e n t r e v i s t a
RICARDO SETTI
DIRETOR DE REDAÇÃO DA PLAYBOY
Perguntas de Alceu Nader, Ana Maria Bahiana, André Barcinski, Claudio Tognolli, Dênis de Moraes, Fausto Macedo, Fernando Mitre, Juca Kkfouri, Leão Serva, Luiz Maklouf Carvalho e Valdir Sanches
(Respondidas por e-mail em abril de 1997)
Vivi, com Ricardo Setti, um dos bons momentos de de
minha carreira profissional - o furo de reportagem que revelou, no Jornal
do Brasil (26 de abril de 1989), a existência de Lurian Cordeiro
da Silva, filha de Luis Inácio Lula da Silva, então presidente
do PT e candidato a Presidência da República. O dia de um
grande furo é, como qualquer repórter está cansado
de saber, a pura fruição daqueles 15 minutos de glória.
Mas a véspera - uau!, a véspera é um verdadeiro tormento,
a adrenalina a mil, o medo ser furado antes, o cuidado com o que vai sair,
os detalhes da apuração e da checagem final, o outro lado.
É especialmente da véspera que me lembro
de Setti - de muitos momentos (foi um dia longo, muito longo), mas de um
em particular, nós dois na minha mesa, ansiosos por um telefonema
do próprio Lula ali pelas quase dez da noite, deadline estourando.
Ele era o chefe da sucursal - mas neste preciso momento, em que a hierarquia
é absolutamente inútil (isso quando não atrapalha),
éramos, ali, dois repórteres no auge da emoção.
Tínhamos ouro na mão, o garimpeiro fui eu, mas o ourives
foi ele.
Primeiro, quando sentiu na hora, sem precisar de mais explicações, que o veio era muito bom. Segundo, quando valorizou de cara o que veio na bateia. Terceiro, quando apostou todas as fichas que daquela mistura sairia uma boa pepita. Bancou aquele furo junto à matriz do JB com uma garra difícil de esquecer.
Tivemos outros momentos semelhantes - nenhum igual - e tive nele, a par da eventualmente agastada relação entre chefes e subordinados (inevitável quando há mútua independência), um importante aprendizado profissional: no texto, na rigorosa implicância com a precisão da apuração, nos desafios que sabia oferecer, e na generosidade com que premiava uma bela matéria. Certa vez, quando tratávamos de uma outra reportagem - na qual eu apostava e ele não - chamou-me de “insaciável”, no meio da redação . Foi um dos grandes elogios que recebi na vida - embora não tenha certeza de que esta tenha sido a intenção. Nossa convivência no Jornal do Brasil, durante aquele ano que já vai longe, renderia muitas outras histórias - mas o que quero, no momento, é apenas agradecer a generosidade de sua entrevista via e-mail - instigante, como verá o leitor -, a primeira de uma série que Profissão: repórter inicia nesta edição de maio.
Convidei alguns jornalistas para ajudar-me nas perguntas - pelo que agradeço. Pedi uma pergunta a cada um - mas alguns mandaram mais de uma, todas aproveitadas. O resultado é o que se segue.
Luiz Maklouf Carvalho
P E R F I L R Á P I D O
Ricardo Augusto Setti, 50 anos, é jornalista há
32, tendo passado pela maioria dos grandes órgaos da imprensa escrita
do País. Atualmente exerce o cargo de diretor de redação
de Playboy. Foi, durante dois anos e meio, diretor editorial adjunto
da Editora Abril; editor-chefe do jornal O Estado de S. Paulo de
1990 a 1992; dirigiu a Sucursal de São Paulo do Jornal do Brasil
de 1986 a 1990; foi redator-chefe das revistas Playboy e IstoÉ,
editor da revista Veja e editor-assistente, subeditor, repórter
e redator de publicações como a revista Visão,
o Jornal da Tarde e a sucursal de Brasília de O Estado
de S. Paulo. Em Brasília, no inicio da carreira, trabalhou na
extinta agência de notícias Interpress e foi redator de noticiários
da Rádio Planalto.
Entre outros, recebeu o Prêmio Esso de reportagem
de 1986 por reportagem sobre os bastidores do Plano Cruzado - O
DIA EM QUE SARNEY DERRUBOU A INFLAÇÃO - publicada em
Playboy, que lhe valeu, também, o Prêmio White Martins
de Jornalismo do mesmo ano. Em 1984, foi premiado como um dos "editores
do ano" pela publicação especializada World Press Review,
de Nova York, por seu trabalho em prol da liberdade de imprensa como redator-chefe
de IstoÉ.
Além de jornalista, é bacharel em Ciências
Jurídicas e Sociais da Universidade de Brasília e autor do
livro "Conversas com Vargas Llosa" (Brasiliense, 1986), publicado também
em Portugal e traduzido para o espanhol, o inglês e o francês.
