposição se fizer, melhor. Sem diálogo nada é possível, se queremos fazer as reformas com o mínimo de agitação". E mais, "acho que a tendência é para o pluripartidarismo, com um número razoável de agremiações. (...) Anistia total e irrestrita como falam por aí é impossível, pois incluiria criminosos comuns". O general Figueiredo também defendeu eleições diretas para governadores e indiretas para presidente da República, além de uma política externa que realizasse uma "comercialização com todo mundo".

Veja (vol. 513, 05/07/78) cobriu a "campanha" presidencial e notou: "em campanha, o sucessor aproxima-se do povo. A nova imagem, feita sob medida para a TV, não ajudou, contudo, a melhorar sua credibilidade. (...) Cada vez que fala, o sucessor perde novos adeptos - e não se pode saber se está ganhando outros." Conforme o semanário, "Figueiredo transformou-se na principal personagem do "Jornal Nacional", da TV Globo, com a utilização de frases curtas orientadas para a TV." O general foi criticado pelo tom "explosivo" em suas entrevistas, principalmente quando estudantes perguntaram sobre o episódio em que o ex-chefe do Gabinete Militar, o general Hugo Abreu, apresentou ao presidente Geisel "um relatório com acusações envolvendo pessoas ligadas à candidatura Figueiredo." No entanto, para Veja:

"A candidatura parece, cada vez mais um ingrediente inevitável na receita das aberturas políticas do Planalto - e menos um projeto particularmente importante para o próprio sucessor. Em conseqüência, o sucesso do programa imaginado por Geisel também passa a ser ligado ao talento de Figueiredo defender as atuais reformas. (...) O que falta, no momento, é um projeto para o país, com ingredientes econômicos e sociais suficientes para dar continuidade às reformas políticas."
Nesta reportagem, a revista percebeu um fenômeno que vai adquirir cada vez mais importância nas sucessões presidenciais posteriores: o papel dos meios de comunicação influenciando a opinião pública. A candidatura Figueiredo já tem a preocupação de passar uma imagem popular através, principalmente, da televisão, para obter o apoio da população. No entanto, o próprio candidato "escorregava" em suas entrevistas e assumia o seu lado autoritário, fazendo com que a sua aceitação fosse diminuída.
 
 

Alguns editoriais mostraram como a revista viu a eleição do general Figueiredo e também a composição de seu governo. Estes editoriais eram denominados de "Carta ao Leitor" e assinados por José Roberto Guzzo. Em 18/10/78 (vol. 528) "chega o general Figueiredo, enfim, à sua inevitável eleição pelo Colégio Eleitoral - e junto chega o MDB à sua também inevitável derrota no mesmo plenário..." Contudo:

"Organizado como está, o regime em vigor no país é incompatível com uma gerência correta da administração pública, por mais honesto que seja, individualmente, este ou aquele administrador. O que interessa às pessoas sérias, assim, é a passagem do regime para estruturas democráticas e a consolidação no país de uma sociedade aberta - isso é bem mais importante que o resultado da votação no Colégio Eleitoral."
E falando sobre a posse do general Figueiredo em 21/03/79 (vol. 550), a "Carta ao Leitor" informava: "pela primeira vez no Brasil, nesses últimos dez anos, um presidente da República entra no Palácio do Planalto sem poder cassar mandatos parlamentares, colocar o Congresso ou as Assembléias Legislativas em recesso, ou legislar por decreto." Com isso, Figueiredo "assume sem a proteção da censura à imprensa, sem a possibilidade de ignorar pedidos de habeas corpus, sem o escudo político que permitia a inexistência de greves e outros conflitos." Em síntese:
"O êxito do governo que agora se encerra pôde ser medido por sua capacidade de desfazer, sem ruptura ou crise, as estruturas de um regime arbitrário e tendente, se nada fosse feito, a afundar-se na treva - e, de forma concomitante, por sua capacidade de lançar as bases para o estabelecimento de instituições políticas mais estáveis na nação. O sucesso do governo que agora se inicia será medido por sua força, competência e habilidade em levar a frente esse processo."
Como podemos perceber, Veja apostou na candidatura Figueiredo como uma continuidade do governo Geisel e, com isso, a continuidade também do processo de retorno às instituições democráticas. A oposição era aceita e válida desde que não prejudicasse este processo, mas necessária para reativar o funcionamento dos debates políticos. Portanto, a revista embarcou não tanto na defesa do nome do general Figueiredo, mas sim na continuidade do projeto político que ele representava.
 
 

A oposição

Com a candidatura para presidente da República do general Euler Bentes Monteiro e de Paulo Brossard pelo MDB, o partido de oposição "oficial", as oposições tentaram se unir para derrotar o candidato do governo. Esta, portanto, não foi uma candidatura "simbólica" como a de Ulysses Guimarães e Barbosa Lima Sobrinho ocorrida na eleição presidencial anterior, mas sim uma candidatura que pretendia vencer, inclusive com o apoio de dissidentes da Arena e contando com nomes importantes como o do senador Magalhães Pinto e do ex-ministro Severo Gomes. Nesse quadro, Veja (vol. 507, 24/05/78), numa reportagem com o título "A hora dos descontentes", publicou: "as oposições brasileiras tentam somar. ‘Moderados’ e ‘autênticos’ do MDB, dissidentes da Arena e chefes militares articulam a candidatura do general Euler Bentes Monteiro à presidência. (...) Os descontentamentos - civis e militares - com o estilo e a substância das solitárias decisões emanadas do Planalto começam a articular-se numa confederação de oposições - uma ‘frente democrática’, como a qualificam seus membros. Seu objetivo, nas palavras do próprio general Euler Bentes, é oferecer ao país ‘um projeto alternativo’ ao do governo". Para o redator, "um acordo entre o MDB e o general Bentes poderia ser construído em torno de compromissos do candidato com a restauração plena do estado de direito, mediante a abolição imediata de todos os atos de exceção e a volta das eleições diretas em todos os níveis." Segundo a revista, havia uma intensa mobilização em torno da candidatura do general Euler, pois "nos últimos meses, as demandas políticas do país adensaram-se a ponto de soarem tímidas e tardias as reformas prometidas pelo governo. Vai um abismo, por exemplo, entre as mudanças com que acena Petrônio Portella e a transformação institucional reclamada - não pelos ‘autênticos’ do MDB somente, mas por organizações reconhecidamente moderadas como a Ordem dos Advogados. (...) Cansadas de esperar, também as elites estão com pressa." Assim, "o peso político da candidatura do general Euler Bentes localiza-se precisamente na sua determinação para agir no sentido apontado pela inquietação do que se convencionou chamar ‘opinião pública’." Verifica-se, aqui, como Veja percebeu a insatisfação das elites frente ao regime militar, ou seja, a vontade das camadas da população com elevado poder aquisitivo - que compunham seu público leitor - em relação à volta ao Estado de Direito. Agora não era apenas a oposição que proclamava o fim da ditadura, mas também outras camadas da população insatisfeitas com o rumo tomado pelo regime.

Em julho, Veja (vol. 509, 07/06/78) publicou a união entre o general Euler Bentes e o senador Magalhães Pinto para produzir "uma proposta formal de constituição da Frente Nacional pela Redemocratização - ‘instrumento para congregar todas as correntes de opinião nacionais que se empenham na luta contra a permanência do arbítrio’." Na Convenção do MDB, "o partido decidiu admitir ‘a possibilidade de concorrer à próxima sucessão presidencial’. " Magalhães Pinto declarou que "fora do MDB não há salvação: sem o partido de oposição não há Frente".

Em Veja (vol. 516, 26/07/78), o senador defendeu a sua candidatura frente ao grupo dos "autênticos" do MDB (que apoiavam o general Euler) e desafiou: "o povo não quer um militar, quer um civil, por isso mesmo continuo candidato". O senador apostava também nas dissidências da Arena que o apoiariam. E já na edição 519 (16/08/78), Magalhães Pinto desistiu de concorrer à presidência. O senador "insistia que tinha um compromisso ético de não dividir o MDB e reconhecia que os ‘autênticos’ não aceitavam sua pregação. Mais do que isso, com o próprio MDB dividido, seria praticamente impossível encorajar arenistas a dividir a Arena - e violar a fidelidade partidária." Segundo a revista, no entanto, Magalhães apostava numa divisão militar com as duas candidaturas dos quartéis que poderiam causar uma crise, "e neste caso, pensa o senador, ele poderia transformar-se numa alternativa real, desde que, agora, permaneça à margem da competição."

Na edição 521 (30/08/78) Veja publicou a indicação oficial do general Euler Bentes Monteiro para a presidência da República e do senador Paulo Brossard para vice pelo MDB. O general Euler "anunciou que seu primeiro ato como presidente seria enviar ao Congresso um projeto de anistia política e de restabelecimento imediato da Constituição de 1967. Revogados dessa forma todos os atos, leis e emendas de exceção seria convocada uma Assembléia Constituinte..."

Nessa fase, a revista mostrou o que pensava sobre a oposição "oficial" em alguns editoriais. No dia 23/08/78 (vol. 520), a "Carta ao Leitor" assinada por José Roberto Guzzo elogiava Ulysses Guimarães e dizia que muitos oposicionistas souberam atravessar o período militar e chegaram "bem equipados para a próxima e decisiva rodada da vida política do país." Com isso:

"Fazer a passagem - eis aí o que interessa. O problema essencial da política brasileira, hoje, é defender a democracia. Ou seja: o que importa é preservar os avanços feitos até agora, dar substância às liberdades que existem e montar um terreno firme para o futuro."
Dois meses depois, na edição 529 (25/10/78), Guzzo defendeu: "é preciso, urgentemente, reconhecer que a multiplicação de críticas ao arbítrio é apenas um sinal de que há espaço para o trabalho do MDB. Confundir essa oportunidade de consolidar a abertura democrática com o desejo de uma derrocada da administração é a maneira mais simples de colocar em xeque a existência de uma oposição séria - e, também, de minar um patrimônio eleitoral juntado com tantas dificuldades."

Como podemos notar, para a revista, a oposição deveria entrar no jogo do governo para que a abertura política se concretizasse.
 
 

Os editoriais

Nesta época, os editoriais de Veja batizados de "Carta ao Leitor" eram assinados por José Roberto Guzzo, diretor de redação e eventualmente por Sérgio Pompeu, diretor adjunto e por Victor Civita, proprietário da Editora Abril. Estes editoriais tornaram-se mais importantes depois de junho de 1976, quando Veja foi liberada pela censura. A partir daí, seu posicionamento pode ser observado mais claramente .
 
 

Veja acompanhou o processo sucessório do general Geisel e esclareceu na "Carta ao Leitor" de 11/01/78 (vol. 488): "ao entrar em seu décimo ano, esta é a terceira vez que Veja cobre a sucessão presidencial. A esperança, agora, é que na quarta cobertura se consiga, enfim, estrear num gênero ainda não praticado nesses dez anos: o de informar sobre uma sucessão presidencial aberta e da qual possam participar todas as forças da sociedade." No entanto, segundo Guzzo, em 18/01/78 (vol. 489), "ficou claro que, após a indicação do candidato oficial à presidência, ainda há muita coisa a fazer para que o projeto do governo se cumpra. Tudo isso vem exprimir, no fundo, a extrema dificuldade do regime em lidar com as manifestações políticas espontâneas do organismo social, ou de parte dele. E revela a indefinição a que está submetido o país neste começo de ano tanto apresentado como promissor - não mais o absolutismo das decisões incontestáveis, nem ainda o florescimento do livre confronto. É a democracia relativa."

O diretor de redação comentou a entrevista concedida pelo general Figueiredo à Veja (vol. 501, 12/04/78): "não é possível estar de acordo com toda uma fileira de conceitos disparados ao longo de suas declarações - sobre a inconveniência de eleições livres para a presidência da República, sobre o suposto estágio de atraso político da população, sobre a vastidão das ameaças que pairam sobre o Estado, sobre a alegada intransigência dos que discordam do governo." No entanto, "o fato de que tenha ocorrido a um futuro presidente dar algum tipo de satisfação à opinião pública é, nos atuais usos e costumes políticos do Brasil, um avanço notável."

Na "Carta ao Leitor" de 24/05/78 (vol. 507), havia uma crítica às reformas unilaterais feitas pelo governo: "sobram evidências de que o Brasil cansou-se dos calendários, dos cronogramas prevendo a hora disto e o minuto daquilo, das listas de pré requisitos, da obsessão com salvaguardas e, enfim, da preocupação em vestir a sociedade com regras de convivência demasiado restritas. Seria um equívoco descrever esse sentimento com as tradicionais imagens da contestação, ou da teimosia. As reformas ameaçam cair no vazio simplesmente porque há um generalizado desencanto com toda espécie de fórmulas arquitetadas solitariamente em Brasília." Contudo, na edição 511 (21/06/78), Guzzo defendeu as reformas políticas do governo: "o governo, enfim, aprontou o seu projeto de reformas política; elas são, enfim, o primeiro grande passo concreto que se dá para sanear as instituições do país depois de 1968, e com sua aprovação, por disciplina ou por consenso, estará iniciada, enfim, a mudança efetiva do regime." O importante agora "não é distribuir sentenças de condenação ao comportamento global do governo, mas sim devolver ao país uma série de benefícios muito concretos - o habeas corpus pleno, as imunidades parlamentares, as garantias para o Congresso e assim por diante." Desta maneira, o autor concluía que as reformas eram importantes e que iriam ajudar o país. Notamos a ambigüidade em dois editoriais: o primeiro criticou as reformas feitas solitariamente pelo governo e o segundo elogiou as reformas dizendo para não condenar o comportamento do governo devido aos benefícios oferecidos por ele.

Guzzo mostrou o lado positivo das greves operárias em 31/05/78 (vol. 508): "na vida real sucedem-se greves operárias por melhores salários através do cinturão industrial de São Paulo - enquanto isso, ao fundo, oposicionistas de ontem e de hoje duelam entre si para determinar quem tem mais direito de desempenhar o papel de candidato do povo, sociólogos e politólogos continuam a nos castigar com sua prosa impenetrável e o governo expede notas oficiais." Já as greves são positivas, pois os "operários demonstram que podem defender com eficiência seus interesses sem perturbar a ordem pública." Com isso, as manifestações dos trabalhadores eram defendidas pela revista desde que não perturbassem a ordem pública e elas deveriam mesmo existir dentro de uma sociedade democrática, só não deveriam interferir na estrutura social.

Em 05/07/78 (vol. 513), a "Carta ao Leitor" defendeu a redemocratização e criticou os governadores e senadores "biônicos": "O Brasil biônico que se armou nos últimos anos não é coisa que possa resistir por mais muito tempo. Ele se transformará, de forma muito rápida, em algo extraordinariamente anacrônico e, portanto, condenado à morte por desuso e por falta de seriedade. O que importa, agora, é fazer a passagem - e deixar que as coisas desimportantes caiam sozinhas, quietamente liquidadas por sua própria desimportância."

O diretor de redação falou sobre a situação brasileira em 19/07/78 (vol. 515): "hoje articula-se de tudo em todo o território nacional, de greves de médicos a novos partidos políticos. E, como a censura à imprensa caiu em exercício findo, todas essas manobras tornam-se instantaneamente de domínio público. Exatamente porque se pode saber de tudo, é possível classificar atualmente as pessoas que participam dessa veloz sucessão de articulações em dois grupos bem nítidos: há os que defendem a necessidade de fortalecer o ambiente democrático com leis duradouras, antes que se possa jogar a sério pelo poder; e há os que pensam exatamente o oposto. Ou seja, querem primeiro tomar o governo para depois construir a lei." De acordo com Veja:

"O problema número um do país, hoje, é consolidar as liberdades individuais e os ingredientes da democracia obtidos depois de uma exasperante década de treva - e trabalhar para que o resto do arbítrio dê lugar, progressivamente à lei. Isso não significa desconhecer o fato de que o atual governo mobilizou todos os recursos do casuísmo para garantir sua própria permanência no poder - e que sente uma notável alergia à possibilidade de dividi-lo com quem quer que seja. Não se trata de ignorar, também, que as fórmulas adotadas para materializar esse objetivo estão muito distantes do que se poderia classificar de um modelo eleitoral democrático. O problema, contudo, é de natureza política - e não de juízo de valores. Não é preciso muita imaginação para saber que, no rumo em que andam as coisas, a figura do senador biônico terá vida curta. Ou, então, que as eleições indiretas não devem resistir num país determinado a plantar e a cultivar uma sociedade estável. Por isso, não parece razoável que se deva comprometer o esforço nacional da distensão numa batalha pelo poder que, na verdade, não empolga o país."
Sérgio Pompeu falou sobre o décimo aniversário do AI-5 em 13/12/78 (vol. 536) dizendo que ele iria desaparecer sem glória dali a dezoito dias. "A verdadeira questão da política não é selecionar os ‘bons’ cidadãos, separando-os dos ‘maus’ por instrumentos de coação. O desafio consiste em estabelecer regras de convivência estáveis, de forma que todos possam dar sua opinião através do Congresso; e que a maioria tenha as condições jurídicas para governar de acordo com seus planos." E Robero Guzzo falou sobre a liberdade de imprensa em Veja (vol. 548, 07/03/79): "todos sabem que não se tratou de um mero ‘abrandamento’ da censura mas, sim, de sua completa extinção: a imprensa brasileira, hoje, só não publica o que não quer publicar, sem que o governo tenha coisa alguma a ver com isso." Esta afirmação do autor não é totalmente verdadeira, pois, nesta época, ainda havia o medo por parte da imprensa de que alguma crítica mais aguda ao governo pudesse provocar um retrocesso em relação aos benefícios já conseguidos com a redemocratização. Além disso, havia a censura econômica, que atrelava os meios de comunicação ao Estado através de verbas a serem liberadas e de publicidade realizada principalmente pelas empresas estatais.

E finalmente, em 24/01/79 (vol. 542), Guzzo escrevia: "o que o governo pretende, numa palavra, é executar uma transição conservadora e estável rumo a uma sociedade mais viável, portanto menos injusta - e apoiada em bases sociais mais duradouras. (...) É necessário, em todo o caso, concordar com as evidências de que o governo identificou as principais raízes da crise brasileira e tem algumas idéias ordenadas, racionais e compreensíveis para resolvê-la sem tumultuar a vida nacional - e sem derrubar as estruturas básicas da sociedade atual."

A partir destes editoriais, percebe-se a coerência da postura de Veja em relação aos princípios democráticos defendidos desde o início de sua existência. Mas este posicionamento sempre foi conservador, ou seja, a abertura política era defendida como uma proposta do governo e só por ele poderia ser realizada. A presença da oposição "oficial" era permitida, mas ela não deveria contestar e nem criticar rigorosamente o processo de abertura do regime militar. Já a oposição popular, vista principalmente através das greves operárias por melhores salários, era aceita desde que não provocasse a desordem e nem questionasse a estrutura da sociedade. Desta maneira, podemos destacar como Veja manteve uma coerência em relação às suas idéias quanto ao fim do regime e as defendeu mais claramente depois do término da censura política.
 
 

1983-85: O PERÍODO FINAL DO REGIME MILITAR



Este período engloba os anos de 1983, quando começou a campanha dos candidatos a candidato para suceder o general João Baptista Figueiredo; passando por 1984 quando esta campanha continuou e foi escolhido Paulo Maluf pelo partido do governo, o PSD, e o candidato Tancredo Neves pelo partido oposicionista mais importante na época, o PMDB; até chegar a janeiro de 1985 quando Tancredo Neves e José Sarney venceram as eleições presidenciais. Ocorreu, com isso, pela primeira vez, a vitória de um candidato oposicionista, que obteve apoio da parte dissidente do partido do governo e elegeu-se através de eleições indiretas realizadas por um Colégio Eleitoral. A partir disto, o regime militar brasileiro terminou, sendo a abertura política comandada quase que totalmente pelo governo. Apenas no final do regime, a população participou deste processo através da campanha pelas eleições presidenciais diretas. Antes disto, o governo já havia aprovado a Lei da Anistia que não condenava os torturadores e a Reforma Partidária que teve o objetivo de dividir a oposição.

No entanto, o partido do governo não conseguiu fazer seu sucessor e isto possibilitou efetivamente o final do período militar. A grande imprensa acompanhou este processo sucessório sem a presença da censura política, mas convivendo com a censura econômica ou empresarial, ou seja, as pressões de liberação de empréstimos e importação de equipamentos por parte do governo indicavam os limites da liberdade para contrariar o pensamento de quem estava no poder. Por isto, ela vai definindo a sua maneira de pensar conforme a situação permite, ou seja, de acordo com os rumos dos acontecimentos ocorridos no governo e também na sociedade civil.

Desta maneira, os principais temas políticos destacados por Veja, neste período, foram: a campanha pelas "Diretas-já", a campanha dos candidatos a sucessores do presidente Figueiredo, e a campanha do candidato oposicionista. Assim, como a campanha pelo retorno das eleições presidenciais diretas foi encarada pelo semanário? Em qual candidato a revista apostou? Veja apoiou a campanha do candidato oposicionista?

No entanto, antes de analisarmos estes temas, apresentamos um rápido contexto histórico do governo Figueiredo para situar a revista e o que ela presenciava.
 
 

O governo Figueiredo

O governo do general Figueiredo iniciou-se com a promessa de que realizaria uma efetiva abertura política. No discurso de posse, o presidente comprometeu-se a dar continuidade à liberalização, prometendo garantir a cada trabalhador a remuneração justa. A reação da imprensa e do público foi favorável. Desta maneira, a imprensa, principalmente, construiu uma imagem de Figueiredo como um democrata, que se inspirava em seu falecido pai, o general Euclydes de Figueiredo, opositor da ditadura de Vargas.

