e n t r e v i s t a
RUBENS
VALENTE
SOARES
Repórter da "Folha de S. Paulo", premiado
com o 'Cláudio Abramo' 2000 e o Esso 2001
PERFIL RÁPIDO
33 anos, 14 de profissão.
Formado em jornalismo na Universidade Federal de Mato
Grosso do Sul.
Experiência: repórter nos jornais "Diário
da Serra" e "Correio do Estado" de Campo Grande (MS), "Folha do Estado"
e "Diário de Cuiabá" de Cuiabá (MT), repórter
da Agência Folha em Campo Grande, repórter da sucursal de
"O Globo" em São Paulo e desde julho de 2001 repórter da
"Folha de S. Paulo". Tive passagens de dois meses na sucursal do "Jornal
do Brasil" em SP e na revista "Veja".
Em 98, recebi o prêmio "Marçal de Souza"
de Direitos Humanos de MS; em 2000, prêmio Cláudio Abramo
de jornalismo, em parceria com colegas Chico Otávio e Vannildo Mendes;
em 2001, prêmio Esso de reportagem em parceria com o jornalista Chico
Otávio. Em 2002, fomos finalistas (eu e o colega Eduardo Scolese,
da Agência Folha) do prêmio Esso de reportagem e do prêmio
Líbero Badaró.
A ENTREVISTA
Perguntas de Luiz Maklouf via e-mail,
respondidas em 3/2/2003
Você foi finalista do Prêmio Esso 2003 com a reportagem sobre fraudes nos balanços da reforma agrária, com o Eduardo Scolese, da Agência Folha. Como é que a reportagem foi feita - da pauta ao texto - e até que ponto resistiu e ainda resiste aos desmentidos oficiais?
A reportagem nasceu de uma conversa
entre eu e Scolese. Nós tínhamos apenas a "pequena" dúvida
de saber onde estavam os assentamentos que o governo dizia ter feito. Como
repórter, eu tinha estado em vários assentamentos e acampamentos
de sem-terra em Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Rondônia na década
de 90 e não conseguia enxergar a tal revolucionária reforma
agrária do governo Fernando Henrique.
Passamos uns quatro meses nessa
reportagem, sem parar o nosso trabalho normal - uns dois meses só
na pré-pauta. Buscávamos todo tipo de estudo sobre os números
do governo. Cobrávamos do Ministério do Desenvolvimento Agrário
os balanços detalhados. Não queríamos aquilo que eles,
ano após ano, apresentavam à imprensa em Brasília
(e que imediatamente viravam bombásticas manchetes no dia seguinte),
meros gráficos coloridos em Excell - o antigo governo chamava isso
de "balanço". Nós queríamos um balanço de verdade,
que contivesse a exata localização dos assentamentos, município
por município, e o número e os nomes dos assentados.
Nossas dúvidas ficaram
bem sérias a partir do momento em que os dados dos Incras regionais
passaram a não bater com os do MDA em Brasília. O Incra é
o órgão executor da reforma agrária, e nos parece
virtualmente impossível que os dados não possam ser iguais.
Os documentos apresentados por Brasília continham tantas incongruências
e equívocos que precisaríamos de uma entrevista inteira para
falar a respeito. Julgamos ter conseguido expor parte disso nas reportagens.
Com esses documentos em mãos,
realizamos apurações em campo nos dois únicos Estados
dos quais recebemos a relação dos assentamentos município
por município. Das 29 superintendências do Incra ouvidas,
só duas nos deram os dados corretos.
Em novembro de 2001, cinco meses
antes da publicação das reportagens, fiz uma rápida
entrevista com o então ministro, Raul Jungmann. Foi a primeira e
única, até o início da série. Na conversa,
ele prometeu enviar todos os balanços detalhados que nós
queríamos. Pois eu tenho a informar que até hoje, um ano
e dois meses depois daquela conversa, eu e Scolese continuamos aguardando
os balanços detalhados, que nunca nos foram enviados, mesmo após
insistentes cobranças na assessoria do ministro.
Antes de escrevermos as primeiras
matérias, durante sete dias Jungmann se furtou a nos atender. Só
três dias depois da publicação ele resolveu nos atender,
pelo telefone. Quando ainda estávamos no meio da entrevista, com
cerca de 20 perguntas a serem feitas, bateu o telefone na nossa cara. Dias
depois de fugir das explicações, enviou um texto ao jornal,
onde escreveu o que quis e como bem quis, inventando e distorcendo fatos.
Como é do seu estilo, caprichou nas ofensas pessoais. Esse deve
ser o "desmentido" citado em sua pergunta. Foi o único.