A ENTREVISTA
Luiz Maklouf Carvalho - Quais são, para você, os sete pecados capitais da imprensa brasileira?
SETTI -- Sou um jornalista extraordinariamente orgulhoso da profissão. Ao contrário de muitos colegas, que brincam nas redações com um suposto pavor que os filhos ingressem na mesma profissão, tenho um enorme orgulho de ver minha filha Adriana já no quarto ano de jornalismo da PUC. Mas também sou alguém muito preocupado com determinados rumos que a profissão vem tomando.
O tema dos pecados capitais me preocupa muito, e precisaria refletir mais para responder com a seriedade e a profundidade que ele merece. Mas vou apontar alguns pecados, não necessariamente sete:
1 - Excesso de cobertura do Estado (presidente, Congresso, governadores, Justiça, polícia, INSS, prefeitos, vereadores, Tribunais de Contas): isso é um verdadeiro delírio. O Estado é o aspecto mais podre, corrupto e atrasado do Brasil. Como a imprensa em geral dedica 70 por cento de seu espaço a isso, e esquece de cobrir a sociedade, ela acaba mostrando,invariavelmente, um Brasil mais pobre, corrupto e sem saída do que é o Brasil real.
2 - Excesso de notícia ruim: notícia não é sinônimo de notícia ruim.
3 - Denuncismo, com sua carga de patrulha, irresponsabilidade e capacidade de causar danos a MUITAS pessoas.
4 - Em muitos casos, pouco cuidado com os problemas éticos e de conflitos de interesse (só para ficar num exemplo bem rasteiro: virtualmente nenhum caderno de turismo dos jornais financia as viagens de seus repórteres).
5 - Excesso de opinionismo: vejo com preocupação a crescente tendência de colunas de informação que contêm opinião dos autores, e não informação analisada.
6 - Arrogância e prepotência: quando erramos, por exemplo, ainda não encontramos uma forma de corrigir o erro adequadamente. Pior: não estamos preocupados com isso como deveríamos; as correções que saem em jornais, revistas, emissoras de TV e rádio, com raras exceções, são tímidas e por vezes beiram o desrespeito e o cinismo.
7 - Falta de modéstia no trato com o leitor: em geral, consideramos que o bonito e o profissional é adotar a linguagem hermética dos setores que cobrimos (o economês, o politiquês, o mercadofinanceirês, até o futebolês), e vemos como algo menor a utilização de linguagem simples e acessível; no entanto, o que faz a nobreza de nossa profissão é, justamente, nossa capacidade de DECODIFICAR a informação para o leitor. É para isto que EXISTIMOS, é o que justifica a profissão.
Juca Kfouri - Ao sair do jornal O Estado de S. Paulo você me disse que “redação nunca mais”. Felizmente toca com brilho a Playboy há mais de dois anos. O que o fez mudar de idéia?
RICARDO SETTI -- Agradeço o elogio contido em sua pergunta, Juca. O que aconteceu, basicamente, foi o seguinte: a saída do Estadão foi uma decepção para mim. Estava sinceramente empenhado num trabalho duríssimo, de longo prazo, que apresentava a meu ver ótimos resultados (refletidos na reação dos leitores, dos formadores de opinião e do mercado anunciante). Por problemas e desentendimentos alheios à minha vontade, acabei saindo antes que as mudanças se consolidassem.
Para minha satisfação, recebi diversos convites ao deixar o Estadão, começando por um do Mário Sergio Conti, da Veja, um outro para dirigir o Jornal do Brasil, em Brasília, um terceiro para dirigir a redação de O Globo, em São Paulo. Mas também surgiu, naquele momento, a oportunidade de "mudar de lado do balcão": um grande banco procurava um diretor de Relações Institucionais e um amigo meu, jornalista, com excelentes contatos nessa área me indicou.
O nome foi bem recebido, as negociações começaram e, lá pelas tantas, comecei a me imaginar fechado numa sala de ar condicionado na Avenida Paulista, cercado de executivos nada familiarizados com o mundo da informação, isolado dos meus amigos e colegas etc. Embora fosse parte de minhas futuras obrigações ter contatos com políticos, fontes do governo, de empresas e outras -- o que me fascina --, comecei a sentir um terrível "banzo" antecipado do nosso universo de jornalistas. Resolvi não topar. E aí surgiu o convite do Thomaz Souto Correa para ser seu diretor adjunto na Abril. Era uma forma de ficar um tempo fora de redação sem largar o jornalismo.
Foi no começo de 1992 e foi ótimo -- mas quando, em finais de 1994, o próprio Thomaz me sondou para assumir PLAYBOY, em seu lugar, Juca, (já que você ia fazer o novo projeto de PLACAR), topei na hora. Já estava com saudades de uma redação... E, claro, foi uma honra suceder a você na revista.