Contudo, o seu governo foi marcado por dois processos contraditórios: com a extinção do AI-5, a população passou a organizar-se e ocorreram as grandes greves operárias apoiadas pela Igreja, as greves dos funcionários públicos, o movimento pela Anistia, as manifestações da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), o movimento dos trabalhadores no campo e a campanha por eleições presidenciais diretas. Por outro lado, houve manifestações de repressão por parte do governo e de setores da direita militar, como no combate ao movimento operário e do campo, no caso Riocentro, no explosão de bombas em bancas de jornais que vendiam publicações de esquerda, e em instituições como a OAB. Com isso, ao mesmo tempo em que aumentava o espaço de participação da população, havia também a ação de setores do governo no combate às manifestações contrárias ao regime. A abertura política era incentivada e, ao mesmo tempo, ocorriam ameaças de retrocesso do regime frente às manifestações de uma maior participação reivindicada pela população.

A primeira bandeira assumida pelo presidente Figueiredo, ainda em 1979, foi a questão da anistia. A Lei de Anistia foi aprovada em agosto de 1979 pelo Congresso. Mas o projeto de anistia "atendia os propósitos do governo de permitir o retorno ao Brasil de antigos líderes políticos visando implodir a frente oposicionista, sem que fossem necessariamente anistiados antigos integrantes da luta armada, ou permitida a volta à política de todo parlamentar cassado." Após isto, o governo extinguiu os antigos partidos políticos (Arena e MDB) através da Reforma Partidária feita em dezembro de 1979. Os membros do partido do governo reagruparam-se no PDS, e os membros da oposição agregaram-se no PTB, PDT, PP, além do PMDB. Mais tarde, em 1980, foi fundado o PT. Para Raquel Meneguello, a organização do PT foi resultado da convergência de várias forças políticas articuladas em torno da idéia de fundação de um partido popular.

O general Geisel, em depoimento recente, afirmou que "na primeira fase do governo, Figueiredo teve dois colaboradores que perseveraram no problema da liberalização: Petrônio (Portela), como ministro da Justiça, e Golbery (do Couto e Silva), na Casa Civil. O próprio Figueiredo estava comprometido com esse objetivo. Fizeram a anistia, e também resolveram aliviar o quadro político, encerrando o sistema de dois partidos." Mas também tinha colaboradores ligados ao general Médici como Delfim Netto, Mário Andreazza, Leitão de Abreu e Jarbas Passarinho. O general Geisel o criticou por isto e afirmou que "não se faz um governo à base de amigos. Faz-se um governo escolhendo criteriosamente." No entanto, Portela faleceu e Golbery afastou-se depois do caso Riocentro (em 30 de abril de 1981, no show do Dia do Trabalho, houve a explosão de uma bomba no carro ocupado por um capitão do Exército que ficou ferido e por um sargento, que morreu). Para Geisel, "Figueiredo tinha que mandar apurar direito o que tinha acontecido e punir os responsáveis, isto é, que ele tinha que enfrentar a área militar, ou a área radical que tinha atuado nesse episódio. (...) Com a abertura deveria estar encerrado o problema da repressão. O Riocentro foi um recrudescimento, uma nova explosão reacionária contra a abertura."

Em 1980, Figueiredo cancelou as eleições municipais e, em 15 de novembro de 1982 seriam realizadas eleições gerais para vereadores, prefeitos, deputados, senadores e governadores. Em 1981, o presidente anunciou reformas eleitorais que foram concebidas para garantir a vitória do PDS nas eleições gerais. Apesar das alterações na legislação eleitoral, a oposição conseguiu maioria na Câmara dos Deputados e também conquistou o governo dos principais Estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Paraná. Mas, como estava inserida num sistema autoritário, não conseguiu realizar uma política alternativa e ainda foi prejudicada pela crise econômica.

Em 1982 e 1983, o país enfrentou um agravamento da crise econômica e social e adotou cada vez mais políticas recessivas, com estrito controle dos salários, limitação das importações e outras medidas tomadas pelo governo para reduzir o consumo interno e voltar a maior parte da produção para exportações e o pagamento da dívida. A partir disto, o Brasil recorreu ao FMI que recomendava o controle salarial para reduzir a inflação. No governo Figueiredo, "aumentou o grau de estrangulamento da economia, foi alargada a base social submetida a uma superexploração, e aumentou essa taxa de exploração, devido aos compromissos crescentes com o capital financeiro internacional. Precipitou-se o colapso dos serviços públicos e previdenciários, de assistência médica e da rede escolar."

Em março de 1983, o deputado do PMDB, Dante de Oliveira, apresentou uma emenda constitucional para que as eleições presidenciais fossem diretas. O PMDB lançou uma campanha nacional ("Diretas-já") e obteve apoio de figuras prestigiosas da oposição e, principalmente, da população. Mesmo assim, a emenda não conseguiu, no Congresso, a maioria de dois terços necessária à sua aprovação. No entanto, como destacou Skidmore, a campanha chegou mais perto da vitória do que alguém teria ousado prever e colocou nas ruas as maiores concentrações políticas jamais vistas no Brasil.

Em meio a isto, no PDS, partido do governo, havia três candidatos principais concorrendo à vaga presidencial: o vice-presidente Aureliano Chaves, o ministro do Interior, Mário Andreazza e o deputado Paulo Maluf. "Em junho de 1984 muitos membros do colégio eleitoral não estavam comprometidos, e tanto Andreazza quanto Maluf tinham número mais ou menos igual de partidários entre os delegados dispostos a declarar sua preferência. Aureliano Chaves estava particularmente em desvantagem nessa luta. Embora ministros, como Andreazza, tivessem que silenciar suas críticas ao governo, Aureliano, como vice-presidente, tinha muito mais dificuldade de se distanciar do poder."

O deputado Paulo Maluf saiu vitorioso na Convenção do PDS pois prometeu muitos cargos públicos em seu governo para os delegados do Colégio Eleitoral. "Mas o PDS estava muito divido, com as forças antimalufistas abertamente revoltadas. O PMDB demonstrava estar mais unificado. Em meados de 1984 o nome do candidato oposicionista em todas as bocas era o do governador Tancredo Neves, de Minas Gerais." Em agosto, ele foi escolhido na Convenção do PMDB. A facção dissidente do PDS, o Partido da Frente Liberal (PFL) juntou-se ao PMDB e criaram a Aliança Democrática, lançando Tancredo Neves à presidência e José Sarney à vice. Isto modificou o panorama eleitoral e o presidente manteve-se neutro, o que fortaleceu Tancredo. Para Geisel, o que Figueiredo deveria ter feito era "usar o seu poder, escolher alguém viável e criar apoios em torno desse candidato. Trabalhar para um candidato usando o poder e o prestígio que ainda tinha como presidente." Mas nada disto foi feito e em 15 de janeiro de 1985, foram eleitos Tancredo Neves e José Sarney pelo partido de oposição. Encerrou-se, assim, o regime militar no Brasil.

Veja e as perspectivas finais de redemocratização

Na fase final do regime militar, a grande imprensa passou a criticar mais o governo, principalmente na área econômica, devido ao grande aumento da inflação, do desemprego e da crise em geral atravessada pelo país. Em contraste, o processo de abertura política promovido pelos militares era pouco criticado, a não ser em alguns pontos específicos, como a questão das eleições diretas para presidente.

Quando a emenda Dante de Oliveira foi derrotada no Congresso, o processo sucessório indireto passou a ser bastante noticiado pela imprensa em geral. Desta maneira, interessa-nos saber se enquanto havia três principais concorrentes a candidato para suceder o presidente João Baptista Figueiredo, Aureliano Chaves, Mário Andreazza e Paulo Maluf, Veja foi favorável a um deles. Depois que a dissidência do partido do governo, liderada por Aureliano Chaves, começou a apoiar o candidato oposicionista Tancredo Neves, verificaremos se a revista também seguiu este caminho. Além disso, interessa-nos saber como Veja portou-se na campanha pelas eleições presidenciais diretas, já que defendia a redemocratização do regime e a participação da população foi marcante nesta campanha.

As eleições presidenciais diretas sempre foram defendidas pela revista, por isto é possível imaginar que o candidato oposicionista, por ter assumido esta bandeira e por ter-se unido aos dissidentes do governo tenha recebido o apoio de Veja. A Frente Liberal era formada por políticos influentes dentro do regime, que se uniram contra o deputado Paulo Maluf e pregavam a abertura política e eleições diretas para presidente. Neste contexto, Veja manteve-se fiel aos seus princípios de defesa de abertura política do regime? Em contraste com as épocas anteriores, a revista falou abertamente sobre o que defendia ou ainda utilizava-se de "vozes" alheias para demonstrar seus posicionamentos?

Nesta época, os editoriais continuaram importantes, pois Veja não possuía mais a presença da censura política em sua redação. Por isto, ela mostrava suas idéias através da "Carta ao Leitor", em que comentava o principal assunto da semana e dava sua opinião. A seção já não era mais assinada, ou seja, não responsabilizava mais uma única pessoa, geralmente o chefe de redação, pelo texto opinativo.

Além dos editoriais, a análise das matérias publicadas por Veja pode indicar o seu posicionamento em relação à campanha pelas eleições presidenciais diretas, ao candidato do partido do governo e do partido oposicionista.
 
 

A campanha pelas "Diretas-já"

A revista Veja assumiu a bandeira das eleições presidenciais diretas desde quando foi liberada pela censura e o projeto de abertura política ganhou incentivo no governo do general Ernesto Geisel. No entanto, foi quando esta campanha "ganhou as ruas" e conquistou a adesão da população que o semanário passou a incentivá-la nos seus editoriais e reportagens. Nestas matérias, Veja destacou a união de diferentes correntes oposicionistas e de parte dos políticos do partido do governo na campanha pelas "Diretas-já", e também a forma pacífica em que eram realizados os comícios.

Inicialmente, Veja mostrou descrédito em relação à aceitação das eleições presidenciais diretas pelo governo, como também a um possível apoio do presidente Figueiredo. Desta maneira, em 09/11/83 (vol. 792), a revista dizia: "caso o presidente apóie a volta da eleição direta, será certamente elogiado por algumas semanas, mas depois se veria transformado em alvo dos ataques dos candidatos, num tiroteio ao qual igualmente não escapariam seus antecessores. Assim, parece ingenuidade supor que Figueiredo decida num rompante alterar a legislação eleitoral. Ele só admitirá apoiar diretamente a eleição direta se chegar à conclusão de que o regime chegou ao fim."

A oposição, liderada pelo principal partido oposicionista na época, o PMDB, assumiu integralmente a campanha pelas "Diretas-já" com apoio de outras correntes oposicionistas (PT, PDT, PTB, OAB, CNBB, entre outros) e o ano de 1984 foi marcado por grandes comícios realizados pelo país. A população aderiu com grande entusiasmo e achou um espaço para participar novamente da vida política brasileira. Com isso, em 18/01/84 (vol. 802), a "Carta ao Leitor" mostrou uma clara posição da revista com o início das manifestações públicas para que o Congresso Nacional votasse o restabelecimento da eleição direta para presidente da República. Para Veja:

"Esta é a melhor, mais correta e mais lógica solução para se escolher o sucessor do presidente João Figueiredo. A necessidade da eleição direta deriva, de uma parte, da completa falência do atual sistema sucessório, centrado num Colégio Eleitoral que não tem, simplesmente, a legitimidade indispensável para a tarefa de eleger o sucessor. Não é o fato de apenas 686 pessoas escolherem o presidente que vicia o sistema. O problema é a falsa aritmética que dá, nesse grupo de cidadãos, a maioria ao partido do governo - quando ninguém, em sã consciência, pode dizer que o governo tem a maioria do eleitorado brasileiro. O segundo fator a impulsionar a eleição direta é a absoluta necessidade, neste momento de crise profunda pelo qual passa o Brasil, de que o próximo presidente tenha um genuíno respaldo da maioria da população para tomar as medidas capazes de tirar o país do buraco. Nenhum outro instrumento pode, como a eleição direta, tornar esse apoio mais claro - e, ao mesmo tempo, fazer o eleitorado co-responsável pelo mandato que o presidente terá."
Ao mesmo tempo, o semanário alertava para um excesso de expectativas: "é evidente que a eleição direta do presidente, ou qualquer outra medida isolada, não resolverá por si os problemas do Brasil. É certo, também, que ela pode resultar numa escolha equivocada ou nociva. Mas a direta não tem por objetivo resolver a crise, e sim fazer a sucessão presidencial pelo caminho eleitoralmente mais correto. Da mesma forma, ela não significa governo bom, nem pode significar. Significa, isto sim, governo legítimo."

Na edição 804 (01/02/84), a "Carta ao Leitor" dizia: "o grande comício realizado na semana passada em São Paulo foi uma das mais patentes demonstrações de apoio da população a uma idéia política jamais ocorridas no Brasil. (...) O essencial é que a população quer votar para presidente, fato acima de discussões e medido por pesquisas comprovando que mais de 80% dos eleitores se juntam nessa posição." A postura crítica parecia crescer com a campanha: "foi desalentadora, em tais condições, a reação do governo ao comício paulista. É compreensível que o governo não goste de uma manifestação de massa que resulta contra ele. É natural, também, que, defendendo um ponto de vista diferente, lute para fazê-lo prevalecer no jogo político." No entanto, o governo sustentou que as pessoas foram até a Praça da Sé para verem um show artístico. Para a revista, isto significava a recusa da realidade por parte do governo, uma anulação dos fatos.

"A outra questão apresentada pelo comício é a da responsabilidade que ora se coloca diante do Congresso Nacional. Órgão legítimo e representativo, ao contrário do Colégio Eleitoral, a ele cabe, constitucionalmente, a decisão de mudar ou manter o atual sistema sucessório. Seu veredicto, aí, é soberano. Resta saber se os deputados e senadores estão dispostos ou não a subordinar sua decisão ao manifesto desejo da maioria daqueles que os elegeram."
 
 

Veja mostrou o clima vivido na época dos grandes comícios quando publicou em 22/02/84 (vol. 807): "tanto a oposição quanto o governo provavelmente se verão, em abril, diante da necessidade de respeitar a decisão soberana do Poder Legislativo. Se a decisão for desrespeitada, estará sendo percorrido um caminho que, seja qual for o apelido invocado tem um nome só: golpe."

A participação da população foi elogiada pela revista em 29/02/84 (vol. 808):

"É o maior movimento popular da História do Brasil. (...) O movimento popular provocado pela eleição direta trouxe de volta a multidão ao cenário político brasileiro, coisa que não ocorria desde 1964."
O apoio do vice-presidente Aureliano Chaves à campanha das "Diretas-já" foi mostrado por Veja em 18/04/84 (vol. 815), ao mesmo tempo em que informava que os candidatos Mário Andreazza e Paulo Maluf foram permanentemente fustigados por oradores e manifestantes no comício da Candelária no Rio de Janeiro, pois não apoiavam a campanha pelas diretas. Já "Aureliano Chaves não teve seu nome citado uma única vez ao longo de todo o comício." O vice-presidente retribuiu isto com frases simpáticas à campanha: "sou a favor das diretas já", "trata-se de um passo importante para o projeto de abertura do presidente Figueiredo". Conforme o semanário, o comício não apresentou nenhum incidente que merecesse movimentações policiais:
"Justamente por ter amadurecido nestes vinte anos, o país se acha pronto para escolher seu presidente."
Nesta mesma edição, a "Carta ao Leitor" informava:
"Foi a singular intransigência na defesa dessa idéia, desse simples enunciado segundo o qual escolher o presidente da República pelo voto direto de cada cidadão é um direito elementar do país, que fez a campanha desabrochar e ganhar cada vez mais força. Hoje o desejo de escolher o próximo presidente da República é a maior unanimidade popular já registrada na História do Brasil, algo que se afere não apenas pelo tamanho dos comícios, mas por toda e qualquer investigação de opinião pública que se possa fazer."
Por outro lado, Veja criticou a proposta do governo de realizar eleições presidenciais diretas somente em 1988 e incitou os parlamentares a votarem a favor das "Diretas-já" na "Carta ao Leitor" do dia 25/04/84 (vol. 816): "o Congresso Nacional tem diante de si, uma das decisões mais importantes de sua história, ao votar a emenda constitucional que restabelece as eleições diretas... A decisão é do Congresso, mas a responsabilidade é do governo. O semanário destacou que o governo não estava numa disputa com a oposição, mas com a vontade popular:
"A população, nas ruas, diz que quer ver na cadeia os candidatos que o atual sistema oferece. Quer cortar a cabeça do ministro responsável pela economia. Quer que o presidente da República vá embora. Em suma, o que existe é uma monumental e exasperada vontade de trocar, já, quem está mandando. É aí, na insistência em continuar mais um pouco, que está a fraqueza fundamental da posição do governo. A proposta conciliatória de realizar eleições diretas em 1988, acrescida de diversas outras mudanças constitucionais, poderia ter sido, apenas uns poucos meses atrás, o ponto de partida para uma negociação construtiva. Apresentada agora, ela vem muito tarde, num momento em que a opinião pública não quer mais ouvir falar na continuação de nada que esteja ligado ao governo."
Em 25 de abril de 1984, mesmo com a derrota da emenda Dante de Oliveira pelo Congresso, que não conseguiu a maioria de dois terços pois precisava de 320 votos num total de 479 e recebeu 298, a revista elogiou a participação da população na campanha e destacou o amadurecimento político do povo brasileiro. A "Carta ao Leitor" do dia 02/05/84 (vol. 817) dizia: "em centenas de comícios por todo o país, os cidadãos souberam manifestar sua reivindicação em perfeita ordem, sem que se registrasse sequer um incidente de gravidade. Foi uma campanha maior que qualquer outra jamais feita no país e, em termos de qualidade, tornou-se notável por ter sua base em argumentos, não em histeria ou violência. Na semana passada, quando a emenda das diretas foi rejeitada pela Câmara dos Deputados, essa mesma população que de maneira tão exemplar havia expressado seus propósitos manteve o mesmo comportamento sereno e civilizado dos últimos quatro meses, apesar de seu profundo desapontamento com o desfecho. É esta a marca do novo Brasil: um país que amadureceu." Mas isso de nada adiantou:
" O governo de hoje, porém, continua se comportando da mesma maneira como se comportava vinte anos atrás - com os mesmos temores, as mesmas desconfianças e a mesma idéia mestra de que ainda não é hora de deixar a cargo dos cidadãos a escolha do escalão superior do poder. Dessa diferença resulta o mal que tanto se tem agravado no Brasil nos últimos tempos: a solidão do governo e seu distanciamento em relação aos governados, que nele não crêem e não confiam."
Nesta mesma edição, no entanto, Veja apontou a "luz no fim do túnel" representada por Tancredo Neves, membro do partido oposicionista, o PMDB, como capaz de unir a oposição e os descontentes com o governo. Segundo o semanário, os governadores do PDS do nordeste surpreenderam o país ao anunciarem que, para eles, o governador mineiro, Tancredo Neves, era a pessoa mais indicada para participar dos entendimentos capazes de impedir a criação de um impasse político na sucessão presidencial. Conforme a revista, Tancredo Neves não dissimulava a sua formação conservadora e isto facilitaria o apoio de parte do PDS. Veja apostou nesta saída centrista.
 
 

A sucessão de Figueiredo

Veja (vol. 767, 18/05/83) anunciava: "começou o grande clássico da sucessão do presidente Figueiredo. Largaram na frente o ministro do Interior, Mário Andreazza, 64 anos, e o vice-presidente, Aureliano Chaves, 54." Atrás deles vinham o senador Marco Maciel; o presidente da Eletrobrás, José Costa Cavalcanti; o ex-governador da Bahia, Antônio Carlos Magalhães; e o biministro da Previdência e da Desburocratização, Hélio Beltrão. Já o deputado Paulo Maluf não havia largado. A revista informou que o presidente iria coordenar a escolha do candidato e manteria o controle da própria sucessão. Veja concluiu, indicando ser favorável à candidatura Aureliano:

"O ministro do Interior representa, para o bem ou para o mal, uma estrita continuação dos métodos administrativos do atual governo. Aureliano traz consigo indicadores de mudanças."
Diante da polarização entre as candidaturas de Paulo Maluf e Mário Andreazza, Veja não apoiou nenhum dos dois nomes dizendo que eles representavam uma continuidade das coisas como estavam. Desde o início, mostrou uma simpatia pelo vice-presidente, Aureliano Chaves, que, para ela, representava a mudança. A revista (29/06/83, vol. 773) informou: "o drama da polarização entre Andreazza e Maluf está menos em suas pessoas do que no momento vivido pelo país. Qualquer um dos dois, em outras sucessões, poderia ser candidato sem causar maior espanto. Ambos, entretanto, têm em comum o fato de transmitir a sensação de que existe um abismo entre aquilo que são e aquilo de que o país precisa nesta hora, diante da crise econômica exacerbada e da necessidade de mudanças estruturais pela frente."

Veja apontou a indecisão do Planalto em 24/08/83 (vol. 781): "pode ser cedo, mas com o passar do tempo Figueiredo se vê na delicada situação de assistir ao crescimento de todos os candidatos que não prefere, de Maluf a Aureliano, enquanto seu preferido, o ministro do Interior, Mário Andreazza, hiberna."

No início de 1984, a desunião do partido do governo, o PDS, foi apontada pela revista (04/01/84, vol. 800) devido à ausência do presidente na coordenação da escolha do candidato a sucessor. Conforme o semanário, "a atitude do presidente coloca para escanteio, momentaneamente, a candidatura do ministro do Interior, Mário Andreazza, e beneficia a corrida do deputado Paulo Maluf, que se encontra de mãos livres para cabalar votos de convencionais do PDS em todo o país". Veja afirmou que isto também beneficiou Aureliano Chaves, pois enfraquecia Andreazza.

"Com o seu discurso de fim de ano, Figueiredo embaralhou consideravelmente as cartas do jogo da sucessão. O embaralhamento refletiu a divisão do PDS, onde as candidaturas colidiram durante todo o ano e, agora, ameaçam abrir fissura ainda maiores no partido".
 
 
O semanário (11/01/84, vol. 801) mostrou o crescimento da candidatura Maluf e as dificuldades em relação à união de uma parte do governo com a oposição quando publicou a declaração do ministro Leitão de Abreu: "se o deputado Paulo Maluf sair vitorioso da Convenção do PDS, vamos batê-lo no Colégio Eleitoral". Para Veja, esse anúncio "seria o caso inédito de um governo querendo derrotar a candidatura do seu próprio partido, aliando-se para tanto à oposição..."