Nunca, desde o início
das reportagens, nos vimos forçados a publicar uma errata sobre
o caso ou recebemos uma única carta do MDA que "desmentisse" nossas
apurações. Pelo contrário. Dias depois da primeira
reportagem, o MDA, em acerto com Jungmann, o que é admitido pelo
próprio, baixou uma portaria, a de número 80, que entendo
ter corroborado o cerne das nossas reportagens. Essa portaria alterou todos
os conceitos de assentamentos e assentados. Como a realidade não
se adequou às normas e regulamentos do próprio ministério,
o ministério mudou as normas e regulamentos. Desde então,
o governo FHC e Raul Jungmann podem dizer à exaustão que
"assentaram" 600 mil, 1 milhão de famílias. A portaria passa
a considerar "assentados" pessoas que não estão nas suas
terras e "assentamentos" áreas que não precisam estar ocupadas
e, absurdo dos absurdos, mesmo que ainda estejam em processo de aquisição
pela União.
Quem se dispuser a ler a portaria,
disponível no site do MDA na internet, pode entender por que FHC
e Jungmann "assentaram" tantas famílias.
Além de mudar os conceitos, para ajustar a realidade
ao seu discurso, o governo criou uma auditoria - infelizmente, com servidores
lotados no próprio Incra. Na verdade, foi uma mera conferência
de números, não houve nenhum trabalho de campo. A partir
dessa auditoria, cujo resultado integral, com anexo de 14.000 páginas,
o MDA se negou a nos fornecer (tivemos de recorrer a fontes do Congresso,
que nos vazaram o material), nós pudemos constatar que o governo
havia "assentado" inclusive mortos. São milhares e milhares de "assentados"
do governo FHC que na verdade estão nas terras há 20, 25
anos, ainda no regime militar.
Qual é a história das outras matérias premiadas - uma com o prêmio "Cláudio Abramo", em 2000, e outra com o Esso 2001, em parceria com o Chico Otávio?
A do "Cláudio Abramo"
foi idealizada pelo Chico Otávio e eu fiquei com a parte de São
Paulo. O mérito, portanto, é todo dele. A série procurava
mostrar as razões da morosidade do Judiciário e apontar algumas
experiências bem sucedidas. Já a matéria premiada com
o Esso de reportagem em 2001 foi um trabalho bem mais exaustivo, que consumiu
uns três meses de apuração. Procuramos revelar como
era gasto o dinheiro da maior entidade não governamental do país,
a LBV, que tinha um orçamento anual de R 220 milhões mantido
principalmente com doações das classes C, D e E. Mostramos
que a LBV, com base num discurso "social", amealhava uma fortuna, mas fazia
repasses de R 400 mil para uma igreja obscura, quase sempre ausente de
sua propaganda, construiu e comprou mansões para uso exclusivo do
seu diretor-presidente.
Gosto desse matéria pela
mesma razão pela qual gosto da que tratou da reforma agrária:
nosso trabalho não se baseou em nenhuma apuração oficial,
do Ministério Público ou da Polícia Federal, embora
tenhamos usado documentos oficiais de cartórios e Justiça.
O processo foi inverso: nosso trabalho é que moveu os órgãos
públicos. Com base nas nossas reportagens, e em auditoria própria,
o INSS pediu e conseguiu a cassação do registro da LBV de
entidade filantrópica, em votação no Conselho Nacional
de Assistência Social, formado por governo e ONGs.
Quais são os pontos positivos e negativos do trabalho em parceria? Acha que os jornais deveriam estimulá-lo?
Desde que a parceria esteja afinada e tenha sido formada com o consentimento dos repórteres, não consigo ver defeitos num trabalho em equipe. Deveria ser estimulado. Às vezes temos de dividir uma matéria, mas isso é só um trabalho eventual, que acaba no outro dia.
Você foi repórter do Painel, da "Folha de S. Paulo", entre julho de 2001 e janeiro de 2003. Como foi o seu dia-a-dia nesta função?
Era um trabalho de repórter como outro qualquer. Cada nota é checada e produzida como se fosse uma reportagem normal. Pode não parecer, mas é um trabalho árduo e desgastante. Todos os dias estávamos em conflito com fontes _umas incomodadas com as notas, outras cobrando a publicação de algo que passaram. Aprendi a admirar e respeitar os colunistas.
Quando, onde, porque e como escolheu a profissão? Faria a mesma opção nos dias de hoje?
Antes de ser repórter,
fui lavador de peças numa mecânica de máquinas pesadas,
cobrador de uma loja de auto-peças, montador e carregador de móveis
e office-boy. São passagens que muito me orgulham. Tenho saudades
dessa época, pela convivência com pessoas simples, fiéis
à amizade e verdadeiramente solidárias. Mas nem tudo são
boas lembranças. Por exemplo: um devedor, dono de uma concessionária
de veículos, deu um tapa no meu rosto porque se sentiu incomodado
pela cobrança de uma dívida dois anos atrasada. Fui à
polícia, mas ninguém fez nada até hoje. Eu tinha só
17 anos e a polícia devia ter coisas mais importantes a fazer.