André Barcinski -Tirando a edição americana, a Playboy brasileira é a mais vendida do planeta, isso num país onde poucas pessoas lêem revistas. Qual é a razão? O liberalismo brasileiro quanto ao tema sexo tem alguma coisa a ver com isso?
SETTI -- Acho que sim, André. Mas não é apenas isso: a Editora Abril nos propicia recursos para investir em estrelas -- e a curiosidade a respeito de celebridades, somada ao interesse masculino pela nudez das mulheres, produz uma química muito interessante. Alem disso, ouso dizer que PLAYBOY dispõe de um excelente pacote jornalístico, de serviço, de humor e de bom gosto que atende a um forte segmento de leitores homens -- e algumas mulheres também (temos 18 por cento de leitoras).
LMC - Há uma eterna polêmica sobre o fim de grande reportagem (na qualidade e no tamanho), que, por assim dizer, não mais se adequaria às características da mídia moderna e às exigências de um leitor com pouco tempo disponível. Como você se situa nessa discussão?
SETTI -- Destaco dois aspectos. Primeiro, acho uma falácia dizer que a grande reportagem acabou. Modestamente, nós, em PLAYBOY, publicamos várias por ano, e com textos bem longos. Fomos a Angola cobrir a vida dos 2.000 soldados brasileiros que tentam manter uma trégua precária após 25 anos de guerra civil. Acompanhamos o presidente Fernando Henrique em viagens internacionais para contar bastidores que a imprensa diária não registra. Descobrimos e perfilamos, nos Estados Unidos, a única filha mulher de Fidel Castro, que se mandou de Cuba e escolheu viver, justamente, no país que é o arquiinimigo do regime do pai.
Xeretamos a vida do ex-presidente Figueiredo e descobrimos, já há um ano, que ele estava doente, deprimido e empobrecido. E por aí vai. Devo dizer que a reação dos leitores a essas reportagens é ótima. Fizemos uma pesquisa qualitativa sobre a revista, no ano passado, e fiquei agradavelmente surpreendido com o fato de que a grande maioria dos leitores abrangidos pelas discussões de grupo disse achar fundamental para a fórmula da revista a existência não apenas de reportagens, como de reportagens longas. Muitos outros órgaos de imprensa ainda privilegiam a reportagem.
O segundo aspecto é o seguinte: é uma enorme bobagem achar que a reportagem não é adequada à mídia moderna. Nada substitui uma reportagem maravilhosa, bem escrita, relevante, emocionante. Se o leitor, sem tempo ou não, for capturado pela força da matéria, ele vai ler. E, nesse tempo de correria, de meios eletrônicos etc, a reportagem é justamente uma das coisas que vai cada dia ser mais preciosa, porque a irrelevância e superficialidade da TV, de outros meios eletrônicos, de muitas revistas e outras publicações cansa, é monótona e não satisfaz. O leitor PRECISA de uma boa reportagem para pensar, ou para relaxar, ou para se emocionar, ou para descobrir coisas e mundos novos, ou para aperfeiçoar sua cidadania.
Acho que a boa reportagem, como o bom livro, nunca vai desaparecer.
Ana Maria Bahiana - Nos Estados Unidos celebridades que posam nuas para revistas como Playboy ficam imediatamente "queimadas". Por que no Brasil é diferente?
SETTI -- Como você sabe, o Brasil é muito menos moralista que os EUA, Ana Maria. Basta ver o que acontece, por exemplo, nos desfiles de escola de samba durante o Carnaval -- e não apenas no Rio --, o que acontece na propaganda, o que acontece na televisão, o que acontece nas nossas praias, ruas, danceterias, bares. O nosso clima de liberalidade é tal que um adultério, por exemplo, se nos EUA derruba um candidato, aqui é capaz de elegê-lo. (Lembra-se do affaire Bernardo Cabral-Zélia Cardoso de Mello? Pois bem, não muito depois do episódio, o Bernardo Cabral acabou vencendo facilmente uma dura disputa majoritária pelo Senado no Amazonas). A principal explicação, a meu ver, é esta. Mas lembro que nos EUA há exceções à regra de que a mulher que posa para uma revista masculina se queima. Vamos a algumas? Entre outras, posaram para PLAYBOY ou apareceram nuas em PLAYBOY, sem se queimar, Cindy Crawford, Bo Derek, Farrah Fawcett, Pamela Anderson e, até, mulheres mais velhas (e "respeitáveis") como Nancy Sinatra.
LMC - O que é mais difícil: ser repórter e lidar com os editores ou ser editor (ou diretor de redação) e lidar com os repórteres?