Os três candidatos a sucessor do presidente Figueiredo foram capa de Veja na edição 803, 25/01/85 (Paulo Maluf), na 805, 08/02/84 (Aureliano Chaves), e na 807, 22/02/84 (Mário Andreazza). A "Carta ao Leitor" sobre estes três candidatos pode nos fornecer o que a revista pensava sobre o processo sucessório. Assim, em relação a Paulo Maluf, Veja declarou: "O problema central de Maluf, assim como do vice-presidente Aureliano Chaves e do ministro Mário Andreazza, os dois outros pretendentes mais fortes no partido governamental, está menos em sua pessoa e em seu programa - de resto excessivamente vago para significar mais que uma coletânea de intenções - e sim no processo pelo qual ele pleiteia a Presidência. (...) Maluf e os demais candidatos só têm um jeito de mostrar que as resistências aos seus nomes são minoritárias, ou que aquilo que querem para o país tem mais ou menos aprovação das pessoas que pretendem governar - submeter-se ao julgamento do eleitorado numa eleição direta, no momento a maneira mais simples e genuína de limpar dúvidas, remover desconfianças e dar ao eleito a segurança de contar, em seu apoio, com alguma medida de maioria efetiva."

Já Aureliano Chaves "ofereceu ao público uma visão do que pretende fazer caso chegue ao Palácio do Planalto..." Ele defendeu a retomada do crescimento econômico e a "Carta ao Leitor" ressaltou que "todos os três candidatos do partido do governo estão defendendo uma estratégia econômica oposta àquela que o próprio governo tem executado na vida real. Se o governo executa políticas que mergulharam o país na recessão - não por desígnio, mas por julgá-las necessárias - e se os candidatos de seu partido sustentam que é indispensável mudá-las, fica-se sem entender quem está de que lado."

E finalmente, a "Carta ao Leitor" sobre Mário Andreazza dizia que Paulo Maluf havia recebido o apoio do general Golbery do Couto e Silva; Aureliano Chaves, do general Ernesto Geisel e Andreazza ainda não havia recebido o apoio oficial do presidente Figueiredo.

A partir daí, podemos constatar que (Veja, vol. 804, 01/02/84) "os grandes articuladores da sucessão de 1978 - Geisel, Golbery e Figueiredo - tomaram em 1984 caminhos diversos, numa das mais surpreendentes mudanças públicas sucedidas no núcleo do poder desde 1964. (...) O apoio de Geisel a Aureliano fortalece o vice-presidente e conclui um processo de divisão dentro do PDS iniciado pelo aparecimento da candidatura Maluf e ampliado pela simpatia, embora ainda não expressa publicamente, de Figueiredo por Andreazza." Conforme a revista:

"Enquanto Maluf e Andreazza exibem bases diferentes e programas semelhantes, Aureliano parece buscar uma trilha capaz de fazer renascer as velhas raízes de seu partido de origem, a UDN, cavalgando uma mistura de moralidade com defesa das liberdades públicas. Por isso, dispõe de biografia. Foi um administrador de contas respeitado pela oposição e o primeiro político do PDS a defender a anistia, em 1977."
Podemos perceber, neste trecho, a preferência por Aureliano entre os candidatos deste processo sucessório, no qual a revista manteve sua posição centrista, proclamando mudanças sem se chocar com o governo.

Em um outro momento, quando a campanha pelas eleições diretas ainda estava sendo coberta pelo semanário, a sua capa (vol. 815, 18/04/84) mostrou um comício pelas "Diretas-já" e o canto da página exibia os dizeres: "Aureliano já".

Dois meses depois, ao anunciar a idéia de uma prévia no partido do governo, o PDS, para escolher o candidato a sucessor, Veja evidenciou novamente um discreto apoio ao vice-presidente Aureliano Chaves. Desta maneira, a "Carta ao Leitor" (vol. 823, 13/06/84) dizia que a dificuldade da prévia era a seguinte:

"Descobrir uma maneira de colocar na presidência da República um sucessor que a opinião pública não quer ver lá. De fato, tem sido uma característica deste processo o fato que o partido do governo não quer o candidato que o público poderia querer, o vice-presidente Aureliano Chaves; em vez disso, quer ou o deputado Paulo Maluf, ou o ministro Mário Andreazza, que são, justamente, aqueles que a população rejeita, por não confiar no primeiro e por achar que o segundo representa a continuação de um governo sem esperanças. (...) A realização de uma prévia antes da convenção é, em si, uma idéia carregada de méritos. O nome que obtiver a maioria das preferências das bases do partido será, sem dúvida, um candidato mais representativo e, com a campanha em torno da prévia, certamente se revitaliza a atividade partidária. Nas circunstâncias em que a presente consulta foi colocada, porém, o que ressalta é mais uma tentativa de última hora de modificar o curso de um jogo que desandou - e desandou por centrar-se em nomes sem respaldo popular."
 
 
A eleição de Paulo Maluf na Convenção do PDS foi noticiada pelo semanário em 15/08/84 (vol. 832). De acordo com Veja, a chave da segunda etapa da campanha de Paulo Maluf à presidência da República era obter o apoio da máquina administrativa do governo federal e, com isso, tentar unir o PDS.

Entretanto, em 24/10/84 (vol. 842), a revista mostrou a decadência da candidatura Maluf em relação à candidatura oposicionista de Tancredo Neves. Segundo Veja, "com a definição da posição do todos os governadores, a candidatura de Tancredo Neves ganha mais dimensão e a do PDS se resume ao apoio explícito de apenas três governadores de Estado: Jorge Teixeira, de Rondônia; Júlio Campos, do Mato Grosso; e Wilson Braga da Paraíba.

Em 14/11/84 (vol. 845), o semanário publicou um título sugestivo: "Maluf perto do fim". E declarava: "encurralado pela falta de apoio popular e pelos sucessivos avanços de Tancredo Neves na contabilidade do Colégio Eleitoral, Maluf pôde constatar que as possíveis saídas eventuais não passam pelas portas do Palácio do Planalto - todas estão fechadas." No entanto, "Maluf admitiu que a campanha exige correções de rota, mas deixou claro que nenhuma delas passa pela renúncia."

Na edição 846 (21/11/84), a capa da revista revelava a situação do processo sucessório: "O malufismo em retirada". E a reportagem dizia:

"O país quis eleições diretas já, e Maluf foi contra. (...) O Brasil reivindicou a mudança de regime, e o candidato do PDS foi apresentado como seu continuador. (...) Agora, quando o candidato tenta mudar de bandeiras e ensaia a defesa das diretas já e do reatamento de relações com Cuba, parece claro que é tarde demais."
Após isto, o candidato do governo foi derrotado nas eleições presidenciais indiretas pelo candidato oposicionista, Tancredo Neves, dando fim ao regime militar brasileiro.
 
 

A vitória oposicionista

Antes disso, em meados de junho, Veja (vol. 824, 20/06/84) anunciou a união de políticos contra a candidatura Maluf: "todos os políticos do governo que não gostam da idéia de ver Maluf na presidência da República ganharam mais tempo para se armar contra ela - basicamente juntando-se a um candidato de oposição para derrotar o preferido de seu próprio partido no Colégio Eleitoral que em 15 de janeiro próximo elegerá o novo presidente." Desse modo, tornava-se mais verossímil a hipótese de que o presidente "passe a faixa a um oposicionista". O senador José Sarney renunciou à presidência do PDS, "transferindo-se para a dissidência que espera barrar Maluf no Colégio Eleitoral."

A formação da Frente Liberal foi publicada pela revista em 11/07/84 (vol. 827) depois da dissidência de Aureliano Chaves, Marcos Maciel e José Sarney do PDS. Veja declarou que "o mais provável é que o senador José Sarney seja o companheiro de chapa de Tancredo se as negociações entre os dois grupos forem bem sucedidas."

Nessa altura, o semanário (vol. 828, 18/07/84) defendeu a Frente Liberal como a solução para estabilidade econômica e a democracia no Brasil:

"A organização das forças políticas centristas, tentada sem sucesso outras vezes, poderia ser o desaguadouro das ações da Frente Liberal, que assim assumiria o papel de pólo de atração nacional para as diversas tendências hoje espalhadas pelo espectro partidário. O atual movimento de dissidência, neste caso, estaria realmente prestando um serviço ao país e à sua vida política. Num momento de dificuldades como o de agora, e numa sociedade com problemas e divisões tão graves como a brasileira, é essencial para o equilíbrio político a existência de um centro forte e organizado. Sem ele será impossível cogitar seriamente de estabilidade, ou de qualquer projeto duradouro para a democracia no Brasil."
O acordo entre o candidato oposicionista e a Frente Liberal formando a Aliança Democrática foi noticiado por Veja em 01/08/84 (vol. 830). Com isso, "Tancredo consolida o acordo com a Frente Liberal e é saudado como forte candidato à Presidência". E "a candidatura Tancredo Neves tem se beneficiado, também, do crescente apoio que vem recebendo dos meios de comunicação, de maneira geral, da Rede Globo de Televisão em especial, cujo diretor-presidente Roberto Marinho decidiu fechar com o governador de Minas".

Na edição 832 (15/08/84), Tancredo, oficialmente indicado para candidato do PMDB à presidência da República, recebeu um apoio crítico de Veja. Conforme o semanário:

"O grande teste para a Aliança Democrática será levar às ruas multidões que correspondam ao amplo leque de tendências políticas que estarão representadas nos palanques e assim Tancredo sairá de cada comício cada vez mais respaldado para disputar a presidência da República. Se, no entanto, os comícios não conseguirem reunir nas praças públicas número expressivo de pessoas, será um sinal de que a união do PMDB e das oposições com a Frente Liberal saída do PDS não convenceu a opinião pública."
 
 
O candidato Tancredo Neves foi capa da revista em 19/09/84 (vol. 837) e na "Carta ao Leitor", em uma pequena foto, apareceu ao lado de Victor Civita e Roberto Civita em visita à Editora Abril. A reportagem feita pelo repórter Marcos Sá Correa concluía:
"Na parede de sua biblioteca particular no Rio de Janeiro, há um óleo de Portinari, pintado especialmente para Tancredo Neves. É um Dom Quixote, mas um Dom Quixote nunca visto. Está sobre a sela de um soberbo cavalo. E os olhos do cavaleiro não são os de um visionário. São olhos de um vitorioso."
Na edição especial de 16/01/85 (vol. 854), Veja mostrou como foi configurada a vitória da oposição. Conforme o semanário, Tancredo Neves batizou o período depois das eleições de "Nova República". "Quando o painel triunfalista do malufismo começou a desabar, entre agosto e setembro do ano passado, Tancredo, nos bastidores, dedicou-se a roer as estacas com que se pretendia montar um clima de instabilidade capaz de levar a um golpe. Se da esquerda do PMDB obteve as concessões que permitiram a alternativa moderada, e de uma parte do PDS ganhou o apoio que viabilizava a matemática da eleição, foi no núcleo de militares comprometidos com as Forças Armadas como instituição que ele buscou algumas poucas palavras - todas blindadas e artilhadas - para desmantelar os planos de todos aqueles que jogavam na crise". Para a revista, "é provável que haja esperança demais e Tancredo de menos, mas vinte anos de onipotência ensinaram ao Brasil que é preferível acreditar menos nas pessoas e mais nos processos democráticos". Além disso, Veja informou que foi importante a transformação de Ulysses Guimarães em chefe de campanha de Tancredo, pois ele "amarrou o PMDB e compôs o partido com os dissidentes do PDS". E "a permanência de Leitão (de Abreu) no Gabinete Civil e de (Nelson) Marchezan na liderança do PDS na Câmara, por sinal, foi decisiva para o êxito das manobras anti-Maluf".
"No fim de julho a Frente Liberal oficializava seu apoio a Tancredo, Sarney obtinha a vice-presidência na chapa oposicionista e o PDS, esfacelado, caminhava para a sua convenção. A vitória de Maluf, ali, viria completar a ruína do partido: os andreazzistas, derrotados, iriam somar-se progressivamente aos dissidentes da Frente Liberal. O ciclo aberto com as primeiras resistências a Maluf dera uma volta completa - e o grande beneficiado, do começo ao fim, havia sido Tancredo Neves."
Na edição de 23 de janeiro de 1985 (vol. 855), a revista publicou a vitória de Tancredo Neves nas eleições presidenciais realizadas no dia 15/01/85 por 480 votos contra 180 dados a Paulo Maluf , 26 abstenções e 9 ausências. Segundo Veja, o resultado "abre uma nova era na história do Brasil". E acrescentava, "ao presidente eleito não parece transtornar a circunstância de dever sua vitória a uma desconexa aliança de forças, que vai de seu vice, José Sarney, que era governador do Maranhão no dia em que se assinou o AI-5 e presidente do PDS que derrotou as diretas, em abril de 1984, ao Partido Comunista do Brasil, que sonha em fazer do Brasil uma imensa Albânia". Para a revista, o povo brasileiro que não pôde votar tem o direito de sentir-se personagem da história:
 
 

"O regime mudou - e os homens nele engajados terão também de mudar".
 
 
 
 

Como podemos notar, durante o processo sucessório, enquanto havia apenas os três candidatos a candidato para suceder o presidente João Baptista Figueiredo, Veja teve uma preferência pelo vice-presidente, Aureliano Chaves. Para a revista, ele era o civil representante do centro forte e organizado que efetivaria o fim do regime militar. No entanto, quando o deputado Paulo Maluf saiu vitorioso da Convenção do PDS, os descontentes com a sua candidatura saíram do partido e formaram a Frente Liberal. Esta Frente era liderada por Aureliano Chaves e possuía também o apoio de políticos ligados ao ministro Mário Andreazza, derrotado na Convenção contra Maluf. Quando eles se uniram ao candidato do partido de oposição, o PMDB, Veja passou a apoiar Tancredo Neves e José Sarney. O primeiro já era simpático à revista desde quando embarcou na campanha pelas eleições presidenciais diretas, defendida por Veja. Tancredo Neves, mesmo sendo da oposição, possuía características conservadoras, o que possibilitou a união com os dissidentes do governo. Com isso, nitidamente o semanário viu nesta união a solução para a abertura política do regime realizada por políticos centristas e conservadores que não provocariam mudanças radicais na vida política do país. O regime passaria a ser democrático, mas sem mexer na estrutura do poder econômico que formava a sociedade brasileira. Além disso, os meios de comunicação não teriam mais a censura para se preocupar e poderiam "vigiar" o governo como sempre foi a tradição do "quarto poder". Portanto, quando Veja defendeu a oposição na vitória para as eleições presidenciais, também defendia os seus interesses de que houvesse mudanças, mas sem modificar o contexto de manutenção do poder econômico no qual ela estava inserida.

Reproduzo aqui, uma "Carta do Editor" escrita por Victor Civita em 02/01/85 (vol. 852), que exemplifica como Veja defendia as mudanças dentro da ordem e de forma pacífica, além da volta ao crescimento econômico que beneficiaria a todos e ao próprio semanário. Segundo o editor, 1984 foi o:

"Ano em que os comícios pró-diretas não irromperam em violência, em que a rejeição da emenda Dante de Oliveira não se transformou no estopim de uma grande crise e em que a perspectiva quase certa de eleição de um presidente da oposição não resultou em um golpe de Estado. Foi, assim, o ano de maturidade, em que o Brasil conseguiu não apenas abrir caminho para a transferência pacífica do poder exercido durante vinte anos pelos militares, como também iniciar a longa caminhada da retomada do crescimento econômico".
O processo sucessório realizou-se dentro dos trâmites legais feitos pelo próprio governo, mas os políticos que participaram e apoiaram o regime militar e se descontentaram com a candidatura Maluf uniram-se ao partido oposicionista para conquistar o poder. Com a morte de Tancredo Neves, assumiu o seu vice, José Sarney, que participou de todo o regime militar e juntou-se a Tancredo indicado pelos dissidentes do governo. De certa forma, então, o partido formado por membros do governo (a Frente Liberal) foi vencedor e a política conservadora e autoritária permaneceu em nosso país. Mesmo com o fim do regime militar e mesmo com a participação da população na campanha pelas eleições presidenciais diretas que se efetivaram em 1989, a forma de governar continuou sendo feita por políticos que ajudaram a "legitimar" o período ditatorial no Brasil.

No decorrer deste capítulo analisamos como a revista Veja portou-se diante de uma situação recorrente de crise do governo militar representada pelas sucessões presidenciais. Além disso, verificamos também como o semanário posicionou-se em relação às oposições presentes em cada sucessão. A partir daí, podemos constatar como Veja lidava com as questões e os ditames militares e com a oposição ao regime. Com isso, chegamos a seu posicionamento nos diferentes momentos do período militar no Brasil de 1968 a 1985. O que podemos observar foi a coerência da revista diante do desejo de redemocratização do país. Desta maneira, desde o início de sua existência, Veja sempre defendeu a volta das instituições democráticas, mesmo que de forma conservadora, ou seja, realizada por meio dos governos militares.

Inicialmente, temos a sucessão do presidente Costa e Silva, em que a principal oposição vinha do movimento de luta armada e não de políticos do partido de oposição "oficial", o MDB. Neste momento, Veja acompanhou a sucessão nos meios militares e saudou o novo presidente, Emílio Garrastazu Médici, como o continuador do processo de abertura política que ela acreditava ter sido iniciado pelo marechal Costa e Silva, através da Reforma Constitucional. A revista combateu a oposição chamada por ela de "terrorista" e defendia as críticas "construtivas" ao regime somente dentro do Congresso Nacional (um órgão legítimo) e de setores organizados nas instituições, dentre elas, a própria imprensa. No entanto, condenou a utilização do uso de tortura a presos políticos até o momento em que foi censurada. Esta foi uma época em que a censura atacou de frente os meios de comunicação e Veja viveu a falta de liberdade de expressão durante vários anos, o que também influenciou o seu posicionamento na sucessão presidencial seguinte.

O governo do general Médici foi o mais repressor do período militar e por isso quando foi anunciado o nome do general Ernesto Geisel para sucedê-lo, o semanário o apoiou, pois no seu discurso vinha a promessa da abertura política do regime. O principal assessor do general Geisel, Golbery do Couto e Silva, procurou os órgãos de imprensa e assegurou a realização de medidas que promoveriam a volta a democracia e, entre elas, o fim da censura. Por isso, Veja embarcou nesta candidatura e realizou uma positiva edição-extra quando Geisel foi escolhido presidente. A oposição, nesta época, já com o fim da luta armada no governo Médici, foi representada pelos "anticandidatos" do MDB, Ulysses Guimarães e Barbosa Lima Sobrinho. Estes candidatos sabiam que era muito difícil ganhar a "eleição", por isso, saíram em campanha criticando o regime militar. A revista aceitava este tipo de oposição, mas acreditava na liberalização vinda dos membros do próprio governo e, por isto, os oposicionistas eram vistos apenas como críticos aceitáveis desde que não atrapalhassem os militares no processo de abertura. Veja só foi liberada pela censura na metade do governo Geisel, em junho de 1976, mas não deixou de apoiar o seu projeto desde a sua candidatura. Depois da posse de Geisel, a revista preferiu continuar acreditando em suas promessas de que a censura iria terminar.

Quando o presidente Ernesto Geisel escolheu seu sucessor, o general João Baptista Figueiredo, o semanário continuou apoiando o candidato do governo como o continuador e efetivador do processo de democratização iniciado por Geisel. Veja manteve seu apoio a Figueiredo objetivando o fim do regime por iniciativa do próprio governo. Nesta sucessão, o partido de oposição "oficial" lançou uma candidatura militar através do general Euler Bentes Monteiro e do senador Paulo Brossard. Alguns jornalistas da revista se entusiasmaram com esta candidatura e viram uma possibilidade de vitória, diferentemente da candidatura de Ulysses Guimarães e Barbosa Lima Sobrinho. No entanto, estes jornalistas foram afastados e prevaleceu o candidato apoiado por Veja.

A última sucessão presidencial foi diferente. O presidente Figueiredo demorou muito para se definir entre os três candidatos do partido do governo: Aureliano Chaves, Paulo Maluf e Mário Andreazza. Alguns autores afirmam que esta indefinição mostrava que Figueiredo queria prorrogar o seu mandato. No entanto, a decisão foi tomada na Convenção do PDS (o partido do governo depois da Reforma Partidária) e o escolhido foi Paulo Maluf. Os descontentes com essa candidatura saíram do PDS e formaram a Frente Liberal liderada pelo vice-presidente, Aureliano Chaves. Esta Frente uniu-se ao principal partido oposicionista da época, o PMDB, lançando a candidatura Tancredo Neves-José Sarney. Com o enfraquecimento do partido do governo, essa união saiu vitoriosa e Tancredo foi eleito presidente. Quando Aureliano Chaves ainda era candidato pelo PDS, a revista o apoiava como a solução civil para a volta à democracia, pois Paulo Maluf era visto pela maioria dos órgãos de imprensa como corrupto e Mário Andreazza representava a continuidade do regime. Com a formação da Frente Liberal e com o apoio desta ao candidato oposicionista, Veja passou a apoiar esta união como a possibilidade de um centro forte e organizado capaz de mudar o regime sem promover grandes transformações da sociedade.

A partir disto, podemos constatar que Veja manteve seu posicionamento a favor dos candidatos do governo, só mudando a sua posição quando o candidato oposicionista recebeu apoio dos dissidentes do partido do governo. Isto deu-se, também, por dois outros motivos: a revista já não era mais censurada e o governo Figueiredo atravessava uma das piores crises da economia brasileira. Houve, então, o incentivo de Veja às mudanças, desde que feitas por políticos ditos liberais, mas, ao mesmo tempo, conservadores. Aqui temos um ponto-chave para a análise: em se tratando das sucessões presidenciais, o semanário acatou as decisões governamentais porque queria a abertura política feita pelo próprio governo, e mesmo com o apoio à candidatura de Tancredo Neves, tudo deveria ser feito dentro da ordem.