Foi no balcão da loja
de auto-peças que li a notícia de que estava sendo criado
o primeiro curso de jornalismo no Estado. Eu gostava mesmo era de cinema,
e aquele curso me pareceu o mais próximo disso. Com certeza faria
tudo de novo. Mas muitas coisas eu faria de forma diferente: teria sido
mais radical do que fui nas minhas poucas convicções, teria
feito menos concessões, teria lido mais livros e teria tentado me
preparar melhor para o que viria.
Quais foram as experiências mais marcantes do começo da carreira, e em que veículos?
A censura. Toda a imprensa de
Mato Grosso do Sul sofria, e eu tenho certeza de que ainda sofre, um intenso
e opressivo monitoramento dos poderes públicos. Certos assuntos
e pessoas eram evitados ao máximo. Era vetada ou dificultada a apuração
de denúncias contra o governo do Estado. A menos que atingissem
algum servidor desavisado de terceiro escalão, um ou outro policial
corrupto.
Também era proibido ousar
questionar projetos ou programas governamentais. A crítica estava
banida dos jornais. Se ela surgia, e surgia esporadicamente, porque é
impossível barrar tudo, normalmente era por interesses esquisitos.
Eu me lembro de ter tido três matérias (não pautas,
mas matérias, prontas e acabadas) censuradas num único dia,
uma contra o governo, outra contra a prefeitura e outra contra um deputado.
Havia jornalistas na própria redação que se encarregavam
de alertar o governo ou o deputado sobre os passos do repórter.
Eram funcionários dos próprios. O duplo emprego era regra
e muitos jornalistas assessoravam áreas nas quais exerciam cobertura
jornalística, o que é vetado pelo Código de Ética.
Fiz essa denúncia por
escrito, com 12 nomes, no Sindicato dos Jornalistas, mas logo foi arquivada,
com aquiescência da Fenaj. Disseram que faltavam provas, quando todos
os repórteres do Estado sabiam quem assessorava quem. O sindicato
nunca ouviu um único jornalista mencionado na minha carta.
Havia ainda os censores do governo, que só oficialmente
eram assessores de imprensa. Eles recebiam a informação de
que estávamos atrás de algo incômodo e rapidamente
procuravam o secretário de Comunicação ou o governador,
que entravam em contato com os responsáveis pelo jornal e barravam
tudo.
Trabalhei nos dois principais
jornais do Estado e foi assim em ambos. Esses fatos me marcaram muito,
passei a ter uma aversão quase física à toda forma
de censura, seja aquela objetiva e clara, seja aquela exercida por muitos
assessores e autoridades: "Olha lá o que você vai escrever,
hein...".
Em 1994, fiz umas matérias
no "Diário da Serra", de Campo Grande, relatando que funcionários
pagos pela Assembléia Legislativa na verdade trabalhavam para um
grupo de comunicação privado. O dono desse grupo escreveu
então um editorial no seu jornal, me citando nominalmente. "Mentira"
era a palavra menos agressiva. Para me defender, escrevi um artigo no jornal
em que trabalhava, sob o título "As caras da mentiras". Enumerei
oito reportagens de minha autoria que nunca foram publicadas no jornal
do empresário, onde eu havia trabalhado, porque sofreram censura
pura e simples. Ele me processou por isso, por ter contado algumas pequenas
verdades. O processo foi arquivado.
Depois da imprensa local, em Campo Grande, você foi correspondente da Folha de S. Paulo? Quais foram os melhores momentos/matérias, e os maiores problemas?
Nesse cargo recebi um prêmio
de direitos humanos que muito me orgulha, porque era um prêmio não
exclusivo para jornalistas e levava a nome de Marçal de Souza, um
líder indígena assassinado em 1983. Na mesma cerimônia
foram homenageados um juiz ameaçado por grupo de pistoleiros incrustado
na Polícia Militar e uma associação de mulheres. Ganhei
o prêmio após matérias publicadas na Folha sobre grupos
de extermínio na faixa de fronteira Brasil-Paraguai e prostituição
infantil no Pantanal.
O episódio que mais me
marcou na Agência Folha foi o acompanhamento da crise no Paraguai
em 1999, que culminou na queda do presidente Raúl Cubas Grau. Eu,
José Maschio, da Agência no Paraná, e o Antônio
Gaudério pudemos acompanhar durante sete ou oito dias todos os protestos
na praça da Independência, que resultaram no assassinato de
sete estudantes. Para entrar no Paraguai, cujo aeroporto em Assunção
estava interditado e os ônibus do Brasil para lá, suspensos,
tive de pegar um ônibus clandestino.