SETTI -- Maklouf, acho as duas coisas difíceis. É claro que, sendo chefe, você tem a vantagem, entre aspas, de estar montado na hierarquia. Tenho exercido funções de chefia há uns 15 anos, já. E, como sofri com chefes incompetentes ou neuróticos (ou ambas as coisas), da mesma forma que a maioria dos repórteres sofreu, luto enormemente para não repetir, com eles, o que já me doeu na pele e na alma.
Alceu Nader - Quais os profissionais que mais o influenciaram em sua carreira?
SETTI -- Muitos me influenciaram, inclusive gente com muito menos experiência que eu. Mas preciso destacar alguns: Evandro Carlos de Andrade, meu primeiro chefe de verdade, na sucursal do Estadão (e Jornal da Tarde) em Brasília, no final dos anos 60, e até hoje meu amigo; em São Paulo, Ewaldo Dantas Ferreira, um dos maiores repórteres do Brasil em todos os tempos, com quem trabalhei no JT e na Visão; Rolf Kuntz, hoje editorialista do Estadão, com quem trabalhei no JT, na Visão, na IstoÉ e no Estadão, dessa vez quando para lá voltei como editor-chefe (1990-1992); José Roberto Guzzo, durante muitos anos diretor de VEJA, hoje dirigindo o Grupo EXAME, da Abril, com quem trabalhei durante 8 anos em VEJA; Dorrit Harazim, editora especial de VEJA, com quem trabalhei durante pelo menos 6 anos em VEJA; Roberto Pompeu de Toledo, também editor especial de VEJA, com quem trabalhei algum tempo no JT, depois na VEJA, durante pelo menos 5 ou 6 anos, e mais tarde mais uns 2 no JORNAL DO BRASIL; Augusto Nunes, com quem trabalhei em VEJA e, depois, mais proximamente, no JORNAL DO BRASIL e no Estadão; Marcos Sá Correa, hoje editor especial de VEJA, com quem trabalhei, direta ou indiretamente, durante vários anos em VEJA e, especialmente, durante sua brilhante gestão de 6 anos como diretor do JORNAL DO BRASIL -- em quatro anos da qual eu tive o imenso prazer de dirigir a sucursal de São Paulo do Jornal.
Valdir Sanches - Quais são as melhores qualidades e os piores defeitos do reportariado pátrio?
SETTI -- Valdir, eu teria que me estender muito para responder a esta pergunta. E não gosto de generalizar. Então, tirando os não poucos repórteres excepcionais, para quem eu só teria elogios -- sendo você um deles, aliás --, vamos aos demais. Qualidades: entre outras, garra, amor à profissão, dedicação, coragem. Defeitos: excesso de compromissos ideológicos pessoais interferindo no trabalho profissional, falta de preparo técnico, falta de conhecimento dos assuntos específicos que cobrem, poucos recursos de texto. Em comparação a repórteres dos EUA ou Inglaterra, por exemplo, tendência ao que os americanos chamam de pack journalism, o jornalismo de patota, tendência a buscar nas fontes mais opinião do que informação, tendência a cada vez mais esquecer uma tarefa primordial, ancestral e indispensável do repórter: descrever o que viu.
Fico espantado com os repórteres que acompanham o presidente Fernando Henrique em suas viagens internacionais, por exemplo: 90 por cento das matérias só tem declarações, dele ou de outros. Não há uma descrição do contexto, do ambiente, do que outras pessoas falaram ou como reagiram, de incidentes ou fatos acontecidos durante banquetes, recepções, discursos e solenidades -- mesmo quando o presidente visita lugares incríveis, remotos, interessantíssimos, como a Índia. Da Índia, mandam matérias que poderiam perfeitamente estar em A Voz do Brasil. É o jornalismo declaratório.
LMC - Como vê o surgimento recente, no Brasil, de organismos voltados para a crítica da mídia (Observatório de Imprensa, Instituto Gutenberg, SOS Imprensa, entre outros)?
SETTI -- Aplaudo o surgimento desses organismos. Não existe imprensa séria sem o que os anglo-saxões chamam de mídia criticism. Quantos mais aparecerem, melhor.
Denis de Moares - Qual é o feeling que, hoje em dia, orienta a Playboy na definição das mulheres do meio artístico que posarão nuas e serão capas da revista? O marketing em cima das estrelas da mídia estaria substituindo, em certa medida, o potencial de sensualidade?
