e n t r e v i s t a
LUIZ RUFFATO
Secretário de redação
do Jornal da Tarde e escritor,
recém-premiado com Menção
Especial do
Prêmio
Casa de Las Americas
pelo livro "(os sobreviventes)"
Leia o prefácio e trechos de (os sobreviventes)
Leia
A danação, do livro Histórias de remorsos
e rancores
PERFIL RÁPIDO
Nasci
em Cataguases, pequena cidade industrial (têxteis e metalurgia) situada
na Zona da Mata de Minas Gerais, em 4 de fevereiro de 1961, filho do pipoqueiro
Sebastião Cândido de Souza e da lavadeira Geni Ruffato de
Souza. Em minha cidade, trabalhei como pipoqueiro, caixeiro de botequim,
balconista de armarinho, operário têxtil.
Em
1977, me formei em tornearia-mecânica no Senai. Em 1978, migrei para
Juiz de Fora, onde trabalhei como torneiro-mecânico. Em 1979, entrei
para o curso de Comunicação Social da Universidade Federal
de Juiz de Fora, onde me formei em 1981. Até meados de 1983, trabalhei
no extinto Diário Mercantil, do grupo Diários Associados.
Em 1984, mudei para Alfenas (sul de Minas Gerais), onde fui editor do
Jornal dos Lagos e professor de Literatura Brasileira na Faculdade de
Letras da Universidade de Alfenas. Em 1985, de volta a Juiz de Fora, fui
trabalhar na Tribuna de Minas. Em 1986 já estava em São
Paulo, onde fui pauteiro da TVS (hoje SBT), repórter
e redator da extinta revista Afinal, até me incorporar à
equipe do Confira o Seu Dinheiro, coordenada pelo Celso Ming, no
Jornal da Tarde. Em meados de 1987, voltei para Juiz de Fora e abri
uma assessoria de imprensa. Em 1988, falido, fui vender livros de porta
em porta. O ano de 1989 e parte do ano seguinte passei-os gerenciando uma
lanchonete. Em setembro de 1990, voltei definitivamente para São
Paulo e para o Jornal da Tarde, onde estou ainda hoje.
Publiquei
os sequintes livros:
Poesia:
“O Homem que Tece”. Juiz de
Fora, Roseta Publicações, 1979
“Cotidiano do Medo”. Alfenas,
Mandi Edições, 1984
“Quatro Poetas Não Alinhados”
– com José Henrique da Cruz, João Batista Mota e Patrícia
Borges. Juiz de Fora, Roseta Publicações, 1980.
Prosa de ficção:
“Histórias de Remorsos
e Rancores”. São Paulo, Boitempo Editorial, 1998.
“(os sobreviventes)”. São
Paulo, Boitempo Editorial, 2000 (Prêmio Casa de las Américas
– Menção Especial – 2001)
“Novos Contistas Mineiros”.
Porto Alegre, Mercado Aberto, 1986
A ENTREVISTA
Perguntas de Luiz Maklouf Carvalho
e Valdir Sanches,
respondidas por e-mail em 1/3/2001
Como recebeu a menção especial do prêmio Casa de las Americas ao seu livro (os sobreviventes)? Qual o significado dessa premiação para a sua carreira de escritor?
Foi engraçado porque um amigo meu, o também escritor Fernando Cesário, me ligou parabenizando pelo prêmio, no domingo, 11 de fevereiro, pela manhã. Eu respondi, entre surpreso e desconfiado: “Mas que prêmio, Fernando?, tô sabendo de nada não...” Aí ele me contou que tinha lido num jornal de Minas, o Hoje em Dia, uma entrevista de uma das juradas, a Ângela Leite de Souza (os outros foram Fernando Morais e Sérgio Sant’Anna, e os cubanos Raúl Roa e Carlo Martí), que falava entusiasmada do meu livro. Aí foi uma caça ao jornal, ao site do Prêmio Casa de las Américas, à Ivana Jinkings, minha editora, pra ver se confirmávamos a informação, o que ocorreu ali pelas dez da noite... Além da alegria por ter sido destacado com uma menção especial entre 327 títulos publicados, de todos os gêneros, no Brasil nos anos de 1998, 1999 e 2000, o prêmio é um incentivo a continuar trilhando o caminho da literatura, uma escolha onde tudo conspira contra.