Sobre os problemas, o maior
deles não é exclusivo da "Folha" nem do lugar onde eu trabalhava,
acho que é próprio de todo correspondente em qualquer lugar
do país: com a falta de espaço para a cobertura nacional,
quase sempre o material do correspondente é sacrificado, por motivos
diversos.
Já em São Paulo, e antes de ir para o Painel, você passou pelas sucursais de "O Globo", do "Jornal do Brasil', e pela revista "Veja". Como avalia essas experiências?
As minhas passagens pelo "'Jornal do Brasil" e pela "Veja" foram muito rápidas (45 dias em cada um). Melhor falar das boas lembranças. No JB, pude mostrar que o estudo antropológico do EIA-Rima da obra da hidrovia Araguaia-Tocantins havia sido adulterado pela responsável pela obra. Com base nisso, e no subsequente repúdio público dos antropólogos, a Justiça Federal mandou suspender a obra. No Globo tive as minhas maiores alegrias, principalmente a de ter conhecido gente de primeira, não só grandes jornalistas e amigos como Amaury Ribeiro Jr. e Chico Otávio, mas pessoas admiráveis, pela ética e pelo companheirismo, como os motoristas Carlos, Sérgio e Tatá, a quem devo muito do que aprendi sobre São Paulo. Assim foi também com o motorista Ferreirinha, figura inesquecível do JB.
Como vê a chamada "indústria" das indenizações em sentenças contra jornalistas e empresas da mídia? Já foi processado por causa de alguma matéria?
Já fui processado quatro
vezes, mas nunca condenado. Há oito anos não sofro processo.
Entre os que me processaram havia um delegado que depois foi preso e condenado
por envolvimento com narcotráfico, um ex-condenado por receptação
de carros roubados, que logo depois de abrir a ação foi assassinado
num acerto de contas com uma quadrilha (segundo o resultado do inquérito)
e um empresário de comunicação, naquele caso que relatei
numa resposta anterior.
Quando vejo notícias
de jornalistas sofrendo processos, eu me lembro de uma história
ocorrida logo no início da minha carreira, como repórter
policial. Peguei na Justiça a extensa ficha de processos de um conhecido
policial civil, cerca de 20. Eu queria fazer uma matéria a respeito
e fui entrevistá-lo. Ele me perguntou se, naqueles processos, havia
alguma condenação. Eu admiti que não. Ele perguntou
se eu havia visto quem o havia processado. Eu respondi que eram todos advogados
envolvidos em processos gerados pela delegacia onde trabalhava o policial
e presidiários acusados de crimes pelo próprio. Então
esse policial me disse uma coisa mais ou menos assim: "Só quem trabalha
é processado. Todos esses que me acusam estão incomodados
pelo meu trabalho". Essa é uma coisa a se pensar. De fato, esse
policial nunca foi condenado. Tempos depois, vi que ele era correto e respeitado
pelos colegas. Quem o processava é que não era.
O jornalismo é um pouco
assim. Quem nunca fizer uma reportagem que não incomode ninguém,
nunca será processado. E poderá, confortavelmente, fazer
um juízo bastante severo dos jornalistas "recordistas de processos".
Sobre a indústria do dano moral, ela existe e os próprios
tribunais já sabem disso, tanto que jornalistas têm conseguido
vitórias importantes na Justiça. Em SP há escritórios
com 20, 30 advogados que se dedicam exclusivamente a procurar brechas legais
em reportagens e, então, oferecer seus serviços às
"vítimas".
Até que ponto essa preocupação das empresas com possíveis ações judiciais pesa ou não pesa em seu trabalho de repórter? Tem algum tipo de preocupação específica em relação a isso quando está apurando ou escrevendo?
Minha preocupação a respeito disso é permanente, começa na primeira abordagem ao primeiro entrevistado e vai até o último parágrafo do texto escrito. Procuro, quase como obsessão, não deixar brecha legal para que alguém mova o processo. Sempre se poderá dizer que brechas um bom advogado sempre é capaz de encontrar. Mas nossa tarefa é reduzir essas possibilidades, checando e rechecando cada pormenor. Hoje também é obrigatório que o repórter entenda ou pelo menos tente compreender as leis. Muitos estão sendo processados e condenados por causa de filigranas.
Que matérias destacaria, pela complexidade e dificuldade, entre aquelas que fez?