No entanto, houve momentos em que a revista entrou em conflito com o regime militar. Estes conflitos podem ser representados, principalmente, por três pontos de discórdia: a censura, a tortura e a campanha pelas "Diretas-já". Estes três assuntos despertaram divergências e críticas por parte de Veja em relação às ações do governo. Desta maneira, o semanário defendia a liberdade de expressão, bandeira da maioria dos órgãos de imprensa, que intitulavam-se de "quarto poder" para vigiar e criticar as falhas do governo; defendia as liberdades individuais, e, por isso, além de ser contra a tortura, era contra as medidas coercitivas contidas principalmente no AI-5, entre elas, também, o habeas corpus; e finalmente, depois de liberada pela censura, claramente passou a defender as eleições presidenciais diretas, como o principal fator de um regime democrático.

Com isso, notamos que havia um desconforto da revista diante do regime militar. O semanário foi criado com moldes empresariais, dentro do sistema capitalista. E favorecia-se com as políticas econômicas do governo, mas sentia-se desconfortável em relação à censura que barrava o seu direito de informar. Por isso, a abertura política era defendida sem que pudesse causar rupturas bruscas, sem que modificasse o sistema econômico no qual deu certo.

Portanto, a posição de Veja definiu-se favorável ao governo nos momentos sucessórios e conflitiva em questões específicas defendidas pela revista contra as posições do regime militar, pois as relações entre a imprensa e os militares não obedeceram um padrão linear e moldavam-se de acordo com os acontecimentos políticos e econômicos. Além disso, a posição da revista definia-se pela conquista de um maior número de leitores, pois estava inserida num contexto de indústria cultural. Como Veja lidava com isso será tratado no próximo capítulo.

Capítulo III: VEJA E A CONSOLIDAÇÃO DA INDÚSTRIA CULTURAL NO BRASIL

O objetivo deste capítulo é tentar captar, por meio da análise das matérias de Veja, como a revista inseriu-se no processo de consolidação da indústria cultural no Brasil e como assumiu seus princípios mercadológicos.
 
 

A imprensa, além de informar, é influenciada pelos acontecimentos sociais e econômicos do país. Por isso, o Estado, ao incentivar o desenvolvimento dos meios de comunicação, durante o regime ditatorial, tinha a intenção de controlá-los. Veja foi crescendo e aumentando seu número de tiragem, com o passar dos anos dos governos militares. A revista precisou de empréstimos financeiros governamentais e, por isto, cedeu algumas vezes às suas pressões. No entanto, teve momentos em que deixou de receber concessões porque criticava o governo. Mas, então, a revista sabia recuar quando a crítica aos militares poderia causar prejuízos mais sérios e provocar até seu fechamento. Com isso, Veja manteve-se numa posição centrista e maleável, ou seja, defendia os seus princípios de acordo com seus interesses, mas de maneira geral, calava-se quando o governo interferia.

A história da revista teve dois momentos principais durante o período militar: primeiro, com a presença do AI-5, o regime desenvolvia-se economicamente e Veja consolidava-se no mercado consumidor, mas também havia um mal-estar político em relação à ditadura; e, segundo, com a extinção do AI-5, o sucesso econômico foi mantido pelo semanário, que se põe em concordância com a volta da democracia dentro dos limites impostos pelo governo. Depois do AI-5, Veja mostrou com clareza a síntese de economia e política numa defesa conservadora da ordem capitalista. É importante demonstrar que ocorreu a integração completa da revista ao processo de desenvolvimento do país durante a ditadura, ou seja, o seu sucesso estava umbilicalmente ligado ao sucesso das políticas econômicas de modernização.

Desta maneira, neste contexto de consolidação da indústria cultural e da censura imposta pelos militares, veremos como Veja conseguiu sobreviver e se desenvolver no período ditatorial.
 
 

Veja e o desenvolvimento da imprensa

Quando Veja surgiu, em setembro de 1968, já havia um processo de consolidação da indústria cultural no Brasil, que existia desde os anos 50. A imprensa passou a se organizar enquanto empresa e deixou de produzir textos mais literários para privilegiar a informação mais "objetiva" e "precisa". De tal modo, "a ‘objetividade jornalística’ tornou-se critério definidor não só da qualidade como também da própria especificidade do texto jornalístico, ocupando paulatinamente o lugar do texto rebuscado, ou mais ‘literário’." Como podemos perceber, as mudanças na sociedade também se refletiam no conteúdo dos jornais. "Sem dúvida, a imprensa brasileira, na década de 50, foi abandonando uma de suas tradições: o jornalismo de combate, de crítica, de doutrina e de opinião. Essa forma de jornalismo convivia com o jornal popular, que tinha como características o grande espaço para o fait divers, para a crônica e para a publicação de folhetins. A política da atualidade não estava ausente, mas era apresentada com uma linguagem pouco objetiva. Esse jornalismo de opinião tinha forte influência francesa e foi dominante desde os primórdios da imprensa brasileira até a década de 60. Foi gradualmente substituído pelo modelo norte-americano: um jornalismo que privilegia a informação e a notícia e que separa o comentário pessoal da transmissão objetiva e impessoal da informação." Desta maneira, "a inserção da empresa jornalística no mundo dos grandes negócios levou os jornais a um rápido processo de despolitização, contrariando a tradição da imprensa brasileira que foi, até pelo menos meados da década de 60, essencialmente engajada."

No governo do presidente Juscelino Kubitschek havia toda uma expectativa por parte da sociedade de um novo tempo de progresso para o país. Ocorreram, nessa fase, a aceleração do processo de industrialização e a exaltação dos valores nacionais. Os meios de comunicação desenvolveram-se e "uniram" o país, pois as diferentes regiões recebiam a mesma informação, inclusive internacional. "Nos anos 50 começaram os investimentos no setor publicitário e teve início a implantação no país de grandes agências nacionais e estrangeiras de publicidade; os anúncios nos jornais se diversificaram..." Com isso, a imprensa também sofreu um processo de industrialização e, desta maneira, passou a refletir as condições econômicas pelas quais passava o país. E a acompanhar as mudanças, fazendo parte do processo de transformação da sociedade brasileira.

A imprensa aumentou e diversificou as informações ao público, mantendo-o "bem-informado" (quantitativamente e superficialmente). "Assim, ao aumentar o número de notícias e ao diversificar as temáticas do noticiário, a imprensa ao mesmo tempo estaria fazendo uma concessão ao ritmo cada vez mais vertiginoso de produção simbólica instaurado pela então nascente indústria cultural e, com isso, reproduzindo-o."

Nos anos 50, adquiriu importância a profissão de jornalista que passou a ser melhor remunerado e a ter cursos em faculdades que davam reconhecimento a esta profissão. Além disso, "outro indicador do desenvolvimento da imprensa, num quadro de acirramentos das concorrências interna e externa, seria o aumento do peso proporcional de recursos editoriais como títulos, manchetes, fotos e ilustrações. O uso amplo de recursos visuais (fotos, ilustrações) e gráfico-visuais (manchetes, títulos, logotipos, cores, fundos, etc.) apontaria para a crescente concorrência pela atenção do público."

Um exemplo de que a imprensa reflete as transformações do seu tempo foi a reforma do Jornal do Brasil. O êxito desta reforma "é um indicador importante do significado das transformações que tiveram lugar na imprensa nos anos 50. O processo de desenvolvimento econômico, a afirmação dos valores democráticos e a efervescência cultural que impregnou os vários campos artísticos foram fatores fundamentais para estimular a transformação dos padrões da imprensa brasileira, propiciando alterações em diferentes periódicos e possibilitando o lançamento de novas publicações."

Já nas décadas de 60 e 70, temos um outro exemplo de como a destruição de um órgão de imprensa também pode ser reflexo dos acontecimentos sociais, políticos e econômicos de uma época. O jornal O Correio da Manhã, após o Ato Institucional nº 5 (dezembro de 1968), foi invadido e foram instalados censores em sua redação. Como afirmou um ex-editor, "o rigor era total e atingia a mínima nota redigida, fosse em qualquer horário e de qualquer Editoria." O Correio da Manhã foi destruído por um "precedente e ardiloso processo de asfixia econômica e financeira. (...) Primeiro, o corte das grandes empresas estatais. Saía anúncio delas em qualquer jornaleco, menos no Correio da Manhã. E o governo, naquele período, era um grande anunciante. Suas estatais, bancos e outras entidades governamentais multiplicavam-se como nunca e tinham orçamentos milionários. Depois, veio o corte fundo dos grandes anunciantes privados, que receberam ordens, insinuações e sugestões no sentido de não anunciar no Correio da Manhã, chamado até de jornal comunista."

Com efeito, no pós-64, ocorreu um desenvolvimento econômico promovido pelos militares no poder. Como afirmou Fernando Henrique Cardoso, o governo assumiu funções repressivas no plano social e modernizadoras no plano administrativo. Por isso, detinha o controle do desenvolvimento econômico, o que colocava as empresas jornalísticas com uma certa dependência em relação ao Estado. Desta maneira, o regime militar caracterizava-se por um "conservantismo moderno, que, no plano ideológico quer manter socialmente aberta uma sociedade politicamente fechada que se baseia no dinamismo da empresa capitalista, pública ou privada. (...) É neste sentido limitado de uma ‘revolução econômica burguesa’ que se pode pensar nas conseqüências revolucionárias do movimento politicamente reacionário de 1964. Ele pôs a burguesia nacional em compasso com o desenvolvimento do capitalismo internacional e subordinou a economia nacional a formas mais modernas de dominação econômica. Neste sentido modernizou a máquina estatal e lançou as bases para a implementação de um setor público da economia, que passou a integrar-se no contexto do capitalismo internacional."

Do ponto de vista da análise da indústria cultural, é importante destacar aqui, que, no plano econômico, o regime militar era modernizador e dinâmico (ao mesmo tempo em que marginalizava uma parte da população, pois concentrava renda e aumentava a miséria). As empresas jornalísticas, que se beneficiavam do desenvolvimento econômico em geral, foram favorecidas com isso, pois puderam se modernizar (inclusive com o acesso a maquinários importados e com as formas de fazer jornalismo características de outros países) e atingir um número cada vez maior de leitores. De tal modo, a ideologia desenvolvimentista do regime militar possibilitou também o desenvolvimento da indústria cultural dentro dos ditames do governo. Como este desenvolvimento estava atrelado ao governo, este possuía formas econômicas de controle, além da própria censura.

Como podemos perceber, o Golpe Militar tentou enquadrar os meios de comunicação aos seus ditames. Alguns sobreviveram fazendo muitas concessões e outros foram fechados devido a pressões governamentais. A revista Veja passou por este período incorporando, desde o início, os critérios essenciais para sobreviver num contexto que, além da censura imposta pelo governo, continha a indústria cultural em sua fase de consolidação. "Por trás dos sonhos de uma revista semanal de informação, pontificava a segurança de uma sólida estrutura empresarial, de quebra proprietária do maior parque gráfico da América Latina." Desta maneira, Veja já surgiu organizada enquanto empresa, levando em consideração um texto mais preciso do que rebuscado para informar; a importância de títulos, manchetes, fotos e ilustrações; a preocupação com a escolha de jornalistas qualificados; a dependência dos leitores e anunciantes para a sua sobrevivência; e a diversidade em seu conteúdo. "De início, foi necessário semear interesse do público por uma forma de jornalismo até então não experimentada no Brasil: mais sucinta e analítica do que a imprensa diária, menos ilustrada do que as revistas de variedades e menos instantânea do que o rádio e a televisão." Além disso, "como objetivo, a nova revista se propunha a fornecer aos leitores uma seleção breve e ordenada dos principais acontecimentos da semana em todas as áreas do conhecimento. Mais do que simplesmente discorrer sobre fatos, costurá-los interpretativamente, procurando explicar sua significação com o mundo."

Para melhor entendermos esta fase de consolidação da indústria cultural no Brasil, foram analisados os editoriais de Veja onde a própria revista refletia sobre o seu sucesso editorial.
 
 

Veja e a ditadura: o sucesso empresarial


A exaltação da técnica

A integração dos consumidores era um dos princípios contidos na teoria sobre a indústria cultural e mostrado pelos seus primeiros teóricos. O semanário assumiu este discurso de integração dos seus leitores em seus editoriais desde os seus primeiros números. "Em sua caminhada, Veja rasgou fronteiras geográficas e culturais, levando uma mesma informação para os vários Brasis que compõem o nosso país." Assim, o editorial contido no primeiro número da revista (vol. 1, 11/09/68), denominado de "Carta do Editor", assinado por Victor Civita, continha os seguintes dizeres: "onde quer que você esteja, na vastidão do território nacional, estará lendo estas linhas praticamente ao mesmo tempo que todos os demais leitores do país. Pois Veja quer ser a grande revista semanal de informação de todos os brasileiros. (...) O Brasil não pode mais ser o velho arquipélago separado pela distância, o espaço geográfico, a ignorância, os preconceitos e os regionalismos: precisa de informação rápida e objetiva a fim de escolher rumos novos. Precisa saber o que está acontecendo nas fronteiras da ciência, da tecnologia e da arte no mundo inteiro. Precisa acompanhar o extraordinário desenvolvimento dos negócios, da educação, do esporte, da religião. Precisa, enfim, estar bem informado. Este é o objetivo de Veja."

O semanário tinha consciência da heterogeneidade de seus leitores e também das diferenças regionais que o país possuía, e por isso, apontava, desde o seu início, para a diversidade de seu conteúdo que tratava de diferentes assuntos em diferentes áreas (esta é outra característica dos órgãos de imprensa inseridos num contexto de indústria cultural: diversificar o seu conteúdo para atrair mais leitores). Mas tinha como objetivo informar e integrar a todos num mesmo pensamento defendido pela revista. Com isso, o conceito de integração não deixava de levar em conta as diferenças dos leitores, mas buscava uni-los num mesmo conjunto de idéias.

Uma característica de Veja sempre exaltada em seus editoriais era a sua distribuição rápida e eficiente em todo o país. Isto englobava novamente a noção de integração dos consumidores da revista que a recebiam rapidamente. Em 12/02/69 (vol. 23), Mino Carta elogiava a distribuição de Veja para todo o país e declarava: "o propósito é de contribuir para a integração desse nosso país, grande como um continente. Temos de informar bem, rapidamente e sem discriminações: para Veja um leitor é rigorosamente igual a outro, esteja ele onde estiver." Este assunto foi novamente tratado em 27/06/73 (vol. 251) quando Mino Carta comentou sobre a edição-extra da revista que foi lançada após o anúncio do nome do general Ernesto Geisel como sucessor do presidente Médici: para ele, foi o esforço conjunto (da redação e dos funcionários da gráfica e da distribuidora da Abril) "que permitiu um esquema tão rápido de distribuição, a ponto de fazer de Veja, em várias cidades - São Paulo, Rio, Porto Alegre, por exemplo - um concorrente dos jornais diários."

Em 16/03/83 (vol. 758) , a "Carta ao Leitor" elogiou novamente a equipe de reportagem do semanário. Falando sobre as sucursais de Veja em Recife, Salvador, Porto Alegre e Belo Horizonte, Roberto Guzzo afirmava: "o trabalho dessas quatro sucursais, sempre presentes nas páginas desta revista, é uma das razões da efetiva penetração conseguida por Veja em todo o país." O editorial da edição 278 (13/02/74) assinado por Victor Civita resumiu bem o contexto de indústria cultural no qual a revista estava inserida. Segundo ele, Veja era uma "publicação corajosa, independente, bem informada, obcecada pela contínua superação de níveis de qualidade, que chega nas segundas-feiras aos mais distantes recantos do Brasil." Além disso, havia "o apoio de uma grande organização gráfica e de uma distribuição rápida e capilar. (...) Chegou-nos o reconhecimento do público, confortou-nos a confiança das agências de propaganda e dos anunciantes."

Isto era uma das formas de seduzir o leitor: propaganda da modernização e do avanço técnico, o que levaria a uma maior eficácia e rapidez na distribuição da revista para os leitores. Veja parece empenhada em compartilhar com o leitor os segredos de seu sucesso, como se precisasse de sua cumplicidade e, ao mesmo tempo, o procurasse seduzir com os benefícios da modernização. Rapidez, eficiência, tecnologia, capacidade profissional, perícia editorial, tudo isso é afirmado constantemente como um patrimônio comum, da empresa e dos leitores.

Um outro traço da Editora Abril, que a situava no contexto de desenvolvimento da indústria cultural no Brasil, era o seu próprio crescimento e a diversificação dos produtos que oferecia. Em 25/12/68 (vol. 16), Victor Civita dizia: "acreditamos que 1969 será mais um ano importante na marcha para o desenvolvimento. Acompanhamos com entusiasmo o progresso já produzido pelas novas rodovias, usinas, indústrias e escolas que brotam no país inteiro. E confiamos em que o trabalho honesto de dezenas de milhões de brasileiros - dentro de um clima de ordem e seriedade - continuará contribuindo para o crescimento da nação e o bem-estar de todos. A Abril está empenhada em colaborar neste esforço com todos os recursos que possui. Pretendemos - em 1969 - lançar uma importante série de livros didáticos para o curso primário, editar seis novas publicações culturais em fascículos e continuar aprimorando nossas revistas a fim de melhor informar, instruir e servir milhões de leitores. (...) O mundo espera muito do Brasil e o Brasil de cada brasileiro. Veja procurará cumprir a sua parte, informando com precisão, rapidez, imparcialidade e entusiasmo."

No aniversário de seis anos da revista, Mino Carta lembrou sobre o lançamento de Veja em 1968 (15/05/74, vol. 297): "pretendia-se freqüentar a área até então indevassada pela imprensa brasileira das revistas semanais de informação, procurando adaptar à nossa realidade fórmulas consagradas internacionalmente. Tratava-se de um compromisso de grandes proporções, envolvendo recursos financeiros, técnicos e de inteligência raramente convocados no Brasil. Moviam-nos um notável entusiasmo e uma crença de diamante no público desacostumado com um jornalismo interpretativo mas, acreditávamos, perfeitamente capaz de entendê-lo e prestigiá-lo."

Na edição 530 (01/11/78), a "Carta ao Leitor" destacou a importância do leitor: "Veja, como órgão de imprensa, se sente particularmente compensada ao dar a seu leitor o que ele está querendo e precisando saber. (...) Veja, de sua parte, faz o que tem de fazer: publica as informações que apurou, e por elas é responsável." E também na edição 665 (03/06/81), a revista ressaltou o papel do leitor: "nossos leitores sabem julgar perfeitamente o conteúdo da revista. Sua opinião é a única que realmente conta."

Estes editoriais evidenciam o que para a revista sempre foi uma relação necessária: a maior qualidade na produção do semanário implicava num maior número de leitores e na confiança dos anunciantes em promover sua propaganda em Veja. Isto nos leva a perceber outra face do desenvolvimento da indústria cultural no Brasil: produtos tendo a venda de informação e as propagandas como fonte de lucro objetivavam uma maior "qualidade" daquilo que era oferecido ao leitor. No entanto, não questionavam o andamento dos acontecimentos da sociedade sem a participação popular e realizavam críticas ao governo seguindo seus princípios, quando não eram impedidos pela censura.
 
 

A produção da notícia

Em 15/01/69 (vol. 19), a "Carta ao Leitor" destacava: "para Veja, o fato tem sempre de representar uma situação maior do que ele - e, então, tentaremos explicar as suas razões e antecipar os seus desenvolvimentos. Não é preciso, necessariamente, partir dos acontecimentos para alcançar as verdades cósmicas - basta chegar às verdades do momento em que vivemos." Além disso, Veja, "sobretudo, habituou o seu crescente universo de leitores a exigir a notícia por trás da notícia - ou seja, o significado dos fatos e a separação entre o que parece ser e o que é." Segundo a mesma seção em 19/03/69 (vol. 28): "a nossa primeira preocupação é esta: encontrar o tom, o ritmo, o encadeamento mais exato para transmitir uma informação, uma idéia ou toda uma linha de pensamento - e assim expor os fatos e explicar as suas razões."

A "Carta ao Leitor" voltou a defender a impossibilidade da objetividade jornalística em 22/01/69 (vol. 20): "condicionado por tudo aquilo que nos condiciona a todos, condicionado por seus pensamentos, condicionado fisicamente pela posição de quem assistiu ao acontecimento, o jornalista dá sempre a sua versão." Já em 29/01/69 (vol. 21) temos: "para Veja, cada ilustração tem de ficar dentro das intenções e do espírito que compõem o seu norte. Isto é, a cada foto, a cada mapa, a cada desenho ela atribuiu um papel definitivamente informativo: a imagem deve informar com rapidez e precisão e, integrada com o texto e as demais ilustrações, deve ajudar o leitor a colher os significados mais profundos dos acontecimentos." Na edição seguinte (vol. 22, 05/02/69) dizia a "Carta ao Leitor": "o primeiro característico de um semanário de informação é a departamentalização das informações, de acordo com o conteúdo de cada uma, pelas seções que compõem a revista. Trazida por um repórter ou pelo telex, a notícia é imediatamente classificada e entregue ao responsável pela seção a que ela pertence, ou seja, ao especialista no assunto, ao Editor. (...) Na origem da departamentalização das informações há dois propósitos: assegurar ordem à revista e maior substância e precisão às informações e à sua análise." Além disso, na edição 148 (07/07/71), Mino Carta explicou como uma reportagem era trabalhada por Veja. Ele informou que quem redigia o texto final era o editor. "Ele define a orientação da matéria com o redator-chefe; depois, com o chefe de reportagem, atribui tarefa aos repórteres; depois solicita as sucursais; depois recebe uma torrente de informações e, ao sabor de um raciocínio que é a própria essência da matéria, tem de canalizá-la no texto final."

Anteriormente, mesmo tendo destacado o papel das ilustrações em Veja, Mino Carta fez o seguinte comentário (vol. 25, 26/02/69): "Veja não tem grandes ambições. Ela não pretende inovar, muito menos fazer revoluções neste setor que os especialistas em comunicações de massa chamam de visual. Veja se preocupa, mais do que com os olhos, com os pensamentos dos seus leitores." Percebe-se aí a contradição com o nome da própria revista que dava destaque ao Veja, sendo que a expressão "e leia" aparecia acima do título, em tamanho bem menor e mais tarde (no vol. 216, 25/10/72) desapareceu do nome do semanário.