Você foi, pela ordem, pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, jornalista, sócio de assessoria de imprensa, gerente de lanchonete, vendedor de livros autônomo e novamente jornalista. Com quantos anos começou a trabalhar? Como é que eram o pipoqueiro e o operário Rufato – e as demais profissões?
As primeiras lembranças que tenho são de à tarde, após as aulas no Grupo Escolar Flávia Dutra, na Vila Teresa (estou em Cataguases, agora), eu sentado no chão, perto do carrinho de pipoca do meu pai na Avenida Astolfo Dutra. Não sei quantos anos eu tinha. Ali pelos seis anos, com certeza, eu já tomava conta, sozinho, de um dos dois carrinhos que meu pai então possuía. Um, por conta dele, estacionava em frente às escolas, na hora da saída da turma da manhã e entrada da turma da tarde. O outro, por minha conta, toda tarde, na Praça Santa Rita. À noite, com a missa das sete e o movimento, ele assumia e eu ia embora pra casa. Daí pra frente, só me vejo trabalhando. Seja de caixeiro num botequim freqüentado por operários e prostitutas; seja num armarinho, no centro; seja na Companhia Manufatora Mineira de Tecidos de Algodão, meu primeiro emprego com carteira-assinada, aos 15 anos. Nessa empresa, eu trabalhava no setor de algodão hidrófilo – o algodão comum, usado no dia a dia, de marca Apolo – e tive um problema de alergia (acredito hoje que fosse alergia) que quase deformou minha mão. Saí, fui fazer um curso especial de tornearia-mecânica no Senai, pra ter uma profissão decente e poder migrar pra São Paulo, sonho e fim de todo menino pobre que aspirasse ser alguém na vida.
Como, por que, quando e onde optou pelo jornalismo? Faria a mesma opção nos dias de hoje?
Pois é,
só que, ao invés de tomar o caminho de São Paulo,
logo após me formar no Senai, desguiei e fui parar em Juiz de Fora.
E aí encontra-se a origem e a raiz da minha “opção”
pelo jornalismo.
No dia
31 de dezembro de 1977 estávamos eu, Jorginho e Taioba, recém-formados
em tornearia-mecânica, sentados na Praça Rui Barbosa, sem
saber o que fazer com a nossa adolescência. Aí, o Jorginho
sugeriu, e nós topamos na hora, ir pra Juiz de Fora, onde poderíamos
terminar nossos estudos (eu tinha concluído o segundo ano de Contabilidade,
concomitante com o curso no Senai) e trabalhar. Fizemos um pacto e no dia
6 ou 7 de janeiro (com certeza foi na primeira semana de 1978) pegamos
um ônibus e desembarcamos na “cidade-grande” (Nessa época,
com 16 anos, quase 17, eu conhecia quatro cidades: Cataguases, Dona Eusébia,
Rodeiro e Ubá, ou seja, meu raio de ação, minha visão
de mundo, estava limitada a 80 quilômetros de Cataguases). Assim
que pusemos os pés em Juiz de Fora, deixamos nossas bolsas no bagageiro
da rodoviária e saímos a procurar emprego. Os três
juntos! E não é que, no final da tarde, estávamos
todos empregados!