SETTI -- Procuramos orientar a busca de estrelas pelo que constatamos serem as preferências do leitor -- em cartas, faxes, telefonemas, e-mails e contactos pessoais com leitores. (Para você ter uma idéia do que representa esse contato, Denis, recebemos em PLAYBOY mensalmente cerca de três mil telefonemas, mil cartas e mais mensagens via Internet, faxes etc). Concordo com você na questão do marketing: por vezes, o marketing que promoters, empresários, as próprias estrelas e a mídia em geral fazem em relação a determinadas mulheres as torna atraentes aos olhos do leitor mesmo que elas não sejam sensuais. Tentamos não nos deixar guiar só por isso.
LMC - Quais são os ingredientes básicos que o fazem considerar uma reportagem boa ou ruim?
SETTI -- Eu diria que são os clássicos. Para mim, é boa a reportagem que ouviu as fontes que deveria ouvir, que faz uma boa descrição física de cenário, dos personagens e das cenas (quando couber), que é escrita de forma correta etc -- mas nada disso vale se ela não passar EMOÇÃO, se ela não MOBILIZAR o leitor. (Não falo, aqui, de uso de adjetivos, não. Um bom texto emociona e mobiliza com um mínimo de adjetivos). Há publicações no Brasil que tendem cada vez mais ao texto-relatório, que costumo chamar de texto de bula de remédio, de tão frios e anódinos. Em muitos casos, mesmo que todos os ingredientes de uma boa reportagem estejam lá, a matéria não faz arrepiar os pelos do braço do leitor. Se ela não conseguir isso, se não mexer com ele, para mim não está boa.
Leão Serva - OK, você vai dizer que Playboy é uma revista séria e tal, e que afinal, "tudo é política". Mas todo mundo sabe que ela é 10% de maquiagem séria para 90% de carne pura. Então, quantos porcento de seu lado "analista político" você usa no cotidiano como diretor da Revista?
SETTI-- Caro Leão, acho sua pergunta desnecessariamente agressiva. Não sei se "todo mundo sabe" que a revista é "10 por cento de maquiagem séria" para "90 por cento de carne pura". Parece-me, na verdade, que é você quem acha isso, que é você quem tem preconceito contra a revista.(Até pela deselegante expressão "carne pura" para mulheres lindas, fotografadas por grandes profissionais e com bom gosto). PLAYBOY é séria, sim -- ética, correta, relevante, bem feita -- modéstia à parte. Não concordo, em absoluto, com você, e acho até desrespeitoso para com os profissionais desta redação dizer que são "maquiagem" reportagens como algumas que mencionei nesta entrevista via Internet (como acompanhar os 2.000 soldados brasileiros que tentam manter a paz em Angola, ou o presidente Fernando Henrique Cardoso em suas viagens internacionais, para ficar só em dois entre incontáveis exemplos recentes. Dos exemplos mais antigos, vou ficar com um que me diz pessoalmente respeito: não acho, não, que seja "maquiagem" a reportagem sobre a história secreta do Plano Cruzado com a qual, em passagem anterior por PLAYBOY, recebi o Prêmio Esso de Reportagem de 1986 -- reportagem que apurei, chequei, redigi e fechei sozinho, depois de ouvir 73 fontes, e que recebeu ainda vários outros prêmios de jornalismo.
Quanto ao meu lado analista político -- sem aspas, porque comecei com isso, em Brasília, quando você provavelmente estava ainda no curso primário, tendo mais de 1.000 reportagens e artigos políticos publicados até hoje --, exercito um pouco este meu lado em quase toda edição. No momento em que respondo a suas perguntas, por exemplo, estou trabalhando em outra tela do computador no texto de uma reportagem sobre os bastidores da TV Senado e o impacto que ela teve no comportamento dos senadores e da Casa.
Leão Serva - Como homem casado (é?) ou pelo menos maduro, com relacionamentos mais ou menos estáveis: 1) Como você resiste aos apelos das mulheres de Playboy? Você resiste? Ou eles não ocorrem e isso é um mito? 2) Como sua(s) mulher(es) reagem ao fato de você ser um dos principais administradores de sexo no país? Como ela reage quando você diz que vai ficar até mais tarde na revista "fazendo hora-extra"? Era diferente a reação dela quando você era editor-chefe do Estadão? Ou para as mulheres as duas publicações são iguais?
SETTI -- São muitas perguntas em uma só. Vou tentar resumir, caro Leão. É em grande parte um mito essa questão do "apelo das mulheres de PLAYBOY". Digo "em grande parte" porque, naturalmente, lida-se com mulheres bonitas, desejáveis etc. Mas, a isso, se contrapõem algumas situações pessoais e profissionais: 1) sou um cara bem casado e não tenciono trocar algo que construo há muito tempo por aventuras; 2) sou um jornalista ético, e seria o cúmulo do absurdo se, mesmo solteiro e disponível, eu me utilizasse da função para conquistar mulheres; 3) o fenômeno da valorização, inclusive financeira, da imagem das pessoas faz com que, hoje, boa parte das tratativas de contratos com estrelas (pequenas, médias ou grandes) se dê por meio de agentes e/ou advogados.
