P R O F I S S Ã O:R E P Ó R T E R

e n t r e v i s t a

ROSENTAL CALMON ALVES

Perguntas de Claudio Tognolli, Luiz Maklouf Carvalho,
Manoel Francisco Brito e Moisés Rabinovici

(Respondidas, por e-mail, em 12 , 13 e 17 de outubro de 2001)

 

PERFIL RÁPIDO
 

Rosental Calmon Alves começou sua carreira de jornalista em 1968, aos 16
anos. E iniciou sua carreira de professor de jornalismo em 1973, aos 21.
Desde 1996, é professor de jornalismo na Universidade do Texas em Austin,
onde ocupa a cobiçada Catedra John S. and James L. Knight em Jornalismo.

Só  existem 16 cátedras desse tipo, criadas nas melhores faculdades de
jornalismo dos Estados Unidos com a finalidade de atrair jornalistas
profissionais para a academia. Rosental era editor executivo do Jornal do
Brasil quando viu o anúncio classificado da revista The Economist que o
levaria a Austin, depois de concorrer com outros 200 candidatos àquela
cátedra.

Durante 23 anos, ele trabalhou como repórter, redator, editor e
diretor do JB, incluindo uma passagem pela Rádio Jornal do Brasil, nos anos
70. Por mais de uma década, foi correspondente internacional do
JB, com sede em Madri, Buenos Aires (duas vezes), Cidade do México e
Washington. Durante esse período no exterior, foi
sempre um repórter itinerante, um bombeiro que corria para os freqüentes
incêndios na América Latina: crises, rebeliões, golpes militares,
revoluçoes, guerras e terremotos.

Na direçao do JB, Rosental criou o primeiro serviço no Brasil de notícias financeiras em tempo real, via  computador, o Sistema Instantâneo de Noticias, da Agência JB, em 1991. Em 1995, dirigiu o lancamento da primeira ediçao de Internet de um jornal ]brasileiro: o JB Online.

No Texas, Rosental se dedica a três áreas de ensino
e pesquisa: reportagem internacional, enfatizando o trabalho dos
correspondentes estrangeiros; jornalismo na América Latina, com ênfase na
luta pela liberdade de imprensa no hemisfério; e jornalismo online,
explorando a criaçao de um novo gênero do jornalismo desde a popularizaçao
da Web. Alem de professor, é consultor de jornais, dá
conferências e workshops em vários países e faz parte da diretoria de
várias organizaçoes internacionais dedicadas ao jornalismo. Entre elas, o
Prêmio Maria Moors Cabot da Universidade de Columbia, o Consórcio
Internacional de Jornalistas Investigativos, o Centro Latino Americano de
Jornalismo, a Fundaçao para um Novo Jornalismo Ibero-Americano e o
Instituto de Mídia e Paz da Universidade das Nações Unidas.
 
 
 

A ENTREVISTA






LMC - Como, quando, porque e onde você escolheu a profissão de jornalista?

Comecei no jornalismo em 1968, aos 16 anos. Eu simplesmente me apaixonei pela profissão. Eu editava A Roda, o jornalzinho do grêmio dos estudantes do Colégio de Aplicação da Universidade do Estado da Guanabara, onde cursava o secundário. O presidente do grêmio, por sinal, era o Chico Alencar, um dos líderes do PT no Rio. Era uma época brava. Fui preso uma vez com dezenas de colegas de outras escolas, quando estávamos no Teatro Novo, defronte ao Correio da Manhã, tentando fundar uma organização de jornais escolares, a Associação Estudantil de Imprensa. Felizmente, nos liberaram umas horas depois. Acho que alguém se deu conta do ridículo que era prender um bando de secundaristas. As dificuldades da época só faziam aumentar minha paixão pelo jornalismo. Nós imprimÍamos o jornalzinho no valente Correio da Manhã, e eu tinha que ir à redação para que diagramassem o jornal. Adorei o ambiente, o astral. Decidi que seria jornalista. Comecei a aprender jornalismo por minha conta. Comprava cinco jornais todos os dias e procurava assuntos que estavam nos cinco. Recortava metodicamente as matérias e iniciava uma comparação. Fui me dando conta de que havia numa técnica de redação, um estilo de escrever que se repetia, com pequenas variações. Nessa leitura intensiva, achei um dia uma notinha sobre um curso noturno de jornalismo promovido por uma tal Associação Guanabarina de Imprensa. Fiz o curso por vários meses. Recebi um diploma das mãos do ex-presidente Juscelino Kubitschek, usando meu primeiro terno, que passou a ser o uniforme no meu primeiro estágio.