O segundo passo foi nos matricularmos num colégio que oferecesse o 3º ano integrado (ou seja, que trouxesse embutido o cursinho pré-vestibular). Como precisávamos definir qual a área, das três grandes (Humanas, Biológicas e Exatas), que iríamos seguir, fiquei ouvindo a opção do Jorginho, que estava à minha frente na fila. Ele disse: “Humanas, porque vou fazer Comunicação” (ele tinha amigos mais velhos que liam o Pasquim!). Quando chegou a minha vez, repeti, papagaiamente: “Humanas”. O Taioba, que vinha depois de mim, disse: “Biológicas, porque vou fazer Medicina”. E eu bati a mão na testa, pensei, “Merda, é mesmo, podia ter feito isso também!” Bom, o tempo passou (não muito, uns três meses) e o Jorginho e o Taioba não agüentaram a barra: comíamos apenas uma vez por dia, dormíamos nos fundos da “metalúrgica” onde trabalhávamos, e, o pior, estávamos longe de casa, da família, dos amigos. Eles voltaram pra Cataguases e fizeram suas vidas: o Jorginho é funcionário do Banco do Brasil e o Taioba, da Companhia Força e Luz Cataguases-Leopoldina. E eu fiquei em Juiz de Fora, não por tenacidade, mas por “comodismo”: já que estava ali, fui ficando. Minha vida não melhorou em nada: de dia, trabalhava com torno e com solda, à noite estudava, continuava comendo mal, dormindo mal, não conhecia ninguém (ninguém mesmo!, não tinha tempo pra isso). Em maio daquele ano, ainda morreu meu irmão mais velho, meu guru, com 26 anos, e me senti mais sozinho no mundo. Pensei: bom, agora... Quando vi, o fim do ano tinha chegado, me disseram no cursinho que era a hora de fazer inscrição pro vestibular, me perguntaram o que eu ia fazer, me lembrei lá do início do ano, do Jorginho, bom, vamos lá, pensei, “Comunicação”, e marquei um xis no local indicado. E eu, que fui aluno de escolas de baixíssimo padrão em Cataguases, que estudava à noite, cansado, acabei passando em 1º lugar em Comunicação e fiquei entre os melhores colocados no vestibular geral da Universidade Federal de Juiz de Fora no ano de 1979! Foi assim que “optei” pela Comunicação.
Qual foi a sua primeira experiência na carreira – que funções exerceu e como ela evoluiu?
Minha primeira
experiência no Jornalismo foi extravagante. Em 1980, no começo
do segundo ano de Comunicação, fui procurar emprego, porque
eu tinha que me sustentar em Juiz de Fora (em 1979, devido ao dinheiro
do crédito educativo, consegui me manter na “vagabundagem” durante
um ano inteiro! Mas, em 1980, devido ao congelamento do valor do crédito
educativo e à inflação, a “festa” acabou). Bom, arrumei
emprego de repórter no extinto Diário Mercantil, uma
das empresas do grupo Diários Associados, que naquela época
havia perdido quase toda a sua redação para o recém-fundado
Tribuna de Minas. Como todos os “cobras” do jornalismo juizforano
tinham migrado, minha carreira no Diário Mercantil foi fulminante:
de repórter iniciante a editor de Cidade, em seis meses. Como não
havia quase ninguém pra nos ensinar, tínhamos que aprender
sozinhos e fazendo um produto de boa qualidade, porque o Diário
Mercantil ainda era o jornal da elite de Juiz de Fora. Passávamos
14, 15 horas dentro da redação, fazendo de tudo e, pior,
sem receber salário! De vez em quando soltavam um vale... O Diário
Mercantil resistiu, aos trancos e barrancos, até 1983. Mas,
em meados daquele ano, eu havia liderado uma paralisação
da redação, porque não recebíamos mais nem
vales, e devido ao fato de eu ser editor (já não me lembro
mais de que setor, foram tantos) fui demitido. E, caramba, nessa época,
eu estava casado com minha primeira mulher, tinha meu filho, o Filipe,
pra sustentar... Passei uns seis meses no maior sufoco, até que
em setembro ou outubro o jornal definitivamente foi fechado.