A presença de imagens, fotos e ilustrações é uma característica no desenvolvimento da indústria cultural em relação aos meios de comunicação. No entanto, Mino Carta destacava o papel de influência no pensamento dos leitores, mais do que a preocupação com o aspecto visual da revista. Contudo, com o passar do tempo, Veja acompanhou o desenvolvimento das comunicações visuais e passou a se preocupar com ambas as questões. Desta maneira, preocupavam-se com os títulos e legendas que eram cuidadosamente trabalhados. "A preferência é pelos mais imaginosos e menos redundantes, com a preocupação básica de que o título e legenda de cada matéria não carreguem em si a mesma informação." E também com "um vocabulário rico, mas de metáforas pouco complexas, construídas com precisão, poupando o leitor de fatigáveis malabarismos mentais no sentido de decifrá-las." Além disso, em relação à capa de cada edição, "o critério de escolha sempre privilegia aquela que maior interesse possa despertar no leitor. Há vezes em que uma capa já pronta tem de ceder lugar a algum acontecimento de importância, de última hora. (...) Também o peso de cada editoria varia bastante. Ele será mais ou menos significativo em função, novamente, do interesse do leitor, que é extremamente diversificado. Existe a constante preocupação em se balancear de maneira adequada o peso que cada uma delas vai receber, para que a revista atue sempre de forma abrangente sobre o multifacetado espectro de interesse deste leitor." Por isso, "o leitor participa de perto da vida da revista. Critica, sugere, elogia. Às vezes até fornece a pauta para uma matéria."

Como podemos perceber, estes editoriais mostraram a preocupação da equipe responsável por Veja em apresentar um produto que agradasse ao leitor. O semanário deveria conquistar os leitores para que estes colhessem "os significados mais profundos dos acontecimentos" mostrados pela revista. Além disso, o funcionamento interno de Veja deveria ser eficiente para que as informações fossem precisas e as análises corretas.

A euforia do crescimento

Na época do "Milagre Econômico", o Brasil, às custas da exclusão social, desenvolveu-se economicamente. O governo propagava uma ideologia desenvolvimentista para a população e a revista Veja aderiu a isto. Desta maneira, em 06/01/71 (vol. 122), a "Carta ao Leitor" afirmava que, segundo uma pesquisa feita pelo Instituto Gallup e pelos repórteres de Veja, "a maioria dos brasileiros viveu satisfeita em 1970 e espera um 1971 ainda melhor. (...) É uma crença que se apóia em resultados, em dados concretos - no bem-estar de uma camada cada vez mais ampla da população." Nesta mesma edição, na reportagem "Por que se ufanam de 1970", a pesquisa Gallup concluía: 75% dos entrevistados disseram que 1971 seria melhor que 1970 e 8% esperavam um ano pior; 73% apontavam um ano de prosperidade econômica e 20% um ano de dificuldades econômicas; 75% apontavam um ano de aumento do emprego e 16% um ano de desemprego; 18% diziam que seria um ano de greves na indústria e 76% um ano de paz social nas indústrias; 60% apontavam um ano de paz, de poucos conflitos internacionais e 31% um ano agitado por conflitos internacionais.

Segundo Veja, "tudo indica que uma camada cada vez mais expressiva da população passou a julgar a situação do Brasil por critérios exclusivamente econômicos. Os elementos políticos, assim, foram substituídos por indicadores muito mais pragmáticos - ‘estou comprando mais ou menos’ é a fórmula que exprime a ascensão ou não do nível de vida." Conforme o semanário, os dados da pesquisa podem ser analisados por dois ângulos: "o econômico, pelas perguntas sobre nível de vida e salários, e o político, porque a euforia nos resultados acaba sendo um voto de confiança ao governo, embora não tenha sido formulada nenhuma pergunta específica sobre a situação política." E em 08/09/71 (vol. 157), Mino Carta escrevia: "logo ao ser lançada exatamente há três anos, Veja revelou-se uma tarefa muito mais imponente do que supunham mesmo aqueles, entre nós, que vinham de longos anos de profissão. E enquanto ensaiávamos penosamente um estilo original e adequado ao público que pretendíamos atingir, mais penosamente ainda procurávamos cobrir a distância que separa um jornalismo satisfeito com a simples descrição dos fatos de um jornalismo voltado para as razões e as conseqüências desses fatos. Verificamos que o caminho é perigoso antes que comprido - e percorrê-lo valeu por uma escalada. (...) Hoje sabemos o que Veja é e o que dela queremos: descobrimos a nossa receita e se, de quando em quando, não podemos usar todos os temperos, mesmo assim mantemos um cardápio variado, capaz de agradar a diversos paladares."

Para o diretor de redação: "a exaltação patriótica provocada pela vitória do futebol brasileiro no México; a proliferação de lemas ufanistas; o apoio popular à regulamentação do decreto das 200 milhas de mar territorial; o orgulho das classes empresariais diante da conquista de novos mercados - são alguns dos fatos que convocaram a atenção de Veja e a estimularam a investigar um fenômeno manifestado até em alegres marchinhas que cantam as belezas do Brasil." Segundo o autor, isto "é a descoberta de um novo tipo de nacionalismo, que se orgulha do desenvolvimento do país, diametralmente oposto ao de dez anos atrás, que se orgulhava de apontar desgraças." Neste editorial, podemos perceber como a revista assumiu a propaganda oficial do governo de "Brasil-grande" e mostrou o apoio da população a esta campanha. Além disso, anteriormente, Mino Carta havia destacado a preocupação da revista com a diversidade para agradar a diferentes tipos de leitores e, para isto, utilizou-se da linguagem metafórica dizendo que nem sempre podiam noticiar o que pretendiam pois estavam sob censura.
 
 

O desenvolvimento dos produtos culturais

Uma das características da consolidação da indústria cultural no Brasil foi o desenvolvimento das agências publicitárias. Segundo a revista (01/03/72, vol. 182), "o desenvolvimento da publicidade brasileira parece tão inegável quanto a própria expansão dos senhores a que ela serve com devoção: as empresas e o mercado consumidor. E na propaganda brasileira há agências e profissionais que simbolizam esse vigoroso desenvolvimento." Veja informava a lista dos melhores publicitários do ano e mostrava o crescimento das agências publicitárias através do depoimento de Mauro Salles: "isso demonstra que agora as agências brasileiras atingiram um nível internacional." Além disso, o semanário apontava também para o lado perverso da publicidade na edição 213 (04/10/ 72): "é sabido que as artes mercadológicas podem ser com proveito postas à disposição da política. Assim, usando uma linguagem publicitária para dramatizar êxitos diplomáticos ou índices de crescimento econômico, vende-se a idéia, ou mais precisamente a imagem, de governos eficientes e povos felizes. Freqüentemente, os fins justificam com fartura esses meios, pois campanhas capazes de arregimentar a opinião pública, sobretudo a de jovens países inclinados para a esperança, podem desencadear esplêndidos momentos de entusiasmo e estimular com veemência o progresso." Essas considerações se davam no contexto da epidemia de meningite, sobre a qual as autoridades não forneceram informações. Para Mino Carta: "seria oportuno que se tirassem definitivas certezas quanto à terapêutica necessidade da informação, santo remédio."

Quase uma década depois, Veja publicou sobre o crescimento do mercado editorial no Brasil em 30/04/80 (vol. 608): "a situação do mercado editorial brasileiro permite conforto e esperança. Este ano serão vendidos 250 milhões de exemplares de revistas nas 19.000 bancas espalhadas pelo país e, com um crescimento estimado em 7,5% ao ano, pode-se prever que, até o final da década, esse número dobrará." Esta previsão foi feita por Victor Civita, presidente do grupo Abril, em palestra na Associação de Dirigentes de Vendas do Brasil, "quando demonstrou toda confiança no futuro do mercado editorial."
 
 

O sucesso compartilhado

Nos editoriais de Veja também era destacado o aumento nos números de suas tiragens. Isto implicava, para a revista, uma maior aceitação por parte de seus leitores e seus anunciantes. Esta questão é típica no desenvolvimento da indústria cultural para um órgão da grande imprensa: o aumento do número de vendas possibilitava a sua consolidação no mercado. Assim, em 07/12/72, Mino Carta comemorava: "esta edição assinala um recorde: Veja chega a 148 páginas, num número de linha, isto é, não enriquecido por qualquer caderno ou encarte especial. Dessas páginas todas, 82,5 são ocupadas por material editorial, e jamais houve tantas - e as demais, 65,5, por anúncios, o que também é recorde. Esses números contam com a rara força que eles costumam ter, a confiança de que Veja conseguiu conquistar leitores e anunciantes."

Já em 12/09/73 (vol. 262), a "Carta ao Leitor" dizia: "no caso de revistas do tipo de Veja, ao contrário de vários outros gêneros de imprensa, o simples estar de antenas ligadas não basta, tudo depende da maior ou menor capacidade de processar as informações para chegar ao porquê dos acontecimentos e fazer deles os elos de uma cadeia que é a própria vida. Esta edição mantém a tiragem, normal de alguns meses para cá, de 170.000 exemplares e, por obra de uma feliz coincidência, chega a um número de páginas jamais alcançado, 164, das quais 75 de anúncios - e também este é para ela um recorde. São dados que comprovam a confiança dos leitores e dos anunciantes e, somados à disposição revelada nestes cinco anos, permitem antecipar um futuro de razoável luminosidade. (...) Na análise das probabilidades, não podem deixar de ter um papel relevante os rumos da vida política do Brasil, de cujos humores tão definitivamente depende o destino de qualquer órgão de imprensa que, acima de tudo, preza a verdade e pretende, como fim último, dizê-la." Na edição 266 (10/10/73), Mino Carta declarava: "páginas de anúncios significam confiança dos anunciantes, inevitavelmente motivada por uma comprovada confiança dos leitores. Nesta edição, Veja supera, com 82 páginas ocupadas por anúncios, o recorde de 75 atingidos no número 12 de setembro passado. (...) Assim, em 1969 obteve um total de 656 páginas de publicidade; em 1970, 1.227; em 1971, 1.350; em 1972, 1.700. Para este ano, a previsão é de 2.100 (sem prejuízo para a parte editorial: por obra de uma salutar regra da casa, o número de páginas confiadas à redação é sempre superior ao das páginas de anúncios)."

O crescimento da vendagem de Veja (vol. 278, 02/01/74) implicava em firmá-la como um órgão formador de opinião: "para Veja, 1973 foi dadivoso em todos os sentidos. Ela firmou-se como um importante órgão formador de opinião, penetrou em todos os setores da vida política e cultural do país, aumentou em mais de 30% o volume dos seus anúncios e em 40% a sua tiragem, atingindo nos últimos três meses do ano uma venda média de 140.000 exemplares por edição."

A "Carta ao Leitor" (11/09/74, vol. 314) que festejava os seis anos do semanário dizia: "exatamente há seis anos, numa segunda-feira dia nove de setembro e com data de capa de 11 do mesmo mês, Veja nascia com o propósito de se tornar a primeira revista brasileira de informação, aberta para todos os assuntos e disposta a circular em todo o país, com uma pontualidade e um alcance jamais atingidos por nenhum outro órgão de imprensa. Reconforta-nos hoje a certeza de ter cumprido honestamente a tarefa, apesar de muitos erros iniciais e de dificuldades que há seis anos não podíamos prever. Veja tem agora uma venda média de 160.000 exemplares, praticamente igual ao do maior ilustrado semanal, e um volume de publicidade sem par entre as revistas nacionais - e são estas as provas mais concludentes da confiança que obteve do público e dos anunciantes."

A cada ano, Veja aumentava a sua tiragem e o número de anunciantes, tornando-se um sucesso editorial. A "Carta ao Leitor" (18/08/76, vol. 415) informava: " no número 409, a revista vendeu 200.600 exemplares, entre bancas e assinaturas - vencendo pela primeira vez, numa edição rigorosamente de linha, a barreira dos 200.000." Nas edições seguintes, a média manteve-se em 204.000 exemplares. "Um sucesso de vendagem? Muito mais importante que isso, para Veja, é constatar o apoio que lhe têm dado os leitores, e que é expresso, entre outros indicadores, pelos boletins de circulação. Tal confiança, pacientemente conquistada ao longo dos oito anos de existência de Veja, é fruto de uma soma de esforços, experiências e trabalho que vêm se acumulando desde o lançamento da revista, em 1968. (...) Igualmente, a revista vem merecendo uma maciça confiança dos anunciantes, setor onde os números são tão animadores quanto os da circulação. (...) Esses resultados garantem um outro título precioso - o da independência econômica, essencial para toda publicação que pretende ser livre."

Em 05/04/78 (vol. 500), Roberto Guzzo dizia: "se constata que Veja, ao atingir sua 500ª edição, continua crescendo - e interessando a um número cada vez maior de pessoas. Nesta semana a revista estará sendo entregue a cerca de 175.000 assinantes em todo o Brasil, os quais, somados aos leitores que compram Veja nas bancas, vão fazendo a tiragem aproximar-se dos 300.000 exemplares semanais. Esta maciça aprovação do público é o melhor atestado de qualidade que Veja pode pretender." A partir de 1971, Veja começou suas vendas também por assinatura. Já "no final de 1978, Veja aumentava sua circulação para 250 mil exemplares e seus assinantes beiravam a marca dos 200 mil. Em 1979, passava dos 300 mil exemplares de circulação e atingia 230 mil assinantes. Em 1980, novo recorde: mais de 400 mil exemplares e 340 mil assinantes. Em 1981, 450 mil exemplares para 380 mil assinantes. No ano passado (1982), Veja passava os 500 mil exemplares de circulação, chegando a 430 mil assinantes."

Sérgio Pompeu em 11/10/78 (vol. 527) falou sobre a equipe de Veja e o aumento do número de tiragens: "escaldados, os jornalistas de Veja têm hoje a consciência de que sempre há o que aprender e aprimorar. A coluna dos números favoráveis, no entanto, aumenta. E já permite, há um bom tempo, incluir sólidas demonstrações de confiança do leitor no trabalho de Veja. Assim, nesta edição, a tiragem atingiu a soma de 300.400 exemplares; é a barreira dos 300.000, finalmente alcançada. A uma revista saudável, que procura melhorar a cada número, corresponde, assim, o crescimento daqueles que a recebem em casa, como assinantes, ou compram nas bancas. Outro trunfo a citar é a confiança do anunciante - também mais do que nunca até agora expressa na presente edição, que marca um recorde de 89 páginas. (...) Em trabalho jornalístico, são dez anos de experiência que ensinam, sobretudo, a lição do aprendizado constante, do cuidado para seguir aprimorando. Os resultados sempre aparecem."

Na edição 596 (06/02/80), a "Carta ao Leitor" comemorou: "Veja ultrapassou nesta edição a marca das 250.000 assinaturas. Jamais uma publicação semanal editada no Brasil chegou a esse número que somado à venda em bancas, leva a tiragem desta edição para 360.000 revistas. (...) A máquina montada pela Abril para fazer, imprimir e entregar Veja simplesmente acompanhou o interesse de um número a cada dia crescente de leitores. São eles, no início e no fim de qualquer conta, que fazem as tiragens. É deles a escolha. Veja entende que os leitores escolhem uma revista que, como ensina o jornalista americano Theodore White, "não diz o que aconteceu mas o que está acontecendo"."

Nos anos de 1981 e 1982, Veja atingiu a venda de 500.000 exemplares. Em 08/07/81 (vol. 670), a "Carta ao Leitor" dizia: "esse meio milhão de exemplares por semana, distribuído para assinantes e colocados à venda em bancas de todo o país, dão à Veja a certeza de estar recebendo, cada vez mais, a maciça aprovação de seus leitores - na realidade, os únicos juizes efetivos do valor de uma publicação. Por oferecer-lhes, a cada edição, a qualidade à qual têm direito, e por estar convencida de que seu julgamento é o único que deve ser levado a sério, Veja chegou onde chegou. Conquistada essa confiança, que lhe tem permitido estar crescendo quase 100.000 exemplares por ano de 1979 para cá, a revista reafirma seu compromisso de continuar a merecê-la." E no ano seguinte, em 21/04/82 (vol. 711), Victor Civita comemorou: "de uma circulação de aproximadamente 250.000 exemplares semanais em 1978, quando completou dez anos de vida, Veja chega à expressiva venda de 500.000 exemplares por semana. Esta é, hoje, a maior circulação de qualquer publicação do país: maior do que qualquer jornal brasileiro e duas vezes superior à soma de circulação das demais revistas semanais de informação. (...) Pois isso significa que um número crescente de leitores está procurando a revista não apenas para saber o que está acontecendo, mas para saber qual o significado das notícias e quais as implicações para o seu futuro."

Em 1983 (vol. 753, 09/02), a revista manteve o seu ritmo de crescimento e ultrapassou a barreira dos 500.000 exemplares destacando a importância dos leitores: "poucas reportagens já publicadas por Veja tiveram um impacto tão grande quanto a revelação das circunstâncias em que morreu o jornalista Alexandre von Baumgarten ... É essa, e apenas essa, a função de Veja: servir as 550.000 pessoas que a assinam ou compram a cada semana, pois é de seu julgamento que depende vitalmente, esta publicação."

Como podemos perceber, pelas matérias selecionadas, o aumento das tiragens sempre foi almejado pelo semanário e, conforme Ulysses Alves de Souza, a equipe de Veja buscava atingir 1 milhão de exemplares. O dado final fornecido pelo autor foi do último trimestre de 1987 em que a venda média semanal foi de 751.963 exemplares. A revista continuou crescendo no mesmo ritmo e esse objetivo da equipe foi alcançado no final da década de 90 como mostra o gráfico abaixo:
 
 


O descompasso entre economia e política

Quando o semanário completou 10 anos, Victor Civita escreveu uma "Carta do Editor" (vol. 523,13/09/78) e definiu os princípios de Veja. Este editorial mostrou como a revista se posicionava frente às questões políticas e econômicas da sociedade. Ilustrou também como o semanário portou-se em relação às questões sociais nas diferentes situações do regime militar no Brasil. Trechos deste editorial são reproduzidos devido à sua importância para demonstrar os princípios que norteavam a revista.

Primeiramente, Victor Civita comentou o propósito da revista em alcançar as "faixas mais expressivas da opinião pública" e integrar o país através das informações fornecidas pelo semanário. Isto representa a Veja acompanhando o processo de consolidação da indústria cultural no Brasil.

"A efetiva presença de Veja nas capitais e no interior, nas cidades grandes e pequenas, deu-lhe alcance e penetração superiores ao de qualquer outro veículo de informação brasileiro, exceção feita aos meios de comunicação eletrônicos. Nestes dez anos, Veja granjeou o respeito e a admiração das faixas mais expressivas da opinião pública por ter cumprido à risca seu compromisso de manter o leitor bem informado com verdade, imparcialidade e eqüidistância."
Logo depois afirmou:
"O décimo aniversário de Veja coincide com um momento particularmente importante na vida do país, quando a abertura política propicia uma metamorfose não apenas no regime mas também nas próprias relações entre os diversos setores da sociedade brasileira. Veja, sempre o recordamos, nasceu praticamente junto com o AI-5, com ele sofreu, apesar dele floresceu e a ele, finalmente, sobreviverá. De fato, ao completarmos dez anos, o governo do presidente Ernesto Geisel - cuja estratégia de aperfeiçoamento democrático jamais deixamos de apoiar - se prepara para extinguir esta celula mater do arbítrio que é o AI-5 e, a partir daí, permitir que o país avance no rumo das instituições democráticas. Estamos portanto numa hora de abertura - e quem diz abertura diz também efervescência, dúvida, conflito de opiniões, de tendências, de idéias."
O autor destacou a mudança crucial que iria representar a extinção do AI-5. Desta maneira, este editorial parece marcar o momento em que política e economia podem se harmonizar, uma nova fase da revista, que supera aquela em que a política ia mal e a economia bem: agora parece que a política também pode ir bem. A abertura é a síntese: a metamorfose crucial, como diz a revista: a resolução da neurose da separação economia e política. E definiu a sua postura:
"Em momentos como este, expor com clareza as próprias posições torna-se tarefa de crescente premência. (...) Para começar, queremos afirmar que nos consideramos liberais. Muito se tem discutido, com variados graus de sofisticação, sobre se estas velhas e tradicionais definições ainda são válidas. Para nós são. E ser liberal para nós, é querer o progresso com ordem, a mudança pela evolução, e a manutenção da liberdade e da iniciativa individuais como pedra angular do funcionamento da sociedade. Acreditamos, assim, no capitalismo democrático e estamos convencidos de que a livre iniciativa é o meio mais eficiente para se promover o progresso social. Isto porque consideramos a livre iniciativa o único sistema compatível ao mesmo tempo com uma sociedade pluralista, com as liberdades fundamentais do indivíduo, com a eficiência, com o dinamismo, com a inovação. E o lucro não é apenas legítimo: é essencial como motivador, aferidor de eficiência e fonte de recursos para os investimentos inadiáveis de amanhã." (...)
Com o fim do AI-5 e também da censura, Veja propôs-se a registrar suas idéias, os princípios básicos que norteavam o seu caminho. O proprietário da Editora Abril definia-se como liberal, mas era um liberal-conservador, ou seja, queria o progresso com ordem. Ele era contra a repressão, mas achava desnecessário "gritar contra o arbítrio", pois devia-se "assegurar uma passagem tranqüila do país para um regime democrático." Com isso, era importante não criticar rigorosamente o governo para não prejudicar o processo de redemocratização que o autor apoiava. A revista refletia esse pensamento em suas reportagens como foi destacado no capítulo anterior. Voltando ao editorial:
"De maneira igualmente frontal, somos contrários a um capitalismo estático, excludente, onde o bem-estar de uns poucos é obtido às custas da privação de outros - onde, em suma, a acumulação de riqueza se faz com base no empobrecimento e na marginalização da maioria. (...) Estamos convencidos de que cabe ao Estado criar e desenvolver a infra-estrutura econômica bem como exercer atividades regulatórias, disciplinadoras e coordenadoras. Mas não admitimos a entrada do Estado em setores nos quais a livre iniciativa pode desincumbir-se sozinha, suprindo-se, quando necessário, num mercado de capitais aberto, amplo e vigoroso. (...)