Acredito que as mais complicadas, realmente, foram aquelas
que me permitiram, junto com os outros colegas já mencionados, disputar
duas finais do prêmio Esso. Mas houve uma outra reportagem que me
exigiu muito, inclusive fisicamente. Em 97, eu e o colega fotógrafo
Luiz Medeiros, de Cuiabá, expusemos, numa série de matérias
no Diário de Cuiabá, o tamanho da destruição
que uma invasão garimpeira havia produzido na reserva indígena
Sararé, dos índios nhambiquaras, em Pontes e Lacerda (MT).
Cerca de 70 índios haviam sido espancados por um grupo de garimpeiros.
O assunto chegou aos jornais
na forma de um comunicado lacônico da Funai. Decidimos apurar in
loco. O clima lá estava muito tenso. Tivemos dificuldades para entrar
no garimpo, que contava com 8.000 homens. A nossa principal fonte, que
havia garantido o acesso ao garimpo, fora assassinada na noite anterior
à nossa chegada, numa briga banal, na rua. Mas o esforço
compensou: dias depois da publicação das reportagens, também
pressionado pela Funai e ONGs indigenistas, o então ministro da
Justiça, Nelson Jobim, ordenou a desintrusão da área.
A Polícia Federal montou
uma operação durante a qual nós voltamos à
área _agora para denunciar a falta de preparo da polícia
e os excessos que cometeram (como metralhar uma draga a poucos metros de
um grupo de garimpeiros, o que José Luiz conseguiu fotografar).
A polícia ficou incomodada com a nossa cobertura e passou a nos
boicotar, tentava nos despistar, para que não víssemos para
onde iam. Dessa vez, os garimpeiros é que nos ajudaram, dando carona
e informações. Andamos alguns quilômetros a pé.
Por tudo isso, foi uma matéria dura, que durou uma semana na primeira
fase e 15 dias na desintrusão. Fiz uma versão resumida da
história e, como frila, mandei para a Folha, que a publicou em uma
página.
Que métodos de apuração você não usa - e quais são os que prefere?
Tudo que é eticamente aceitável deve ser levado em conta e aplicado. Não tenho fórmulas prontas nem sei se uso "métodos". O ideal é buscar sempre um jornalismo que não se contente com versões, que tente confrontar declarações com documentos, que abra o leque de fontes, que, enfim, tente tocar ainda que superficialmente naquilo a que damos o nome de verdade. Nem sempre isso é possível - aliás, quase nunca é -, mas vejo como obrigação seguir tentando. Às vezes nós conseguimos, e um simples trabalho assim pode bem valer a vida inteira.
Como é que administra o "off the record" e a ligação com as fontes?
Procuro não usar o "off" como ponto final, só de origem. Procuro deixar isso claro para as minhas fontes, que vou checar, dentro do possível, tudo o que ela está me dizendo ou mostrando. Novamente, nem sempre conseguimos.
Como vê a prática generalizada de colocar aspas em declarações off the record e o uso igualmente generalizado do futuro do pretérito?
Entrevistas em que o acusador não diz nome nem mostra o rosto são, para mim, eticamente questionáveis. Deveriam ser banidas ou usadas apenas quando fossem absolutamente indispensáveis, como numa questão de vida ou morte. Acusações genéricas (do tipo "naquele presídio se compram fugas com facilidade") também são deploráveis. Ajudam a explicar certo preconceito que advogados e juízes têm contra jornalistas. Para eles, é inacreditável que divulguemos denúncias que dificilmente poderão ser provadas. É possível que eu tenha feito algo do gênero - acho que não fiz -, e, se fiz, desde já me arrependo.
O furo vale uma missa? Quais foram os seus?
A melhor definição de furo que eu já ouvi foi a do jornalista Vasconcelos Quadros. Ele disse que o furo é aquela notícia que, ao ser publicada, é capaz de mobilizar toda a imprensa, forçando-a ir atrás da mesma história. Assim sendo, devo reconhecer que não dei nenhum grande furo. Embora algumas matérias tenham atraído a atenção de jornais concorrentes, não se encaixam na definição do Vasco, que entende do riscado.
Já cometeu alguma barriga? Se sim, que aprendizado essa experiência deixou?
Certamente cometi não
um, mas vários erros. Lembro de um em particular, quando tinha um
ano de repórter. Num texto pequeno, de 30 linhas, confundi dívida
mobiliária com dívida imobiliária. A falha, embora
não tenha tido maior repercussão, me encheu de vergonha.
Aquele magrinho "i", aos meus olhos, tinha o tamanho de um elefante.