Em janeiro
de 1984, fui convidado pra organizar um jornal em Alfenas, interior de
Minas, o Jornal dos Lagos, que existe ainda, de um empresário
da área de educação. Lá, novamente, fiz de
tudo um pouco. Em 1985, estava de volta a Juiz de Fora, agora trabalhando
como redator de Economia na Tribuna de Minas. Em 1986, incentivado
pela minha atual mulher, Cecília, vim pra São Paulo, “tentar
a vida”, acabei arrumando emprego no SBT (fui o primeiro pauteiro
do recém-criado departamento de jornalismo do que, à época,
se chamava TVS), enquanto frilava na revista Afinal (que
já estava em seus extertores), graças ao Gabriel “Gabi” Manzano
Filho. Depois, fui trabalhar no Jornal da Tarde, pelas mãos
do Celso Ming e da Regina Pitoscia. Mas, achei que essa experiência
já seria suficiente pra “matar a pau” em Minas. Em meados de 1987
estava de volta a Juiz de Fora. Abrimos uma empresa de comunicação
(eu e a Cecília, que também é jornalista) e um sócio,
cujo nome quero esquecer. Fizemos uns contatos e uns meses depois achamos
que estávamos ganhando dinheiro, quando começaram a chegar
as contas pra pagar... Resumo: quebramos em oito meses. E pra não
deixar dívidas na praça, arcamos sozinho, eu e a Cecília,
com os prejuízos. Fui vender livros de porta em porta pra cobrir
os papagaios e sustentar a família (“emprego”, aliás, que
devo-o a um amigo, biólogo, Felipe Ponce de León da Costa,
que me ajudou muito naquele momento). Depois, assumi a gerência de
uma lanchonete, na época a melhor da cidade, que pertencia ao meu
sogro. Em 1990, vi que não dava mais pra ir levando a vida daquela
maneira e voltei pra São Paulo onde fui novamente recepcionado pela
Regina Pitoscia e pelo Celso Ming, no Jornal da Tarde. No começo
de 1991 já era redator de Política e daí fui subeditor,
editor, coordenador de Política e Economia, até ser convidado
pelo então diretor de Redação, Fernando Mitre, para
ser secretário de Redação, cargo que ocupo ainda hoje.
Em que momento a paralela com a literatura aconteceu – e como? Com prosa ou poesia? Quanto tempo passou até você pegar a coisa à unha?
Eu comecei
fazendo poesia. Em 1979, um amigo meu, o jornalista e poeta José
Henrique “Mutum” da Cruz, editou um livrinho meu, do qual me orgulho muito,
intitulado “O Homem que Tece”, germe e núcleo do trabalho de ficção
que faria 19 anos depois. Tínhamos um grupo em Juiz de Fora, reunido
em torno do José Santos Matos (diretor do importantíssimo
Museu da Pessoa, aqui de São Paulo) e do “Mutum”, responsável
pelo nascimento de várias vocações literárias
importantes, como, além dos dois citados, os poetas Iacyr Anderson
Freitas e Julio Polidoro, o também poeta e ensaísta Edimílson
Almeida Pereira, o contista e poeta Fernando Fábio Fiorese Furtado.
Em 1982, participei, junto com o “Mutum”, João Batista Mota e Patrícia
Borges – hoje radicada na Alemanha -, da coletânea “Quatro Poetas
Não-Alinhados”. E em 1984, já em Alfenas, lancei um novo
livro de poemas, “Cotidiano do Medo”. Nessa época, publicava poemas,
contos e resenhas em jornais do Brasil inteiro (a década de 80 foi,
nesse sentido, um espetáculo, digno de merecer atenção
dos estudiosos: as idéias circulavam via correio, parecia que o
mundo inteiro escrevia, em cada canto do país e do mundo havia um
jornal, uma revista...) Bom, para completar minha vida pregressa, em 1986
participei de uma antologia de contos, “Novos Contistas Mineiros”, publicado
pela Editora Mercado Aberto, de Porto Alegre. A partir daí, abandonei
a literatura: foi um período muito conturbado na minha vida pessoal,
mudanças de cidade, de profissão, a luta pela sobrevivência,
não tinha cabeça... Mas, eu nunca abandonei a idéia
de que ia voltar a escrever. Em 1995 senti que estava na hora de retomar
o que considero minha verdadeira vocação. Passei aquele ano
e 1996 escrevendo e reescrevendo o livro que é a
minha estréia na literatura,
o “Histórias de Remorsos e Rancores”. Aliás, o Natal e a
passagem de ano de 1996 para 1997 passei retocando as histórias
que compõem esse livro. O ano de 1997 foi de procura de uma editora.
Nesse intervalo, não escrevi uma linha sequer a mais. Escrever é
muito difícil, impede que tenhamos uma vida social normal, porque
a solidão é inerente à criação literária.
Então, decidi: se conseguir editora, volto pro computador. Se não
conseguir, encaro a verdade: não sirvo pra isso. E esqueço.