Consideramos o capital estrangeiro um fator positivo para o progresso do país e cremos que, em seu atual estágio de desenvolvimento, o Brasil necessita de mais, não menos, investimentos vindos do exterior - sempre que acompanhados de modernas técnicas de gestão e por tecnologia avançada, que deite raízes locais.

Também nos opomos com firmeza ao tratamento emocional - ou demagógico - da questão social. Ninguém nega que, apesar de consideráveis conquistas feitas nos últimos anos, o Brasil chega ao limiar dos anos 80 padecendo de graves problemas sociais e marcado por profundas desigualdades. (...)

Dentro desse raciocínio, os sindicatos devem existir livremente e livremente negociar salários; sua situação é peça importante para ajudar a compor o avanço social. Mas demandas exageradas não aproveitam a ninguém. A greve deve ser o último recurso, não primeiro instrumento de pressão. E é ilusório pensar que o prejuízo trazido por paralisações de trabalho ou reivindicações excessivas possa sair de graça: ele acaba sendo pago, e com juros, por toda a comunidade. Por isso, nos opomos, neste momento, a toda e qualquer iniciativa que leve à exacerbação ou à radicalização da questão trabalhista. Por isso nos opomos às greves gerais ou de solidariedade, de inevitáveis prejuízos materiais à nação. Por isso, nos opomos à fundação de centrais sindicais tipo CGT, que fatalmente se concentram na ação político-ideológica. (...)

O problema essencial, agora, é muito menos gritar contra o arbítrio e muito mais assegurar uma passagem tranqüila do país para um regime democrático. Sabemos que a democracia não é uma varinha mágica. Ela pode ser implantada em toda a sua plenitude sem que o país resolva de imediato seus problemas e a sociedade, seus conflitos. Mas, para harmonizar e permitir a convivência de interesses diversos, não conhecemos sistema melhor que o democrático - pois, com todos os seus defeitos, é o único que incorpora os mecanismos permanentes de autocorreção. (...)

Neste momento crucial dos destinos nacionais, não hesitamos em afirmar que a caminhada para a democracia tem, como condição vital para seu êxito, a manutenção da ordem pública. E justamente por considerarmos inseparáveis a ordem e a liberdade é que estaremos permanentemente contra a agitação, o desrespeito à propriedade pública e privada, e a baderna. Queremos um Brasil onde haja leis e onde as leis sejam respeitadas. Queremos um país onde a violência seja sempre combatida. Quem comete crimes deve pagar por eles. E nenhuma razão de segurança ou de Estado pode justificar a degradação dos direitos humanos. Somos a favor da tolerância e da conciliação nacional, mas não vemos razão para se anistiarem pessoas que infringiram o Código Penal alegando razões políticas, nem para se incentivar a reorganização de grupos políticos que não aceitam a convivência democrática."
 
 

Este editorial é essencial para entendermos como Veja portou-se durante o período militar: Victor Civita defendeu o acesso da população aos benefícios do capitalismo, definiu o papel do Estado e esclareceu a importância do capital estrangeiro para o país. Também defendeu os sindicatos, mas foi contrário à greve e às centrais sindicais. De tal modo, podemos notar como brota com toda clareza um liberalismo ponderado e conservador. No editorial, tudo se esclarece: liberalismo, capitalismo democrático, livre iniciativa, competição, anti-estatismo, antinacionalismo, anti-esquerdismo, sociedade pluralista, ou seja, tudo se passava como se a ditadura tivesse criado as condições de amadurecimento para a indústria cultural e agora esta poderia renunciar ao apoio governamental. Na economia, a revista sente-se à vontade: ela floresce e cresce, vende mais e publica mais propaganda, aumenta o número de páginas e de leitores e assinantes. Um sucesso editorial que se consolidou juntamente com o desenvolvimento da indústria cultural no país. Já em relação à política, com o fim do AI-5, Veja celebrou a abertura "tranqüila" do regime militar, com a manutenção da ordem. Por isso, a ditadura não é mais necessária, ou seja, o desenvolvimento econômico pode continuar sem um regime repressivo que fere a liberdade de informação.

Uma observação a ser feita é que quando este editorial foi escrito por Victor Civita, o jornalista Mino Carta não trabalhava mais em Veja. Isto é relevante porque Mino Carta tinha certa autonomia na escolha das pautas para a revista. Com a sua saída, o semanário tornou-se mais conservador e nitidamente porta-voz das posições políticas de seu proprietário.

Queremos destacar que Veja era norteada por princípios liberais, mas não defendia essa teoria de maneira militante em suas reportagens, ou seja, a revista era bastante maleável e conseguiu adaptar-se ao regime ditatorial, mesmo tendo motivações políticas diferentes. O semanário tinha uma outra postura em relação, por exemplo, ao jornal O Estado de S. Paulo e a revista Visão que destacavam as idéias liberais e citavam os autores desta concepção em suas matérias. Veja sabia adequar-se às situações que exigiam um posicionamento mais conservador. Nesse sentido, a revista foi contra concessões que mais tarde foram feitas sem problema como a anistia irrestrita e a legalização dos partidos comunistas.

Pareciam corretas, assim, as palavras do redator-chefe de Veja, na época, Augusto Nunes, quando declarou que a linha editorial da revista era assumidamente conservadora: "e só podia ser na medida em que a Editora Abril tem que defender os valores da livre iniciativa, um sistema no qual ela deu certo. (...) Uma direita esclarecida, democrata, liberal, completa Nunes. Frontalmente contrária à censura, à tortura, às convulsões sociais, a movimentos armados e que defende, entre outros, o direito de propriedade, a ordem pública, as eleições diretas. Enfim, uma posição realista frente às circunstâncias."

Na análise da imprensa num contexto de indústria cultural deve-se considerar que ela é um produto de informações. Assim, além de objetivar a maximização dos lucros, também trabalha com a difusão de idéias. Com isso, Veja seguia alguns princípios, apesar da pretensa imparcialidade que ostentava para obter mais leitores. A concepção liberal era defendida por Veja, mas não de maneira inflexível, ou seja, adaptava-se ao contexto histórico do momento. Segundo Mino Carta, "a Veja não é uma revista de opinião como seria a Isto é. Ela é uma revista muito menos empenhada politicamente ou muito menos definida politicamente. Tinha muito de exposição simples dos fatos." E ainda, conforme Alzira Alves de Abreu, "os fatos eram construídos de maneira linear. A revista era feita de forma altamente profissional, mas não se destacava por uma linha política definida." Além disso:

"Operando dentro dos princípios da comunicação de massa, os jornais (e revistas) têm de atender um público-leitor amplo e heterogêneo, não sendo mais possível a compartimentação dos diversos públicos; têm de considerar os interesses de grupos econômicos diferenciados, nacionais e estrangeiros, dos quais dependem economicamente; e, frente à excessiva concentração de poder nas mãos do Estado, que é também um dos principais anunciantes, não podem deixar de considerar a opinião dos homens de governo. Essa situação levou a imprensa a criar uma espécie de movimento pendular. Ora os jornais se colocam ao lado da burguesia nacional, ora defendem os interesses internacionais; por vezes defendem posições liberais para conquistar o leitor, em outras praticam o mais puro jornalismo oficial. O que não significa uma atitude de neutralidade, visto que a grande imprensa, no limite, continua servindo prioritariamente aos interesses mais gerais da classe dominante, continuando fora do movimento pendular os interesses da classe subalterna."

Veja nasceu com moldes empresarias e por isso, floresceu juntamente com o desenvolvimento econômico promovido pelo regime militar, possibilitando, para uma parte da população, a aquisição de bens de consumo. Os meios de comunicação, em geral, se beneficiaram com este cenário, pois a indústria cultural acompanhou este desenvolvimento incentivado pelo governo.

A revista, ao pregar a volta a democracia, sentia um mal-estar em relação à política, mas não questionava quando o assunto era economia (com exceção feita ao governo Figueiredo). Mesmo com a presença do AI-5, o semanário cresceu, ou seja, mesmo com a presença do arbítrio, Veja sobreviveu e se desenvolveu junto com a política governamental. Após a extinção do AI-5, a revista comemorou o fim do mal-estar político, a mudança crucial que estava ocorrendo no regime militar. Isto foi evidenciado no editorial que comemorou os dez anos de Veja: nele a revista expôs sua concordância com a redemocratização feita de acordo com os desejos governamentais. Esta era uma época de amadurecimento da indústria cultural que podia dispensar e sobreviver sem o comando da ditadura. Desta maneira, o semanário propôs-se a endossar o projeto de abertura política do governo, pois devia-se manter o desenvolvimento econômico e promover uma volta conservadora ao Estado de Direito.

Este modelo vai mostrar sua ineficácia durante a presidência do general Figueiredo com o colapso do modo em que foi promovido o desenvolvimento econômico do país e a forma de realizar a abertura política sem a participação da população. Nesse momento, a revista tornou-se crítica em relação à política econômica e também às eleições presidenciais indiretas. Mas, o semanário já estava consolidado no mercado e, por isso, podia manter uma certa "independência" e questionar os militares.

No entanto, além da questão econômica, deve-se levar em conta também a censura, ou seja, a revista precisava informar para vender e a diversidade e pretensa neutralidade das matérias poderia fazer com que fossem liberadas pelos censores e, depois do fim da censura, era uma forma de atrair mais leitores e de mostrar o futuro incerto do país. Com isso, as matérias não questionavam a manutenção da ordem e a concepção liberal não era definida tão radicalmente a ponto de causar prejuízos econômicos para a revista. É correto que, em alguns momentos políticos, Veja entrou em conflito com o regime militar para defender os seus princípios e recebeu "punições". Contudo, estes conflitos não foram tão rigorosos a ponto de provocar o fechamento do semanário. Eles foram contornados tendo como objetivo a sua sobrevivência econômica frente ao regime militar. A forma mais direta de coibição realizada em Veja foi através da censura imposta pelos militares. Para entender o seu mecanismo de funcionamento, analisaremos, nas páginas finais, como ela ocorreu na revista.
 
 

Capítulo IV: VEJA E O OBSTÁCULO DA CENSURA



O objetivo deste capítulo é analisar como Veja foi atingida pela censura imposta pelos militares e qual foi a sua reação. A partir disso, observaremos se a censura foi eficaz ou não.
 
 

A revista foi censurada em várias ocasiões e de maneiras diferentes. Como os censores não seguiam um padrão homogêneo para coibir os órgãos de imprensa, Veja representa um caso específico dentro do contexto de censura aplicada aos veículos que trabalhavam com a informação e, por isso, analisaremos como se deu este processo no semanário.

Os militares utilizavam-se da censura para reprimir os órgãos de imprensa. A censura era necessária, segundo eles, porque os meios de comunicação eram considerados um dos itens de segurança nacional e também seriam responsáveis por transmitir o pensamento "oficial" do Estado para manter a ordem no país.

Com isso, a nossa hipótese é que a censura era um incômodo para os meios de comunicação, em geral, sob o regime militar. Historicamente, eles auto intitulam-se o "quarto poder", ou seja, o olhar que vigia o governo e, para isto, precisam da liberdade de informação. Veja foi prejudicada pela censura imposta pelos militares, pois deixou de publicar fatos relevantes para os seus leitores. Assim, a qualidade do seu material jornalístico não oferecia aos seus leitores o que realmente estava acontecendo na sociedade. Por isso, a eficácia da censura evidenciou-se tanto nos momentos de resistência da revista como nos de conformismo.

Desta maneira, queremos saber: como Veja portou-se diante da censura? Em quais momentos foi resistente ou conformista? A presença dos censores atrapalhava o funcionamento da revista, ou seja, trazia algum tipo de prejuízo econômico? Em que aspectos a censura mostrou-se eficaz?

Neste capítulo, explicitaremos o mecanismo de funcionamento da censura no semanário, dividindo-a em duas fases, uma ocasional e outra rigorosa. Para isto, foram analisadas as matérias da revista que tratavam deste assunto, as formas de censura recebidas e como o semanário resistiu ou aceitou esta imposição.

Conforme Alzira Alves de Abreu, "a censura à Veja teve duas fases: a primeira de 1968 a 1973, e a segunda de 1974 a 1976. Nos primeiros anos a censura foi intermitente e não tão rigorosa como a que era imposta aos demais jornais e revistas. Entretanto, exatamente durante o governo do general Ernesto Geisel (1974-1979), no momento em que se iniciava uma fase de abrandamento da censura, Veja foi severamente cerceada, no sentido de ter um censor que lia todas as edições antes de seu envio para publicação."

Esta cronologia da censura em Veja vai ser utilizada neste trabalho para mostrar como os censores atuavam na revista.
 
 

1968-73: a censura esporádica

Durante estes anos, Veja não foi censurada tão rigorosamente, nem sofreu perseguições como outros órgãos de imprensa. Uma explicação para isto pode estar na pretensa neutralidade defendida pela revista. Assim, ela publicava as posições dos diferentes grupos que participavam do governo ou que pretendiam conquistá-lo. Além disso, o semanário possuía alguns princípios que o norteavam, mas era bastante maleável e adaptava-se ao contexto ditatorial, mesmo defendendo a abertura política.

No entanto, quando a revista entrou em conflito com o governo militar em relação a alguns pontos específicos, teve a presença de um censor em sua redação. Mino Carta contou que Veja teve a primeira manifestação da censura na edição nº 15 (18/12/68). Esta edição foi apreendida nas bancas, pois trazia na capa uma foto de Costa e Silva sozinho no plenário do Congresso, logo após a publicação do AI-5. Cerca de um ano depois, a revista foi apreendida novamente quando realizou duas capas sobre a tortura. A segunda reportagem (vol. 66, 10/12/69) não passou pela censura. "A partir desse fato passamos a ter censura na revista, inicialmente exercida pelos militares. A ordem que tinham era de censurar apenas a parte política e não a revista toda." Esta censura durou por cerca de um ano dentro da própria redação e depois foi suspensa porque houve negociações entre o Diretor-Responsável da revista (Edgard de Silvio Farias) e a censura. "Tivemos um recrudescimento forte no final de 1971 quando outra edição foi apreendida - a do caso Leon Peres (vol. 169, 01/12/71) - e aí voltamos a ter censura prévia fixa, por outro período como punição, sendo feita pela Polícia Federal de muito baixo nível." Durante este tempo, Veja recebia bilhetes e telefonemas com os assuntos proibidos e que não deveriam ser publicados.

Depois, "durante alguns meses (até 19/09/72) a redação passa a ter um censor. A partir desta data, segundo o comunicado, confia-se ‘na responsabilidade editorial da Abril, a fim de que áreas proibidas não sejam abordadas.’ No ano de 73, Veja continua tendo problemas. Em março, uma matéria sobre sucessão presidencial (edição nº 237) desagrada às áreas de segurança nacional. A partir disso, qualquer matéria sobre sucessão passa a ser encaminhada à censura prévia. (...) Em julho, Veja é advertida e ameaçada com censura prévia por comentar a censura imposta a jornais, citando recursos usados pelo O Estado de São Paulo (um dos assuntos proibidos). Dias depois nova advertência por ter publicado notícia sobre o cantor Geraldo Vandré. Durante este ano, mais de 50 assuntos foram proibidos."

No entanto, o semanário só demonstrou que estava sendo censurado a partir de 1974, quando a censura tornou-se mais presente.
 
 

1974-76: resistência e rendição à censura

Veja passou a ser censurada severamente a partir de 1974, justamente no governo do general Ernesto Geisel, candidato que a revista havia apoiado como uma solução para se ver livre da ditadura militar. Geisel patrocinava um projeto de abertura política "lenta, segura e gradual" que incluía o fim da censura. Segundo um importante jornalista, que trabalhou em Veja na época, para a revista não era incoerente ser censurada pelo governo apoiado por ela, pois o semanário sabia que o regime militar estava se acabando e que a censura iria ser retirada. Em sua versão, o general Golbery do Couto e Silva, principal assessor de Geisel, havia entrado em contato com a revista e garantido o cumprimento do projeto de liberalização do presidente.

A presença da censura em Veja "refletia a tensão que existia entre o grupo Geisel, favorável a uma liberalização política do regime, e o grupo mais radical, que defendia a manutenção da censura e o controle político. (...) Como mostra Celina Rabello Duarte, ‘a liberalização da imprensa tomou um ritmo irregular, alternando-se momentos de liberdade com momentos de repressão. Esse ritmo acompanhou de perto o conflito interno pelo poder. Se para atender à "linha-dura" punia-se a imprensa, por outro lado, o próprio Geisel incentivava o rompimento do círculo censório.’ "

Outros dois jornalistas deram depoimentos neste sentido. Conforme Marcos Sá Correa, "no governo Geisel, depois daquela derrota eleitoral de 74 para o MDB, havia um permanente conflito interno entre as alas militares, quer dizer, aquilo que parecia um regime de estrita defesa da ordem, internamente, era uma permanente anarquia militar, havia conflitos permanentes, o presidente mandava menos do que na época se supunha, menos ainda do que a gente imaginava, etc. E no caso da censura na Veja foi isso, a Veja mais uma vez apostou num projeto de abertura, no caso do Geisel foi muito mais claro, a Veja ficou a favor do Geisel. O governo Geisel teve problemas internos que fizeram com que o ministro da Justiça, provavelmente como porta-voz da sua ala militar, botasse a censura na Veja. O Geisel não era um liberal, o Geisel jamais teve um projeto propriamente de abertura, o Geisel teve um projeto político, se teve algum que foi bem sucedido era o projeto de restauração econômico-político sobre um regime que estava em frangalhos por causa dessa anarquia militar que eu falei. Ele não tinha instinto, nem vocação democrática, ele queria era arrumar aquela casa e para arrumar ele precisou comprar, de maneira muito sinuosa, briga com esses escalões da repressão. (...) Eu tenho a impressão que a censura aplacava algum conflito interno e, por outro lado, não é que incomodasse o Geisel haver censura na Veja, embora o Geisel tenha, a meu ver, uma interpretação, usado taticamente, várias vezes, uma certa dose concedida de liberdade de imprensa para enfraquecer realmente essas linhas de resistência interna do regime, ele tentava recentralizar, isso sim. Nos episódios do II Exército, a revista estava sob censura e nós não podemos dar, mas é engraçado que na época você morria de frustração e inveja porque sabia que estava acontecendo uma coisa importante, você tinha informação sobre aquilo, você via o resto da imprensa abrindo e lá dentro da Veja a censura permaneceu tão estrita quanto antes."

Bernardo Kucinski complementou: "no governo Geisel havia uma luta interna. Nessa luta interna, ele usava a imprensa contra a linha-dura, por outro lado, ele tinha que punir a imprensa quando a linha-dura estava muito forte. Então, muitos desses jornais foram vítimas não do governo Geisel, mas da luta interna que havia e ele era um cara que tinha visão do meio militar, o problema dele era o meio militar, então, sempre tomava decisão que permitisse a ele manter a autoridade sobre o meio militar e, às vezes, essa decisão era punir a revista, até porque também ele tinha afinidade com a repressão, foi ministro do STM e baixava as decisões mais duras, ele não era um liberal, era um fascista que teve a percepção de que tinha que abrir, junto com Golbery que era outro fascista também."

Desta maneira, a partir de 09/01/74 (vol. 279), Veja passou a apresentar formas de resistência à censura - como em uma charge do humorista Millôr Fernandes que desenhou um prisioneiro torturado cheio de carimbos oficiais ("cancelado", "pago", "confidencial", "lançado", "urgente", etc) e abaixo o escrito "Nada consta". E em 06/02/74 (vol. 283) trouxe uma nota, na seção "Datas", sobre a indicação de D. Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife, para receber o Prêmio Nobel da Paz (assunto proibido através de bilhetinhos e telefonemas). Segundo Paolo Marconi, a partir daí, instalou-se um censor da Polícia Federal na redação, Richard Bloch, que levava o material da revista para a sua casa ou para o Departamento de Polícia Federal.
 
 

Veja passou a mostrar que estava sendo censurada através de recursos do jornalismo da época: na edição 285 (20/02/74), antes da posse do general Geisel, que se realizaria em 15/03/74, o semanário mostrava a "volta dos anjos", que representavam o projeto de distensão do futuro presidente e as "últimas aparições do demônio" que representavam o governo repressor do general Médici. "Este número, utilizado para denunciar a censura, recebeu do general Antônio Bandeira, diretor geral do DPF/Brasília, um comunicado que foi retransmitido à Veja pelo censor Richard Bloch de que não podia haver "substituição inadequada", quando qualquer matéria sofresse "corte" parcial ou total. De acordo com essa nota, "os diabos constantes na pág. 22 da revista Veja nº 285 evidenciavam censura de matéria."

Na edição seguinte (vol. 286, 27/02/74) surgiu a primeira seção "Diversos" com o título "A volta dos anjos". Esta matéria trazia um personagem que simbolizava o projeto de redemocratização do general Geisel e dizia: "os anjos voltarão à Terra? Quando? Logo, questão de anos, talvez meses, quem sabe dias." Estas eram as palavras do padre Sean McIntosh, 62 anos, que concluía: "eu confio que a espera seja curta".

Um outro recurso foi utilizado em 06/03/74 (vol. 287). Os redatores da revista inseriram na seção "Cartas" referência à matéria "O longo drama chileno" que havia sido censurada e não publicada. As cartas traziam informações óbvias sobre o país, como por exemplo: "Sr. Diretor: parece-me indispensável observar, a propósito de "O longo drama chileno", que o Chile, durante o período diurno, é claro, e que durante o período noturno, é escuro. Sérgio de Oliveira, redator da revista Veja, São Paulo, SP". Nesta mesma edição, a seção "Diversos" trazia o título: "Homens-Demônios" e mostrava algumas previsões em comum do padre Sean McIntosh e do professor de Teologia da Universidade de Syracuse, Lilland McLeary, que mantinha correspondência com o padre Sean: "a ação dos homens-demônios liberou uma carga avassaladora de energia diabólica que ainda se mantém no ar e causa, nove séculos depois, larguíssimos fenômenos de fanatismo, cegueiras coletivas, temores globais, além de episódios desmedidamente ridículos; é benfazeja a presença do monge Falcus, contemporâneo e oponente dos homens-demônios e autor de textos que provavelmente encerram as fórmulas para um primeiro combate às forças do Mal; contudo, a energia positiva que ele liberou e perdura, espraiando-se na direção norte-sul, por mais forte que seja, haverá de agir de forma paulatina e cautelosa."