Não me considero "um dos principais administradores de sexo do país", mas um jornalista que, circunstancialmente, foi considerado pela empresa para a qual trabalha qualificado do ponto de vista profissional para dirigir uma revista que tem o assunto sexo como integrante de boa parte de seu conteúdo.
Minha mulher, Márcia, que é advogada e gerente jurídica da MTV, é uma pessoa inteligente e experiente. Até por trabalhar em veículo de comunicação, que também lida com estrelas (embora da área da música), ela sabe como são as coisas. Mas, para ser franco com você, Leão, ela não ADORA que eu trabalhe aqui, não. Em boa parte por causa das piadas de gosto duvidoso que é obrigada a ouvir, a comentários e perguntas sobre essa "tentação" que ouve de conhecidos, amigos etc. Mas é claro que ela respeita e valoriza meu trabalho. Ela reage normalmente quando tenho que trabalhar algumas horas mais. Nesse sentido, para ela, não há grandes diferenças das "horas extras" de meus tempos de Estadão, JORNAL DO BRASIL, VEJA ou outros locais onde trabalhei e PLAYBOY.
Leão Serva - Quando editor-chefe do Estadão o jornal viveu uma fase muito collorida, acrítica em relação ao presidente que tinha tomado posse recentemente mas já era claro que estava enfiando a mão na grana pública. Como você avalia aquela fase hoje em dia? Em que medida sua análise política estava errada? Em que medida um editor-chefe do jornal consegue dirigir o jornal ou não o dirige e apenas executa diretrizes dos diretores?
SETTI -- Várias perguntas em uma só, de novo. Vamos por partes. Em primeiro lugar, não sei o que você quer dizer sobre o Estadão ter vivido "uma fase muito collorida, acrítica" em relação a Fernando Collor. Não sei se você se refere às reportagens, aos editoriais do jornal, aos articulistas. Estando lá, como estive, não concordo em que o jornal fosse "collorido". Não tenho que responder pela parte opinativa do Estadão, sobretudo depois de tê-lo deixado, mas o jornal aplaudia boa parte da AGENDA do presidente, sem nunca ter deixado de criticá-lo quando não concordava com suas políticas, suas ações etc. Na cobertura jornalística, o que Collor conseguia era espaço -- e nós sabemos que ele sabia criar situações jornalisticamente atraentes.
Tínhamos indícios, sim, de que havia corrupção no governo, e tentamos levantar isso de todas as formas. Pessoalmente, cheguei a conversar claramente com ministros sobre o que (sem provas) sabíamos, mas não havia, até juridicamente, como publicar (só para situá-lo, saí do Estadão uns cinco ou seis meses antes da entrevista do Pedro Collor à VEJA, que detonou o processo de queda do presidente).
Sobre minha analise política, acho que, sim, certamente cometi erros. Mas, em meus artigos assinados, nunca deixei de criticar Collor quando encontrava razões para isso -- felizmente, está tudo escrito e registrado... Também acho que dávamos espaço adequado para os erros do então presidente e para as críticas contra ele.
Sobre em que medida um editor-chefe consegue dirigir um jornal? Bem, no caso específico do Estadão, eu me reportava ao Augusto Nunes, diretor de Redação, que se reportava ao diretor-responsável, Júlio de Mesquita Neto, com quem eu também lidava diariamente, em despachos pessoais e por telefone. O principal responsável pela condução geral do jornal era o dr. Júlio, que mandava nos editoriais e supervisionava o nosso trabalho, criticando, elogiando, pedindo mais empenho nisso ou naquilo. Mas ele não proibia nada, não tinha áreas ou assuntos tabu, dava enorme liberdade ao Augusto e a mim.
Nós dois não apenas executávamos "diretrizes de diretores", para responder a esta parte de sua pergunta. Mas, evidentemente, eu, pessoalmente, como editor-chefe, enfrentava condicionantes: boa parte do nosso material fora de São Paulo, por exemplo, era proveniente não de apuração feita pelo próprio jornal, mas da Agência Estado. Embora houvesse grande comunicação entre as partes, não controlávamos o noticiário da Agência. Tínhamos uma pequena equipe própria em Brasília, de que faziam parte, entre outros jornalistas, o Luciano Suassuna, atual redator-chefe da IstoE, e o Ricardo Amaral, que continua no Estadão, aliás escrevendo com grande brilho. Mas o grosso do material vinha da Agência, embora com pautas e orientações do jornal.
Em resumo: acho que cometemos, sim, erros, inclusive de avaliação do presidente, mas não muito diferentes do que a esmagadora maioria da imprensa brasileira cometeu na época. Quanto às mudanças que pude ajudar o Augusto a imprimir no jornal, muito me orgulho delas.