Mas aí algumas editoras se interessaram, optei pela Boitempo Editorial
(que me proporcionou a conquista de uma amizade com uma pessoa maravilhosa,
a editora Ivana Jinkings) e então me sentei novamente no computador
pra escrever o segundo livro, “(os sobreviventes)”, esse que acabou ganhando
o Prêmio Casa de las Américas.
Seu primeiro livro, “Histórias de remorsos e rancores” foi lançado em 1998 – com aplausos da crítica. Como é que o livro nasceu?
Bom, eu nunca tive dúvida sobre o que seria minha literatura: o meu tema estava claro já no livro de poemas “O Homem que Tece”, de 1979. Eu queria traçar um painel da vida proletária sob a ditadura militar, histórias que se passassem nas décadas de 60 e 70, em Cataguases. É uma opção até comodista, pois trata-se de uma realidade por mim bastante conhecida. E, detalhe: eu estava (ainda estou) encharcado pela literatura da década de 70, por uma razão muito simples: como eu não tinha dinheiro pra freqüentar livrarias, freqüentava sebos. E o que eu comprava eram os livros “usados”, sempre mais ou menos cinco, dez anos atrasados em relação aos lançamentos. Então, acompanhei “de perto” a “evolução” das revistas Escrita, Ficção, José e Inéditos, que não são da minha geração, como se fosse da minha geração (orgulhosamente, tenho a coleção quase completa de todas elas). Bom, e essa literatura estava eivada de preocupações sociais e formais. Então, me considero um autor que estreou tarde (com 37 anos!) e dialogando não com a geração imediatamente anterior, a de 80, mas com a geração de 70 (Ivan Angelo, Antônio Torres, Ignácio de Loyola Brandão, Sérgio Sant’Anna)... Então, o livro é um cruzamento das lembranças e fantasias da minha infância com as leituras dos autores da década de 70.
E "(os sobreviventes)", agora premiado em Cuba?
“(os sobreviventes)” é apenas uma decorrência natural do “Histórias de Remorsos e Rancores”. Minha pretensão é traçar um amplo painel da vida proletária brasileira sob a ditadura militar em vários volumes. De tal maneira que, no final, as histórias isoladas (como são lidas hoje em ambos os livros) se fechem num grande mosaico, formando um largo romance...
Como é que administra o dia-a-dia da redação do JT, com a literatura e vida pessoal? Como consegue tempo para escrever?
Bom, tempo pra escrever eu não tenho. Além de passar 10, 12 horas dentro da redação, ainda tenho que dar atenção à família, aos amigos... O que eu faço é dedicar todas as brechas em agenda que tenho pra sentar no computador e escrever. Férias, folgas... mas, claro, tudo isso tem um preço e o preço é a quase total ausência de vida social, o quase total esgotamento físico...
Você já ocupou vários postos na redação do JT – de editor de política a membro da Secretaria de Redação, o famoso "Mesão", cargo que ocupa agora. Quais são as suas tarefas específicas na pauleira diária?
Meu papel no Jornal da Tarde é administrar a produção editorial, fazendo apostas em prioridades, orientando a edição.
O que há de pior e de melhor em um repórter – para um editor?
Sempre achei (embora quase ninguém mais ache) que um excelente repórter não é necessariamente um bom redator. Às vezes, você tem um repórter que apura maravilhosamente bem, que sabe até colocar o que foi apurado no “papel”, mas escreve mal, é burocrático, etc. No esquema da moderna produção de jornal, isso não é mais possível. O repórter tem que saber apurar, escrever, redigir, editar... O que, pra mim, é uma incongruência. Estamos a perder o “repórter” sem ganhar na qualidade do texto. Sou pela divisão de tarefas.
Quem fez (ou faz) a sua cabeça, no melhor sentido da expressão – no jornalismo e na literatura?