LMC - Faria a mesma escolha nos dias de hoje. Por que?

Eu tentaria, mas acho que não me deixariam ser jornalista aos 16 anos de idade. Mas claro que faria tudo de novo. Sempre agradeço a Deus que me tenha dado o privilégio de escolher minha profissão tão cedo e de me ter permitido ter uma paixão tão grande por ela. Sempre fiz o que gostei. Nunca trabalhei em nada que não fosse ligado ao jornalismo e nunca encarei meu emprego como um ganha-pão indispensável, ao qual me dedicava por obrigação. Nunca tive pressa em ir cedo pra casa.

LMC - Ao que consta, você começou em O Jornal, dos Diários Associados, no Rio de Janeiro. Que fase vivia o jornal? Quais foram as histórias que você viveu naquela redação – e com quem? Como situaria O Jornal em relação à imprensa daquele época?

Entrei no O Jornal pela primeira vez vestido com meu uniforme escolar, para pedir a cobertura de um evento que estávamos promovendo no meu colégio. Depois de receber o diploma das mãos do Juscelino, entrei lá na maior cara de pau, vestindo meu terninho barato da Ducal. Meu tio, João Calmon, por quem sempre tive enorme admiração e amor, era o diretor geral dos Diários Associados, mas não entrei por suas mãos. Ele nunca me arranjou um emprego e eu nunca lhe pedi emprego. Fui à chamada central de reportagens e falei com o chefe. Expliquei que tinha acabado de receber o diploma do cursinho de jornalismo e que queria ser estagiário. O cara riu, disse que eu era muito novo, nem pensar, etc. Então eu disse que meu primo era repórter alí, e argumentei que não lhe custava me deixar acompanhá-lo em suas reportagens pois eu queria aprender mais sobre jornalismo. O cara então respondeu que era problema do meu primo.

Comecei então a usar meu terninho cinza de duas calças, o famoso Ducal, e a ir todos os dias no expediente do meu primo. Ele saía geralmente com quatro ou cinco pautas. Logo, logo começou a dividi-las comigo. Ele ia para um lado e eu para outro. Mas eu tinha me esquecido de um detalhe: datilografia. Era um catador de milho. Que vergonha! Até hoje, bato com três dedos, mas já ganhei várias apostas com gente que bate com os dez e achava que era mais rápida que eu. Logo, comecei a sair sozinho. Passei então a dar dois turnos, o da tarde, na central de reportagem, onde trabalhava meu primo, e o da manhã, na redação do O Jornal, onde fazia a ronda policial. Acho que foi o princípio de minha doença crônica, que depois foi diagnosticada por uma palavra em inglês. Até hoje, acho que sou “workaholic”. Como dizia um dos meus antigos chefes no JB, “Rosental, manera aí, você é obsessivo no trabalho”. Outro dizia que eu não era um correspondente, mas sim uma sucursal inteira. Mas acho que essa mania vem do iniciozinho da carreira. Minha maior aventura nos três meses de O Jornal, entre 1968 e 1969, foi ir à penitenciária da Ilha Grande, para onde haviam sido mandados bicheiros e artistas, numa estranha blitz promovida por um delegado moralista na época do AI-5. Eles se juntaram aos prisioneiros políticos e a criminosos comuns. Cheguei tão tarde de volta à redação que não havia lá ninguém que eu conhecia. Tive que convencer os pessoas que eu era o Rosental, repórter policial do O Jornal (sempre gostei dessa rima). O diretor do jornal, um sujeito alto, com uma gravata borboleta, que depois ouvi falar que se chamava Maranhão, teve que intervir. Ouviu minha história, acreditou e mandou eu escrever. Quando me viram catar milho, algum redator teve pena e disse, “garoto, senta aqui do lado e me conta sua história que eu escrevo mais rápido”. Quanto ao status do O Jornal, na época, estava na crise da qual nunca saiu, buscava personalidade e posição no mercado. Os grandes jornais eram, sem dúvida, o JB e o Correio da Manhã.