Em 13/03/74 (vol. 288), Veja desrespeitou a proibição e na seção "Millôr e Brasil" apareceu novamente o demônio com a frase: "espera-se que este senhor desapareça". E outra ilustração de vários demônios com os dizeres: "eles poluem com um milhão de decibéis". Além de mais uma figura prevendo: "o diabo está no fim." Conforme Paolo Marconi, por causa disso, os jornalista Mino Carta e Roberto Guzzo foram chamados a prestar esclarecimentos sobre a proibição não atendida. Na edição seguinte (vol. 289, 20/03/74), apareceu a figura de anjos com os dizeres: "tributo aos anjos tão desejados." Segundo Marcos Sá Correa, que era da redação de Veja e viveu esse período, "a utilização de figuras dos diabos foi uma solução de emergência para fechar a revista, já que os textos voltavam do censor cheios de buracos, ou seja, partes censuradas, e em geral não havia mais tempo hábil para substituir a matéria ou completar o texto. Ele foi em grande parte responsável pela seleção e pesquisa dos diabos."

O jornalista também contou: "eu tinha a recomendação do Mino para procurar no DEDOC (o Departamento de Pesquisa) alguma coisa para botar no local (censurado). Eu desci no DEDOC e alguém de outra revista, provavelmente tinha mexido naquela manhã, eu encontrei uma pasta de diabos e achei aquilo muito engraçado e levei para o Mino. O Mino resolveu usar os diabos e, por incrível que pareça, acabou sendo muito divertido fazer a primeira edição com os diabos porque o Mino começou a fazer um texto coerente com aquela ilustração, começou a usar todas as categorias da demoniologia. Na época, a gente achou que estava fazendo um grande feito jornalístico. Devo te dizer que isso é uma brava ilusão que eu levei a década inteira carregando, eu tinha participado, você se sentia personagem da resistência. Mas aí em 76, 77, eu saí da Veja e voltei em 79 e uma das primeiras coisas que eu fiz nessa volta foi uma edição chamada "Os anos 70", uma edição de fim de ano, de fim de década... Na época eu me lembro que fiquei realmente muito assustado em perceber como a gente tinha se enganado a respeito da nossa capacidade de enganar o censor. Nós nos sentíamos jornalistas espertos lidando com um idiota. (...) Quando eu comecei a fazer então a pesquisa para esta edição da década, eu tive um choque ao perceber que muito menos do que eu lembrava do que tinha acontecido estava na Veja, ou seja, era um absurdo porque a gente tinha na memória ter feito uma revista ousada, de ter feito uma revista que até por estar sob censura tinha uma certa marca de uma coisa que se insurgia contra o regime, etc. Tínhamos a ilusão de estar, com algumas derrotas e tal, tapeando o idiota, só que o idiota trabalhava com informações muito precisas e, às vezes, mais precisas que as nossas, sob especificamente o que ele queria cortar, então ele cortava com muita precisão. (...) Mas o estranho é que esta revista olhada em retrospectiva, cinco, seis anos depois, quando eu fui fazer uma pesquisa para mim mesmo, não me servia. Eu tinha que, às vezes, procurar as informações que eu estava querendo em jornais muito mais brandos, mas eles tinham publicado alguma coisa, tinham os nomes, os acontecimentos, tinha a morte do Herzog e na Veja não tinha. A Veja tinha rombos, o que eu lembrava nos fins dos anos 70 como coisa importante não estava lá. E é curioso que eu tinha a sensação de ter participado daquilo no miolo dos acontecimentos. Então eu imagino também que coisa vaga não era para o leitor esses nossos atos de rebeldia contra a censura. Só quando eu fui rever, com esses olhos de leitor, a revista que eu tinha feito, eu percebi que o censor tinha tirado muito mais do que eu supunha."

Na edição 288 (13/03/74), a seção "Diversos" vinha com o título: "A era de Falcus". A matéria dizia: "Com o favor das trevas, no começo, agiam os sicários do vizir Salah Al-Pinh, o Feio, para executar as suas ordens de tudo proibir, sem exceções..." Signum, o braço direito do vizir, "revelou especial esmero na determinação de dificultar o trabalho dos "Conselhos dos Astrólogos" criados um século antes, pela generosidade de sultões bem-avisados, para levar ao conhecimento do povo das cidades e aldeias as condições do tempo, além de distribuir horóscopos, coletivos e individuais, conforme os costumes da época. Em lugar de extinguir os Conselhos, eles os conservavam, para subdolosamente manter uma pálida aparência de liberdade; no entanto, lhes invadiam as dependências, armados de poder emanado da própria prepotência e de imensos carimbos, usados para apagar das folhas de papiro, onde boletins meteorológicos e horóscopos eram escritos por pacientes calígrafos, as passagens que, por uma razão ou outra, às vezes nenhuma, não lhes aprouvessem. (...) Define-se o consenso de que, apesar de suas asas largas e etéreas, os anjos voltarão devagar, pois, em situações tão complexas e recheadas de perigos, as mudanças não podem ser bruscas, para o bem de todos." Esta seria chamada de "A Era do Monge Falcus". Esta matéria é bastante ilustrativa e simbólica. Os personagens o Feio e Signum representavam obviamente a censura que foi imposta à imprensa representada pelos "Conselhos dos Astrólogos" (não foi extinta para manter a aparência democrática, mas sofreu diversos tipos de repressão para impedir que se divulgassem coisas contrárias ao governo). No entanto, os anjos estavam retornando à Terra, ou seja, o grupo do general Geisel, chefiado pelo ministro da Justiça, Armando Falcão, representava a esperança de novos tempos e o fim da censura.

Uma entrevista com o padre Sean McIntosh, teólogo defensor da tese sobre a volta dos anjos, foi realizada em 20/03/74 (vol. 289) na seção "Carta ao Leitor". Mino Carta perguntou sobre o destino do personagem o Feio e padre Sean respondeu que era preciso ter prudência e paciência e estava otimista em relação a dias melhores. Nesta mesma edição, as páginas amarelas mostravam uma entrevista com dois exorcistas da Diocese de Roma que falavam sobre o diabo e a maneira de combatê-lo.

Já na "Carta ao Leitor" (vol. 290, 27/03/74) podia-se ler: "e aconteceu que os astrólogos logo se regozijaram com a morte do vizir Salah Al Pinh, o Feio, e do seu lugar-tenente Signum, o sinistro cavaleiro Drapeau, acreditando no fim das humilhações, de certo originadas de ordens expressas dos falecidos. E muito se alegraram com a ascensão do vizir Abd Al-Selh, em que enxergavam belas qualidades capazes de devolver às terras sarracenas o respeito pelos direitos fundamentais do ser humano." Finalmente, na edição seguinte (vol. 291, 03/04/74), o editor despediu-se do padre Sean: "Mas padre Sean, como haveria de matar padre Sean? Na verdade, não deveria ser uma tarefa especialmente

dolorosa: padre Sean, confesso, não existe, é um personagem de ficção jornalística, se me perdoam a expressão - e o qualificativo serve para desfazer a impressão eventual de que Veja tivesse pretendido criar uma figura de alto valor literário. Ao mesmo tempo, contudo, o explica, fazendo dele o porta-voz de situações que, em certos momentos de atmosfera ionizada, não podem ser contadas. (...) A partir desta edição, todos desaparecem das páginas de Veja, onde a redação se orgulhou em mantê-los tanto quanto hoje se alegra em despedi-los, pois não há nada pior, para um jornalista, que usar uma linguagem simbólica para contar os fatos."

Estes recursos gráficos e a utilização de linguagem metafórica foram os meios utilizados por Veja para tentar driblar a censura e mostrar o seu posicionamento diante das circunstâncias pelas quais passava o país. No entanto, como vimos, o que parecia um grande feito jornalístico, na verdade, revelou-se a vitória dos censores no sentido de cortar reportagens da revista relatando importantes acontecimentos daquele momento.

Durante o mês de abril de 1974, Veja ficou livre da censura prévia, apesar de continuarem as proibições através de telex e telefone. No mês de maio, a edição 296 (08/05/74) trazia novamente uma charge de Millôr Fernandes com um prisioneiro posto em ferros com o carcereiro afirmando "Nada consta" - motivo da volta da censura prévia. Em 11 de outubro do mesmo ano, houve uma ordem para que a capa da revista fosse censurada por causa da repercussão da capa nº 318 sobre os militares em Portugal (desenho de Elifas Andreato com 3 militares perfilados). No ano de 1975, a censura em Veja era rotina e no ano de 1976, uma informação "preventiva" do censor dizia que seriam vetadas as matérias sobre a morte do operário Manuel Fiel Filho e a exoneração do general Ednardo d’Ávila.

De acordo com Alzira Alves de Abreu, "o que se observa a partir da introdução da ‘cultura demoníaca’ é que a revista deixou de informar os fatos e acontecimentos mais importantes do período. Só como exemplo, podemos apontar a ausência de notícias sobre um dos momentos de maior confronto entre os grupos mais radicais e o grupo Geisel - a crise político-militar que levou à demissão do comandante do II Exército, Ednardo d’Ávila Melo. Não há nenhuma notícia sobre a morte do jornalista Vladimir Herzog sob tortura, em 25 de outubro de 1975, nem do operário Manuel Fiel Filho, em janeiro de 1976. O número da revista de 28 de janeiro de 1976 relata a troca de comandante do II Exército, a posse de Dilermando Monteiro, sem que haja uma única referência às causas dessa alteração. Esse acontecimento foi noticiado amplamente pela imprensa, salvo por alguns jornais e revistas que continuavam submetidos à censura, como era o caso de Veja. O sistema de repressão começou a declinar a partir desse episódio, mas se intensificou a pressão sobre a direção da revista para que ela abandonasse seu modelo de jornalismo crítico e de humorismo cáustico e se tornasse mais de acordo com a orientação do regime. A saída de Mino Carta, seu diretor de redação, teria sido uma exigência após esses acontecimentos, em fevereiro de 1976. Ou seja, abertura sim, mas sob total controle dos militares."

Sobre este caso, Paolo Marconi comentou: "a censura prévia (em Veja) foi levantada definitivamente em 1976 após o afastamento de seu criador e diretor de redação, Mino Carta. De um lado estava a Editora Abril querendo um empréstimo do Governo Federal, e ver-se livre da incômoda censura. Do outro, estava o governo desejando que a revista Veja fosse mais um modelo de bom comportamento, ou seja, que abandonasse o seu espírito crítico, cáustico, e perdesse sua postura independente." Mino Carta contou que após várias negociações com Victor Civita e conversações com o ministro Armando Falcão ele decidiu que "continuaria a fazê-la (Veja) como estava sendo feita, lutando para que sua interferência fosse a mínima possível." Como isso não era possível, pois o governo queria uma revista menos agressiva, ele decidiu sair da Editora Abril e da direção do semanário. Depois deste ocorrido, o empréstimo acabou saindo para a Abril e a censura também.

Em 21 de abril de 1976, Veja estampou as arvorezinhas (símbolos da Editora Abril) no lugar da matéria censurada sobre a morte de Zuzu Angel, que buscava informações sobre o seu filho morto sob tortura pelos militares. No dia 3 de junho, "um telefonema da Polícia Federal informava que a revista, a partir daquela data, estava liberada de enviar o material para a censura." A "Carta ao Leitor" da edição 405 (09/06/76) comemorou o fim da censura prévia em Veja e concluiu: "a livre circulação de informações e de idéias é, obrigatoriamente, um dos pressupostos para uma sociedade mais justa."

De acordo com Bernardo Kucinski, "a Veja foi censurada, teve censura prévia num padrão intermediário, você tinha que mandar a matéria antes e eles cortavam mesmo, mas durante um período curto e extremamente penoso para os dois lados, imagino eu, porque ficava muito ruim para a revista que quer saber qual vai ser a capa, que é toda planejada e muito ruim para o governo porque isso aparecia no dia seguinte que tinha sido censurado. Então, foi a censura prévia realmente importante, na minha opinião, que afeta o modo de produção da revista, não de toda ela, mas afeta, intimida e prejudica material importante, prejudica a cara da revista, mas que foi muito penoso porque era uma coisa que não ficava bem para nenhum dos dois lados."

Após o fim da censura, Veja manteve um recuo em relação a críticas ao governo e inclusive praticou a autocensura como mostrou Paolo Marconi: Veja (20/04/77) ouviu o economista Rômulo Almeida sobre a possibilidade da multinacional Dow Chemical fabricar no Brasil uma dioxina conhecida com "agente laranja", utilizada na guerra do Vietnã como desfolhante. Frase textual do economista: "se isso for verdade, é um colonialismo absurdo." Versão edulcorada publicada pela Veja: "se isso for verdade, é um absurdo." Um outro exemplo aconteceu no final de fevereiro de 1979 quando a revista decidiu fazer uma matéria de capa com o presidente Geisel, que deixava o poder. A sucursal da Bahia entrevistou - em off - um militar e um político que o conheciam. "Os dois disseram que o presidente da República, quando irritado, xingava muito, "qualquer tipo de palavrão" e que, diversas vezes, seus assessores mais diretos na época em que dirigia a Petrobrás tiveram que fechar às pressas a porta de seu gabinete para que outros funcionários "não ouvissem seus palavrões". Versão publicada em Veja (14/03/79): a porta tinha que ser fechada "para impedir que seus gritos fossem ouvidos". Um dos entrevistados disse ainda que, por formação intelectual, o presidente Geisel era um formoso democrata, mas que em suas veias corria o sangue de um "senhor ditador". A Veja preferiu dizer que "dentro dele, porém, corre o sangue de um autocrata". "

Somente no governo Figueiredo, o semanário entrou novamente em conflito com os militares quando criticou a política econômica do presidente, que levou o país a uma recessão; e quando apoiou a campanha pelas eleições presidenciais diretas.

Nesta época, segundo o jornalista que pediu anonimato, a Editora Abril entrou em disputa por uma concessão de emissora de televisão. O ganhador desta concorrência foi Silvio Santos. Conforme o jornalista, os proprietários da Abril sabiam que haviam perdido a concessão devido à postura crítica de Veja em relação ao governo Figueiredo. Mas, mesmo assim, não interferiram na maneira como a revista estava posicionando-se e realizando suas reportagens apoiando o fim do regime militar. Desta maneira, concluiu, os proprietários não influenciaram na independência de Veja.

Na primeira fase de censura em Veja, a revista não apresentou formas de resistência e compactuou com as ordens estabelecidas pelos censores. Esta é uma explicação por que o semanário conseguiu publicar reportagens, muitas vezes, de assuntos proibidos e que não conseguiam ser liberados para outros órgãos de imprensa. Já na segunda fase, quando Veja sabia da indicação do general Geisel para substituir o presidente Médici, a revista resolveu desafiar os censores e denunciar para os seus leitores que estava sob censura. Com isso, o semanário elaborou diversas maneiras de criticar o governo que estava saindo e elogiar o projeto de redemocratização do general Geisel, por meio de uma comparação à expulsão dos demônios e volta dos anjos. Estas matérias e ilustrações fugiam do padrão jornalístico da revista que se baseava em textos claros e acessíveis, ao estilo americano. Para desafiar a censura, o jornalista Mino Carta elaborou textos rebuscados com palavras pouco comuns no vocabulário de seus leitores, ou seja, reportagens que não estavam presentes no dia-a-dia de Veja. Estas reportagens conseguiram passar pela censura, mas as ilustrações não. Nesta fase, também a revista já não publicava matérias com assuntos proibidos e, muitas vezes, assuntos liberados para os outros órgãos de imprensa eram vetados na Veja.

Percebemos, aqui, como a censura não era homogênea e atingia de diferentes maneiras os meios de comunicação. Por isso, como ressaltou Marcos Sá Correa, para os leitores, o grande feito jornalístico que eles pensavam que estavam fazendo era uma coisa muito vaga, os leitores poderiam até perceber a censura na revista, mas as informações importantes que estavam ocorrendo não apareciam no semanário. É aí, portanto, que a censura mostrou-se eficaz e aquilo que parecia uma vitória dos jornalistas contra os censores revelou-se, mais tarde, uma perda de conteúdo valiosa para os leitores de Veja.

Depois desta fase e do fim da censura, e também com a saída de Mino Carta, a revista, várias vezes, praticou a autocensura, pois temia um retrocesso do regime militar, além de não sofrer perseguições dos órgãos censores e, com isso, consolidar-se no mercado sem ter sofrido prejuízos econômicos.
 
 

A censura como notícia

Além de ser censurada, Veja também tratou deste assunto em suas reportagens. Desta maneira, em 24/09/69 (vol. 55), a revista mostrou a censura na televisão no caso dos programas de Dercy Gonçalves e Chacrinha, exibidos pela TV Globo. Veja publicou o comentário de Chacrinha: "obedeci ao censor. Acho que a situação não está para brincadeira."

Ainda no governo Médici, na "Carta ao Leitor" da edição 61 (05/11/69), Mino Carta defendeu a liberdade de imprensa: "se é verdade que a "plenitude do regime democrático é uma aspiração nacional", como disse o presidente Garrastazu Médici no discurso de posse, tem de caber, dentro do largo anseio, a verdadeira liberdade de uma imprensa hoje sujeita a leis excepcionalmente duras e, mais ainda, aos possíveis arbítrios dos intérpretes dessas leis. A seriedade de propósitos da imprensa não se garante com a ameaça de medidas coercitivas, tampouco é assim que se criam jornalistas honestos e patriotas, bons servidores da democracia, homens prontos a recolher o apelo do novo presidente e ajudá-lo "a pôr nas mãos do povo" tudo aquilo em que ele, Garrastazu Médici, mais crê."

Em 06/05/70 (vol. 87), a revista falava sobre a censura prévia. "Quando o filósofo Jean-Jacques Rousseau, no século XVIII, escreveu que a consciência costuma ser o juiz infalível do bem e do mal, nunca poderia ter imaginado que seu conceito seria usado, duzentos anos depois, para justificar a censura prévia de publicações que contivessem material considerado erótico." Segundo Veja, o deputado Adalberto Tabosa de Almeida, da Arena-PE, apresentou um decreto para a Comissão de Justiça que estabelecia a verificação prévia de publicações possivelmente eróticas. A revista informou que o MDB votaria contra, mas "a tranqüila maioria da Arena garante o decreto."
 
 

Veja (vol. 89, 20/05/70) também publicou sobre o limite da crítica ao mostrar a censura ao jornal Correio da Manhã. A revista informou que o STM negou "por unanimidade o recurso do promotor público contra a absolvição de Niomar Muniz Sodré, ex-diretora do Correio da Manhã, acusada de fazer propaganda subversiva nos editoriais de seu jornal e de ofender o presidente da República." Segundo o advogado de Niomar, Heleno Fragoso, "os editoriais vigorosos do jornal continham uma crítica legítima ao governo, como é próprio da imprensa de oposição em todos os regimes democráticos." Além disso, ao publicar o artigo, desobedecendo a censura, demonstrou "um ato de coragem em defesa da liberdade de imprensa."

Na edição 175 (12/01/72), Mino Carta fez uma declaração a favor da liberdade de informação: "não há na história próxima ou remota um único episódio capaz de provar que a censura contribuiu para a elevação cultural de quem quer que seja, censurado ou censor." Alguns meses depois, Veja (vol. 197, 14/06/72) publicou uma reportagem com o título "Censura inútil" mostrando um trecho das apostilas produzidas pela Escola Superior de Guerra (ESG). Em relação à imprensa escrita, a apostila dizia: "é imprescindível a formação de uma boa imagem do governo, o conhecimento dos seus êxitos e o esclarecimento sobre as medidas tomadas... A crítica responsável deve existir, única maneira de o governo não ter um conceito irrealista do momento. (...) A luta pela liberdade de imprensa sempre foi irmanada ao aperfeiçoamento realístico das democracias: contudo, nunca desvinculada das necessidades de controlar seus limites, na procura da liberdade com responsabilidade."

Nos anos seguintes, principalmente de 1974 até junho de 1976, Veja esteve sob censura férrea e por isso o assunto censura não foi noticiado. Contudo, esta foi uma época em que a revista demonstrava para seus leitores a presença da censura através de linguagem simbólica e de recursos gráficos, como mostrado anteriormente, mas, ao mesmo tempo, deixava de publicar assuntos de grande interesse para os seus leitores.

Em 04/08/76 (vol. 413), o semanário informava sobre a apreensão da edição 195 do jornal Opinião por oito agentes da Polícia Federal. Segundo Veja: "desde o governo Emílio Médici, todo material de cada edição do jornal é submetido à censura prévia - como é o caso também do semanário Movimento."

Meses depois, Veja (vol. 437, 19/01/77) informou sobre a confecção de um documento que seria enviado ao ministro da Justiça, Armando Falcão, assinado por atores, autores teatrais, artistas, jornalistas e intelectuais brasileiros protestando contra a censura aos livros, à imprensa, ao cinema e ao teatro. "O que era um protesto apenas de escritores contra a censura aos livros transformou-se num longo documento contra a ação da Censura no Brasil, em termos globais." Em 08/06/77 (vol. 457), a revista dizia que o "Diário Oficial publicava a Portaria nº 427, datada de 25 de maio, e assinada pelo ministro da Justiça, Armando Falcão, tornando obrigatória a censura prévia às publicações vindas do exterior."