A minha relação com o jornalismo é de extrema praticidade. Portanto, quem fez minha cabeça, em geral, foram profissionais que me chefiaram ao longo da vida ou com quem dividi minhas dúvidas. Cito, em primeiro lugar, Carlos Henrique Angelo (o “Grande”), meu primeiro chefe, no Diário Mercantil, que nem sei mais por onde anda. Me deu uns toques, uns esporros, me ensinou muito de jornalismo e de vida. Em seguida, tenho uma grande dívida para com o já citado Gabriel Manzano Filho, o “Gabi”, que na Afinal me ajudou a pôr um pé em São Paulo, profissionalmente falando. Quem me ajudou a pôr o outro pé em São Paulo foram o Celso Ming, também responsável pelo meu nome de guerra, e a Regina Pitoscia, grande colega e amiga excepcional. Ainda tenho dívidas com o Márcio Chaer, com o Ari Schneider, com o Marco Antônio Antunes. Outros nomes que destaco são o de Fernando Mitre, que me proporcionou um período de intenso aprendizado na convivência diária, Ricardo Melo, grande profissional e ser humano, e Celso Kinjô, a quem a cada dia admiro mais. Não poderia deixar de citar ainda os nomes de Valdir Sanches e Marinês Campos, hoje os melhores textos do jornalismo diário brasileiro.
Quais são os seus autores prediletos – e o que vê de melhor de cada um?
Eu sempre releio alguns, então cito-os como meus preferidos: brasileiros, Machado de Assis e Guimarães Rosa; estrangeiros, William Faulkner, Luigi Pirandello, Anton Tchekov.
Qual é o seu método de trabalho ao escrever literatura?
Eu fico ruminando durante certo tempo uma história, depois sento-me, escrevo-a inteira à mão e, como minha letra é ilegível (até pra mim mesmo), quando vou pro computador tento adivinhar o que está escrito ali e já é outra história. Depois, imprimo e reimprimo quantas vezes forem necessárias para reescrevê-la à mão (não “consigo” ler diretamente no computador). Somente após várias e várias versões (quando já me causa náuseas continuar lendo o texto), dou o trabalho por findo.
O que vai mal no jornalismo brasileiro? E o que vai bem?
Acho que o jornalismo investigativo avançou muito. Profissionais de outras gerações influenciaram o surgimento de novos valores nesse campo. Agora, com as novas tecnologias, o que vai muito mal no jornalismo brasileiro é a língua. Acho que nunca a língua foi tão mal tratada nos jornais e revistas quanto agora. Ninguém mais sabe manejar a língua, inclusive porque os jornalistas lêem cada vez menos...
Em que escola enquadraria a literatura que produz – seria a “mineira”, ou não tem essa de escola?
Acho que não há uma “escola mineira” de literatura. Aliás, Minas Gerais não existe, é um mito, como o são o saci-pererê, a mula-sem-cabeça, o curupira...
A quantas anda a nova literatura brasileira? Quem você apontaria entre os bons, na poesia e na prosa?
A prosa
de ficção brasileira está iniciando uma fase áurea,
que tem paralelos, na minha opinião, apenas no momento sublime vivido
nos anos 70. Assim, mesmo sabendo do risco de não me lembrar de
algum nome importante, vou citando Nelson de Oliveira, Marçal Aquino,
Evandro Affonso Ferreira, Marcelino Freire, Marcelo Mirisola, Cláudio
Galperin, Ricardo Lísias, Menalton Braff, Hugo Almeida, João
Anziello Carrascoza, Bernardo Ajzenberg, Fernanda Benevides de Carvalho,
Fernando Cesário.
Na poesia,
que acompanho menos de perto, cito alguns nomes que considero importantes,
como Iacyr Anderson Freitas, Donizete Galvão, Eloésio Paulo,
Sérgio Alcides, Luiz Roberto Guedes, Ronaldo Cagiano.
O jornalismo ajuda ou atrapalha a literatura?
O jornalismo que se pratica hoje mais atrapalha que ajuda. É o domínio da técnica. Um candidato a jornalista hoje não precisa ter lido nada para ser um profissional de sucesso. Nem ter “estilo”. Basta saber encadear lide, sublide, corpo da matéria e desfecho e ter um mínimo de curiosidade. Eu recomendaria a um candidato a escritor: fuja do jornalismo!
Quais são os seus próximos projetos literários?