LMC - E depois do O Jornal?

Depois do O Jornal, fui para Vitória, de onde era a minha família. Apesar de ter nascido no Rio, me considero capixaba de coração e de raízes. Foi uma ótima idéia. Passei três anos lá, trabalhando em jornais e rádios de Vitória, onde fiz de tudo: repórter, chefe de reportagem, correspondente, fotógrafo, editor de fotografia. Voltei para o Rio porque em Vitória não havia faculdade de comunicação e eu achava que pertencia a uma geração em que todos seríamos formados em faculdades e se eu não fosse, levaria uma desvantagem muito grande. Depois vi que era bobagem, pois eu ja tinha o registro de jornalista e podia ter feito outro curso. No Rio, meus contatos eram dos Diários Associados, e foi assim que eu soube que tinha uma vaga na Rádio Tupi. Anos depois, uma namorada me contou que alguém tinha dito que meu tio tinha arrumado esse emprego na Rádio Tupi, para mim, e que um pobre jornalista tinha sido demitido para criar a vaga. Fiquei indignado com a história. Foi exatamente o oposto. Tinha uma vaga no pior horário possível, de madrugada, para escrever o Grande Matutino Tupi ou algo assim. O chefe era o veterano Paulo Vial Correa, um sujeito muito especial e muito agressivo. Ele me deu uma pilha de noticiários para eu reescrever. Eu já tinha refundido mais da metade do material quando ele se aproximou para atender o telefone ao meu lado e viu que eu estava copiando uma notícia sobre o Vietnam de uma linha e meia. Ao perceber isso, ele interrompeu a ligação e aos gritos mandou eu parar, disse que não precisava de datilógrafo e que eu fosse embora. Fiquei pálido. Mudo. Esperei ele terminar a ligação e tentei explicar que a notícia era uma frase apenas, que não tinha sentido ser alterada. Que por favor ele me desse uma chance e lesse o resto do material que eu tinha escrito. Ele me mandou embora e disse que ia ver. Dois dias depois me ligam, dizendo que o Paulo Vial tinha resolvido me dar a vaga da madrugada. Dias depois, ao ver na carteira profissional meu sobrenome Calmon e lembrar-se de ter estado no Espírito Santo na época em que minha família morava lá, o Paulo Vial ele se deu conta do meu parentesco com o diretor dos Diários Associados. Um dos momentos de maior orgulho profissional da minha vida, foi quando aquele senhor já idoso, me viu chegar pelo vidro da porta do Radiojornalismo, se levantou de sua mesa e veio me cumprimentar, sem que eu soubesse porque. Aos gritos e aos palavrões, como era seu estilo, contou pra todo mundo que eu ainda era um bom profissional ou algo assim, por não ter usado o nome do meu tio para arrumar o emprego. Por isso me doeu tanto, ouvir aquela versão absurda.

LMC - Grande parte da sua profissão foi vivida no Jornal do Brasil – onde você fez de tudo, de repórter a correspondente internacional, de editor a diretor.

Meu primeiro ano de volta ao Rio, foi entre as rádios Tupi e Nacional. A Rádio Nacional era toda uma lenda e foi muito interessante trabalhar lá. Mas o meu sonho mesmo era um dia entrar no Jornal do Brasil. Eu me lembro perfeitamente de dizer isso para todo mundo. Eu passava defronte ao prédio em construção da Avenida Brasil e dizia para quem estivesse comigo: um dia ainda vou trabalhar aí nesse prédio. Não demorou muito. Um colega da Rádio Nacional me indicou para a Rádio Jornal do Brasil, onde entrei em abril de 1973. Fiquei no JB até dezembro da 1995, quando vim para o Texas, como professor de jornalismo. A única interrupção foi entre julho de 1984 e julho de 1985, quando houve o que chamo de “invasão paulista” no jornal, com a chegada do Mauro Guimarães, J.B. Lemos e Nêumanne Pinto. Fui para a Veja, como editor-assistente na sucursal do Rio. Outra experiência muito rica para minha carreira.