Mas os maiores erros foram os
não publicados. Uma vez fui a Marília, interior de SP, fazer
uma parte de reportagem que havia sugerido para O Globo sobre grandes traficantes
condenados pela Justiça e que continuam soltos. Num bar, conversando
com um delegado, ele perguntou se eu não estava interessado em falar
com um presidiário que dizia ser líder de uma certa organização
chamada PCC. O delegado pediu que eu ligasse na semana seguinte, que tentaria
colocar o advogado do presidiário para falar comigo. Dias depois,
tentei duas ou três vezes, mas não encontrei o delegado. Deixei
o assunto de lado. Aquele era o ano 2000. A existência do PCC já
havia sido revelada quatro anos antes _quando o repórter Josmar,
do Diário Popular, publicou até o estatuto do PCC, registrado
em cartório_ mas o assunto ainda não havia tomado a dimensão
que tomou logo depois. Em 2001, eclodiu a maior rebelião dos presídios
da história, organizada justamente por aquela sigla da qual eu ouvira
falar um ano antes. Se eu tivesse insistido na conversa com o delegado,
quem sabe poderia ter feito matéria mais sintonizada com o que estava
ocorrendo no sistema penitenciário.
Um segundo caso ocorreu em 99
quando, no Jornal do Brasil, eu tentava fechar uma pauta sobre grupos de
extermínio no Espírito Santo. Liguei para um amigo de lá,
o jornalista Geovane César, que hoje trabalha na DRT, e ele, conversa
vai, conversa vem, contou que um delegado chamado Francisco Badenes havia
elaborado um dossiê no qual acusava o então ministro da Defesa,
Élcio Álvares, de ligações com o narcotráfico.
Na opinião de Geovane, a acusação era surpreendente,
mas eu deveria apurá-la. Pedi então ao meu chefe uma viagem
ao ES, mas o jornal estava sem dinheiro. Eu não havia fechado uma
pauta específica sobre Álvares, a idéia ainda era
apurar o extermínio. Sem a viagem, logo abandonei o assunto, e saiu
publicada apenas uma matéria sobre crime e impunidade no ES. Um
ou dois meses depois, o repórter Andrei Meireles, da IstoÉ,
fez uma série de ótimas reportagens tendo como ponto de partida
o relatório de Badenes, que provocou a demissão do ministro
_ com isso, ele venceu o Esso de Reportagem de 2000.
Jamais eu teria tido a competência e a tenacidade
que Meireles e a revista IstoÉ tiveram, mas, se tivesse dado mais
atenção à denúncia, quem sabe teria antecipado
alguma coisa.
Essas duas minhas "barrigas"
pesam mais do que o restante dos erros que cometi. Para mim ficou bem clara
a lição de que sempre é melhor pecar pelo excesso
do que pela omissão.
O que é que um repórter nunca deve fazer?
Não me vejo em condições de sair dando conselhos para colegas. Por isso fico no óbvio absoluto: nunca agredir o Código de Ética.
Como é que você trabalha o texto? E que estilo lhe parece o mais adequado?
Procuro ser objetivo. O jornal em que trabalho tem um estilo de concisão e poucos adjetivos, então vamos por aí. O estilo que me parece mais adequado é aquele que consegue juntar informações objetivas com a emoção. Não há fórmula mesmo para isso. Mas há pelo menos uma regra geral: um bom texto advém de uma boa apuração. Quase tudo está nela. Se a apuração é limpa e não há dúvidas, o texto sairá claro e esclarecedor.
Quem fez/faz a sua cabeça, no melhor sentido da expressão?
Essa é a pergunta mais difícil. Não dá para saber, conscientemente, qual o peso na minha formação do pouco que li e ouvi. Quem sabe o cinema de Ingmar Bergman e Stanley Kubrick? Ou as piadas dos meus amigos de infância? A primeira vez que li "O Jogo da Amarelinha", de Julio Cortázar? Ou as jogadas de Zico (porque na verdade eu torcia para o Zico, não para o Flamengo)? Certamente tudo isso junto, e um pouco mais.
O que vai mal na imprensa brasileira? E o que vai bem?
Vai bem toda a linha de frente
da reportagem: Fernando Rodrigues, Amaury Ribeiro Júnior, Chico
Otávio, Mário Magalhães, Andrei Meireles, Frederico
Vasconcelos, Fausto Macedo, Robinson Cerântula, e tantos outros que
cometi o crime de não citar; vão bem todos os textos de Janio
de Freitas e de Xico Sá; e vai bem a cobertura, às vezes
chata, às vezes açodada, mas persistente e totalmente indispensável,
dos escândalos da República, feita por um batalhão
de repórteres e produtores muitas vezes anônimos. Vão
mal a praga da denúncia em "off", a praga do declaratório
e a praga do oficialismo (uma notícia às vezes só
vira notícia quando uma "otôridade" confirma que ela de fato
é uma notícia).
Mesmo com todo o escândalo
PC Farias, vai mal a cobertura do financiamento das campanhas eleitorais.