Estou escrevendo um romance, “Eles eram muitos cavalos”, que é um olhar estrangeiro sobre a cidade de São Paulo. Mas, estou fazendo isso apenas para tomar um fôlego e voltar ao universo dos dois primeiros livros. Tenho que terminar meu painel iniciado com o “Histórias de Remorsos e Rancores” e continuada no “(os sobreviventes)”.
Quais são os seus dez livros de cabeceira?
1 - Bíblia.
2 - Uma
boa coletânea de contos de Luigi Pirandello
3 - Uma
boa coletânea de contos de Anton Tchekov
4 - Uma
boa coletânea de contos de Machado de Assis
5 - Sagarana,
de Guimarães Rosa
6 - O
Som e a Fúria, de William Faulkner
7 - Ilusões
Perdidas, de Honoré de Balzac
8 - O
Vermelho e o Negro, de Stendhal
9 - Dom
Quixote, de Miguel de Cervantes
10 - História
da Literatura Ocidental, de Otto Maria Carpeaux
E, sempre, alguma coletânea de poemas.
E os melhores filmes sobre jornalismo/jornalistas que você já assistiu?
Bom, prefiro me arriscar mais na minha área jornalismo-literatura. Eu recomendaria a todo jornalista (mas, principalmente, a todo candidato a jornalista) que lesse “Ilusões Perdidas”, de Honoré de Balzac, e “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, de Lima Barreto. Uma experiência francesa, outra brasileira. A tecnologia não conseguiu mudar os hábitos...
Como você compatibiliza sua atuação como secretário de redação do JT -- pauta de rebeliões, escândalos políticos, assassinatos -- com o trabalho de criação tão sensível mostrado em seus livros?
Mas o que
é a literatura senão a transfiguração da realidade?
Tristemente, constato, esse é o meu país, é isso que
me rodeia, é isso que tenho que combater. E, quando me sento pra
escrever, essa realidade fica colada na parede pra não deixar me
esquecer que sou, antes de escritor, um cidadão brasileiro com responsabilidades
e compromissos. E que minha literatura deve refletir sobre isso.
O que
você achou do livro do Percival de Souza sobre o Fleury?
Considero todo o trabalho do Percival de Souza, com quem tive o prazer de conviver na redação do Jornal da Tarde, um resgate sério e competente de um período ainda pouco conhecido da história brasileira recente. E mérito maior tem ele de, vestindo a capa do repórter à moda antiga, não se limitar aos fatos superficiais, mas debruçar-se sobre documentos inéditos e depoimentos idem pra recompor a História. Todo pesquisador sério da História Contemporânea Brasileira tem de ler o Percival, concordando ou discordando dele. (Aliás, o Percival tem um trabalho sobre o Euclides da Cunha que, quando vier à luz, dará um novo rumo aos estudos sobre o autor até agora realizados!)
Um escritor
brasileiro, como você, mesmo premiado, tem condições
de atirar tudo para o ar -- emprego, salário garantido -- e dedicar-se
só à literatura?
Na década
de 70, a editora Ática tinha uma coleção, Autores
Brasileiros, coordenada pelo Jiro Takahashi, se não me engano, que
tinha tiragens fantásticas. Me lembro que o Essa Terra, do Antônio
Torres – uma pequena obra-prima da literatura brasileira – saiu com uma
tiragem de 30 mil exemplares! E a média da coleção
era de 5 mil exemplares! Bom, o tempo passou, a população
brasileira quase duplicou, e as tiragens iniciais de autores brasileiros
- estou falando de literatura! – amargam e patinam nos 2 mil exemplares.
Quem compra literatura brasileira contemporânea? Quem conhece a nova
geração de escritores brasileiros que citei acima?
Você
acha que restarão interessados em literatura -- leitores de livros
-- na próxima década? O escritor de romance, conto, poesia
tem chance de sobrevivência, diante do desmoronamento dos costumes
culturais?
Sempre haverá loucos que se interessarão pela literatura, seja como leitores, seja como escritores. Na Alta Idade Média, com um índice de analfabetismo elevadíssimo(na verdade, praticamente só os padres e alguns nobres ainda sabiam ler e escrever), havia quem lesse, havia quem escrevesse...
Se tudo ruísse, você escreveria um livro de auto-ajuda?
Pra mim,
todo livro é de auto-ajuda...