PROFISSÃO:REPÓRTER

O papel do jornal sem papel

O jornalista Rosental Alves fala do jornalismo
online e suas relações com a imprensa impressa

Alexandre Figueiros
da Agência Meridional

Rosental Alves tem 47
anos e nasceu no Rio de
Janeiro. Começou como
jornalista aos 16 anos
em O Jornal, no Rio.
Trabalhou no Jornal do
Brasil por 23 anos,
sendo mais de 10 como
correspondente
internacional. Foi editor
executivo e diretor do JB.
Dirigiu o lançamento do
JB na Internet, com a
primeira edição de um
jornal brasileiro na Web
(o Diário de Pernambuco
também foi pioneiro, mas
era uma edição via
e-mail). Foi para os EUA
em 1996 ocupar uma
cátedra em Jornalismo Internacional na Universidade do
Texas em Austin especializando-se em jornalismo online.
Passou a última semana no Brasil realizando seminários
nas redações do Diário e Correio Braziliense sobre o
tema. Ele é patrocinado pelo Freedom Forum, fundação
norte-americana independente de defesa da liberdade de
imprensa (http://www.freedomforum.org), pelo Diário de
Pernambuco e Associação Nacional dos Jornais.

Agência Meridional — O tema jornalismo na Internet é, de
certa forma, bastante vasto. Qual o enfoque central da sua
palestra?

Rosental Alves — Falo sobre o impacto da Internet no
jornalismo, enfatizando dois aspectos: a Internet como
fonte de informação para jornalistas e, principalmente, a
Internet como novo canal de distribuição de produtos
jornalísticos. Na realidade, eu tenho me especializado e
me preocupado mais com o segundo aspecto, que é o
impacto da Internet no ensino do jornalismo onde
compartilho minha experiência.

AM — Quais as principais mudanças observadas no
jornalismo contemporâneo depois do advento da Internet?

RA — Nos EUA, tem havido muitas mudanças. A
primeira é o aceleramento do ciclo das notícias. Os
jornais, por exemplo, trabalhavam num ciclo de 24 horas.
Uma notícia de jornal só chegava ao leitor umas 12 horas
depois de produzida. Agora, os jornais têm a possibilidade
de publicar a toda hora. Alguns estão aproveitando a
chance. Muitos jornalistas estão tentando se adaptar à
nova realidade. Outros estão apenas criticando,
denunciando queda na qualidade do jornalismo. Mas a
principal mudança mesmo é verificar que, no mínimo,
estamos diante do advento de novo meio de comunicação,
que veio para ficar e vai abalar todos os demais. Nova
forma de jornalismo que tende, no mínimo, a modificar as
formas existentes.

AM — O processo de produção da notícia sofreu
alterações profundas para se adaptar ao novo meio?

RA — As alterações vêem aos poucos. A mídia
tradicional está estonteada com a velocidade que as
coisas acontecem na Internet e está respondendo num
ritmo mais lento. O grande desafio das empresas
jornalísticas é rever a sua missão. Quem achar que vai
continuar fazendo as coisas como fazia antes vai ficar
para trás. O negócio de um jornal é informação. É preciso
reinventar a maneira de distribuí-la.

AM — Quais são as perspectivas do jornalismo na Internet
nos próximos anos?

RA — Crescer, crescer e crescer. Mas não pense
apenas em Internet. A Internet é apenas a ponta de um
iceberg enorme, que é a revolução digital ou a sociedade
da informação. O jornalismo vai ocupar espaço cada vez
maior na Internet, mas será sempre uma pequena parte da
rede. Da mesma forma que outras tantas atividades
econômicas, como bancos, bolsas de valores, comércio e
os demais meios de comunicação.

AM — Os jornais via Internet substituirão definitivamente
as edições impressas?

RA — Os jornais não vão desaparecer amanhã. Nem
depois de amanhã. Haverá ainda um longo período de
convivência entre os meios tradicionais e os meios novos.
Mas hoje eu creio que os jornais vão desaparecer um dia.
Pelo menos no formato em que se encontram atualmente.
Todos os indícios são de que haverá algo novo, mais
prático e eficiente. Mas não aceito apostas sobre
‘‘quando’’ e, muito menos, sobre ‘‘como’’. É
impressionante a quantidade de vezes neste século que já
previram o fim do jornal e ele sobrevive a todas, firme e
forte, rígido e sadio. Neste momento, a Internet não está
afetando em nada os jornais. Ao contrário, alguns grandes
jornais americanos acham que suas edições impressas
estão se beneficiando com suas primas online. O New
York Times diz que vende mais assinaturas da edição
tradicional por causa de sua edição na Internet.

AM — A mobilidade e as possibilidades de conexão e
interferência do leitor pela Internet representam
democratização da atividade jornalística?

RA — Quem vai impedir algum pernambucano que tenha
computador e acesso à Internet que se transforme em
jornalista e passe a escrever notícias e publicá-las? Se
alguém vai se interessar e ler os textos, é outra história.
Mas o importante é que isso não era possível antes da
Internet devido a restrições financeiras e tecnológicas que
não existem no ciberespaco. Estamos entrando em mares
nunca navegados e devemos nos preparar para surpresas.

AM — A possibilidade de qualquer pessoa veicular
informações pela Internet significa uma ameaça aos
jornais tradicionais?

RA — Quem é que vai conseguir da noite para o dia a
credibilidade que os jornais tradicionais levaram décadas
para construir? Há muitas ameaças na Internet para os
jornais e outros meios tradicionais. Mas o fato de qualquer
pessoa poder, na prática, se tornar um jornalista não
chega a figurar entre as ameaças levadas a sério hoje em
dia.

AM — As redes de comunicação por Internet não estariam
concentradas na mão de grupos que, mais cedo ou mais
tarde, poderão deter o monopólio da distribuição da
informação?

RA — Essa é hipótese extremamente pessimista. A
natureza da revolução da informação parece mais
democrática do que monopolística apesar de sempre
existir o perigo. A verdade é que estamos no meio de uma
extraordinária revolução e não temos idéia do que está lá
na frente. Pode ser que o 1984, de George Orwell, com o
Big Brother e demais fantasmas, esteja nos esperando.
Vivo num mundo onde câmeras de vídeo utilizadas para
segurança ou outros fins captam a minha imagem e a do
meu carro todos os dias. Onde computadores registraram
tudo que eu compro. O supermercado da esquina sabe
precisamente o o que bebo, o que uso, e chega a emitir
cupons de marcas concorrentes automaticamente, me
aconselhando a mudar de produto da próxima vez. Estou
preocupado com isso, mas feliz com as muitas vantagens
e com a abertura de novas perspectivas nesta era da
informação. Sou otimista. Acredito que vamos encontrar
soluções para usar a tecnologia em benefício da
humanidade, não contra ela.

AM — Como se situa o Brasil no panorama mundial com
relação às edições online?

RA — Estamos relativamente bem. Em um ponto pelo
menos, os jornais brasileiros estão mais avançados que a
grande maioria dos americanos: o da atualização
freqüente das notícias. Muitos jornais brasileiros
entenderam mais claramente desde o começo que colocar
na Internet, durante o dia, as últimas notícias era um dos
pontos fortes do novo meio. Muitos jornais americanos
ainda não fazem isso de forma tão eficiente quanto os
principais jornais brasileiros.


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