Os tesoureiros continuam ilustres desconhecidos, como se não fossem
determinantes. Vai mal a lógica cruel que permite à imprensa
ter editorias e cadernos batizados de "Negócios", "Dinheiro", "Carros
& Cia.", "Automóveis" e "Turismo", mas nada parecido com "Miséria",
"Trabalho", "Ônibus, Trens & Cia.", "Violência", "Amazônia"
ou "Meio Ambiente" - todos assuntos sempre relegados a segundo plano. E
vai mal, por fim, a ausência de equipes na periferia das grandes
cidades destinadas a investigar causas e consequências das chacinas
e da violência contra os miseráveis, que só têm
espaço nos jornais em forma de estatísticas frias ou exóticos
casos isolados, como se o sangue da periferia fosse menos vermelho que
o dos Jardins.
Como viu a relação da mídia em geral com o governo FHC? E agora, com o governo Lula?
Minha maior diversão hoje
é ver colunistas se declararem, até com alguma veemência,
contrários à "lógica neoliberal" da política
econômica do governo anterior, quando todos nós, leitores,
sabemos que contavam-se nos dedos os colunistas que faziam essa crítica
_ sendo Aloysio Biondi o maior dos maiores, cuja perda precoce causou um
buraco sem tamanho no jornalismo econômico. Hoje a imprensa pode
querer que não, mas toda ela, com as exceções de sempre,
apoiou entusiasticamente as loucuras do governo Fernando Henrique, como
a privatização, a preço de banana, de quase tudo o
que dava orgulho ao brasileiro. O argumento era que isso nos levaria ao
Paraíso. Mas o Paraíso não veio, e sim o Inferno do
desemprego recorde e da explosão da violência. Oito anos depois,
acordamos duas posições abaixo entre as maiores economias
do mundo, desbancados pelo México na América Latina. Parte
dessa conta deve ser creditada à mídia.
Até agora, acho a cobertura
da imprensa do governo Lula segue a mesma receita: apoio incondicional
à mesma política econômica, com as exceções
de sempre que continuam as exceções de sempre. Daqui a quatro
ou oito anos, se essa política não mudar e os problemas se
aprofundarem, como parece que ocorrerá, a julgar pelo que vimos
até agora, muitos que hoje aplaudem Lula se levantarão para
dizer: "Nós sempre dissemos que ele estava no caminho errado". A
imprensa às vezes faz lembrar aquele Ministério da Verdade,
do livro de George Orwell: se as condições do presente tornarem
necessário mudar o passado, que mudemos o passado, ao menos virtualmente,
rabiscando e apagando os livros. Assim, continuamente, governo após
governo, os jornalistas vamos tentando reescrever a parte da história
que nos envergonha, de modo que saiamos melhor na fotografia, contando
com a falta de memória coletiva.
O que é o jornalismo investigativo - e a quantas anda essa modalidade na imprensa brasileira de hoje?
Sou dos que acreditam que todo
trabalho de reportagem é, por si só, um trabalho investigatório.
Mas reconheço também que algumas reportagens demandam mais
tempo, dinheiro, paciência, versões contrárias, documentos,
viagens, depoimentos, gravações, comparações
e mais comparações de dados, do que outras, que podem ser
construídas com uma declaração de uma autoridade ou
a publicação de um documento. Quando batem os olhos nesse
primeiro "tipo" de reportagem, os jornalistas entendem e logo pensam: "Puxa,
isso deve ter dado muito trabalho". Ou então: "Como é que
ele fez isso?". Eu acho isso, que uma reportagem investigativa é
aquilo que a gente não sabe definir ao certo, mas que identifica
como tal no exato instante em que a lê.
Acho que, na imprensa brasileira,
a reportagem chamada investigativa vai muito bem na fase reativa. Grandes
reportagens são construídas dessa forma: dado o assunto,
a imprensa vai atrás e o leva a reviravoltas inimagináveis.
O próprio escândalo Watergate, sinônimo de reportagem
investigativa, nasceu de um fato gerado pela polícia (a prisão
de pessoas que plantavam escutas num edifício), não do trabalho
dos jornalistas que, depois, foram os autênticos responsáveis
pela queda de Nixon. Então por aí acho que vamos muito bem.
Mas não é assim quando a reportagem é proativa, quando
os próprios jornalistas cuidam de fazer as revelações,
a partir de levantamento próprio. Geralmente, quando um jornal revela
determinado fato, e não há autoridade a sustentá-lo,
os outros se calam, e o assunto morre por aí _às vezes no
próprio veículo que a gerou.
Qual é o peso da leitura na sua formação de jornalista? E qual é a sua lista dos dez livros mais importantes para a profissão?