A censura era, para os jornalistas e editores de Veja, algo que prejudicava o desenvolvimento da própria revista e a qualidade das informações para os leitores. Por isso, a censura - ao mesmo tempo que poderia estimular as vendas do semanário na medida em que os leitores buscassem informações que poderiam não ter sido censuradas, ou contidas nas entrelinhas das reportagens - também feria a liberdade de expressão, bandeira da produção jornalística que se vê como o "quarto poder", ou seja, aquele que fiscaliza e critica o governo quando este sai da "linha". Desta maneira, Veja creditava a melhoria das informações ao fim da censura. Em 04/01/78 (vol. 487), na "Carta ao Leitor", assinada por José Roberto Guzzo, lia-se: "o ano de 1977, para Veja, não se encerra como todos os outros. Pela primeira vez desde o seu lançamento, em setembro de 1968, a revista pôde atravessar um ano inteiro, de janeiro a dezembro, sem qualquer modalidade de censura. Trata-se de algo muito estimulante para os que aqui trabalham, positivo para o quadro geral da liberdade de imprensa e, sobretudo, útil para o leitor. De fato, em termos de produção jornalística, Veja teve em 1977 um desempenho brilhante - e esses resultados devem ser creditados, em parte, à ausência de censores a determinar o que podia ou não ser publicado." Esta informação não é totalmente verdadeira, pois ainda existia a autocensura na revista, além das pressões econômicas governamentais.
 
 

Veja (vol. 510, 14/06/78) comemorou o fim da censura prévia aos jornais Tribuna da Imprensa, O São Paulo e Movimento e comentou: "o governo do presidente Ernesto Geisel liqüida as últimas promissórias que ainda restavam no passivo da liberdade de imprensa no Brasil - e acaba de honrar o mais bem sucedido de todos os compromissos da distensão. (...) O governo assumiu o compromisso de abolir tais violências - e o cumpriu, ainda que num prazo longo." O semanário informou, no entanto, que ainda permanecia a censura às revistas masculinas e femininas como Homem, Status ou Nova e também aos livros em geral.

José Roberto Guzzo salientou na "Carta ao Leitor" (vol. 548, 07/03/79): "todos sabem, também, que não se tratou de um mero "abrandamento" da censura mas, sim, de sua completa extinção: a imprensa brasileira, hoje, só não publica o que não quer publicar, sem que o governo tenha nada a ver com isso." No entanto, na edição 546 (21/02/79), Veja havia publicado uma reportagem sobre tortura escrita por Antônio Carlos Fon. E a própria revista informou na edição 549 (14/03/79) que foi levada aos tribunais pelo ministério do Exército, chefiado pelo general Fernando Belford Bethlem, devido a esta reportagem, acusada de realizar uma "campanha de descrédito das Forças Armadas." Isto contestava a informação fornecida por Guzzo na "Carta ao Leitor", ou seja, o governo estava preocupado, sim, com o que a imprensa publicava.

A revista informou sobre a proibição do episódio "Bagunça" da série "Amizade Colorida" exibida pela Rede Globo na edição 666 (10/06/81). Este episódio tratava de um casamento sem registro em cartório e por isso teve que ser substituído por outro liberado pela censura. Segundo o semanário, "pela primeira vez, a Globo não apenas explicou aos telespectadores por que efetuava a substituição como também anunciou que iria recorrer ao Conselho Superior de Censura contra os cortes." A proibição de filmes foi destacada pela revista em 31/03/82 (vol. 708): "o filme "Pra Frente Brasil" é um teste inédito para os censores, desde que foi abolido o critério automático de, na dúvida, proibir qualquer coisa. Não tem uma só cena de nudez - mas tem, pela primeira vez, uma cena com a "cadeira do dragão", instrumento de tortura por choques elétricos. (...) Por isso, coube a Roberto Farias o risco e o privilégio de medir, nos próximos dias, a real extensão da abertura política no campo da criação cultural." Duas edições depois (vol. 710, 14/04/82), Veja anunciou a proibição do filme e declarou que ela "estimula protestos e abre espaço para uma vasta discussão entre pessoas que se manifestam sem conhecê-lo." A revista concluiu com a afirmação do escritor Jorge Amado: "só o povo tem o direito de recusar um livro, um filme, uma peça. O resto é violência."

Em 11/04/84 (vol. 814), a "Carta ao Leitor" defendeu a liberdade de imprensa: "Veja não poderia deixar de ressaltar a sua crença fundamental num ponto: a imprensa, com todos os seus erros e vulnerabilidades, continua sendo a melhor garantia de divulgação da verdade enquanto puder ser livre, viver da competição e ter multiplicidade de vozes. (...) Os remédios para as falhas da imprensa estão nela mesma. Não será controlando, regulando ou diminuindo sua liberdade que se fará uma imprensa melhor ou com mais credibilidade."

Podemos notar, através destas matérias selecionadas, que o assunto censura sempre foi notícia para Veja. A revista publicou sobre a censura e a liberdade de informação mesmo quando havia a censura férrea durante o governo do general Médici. Neste período o assunto censura era proibido, mas a revista conseguiu publicar algumas reportagens liberadas.

No final do governo Geisel, quando a imprensa escrita foi liberada pela censura, ainda permaneceu para as peças teatrais, para os filmes e os livros. Veja denunciou e publicou sobre a censura a estes outros meios de comunicação condenando a sua prática. Desta maneira, a liberdade de expressão de pensamento era uma bandeira defendida pelo semanário e por isso, condenava todas as maneiras de controlá-la, seja na área da imprensa escrita, da televisão, do teatro ou das editoras de livros. Num contexto de abertura política, o livre pensar era defendido como condição básica para se retornar ao Estado de Direito.
 
 

Na primeira fase de censura em Veja (1968-73), a revista apenas foi censurada em ocasiões específicas, ou seja, quando "enfrentou" o governo militar. Como exemplo principal, temos as publicações sobre torturas ocorridas no período, que era um tema "tabu" para o regime. Isto porque, nesta época, o semanário publicava as "vozes" dos diferentes grupos militares que disputavam o poder. Além disso, segundo o depoimento de um jornalista da revista, os proprietários da Editora Abril não interferiam na linha editorial da revista porque isso já era feito pela própria censura, que ditava através de "bilhetinhos" o que poderia ou não ser publicado. E eles aceitaram esta imposição. Quando não, a revista passou a ter um censor em sua redação.

Nestes tempos, apesar da presença do censor em algumas ocasiões na revista, a censura dava-se através de bilhetes e telefonemas informando sobre os assuntos proibidos. Mas, devido à pretensa neutralidade que ostentava, Veja conseguiu publicar algumas destas "notícias que eram consideradas proibidas, sobre temas tais como atividades repressivas, prisões políticas, estouro de aparelhos, tortura, morte de opositores do regime, guerrilhas, assaltos a bancos, seqüestros políticos, censura aos veículos de comunicação etc."

Já na segunda fase (1974-76), Veja passou a demonstrar que estava sendo censurada para os seus leitores como nos exemplos que foram mostrados anteriormente. Mas, devido a isto, o semanário deixou de publicar muitos assuntos importantes, como por exemplo, a morte do jornalista Vladimir Herzog e do operário Manuel Fiel Filho, que foram proibidos pelos censores de Veja e, no entanto, saíram em outros órgãos de imprensa. Apenas anos depois, a revista realizou uma reportagem sobre a morte de Herzog (vol. 507, 24/05/78).
 
 

Veja sofreu uma rigorosa censura durante o governo do general Geisel, candidato que ela havia apoiado como solução para a abertura política. Como foi visto anteriormente, a revista "aceitou" a presença da censura porque sabia que ela iria acabar e acreditou no projeto de redemocratização do então presidente.

Com o fim da censura no semanário, em junho de 1976, a autocensura continuou a ser praticada, pois havia o medo de que houvesse um retrocesso (incentivado pelo próprio governo) e um recrudescimento como nos anos de repressão violenta do governo Médici. Por isso, Veja não realizava críticas rigorosas à política de abertura do general Geisel e apoiava as suas decisões de, por exemplo, escolher o general João Baptista Figueiredo como o continuador de sua obra pela redemocratização do país.

Somente no governo Figueiredo, Veja enfrentou novamente o regime. Ela apoiou a campanha pelas "Diretas-já" e criticou a política econômica do presidente. Foi nesta época que ela defendeu mais claramente a liberdade de imprensa como fundamental para a democracia. Além disso, apoiou o candidato civil, Tancredo Neves, escolhido pela oposição e por dissidentes do governo. E, com esta vitória, celebrou o fim do regime militar e a abertura política que defendeu desde o início de sua existência.

Para lidar com os censores, os jornalistas de Veja tinham em mente a necessidade de relatar os acontecimentos sociais aos seus leitores e também o medo de não provocar o grupo governamental identificado com a "linha-dura", que defendia o fechamento do regime. Além do mais, havia o desejo de realizar um protesto simbólico, utilizando a revista contra a censura. Por isso, muitas vezes, Veja usou a linguagem metafórica e gráfica para ocupar os espaços censurados pelos censores. E, muitas vezes, também, compactuou com eles para não sofrer prejuízos com edições apreendidas e perseguições mais enérgicas. Em ambos os momento, quando Veja foi resistente à censura e quando compactuou com ela, a eficácia dos órgãos censores mostrou-se segura. Quando os jornalistas tentaram resistir, deixaram de noticiar fatos marcantes para o país e quando compactuaram com os censores, deixaram de defender o que para Veja era necessário num Estado de Direito: a liberdade de informação.

Assim, ocorreu que Veja, praticamente desde o seu início até junho de 1976, prejudicou-se enquanto um órgão de informação que se propunha a relatar os fatos para seu leitores e, além de tudo, explicá-los. A revista não conseguiu nem uma coisa, nem outra, pois a censura foi vitoriosa em ambos os aspectos. Neste período, a presença dos censores no semanário, como alguns autores e jornalistas afirmaram, representou o conflito interno que havia no governo militar. A censura em Veja, que apoiava o general Geisel, demonstrava um dos momentos de luta interna do palácio em que o presidente "agradava" o grupo da "linha-dura", e quando liberava alguns órgãos de imprensa "agradava" os setores que defendiam a abertura política. Neste contexto, além da censura, as relações entre a revista e os governos militares davam-se por meio de negociações para liberação de verbas para a Editora Abril e de demissões de jornalistas indesejados pelo regime. Veja sobreviveu ao período militar utilizando-se de negociações conciliatórias e, com isso, firmou-se no mercado como o semanário de maior número de vendagem. Desta maneira, se, por um lado, a censura prejudicou Veja em relação à qualidade do material jornalístico publicado, por outro, não interferiu na consolidação da revista como um importante meio de comunicação e com um número cada vez maior de leitores.
 
 

CONSIDERAÇÕES FINAIS



A indústria cultural lida com um processo social global que transforma a cultura em bem de consumo, tendo os meios de comunicação como produtos desta indústria. Além disso, na análise da imprensa, ressaltamos que ela trabalha com a difusão de idéias, implicando na sua não neutralidade diante dos acontecimentos sociais.

Acrescentamos também que, durante o período militar brasileiro (1964-85), havia um forte mecanismo de controle por parte do governo, ou seja, a censura. Mais do que censurar, no Brasil, o Estado foi o grande responsável pelo desenvolvimento da indústria cultural e, por isso, podia pressionar a grande imprensa através da liberação ou não de recursos financeiros para o seu próprio desenvolvimento; autorizar ou não a importação de equipamentos gráficos; e também realizar ou não a publicidade nos órgãos de comunicação. O incentivo da indústria cultural e também da modernização do país pelo governo brasileiro era uma forma de controlar os conflitos sociais e promover o desenvolvimento de acordo com os seus ditames. É por isso que havia apenas o incentivo da produção de bens culturais autorizados pelo governo e, em meio à modernização, concentrava-se renda e aumentava a miséria.

Para os militares, a imprensa deveria ter o papel de construção da sociedade de acordo com aquilo que a ditadura pretendia ser. O regime era violento, repressor, mas desejava transmitir uma imagem de um país que crescia e se desenvolvia. Neste aspecto, os órgãos de comunicação acompanharam este pensamento, mas também tiveram momentos de contestação aos acontecimentos políticos que os prejudicavam.

Em relação à Veja, destacamos o seu caráter empresarial que preservava as relações capitalistas; o caráter conservador de suas matérias, mesmo quando clamava por mudanças; e a importância da publicidade e dos leitores para a sua permanência no mercado.

Além disso, a revista manteve uma posição conciliadora com os governos militares e muitas vezes ambígua quando proclamava a liberalização do regime. Isto porque ela incentivava, em alguns momentos, a política econômica oficial, pois se favorecia com ela e criticava a repressão, principalmente a tortura, quando não estava sob censura. No entanto, as críticas de Veja sempre foram cautelosas porque havia o medo de provocar a "linha-dura", o que poderia levar o país a um retrocesso ainda maior. O semanário era um "opositor de elite", ou seja, não queria uma ruptura radical com a ordem social, política e econômica e, ao mesmo tempo, não queria o controle da liberdade de informar. Para ressaltar o que a revista pensava sobre a abertura, reproduzo um trecho da "Carta ao Leitor" do dia 18/02/81 (vol. 650):

"A abertura política não é um teste para se determinar quem tem razão nem um acerto de todas as contas que os indivíduos possam ter com o Estado, e nem seu objetivo é a consecução de atos de justiça. Na vida real, a abertura é simplesmente um processo político no qual são indispensáveis a transação, o compromisso e o ceder de todas as partes. O poder, a começar pela anistia, já cedeu. Ele não aceitará que seus adversários não cedam - mesmo porque as Forças Armadas, oficialmente, têm como artigo de fé que não devem nada. Em momentos como este, naturalmente, há muita gente achando que a culpa pela emergência de tais problemas cabe à abertura. Seria bom deixar claro que um fechamento não vai resolver nenhum deles, nem outros que o país venha a ter - na verdade, muitas das dificuldades de hoje se devem exatamente à ditadura. Utilizar a força só levará o país de volta ao lugar em que já esteve."
Como podemos observar, ao proclamar a abertura política durante o período militar, fazia isto de maneira conservadora, ou seja, nos moldes do governo e sem provocar mudanças bruscas na estrutura da sociedade. Por isto, Veja endossava o projeto de redemocratização "lento, seguro e gradual" do general Ernesto Geisel. Já no final do regime militar, o semanário incentivou a campanha pelas "Diretas-já" e não teve medo que esta dificultasse a saída negociada dos militares do poder, o que talvez possa ser explicado pelo contexto presenciado pela revista, já sem censura e de claro desgaste do regime militar. A oposição era aceita como necessária para um regime democrático, mas não deveria realizar críticas rigorosas ao governo. Apenas no período terminal do regime, Veja apoiou um candidato oposicionista e assumiu uma postura de contestação mais intensa e de realização efetiva da abertura política.

É importante destacar que Veja guiava-se por princípios liberais, mas não era radical neste aspecto e não explicitava essa concepção em suas reportagens. O semanário defendia conceitos como liberdade de expressão e direito à propriedade privada, mas não militava em relação à concepção liberal. Veja não defendia esta corrente ideológica de forma forte, ou seja, seus limites eram bastante tênues e flexíveis, principalmente no período militar em que a censura definia também a maneira como publicar uma reportagem. Além disso, o modelo de desenvolvimento capitalista do governo incentivava o aumento do mercado consumidor e a revista assumiu esta meta para a sua publicação, comemorando cada aumento do número de tiragens. Neste aspecto, não havia contradições, tudo colaborava para o seu sucesso e, a cada ano, melhorava a sua venda. O semanário mantinha o seu crescimento e promovia a sedução de seus leitores como parceiros de uma trajetória de modernização bem-sucedida. Evidencia-se, aqui, o progresso econômico do regime apoiado por Veja.

De maneira geral, o semanário esteve ao lado das decisões governamentais. Entretanto, em algumas questões específicas (como a censura, a tortura, e a campanha pelas eleições presidenciais diretas), Veja entrou em conflito com os militares. Estas questões estavam dentro daquilo que a revista defendia como fundamental para o retorno ao Estado de Direito. A partir daí, incluíam-se a liberdade de pensamento, as garantias individuais dos sujeitos e o direito ao voto do cidadão.

Um outro aspecto levado em consideração e um obstáculo para se publicar o que queria era a censura. De tal modo, a censura era a principal evidência do desconforto com o regime autoritário que bloqueava a própria função da revista, ou seja, a de informar. Quando Veja "enfrentou" os militares diante de posições contrárias às suas, ela foi censurada. Quando publicou assuntos proibidos pelo governo, os censores estiveram presentes em sua redação. A partir disso, a revista recuou e um dos motivos foi a condição da sobrevivência material, não podendo sofrer prejuízo com edições apreendidas. Por isso, a censura em Veja prejudicou-a em relação à qualidade do material jornalístico apresentado aos seus leitores, mas não causou diminuição nas vendagens da revista, que manteve um crescimento relativamente constante durante o período militar.

A grande imprensa - especificamente Veja - alternou posições de conformismo e resistência em relação ao regime militar. Não houve uma postura linear, pois ela moldava-se com a possibilidade do semanário continuar publicando suas reportagens e com a sua sobrevivência num contexto de indústria cultural. A revista foi crítica em alguns pontos específicos, até o momento em que não prejudicava a sua permanência no mercado e conivente com o governo quando este propôs uma abertura do regime que não modificasse as estruturas sociais e de mercado de consumo já estabelecidas. Uma explicação para isto pode estar no depoimento de Bernardo Kucinski: "uma revista deste tipo prospera num clima de liberdades, nesse sentido a liberdade é importante para ela, mas a Veja não foi feita para defender a liberdade, foi feita para ganhar dinheiro. (...) Ela sai com toda essa ambição e no dia seguinte vem o AI-5. Aí sim, ela não foi uma revista feita para a defesa da liberdade, mas a falta de liberdade afeta este projeto, afeta profundamente. Não afeta a revista Nova, não afeta a revista Pais e Filhos, não afeta todo aquele elenco de revistas que eles têm para todas as faixas de mulheres, de homens, adolescentes, mas afeta a Veja como afetou a Realidade." Vale dizer, quando o semanário foi idealizado, ainda sem a presença do AI-5, tinha como objetivo render lucro à Editora Abril. No entanto, devido ao recrudescimento do regime militar, Veja assumiu a defesa da volta das liberdades democráticas porque foi concebida para prosperar nessas condições, ou seja, em um regime democrático e capitalista. A revista manteve-se fiel aos seus desejos de abertura política, pois era do seu interesse um regime que não ferisse o direito de informar.

Desta maneira, na produção da mensagem de Veja, durante o período militar, foram fundamentais a censura e a vontade de transmitir aos seus leitores o seu desejo de abertura política, mesmo que conservadora; além dos seus interesses econômicos de permanência no mercado.

Portanto, constatamos que o semanário foi coerente na defesa de uma posição política, ou seja, na defesa da volta das instituições democráticas, mesmo não possuindo uma linha ideológica definida e militante, isto porque Veja é um produto da indústria cultural e não foi concebida para ser "ideológica" no sentido de defender radicalmente concepções políticas. A partir disso, a postura centrista assumida por Veja durante o período militar também pode ser entendida através do "instinto de sobrevivência", ou seja, num contexto de censura e de desenvolvimento da indústria cultural, a revista manteve-se sem uma ideologia definida e conseguiu, com isso, não sofrer perdas econômicas e não ser perseguida por militares responsáveis pelos órgãos censores.

Ao longo deste trabalho, observamos como Veja assumiu diferentes posições de apoio e oposição ao regime militar no período de 1968-85. Estas posturas moldavam as suas relações com os governos militares, ou seja, as divergências davam-se em questões políticas específicas, pois a revista defendia um regime democrático com liberdade de informação, e a conformidade dava-se no aspecto econômico, pois a revista beneficiava-se com o desenvolvimento, promovido pelo Estado, da indústria cultural. O semanário teve uma integração completa ao processo de crescimento do país durante o regime militar. Veja criticou este projeto econômico apenas no governo Figueiredo, quando desmoronou o modelo de desenvolvimento promovido pelos militares. Aí, a revista defendeu a abertura política efetiva, pois a ditadura já havia criado condições de amadurecimento da indústria cultural e agora poderia renunciar ao seu controle.

 
 

ANEXO 1

Quadro comparativo da censura imposta em alguns órgãos da imprensa escrita (1968-1978)
 
órgão de imprensa data forma de censura
Veja set/1968 a dez/1971 "censura branca"- comunicados e telefonemas do governo federal informando assuntos que não deveriam ser divulgados
Veja jan/1972 a set/72 censura prévia
Veja out/1972 a fev/73 censura branca
Veja março/73 a jan/1974 censura prévia para as matérias sobre sucessão presidencial
Veja fev/74 a março/74 censura prévia total
Veja abril/1974 censura branca
Veja maio/74 a maio/76 censura prévia
Veja junho/ 1976 fim da censura
O Estado de S. Paulo  dez/1968 a set/1972 censura branca
O Estado de S. Paulo out/72 a dez/74 censura prévia
O Estado de S. Paulo janeiro/1975 fim da censura
Movimento julho/75 a maio/1978 censura prévia - o jornal esteve sob censura prévia durante todos os anos de sua existência
Movimento junho/1978  fim da censura
Opinião out/1972 a dez/72 censura branca
Opinião jan/1973 a abril/77 censura prévia
Opinião abril/1977  fim da censura
Folha de S. Paulo 1968 a 1978 autocensura
Visão 1968 a 1978 autocensura

 
 
 

Observação: a censura prévia terminou em junho de 1978, retirando-se dos jornais A Tribuna da Imprensa , O São Paulo e praticamente toda a imprensa alternativa.
 
 

ANEXO 2



1970 - vendas em banca: 45.000

1972 - vendas em banca: 52.000

vendas por assinatura: 45.000
 
 

total:107.000

1976 - vendas em banca: 79.000
 
 

vendas por assinatura: 136.000

total: 215.000

1980 - vendas em banca: 73.000

vendas por assinatura: 334.000

total: 407.000

1984 - vendas em banca: 68.000

vendas por assinatura: 446.000

total: 514.000
 
 

Fonte: IVC (últimos trimestres de cada ano) / Editora Abril
 
 


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Entrevistas concedidas: Data

Jornalista que pediu anonimato 28/04/98

Raimundo Pereira 11/07/98

Bernardo Kucinski 05/08/98

Mino Carta 07/08/98

Marcos Sá Correa 09/09/98


PROFISSÃO:REPÓRTER

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