Mas isto é assunto vasto demais para eu comentar no âmbito desta resposta.
Leão Serva - Era visível que a revista tinha no Jovem Gui um colaborador de texto incrivelmente superior a nós, mortais comuns. Pergunto: 1) como foi o baque de sua perda para a revista? 2) os profissionais de Playboy costumam se fazer de imunes à sensualidade mas sabemos que Jovem Gui foi um dos maiores papadores de moças bonitas, inteligentes e simpáticas do país (ou do jornalismo do país): em que medida ele foi para Playboy por causa desse lado e em que medida ele tinha esse lado por trabalhar na Playboy?
SETTI -- O baque da perda do Gui foi terrível, começando pelo ponto de vista pessoal. Alguns dos mais veteranos na carreira aqui em PLAYBOY, como o Nirlando Beirão e eu, éramos amigos dele há 26 anos. O Humberto Werneck há uns 20. O Jovem Gui era um príncipe: educado, inteligente, culto, suave no convívio, engraçadíssimo, mas de um humor fino, boa praça, boa pinta. Profissionalmente,sua perda também foi terrível: embora haja outros jornalistas de texto maravilhoso, dentro da revista e no mercado, o Gui tinha uma maneira especialíssima de ver as coisas, inclusive do ponto de vista literal. Numa entrevista com o Emerson Fittipaldi, por exemplo, ele dedicou algumas linhas a uma lagartixa verde que de repente aparece numa janela. Era original, inventivo,desconcertante.
Quanto a questão de ele ter sido um dos “grandes papadores de moças bonitas, inteligentes e simpáticas", como diz você, acho que não foi isso que o atraiu a PLAYBOY. Ele efetivamente foi um devastador de corações, mas tinha um casamento que prezava muitíssimo, uma mulher por quem era apaixonado -- embora nunca perdesse, é claro, o olho comprido para os mulherões que, vez ou outra, vem tratar de assuntos profissionais na redação.
Leão Serva - Que é a capa com que você mais sonha? Qual a entrevista que mais sonha?
SETTI -- Não há apenas uma capa com que sonho, mas várias. Para citar alguns exemplos: Malu Mader, Patrícia Pillar, Vera Fischer, Luana Piovani...
Entrevistas: mesma coisa. Praticamente todo mundo que tem (ou teve, na época) importância no país já falou a PLAYBOY, de Fernando Henrique Cardoso, Roberto Campos, Antônio Carlos Magalhães a Pelé, Ayrton Senna, Sônia Braga, Xuxa ou Vera Fischer, de Gilberto Gil, Chico Buarque, Boni da Globo, Fernando Gabeira, Lula ou Fernanda Montenegro a Jô Soares, Jorge Amado, Delfim Netto, Mário Covas e Marília Gabriela. Do exterior, entre outros, Yasser Arafat, Fidel Castro, Mario Vargas Llosa, Gabriel Garcia Marquez, Cindy Crawford... Mas gostaria de ter um presidente da República em exercício falando para a revista. E também alguns personagens até hoje empedernidos em sua recusa de falar a PLAYBOY, como o empresário e apresentador de TV Sílvio Santos.
Leão Serva - Qual foi o momento mais perto que chegou de uma musa de Playboy? Você acompanha as produções para "controle de qualidade"?
SETTI -- Não entendi direito a primeira parte da pergunta. Chegar perto de musas de PLAYBOY? Chegar perto das vias de fato, nunca, pelas razões expostas em pergunta anterior. Mas conheço muitas pessoalmente, por força até da função que exerço na revista. E já tratei pessoalmente com muitas grandes estrelas que ainda não assinaram contrato.
Não acompanho as produções na hora de fazer as fotos, embora coordene a discussão da pauta dos ensaios. Se o fizesse, seria, sim, para controle de qualidade, sem aspas.
Fausto Macedo - Por que a mídia brasileira é tão complacente com o Poder Judiciário?
SETTI -- Caro Fausto, fico feliz com sua pergunta, porque ela mostra que existem (ainda que poucos) jornalistas preocupados com este problema, que julgo gravíssimo. O Poder Judiciário é talvez o que mais encerre problemas, o que mais afete a vida da população com suas mazelas, o que mais tenha corrupção dentro de seus quadros -- e, também, o que mais sai impune no dia-a-dia da mídia.
Por que a complacência? Não sei a resposta exata, mas me parece ser uma mistura de circunstâncias, situações e posturas. Inicialmente, há, sem dúvida, um certo temor reverencial diante de um Poder objeto de mitificação desde, literalmente, séculos -- desde pelo menos o Império Romano. Some-se a isso o fato de que o Judiciário é, de longe, o mais fechado dos Poderes ao trabalho da imprensa.