Teve peso bem menor do que deveria. Eu me arrependo de não ter lido mais do que li. Procurei compensar isso com mais dedicação ao trabalho, mais contato com a "vida real". Desde que comecei na profissão eu aprendi, talvez de forma errônea, que as ruas e as pessoas são fontes mais importantes para um repórter do que toda a obra de Homero. Porque a matéria-prima do repórter é sempre o presente, embora possa e deva usar o passado como comparação e espelho. Não me atreveria, por incapacidade plena, a fazer a lista dos dez livros mais importantes para os jornalistas, mas nela eu não deixaria faltar "A Sangue Frio", do Truman Capote.
Quais são as maiores dificuldades de um repórter com seus editores? E qual é o melhor jeito de administrá-las?
Com uma ou outra exceção, tenho tido muita sorte com os meus chefes diretos nos últimos anos. Todos tinham interesse genuíno em fazer um bom trabalho, me ouviam, me incentivavam e principalmente não recuavam de uma boa briga. Acho que essa é a maior dificuldade: ter um editor que não queira assumir riscos, daqueles que têm um neon piscando sobre sua mesa com o letreiro: "Não me traga problemas". Editores assim são capazes de destruir uma equipe inteira de repórteres, para sempre. Mas felizmente eles são minoria. Há basicamente há uma coisa a ser feita, quando se tem um editor assim: trabalhar com afinco redobrado, para dar o exemplo do que pode ser feito.
Qual foi ou quais foram os maiores dilemas éticos que já enfrentou no decorrer de uma reportagem? E como os resolveu?
Os dilemas são inúmeros. Para respondê-los, eu sempre me faço algumas perguntas: "Eu estou seguro do que estou escrevendo e dos dados que obtive?"; "O que eu estou apurando e vou escrever ajuda mais do que prejudica as pessoas?"; e "O meu trabalho de alguma forma poderá ser contestado? De que forma poderá ser? Eu terei certeza e dados suficientes para rebater essa contestação?". Se eu tiver respostas suficientes para essas perguntas, que eu me faço continuamente, então estou pronto para resolver qualquer dilema ético. Se não tiver as respostas, é melhor parar e repensar a matéria. Os repórteres têm de estar pronto para derrubar suas apurações, e os editores, para aceitar essa decisão. Porque sempre será a mais acertada.
A internet tem ajudado o seu trabalho de repórter? Pode dar exemplos concretos?
Tem ajudado enormemente, principalmente
na localização de pessoas e empresas, dados biográficos
e checagem de informações. Vejo a internet como um simples
ponto de partida, um enorme depósito de dados a serem rechecados.
O grau de confiabilidade de um dado obtido na internet, por mais confiável
que seja o site, deve ser visto pelo repórter como quase perto do
zero. Para mim, de todas as enormes lições trazidas pelos
atentados de 11 de setembro, uma teve significado especial: nem toda a
tecnologia do mundo substituiu um único homem bem informado.
Os EUA tinham e têm à
disposição o sistema Echelon, uma constelação
de 120 satélites dos EUA, Inglaterra e Nova Zelândia, capaz
de ler e fotografar uma placa de automóvel em terra e de capturar
bilhões de dados que transitam pela internet, aparelhos de fax e
telefones. Esses dados são analisados por 15.000 funcionários
da NSA num escritório da Virgínia. Palavras são separadas
pelo grau de "periculosidade" (o Dicionário Echelon). Os EUA têm
o programa Carnívoro, do FBI, que é acoplado aos servidores
e pode interceptar milhões de mensagens na internet. Mas nem toda
essa fantástica parafernália foi capaz de impedir o maior
ato terrotista da história. Porque não havia nenhum agente
federal infiltrado ou em comunicação direta com a Al Qaeda.
Descobriu-se depois que o FBI não tinha nenhum agente que falasse
árabe! Então foi isso que os atentados também nos
ensinaram: ainda não se criou máquina que dispense um bom
par de olhos e ouvidos atentos, que estejam em contato com as pessoas certas.
No jornalismo também é assim: nenhum repórter vai
conseguir a matéria do ano conversando com um computador.
Um grupo de jornalistas está discutindo, via internet, a criação de uma entidade que represente os jornalistas investigativos. Você está participando da lista de discussões? Como vê a idéia?
Acho a idéia muito boa e tomara que dê certo. Participei eventualmente, conversando sobre uma ou outra coisa. Por absoluta falta de tempo, parei. Certamente falta não vou fazer. Vejo que muitos colegas estão colaborando com os organizadores, Marcelo Beraba e o professor Rosental Calmon Alves, principalmente, de modo que isso só pode ter vida longa.
O que vem por aí, em
termos profissionais?
Só a disposição
de trabalhar para não ter muitas decepções.