Essa postura, em boa proporção, é real ou espertamente escorada na lei (os "segredos de Justiça", os direitos das partes etc). Não se pode esquecer, também, o enorme corporativismo que cerca o Judiciário, num pacote de atitudes que envolve não apenas juizes e funcionários, mas também muitos integrantes do Ministério Publico e advogados. (Você sabe disso melhor do que eu. Qualquer advogado do país não ignora o quanto se paga de suborno a vários tipos de funcionários em inúmeras repartições da Justiça para processos andarem, pararem de andar e até sumirem. Tente, porém, obter de uma só fonte um depoimento, um caso, uma acusação, uma prova...) Depois, existe um temor (mesmo que pouco explícito ou pouco consciente) do efetivo poder de que o Judiciário dispõe -- trata-se, afinal, numa democracia, do Poder do Estado que realmente tem a prerrogativa de prender, julgar, condenar, confiscar... Isto não é pouco.
É por isso, caro Fausto, que eu, modestamente, ao longo de minha vida profissional, em artigos e palestras, tenha muitas vezes defendido o Legislativo. Com todos os seus erros, mazelas e problemas, é o mais aberto, o mais transparente e o mais desarmado dos poderes -- e é por isso que é o Poder corajosamente mais investigado, criticado e atacado pela imprensa.
Fernando Mitre - Caro Setti, a meu ver o maior problema do dia a dia do jornalista é a constante relação com o perigo da distorção. Penso que a credibilidade do jornalista está na sua capacidade de vencer esta ameaça, que às vezes também é uma tentação. Como você administra esse perigo como diretor de redação de Playboy?
SETTI -- Da mesma forma como você certamente administra nas redações que comandou e comanda, Mitre. Ao falar de distorção, estamos, é claro, falando de ética.
O pessoal da Universidade de Navarra tem uma sacada muito interessante sobre o que é, fundamentalmente, ética na imprensa. Eles aproximam ética da técnica. Partem do pressuposto de que uma matéria bem feita do ponto de vista técnico é, necessariamente, uma matéria correta do ponto de vista ético.
Ou seja, para uma matéria ser tecnicamente boa, ela precisa não ser feita de forma preconceituosa, estar o máximo possível isenta de viés ideológico, as diferentes partes envolvidas precisam ter sido ouvidas, a correção das informações checada, ter sido escrita com isenção etc. Se ela atender a esses requisitos jornalísticos de uma boa matéria, estará sendo ética, ou pelo menos tem uma chance imensamente maior de ser eticamente correta do que uma matéria que não atendeu.
O que tento fazer, com minha equipe, é ter a máxima atenção a todos os princípios éticos (e técnicos) na feitura das matérias -- pautar, discutir, questionar, analisar, em equipe, as idéias, e depois examinar com cuidado o resultado delas.
Mas não é um problema que se revolva apertando um botão. É necessário uma luta diária, uma atenção permanente para evitar as distorções. Mesmo assim,como você sabe, elas ocorrem.
Claudio Julio Tognolli - As pessoas confundem jornalismo investigativo com o ato de copiar papéis oficiais de difícil acesso ou mantidos em sigilo de justiça. Outros acham que jornalismo investigativo é quando o repórter faz o papel de ator, vivendo determinados personagens. O que é jornalismo investigativo para você?
SETTI -- Concordo, basicamente, com a assertiva da sua pergunta. Não necessariamente "as pessoas", mas muitos de nós, jornalistas, confundem mesmo o jornalismo investigativo com a revelação de papéis oficiais de difícil acesso ou com a interpretação de papéis. (Basta, no segundo caso, ver o que fazem muitos jornalistas em casos "espetaculares" na televisão).
Não gosto, como jornalista, dessa tendência de o jornalista desempenhar papéis. Quanto aos documentos, é claro que a prática do jornalismo investigativo pode, e às vezes deve, incluir a revelação de documentos mantidos sob sigilo pela máquina do Estado. Mas ano se esgota nisso. Jornalismo investigativo significa pesquisar documentos, entrevistar testemunhas, protagonistas e técnicos no assunto que está sendo apurado, digerir relatórios, ir atrás de fiapos de indícios, ter coragem, ter persistência, ter uma paciência infinita.
Uma palavrinha final sobre a questão da revelação
de documentos sigilosos oriundos do ventre do Estado: precisamos ter cuidado
com eles. Não devemos nos esquecer, nesse caso, de que muitas vezes,
no Brasil, o vazamento desse tipo de documento visa a propósitos
corporativos deste ou daquele setor do funcionalismo do Estado, e não
necessariamente ao interesse do nosso leitor. É preciso evitar fazer
o jogo deste ou daquele grupo de pressão ou de interesse.