LMC - Pode detalhar esses diversos períodos no JB, analisando as respectivas fases do jornal?

Entrei na rádio para trabalhar das 19h30 às 2h30. A madrugada parecia me perseguir. Poucos meses depois, porém, recebi convite para dar aulas de jornalismo na Universidade Federal Fluminense – algo surpreendente, considerando que eu tinha apenas 21 anos de idade e estudava jornalismo numa outra faculdade. Falei da oportunidade com a nova chefe do radiojornalismo, Ana Maria Machado, uma intelectual que acabava de regressar de uma pós-gradução em Paris, e ela me deu a maior força, me passando de imediato para o tuno da tarde. Essa mudança foi importante em vários aspectos. Principalmente, porque logo achei um jeito de escrever reportagens para o caderno B. Tentei mudar para o jornal várias vezes, mas o problema é que ganhava muito bem na rádio. Em 1975, fui para a Espanha fazer um curso de rádio-produção. O curso não valia nada, mas os meses na Espanha foram ótimos porque escrevi o máximo que pude para o jornal, tomando o gostinho pelo que considero o melhor trabalho do jornalismo: correspondente estrangeiro.
Em 1978, contei uma lorota para o jornal de que ia fazer outro curso na Espanha. A Dorritt Harazim era a chefe de correspondentes do JB e me aceitou como correspondente free-lancer, depois de ver as matérias que eu tinha publicado em 1975. Ela me deu conselhos que foram fundamentais para o desenvolvimento de minha carreira como correspondente internacional. Fui então para Madri como frila, com a graninha do fundo de garantia e muita gana. Escrevia para o JB e para a Istoé. O JB gostou tanto do meu trabalho que me contratou e, em setembro de 1979, me mandou para Buenos Aires. O JB ainda estava numa grande fase, as condições de trabalho para um correspondente internacional eram, de longe, melhores que as oferecidas por qualquer outra empresa de comunicação brasileira. Eu podia viajar para onde quisesse na América do Sul, ocupava um confortável escritório em Buenos Aires e a editoria internacional tinha grande prestígio. Ainda em 1982, quando saí de Buenos Aires e me mudei para o México, o jornal ainda não deixava sua crise financeira afetar a qualidade do jornalismo. Passei a cobrir as guerras da América Central, sempre com uma liberdade e condições de trabalho que não via em outros jornais brasileiros.
Infelizmente, tudo mudou em 1984. Depois que o grupo paulista assumiu o jornal, a crise aflorou. De repente, senti que eu caíra em desgraça. Quando estava por viajar para cobrir a eleição de El Salvador, de repente mandaram cancelar a viagem já autorizada, enviaram um repórter de cidade no meu lugar e me avisaram que eu tinha que arrumar as malas e voltar para o Rio. Quando estava chegando no prédio do jornal, me sentindo humilhado com a forma usada para me mandar de volta, encontrei o George Vidor, que na época estava no JB. Ele disse, “Rosental, o seu caso mostra mais uma vez que jornalista não faz saldo médio. Você era considerado aqui o melhor correspondente do jornal, tinha todo prestígio possível e de repente...” Mas não é que tenham me tratado tão mal. Fiquei no jornal enquanto a minha mudança chegava do México e os novos chefes me perguntaram em que eu queria trabalhar. Pensavam que eu ia exigir coisas, brigar. Eu disse apenas, “quero ser repórter de cidade, da geral”. Para lá fui. Um dia, eu cobria um caso de polícia e um advogadozinho de porta de cadeia perguntou meu nome na frente de todos os colegas, na escadaria do fórum de Niterói. “Como você caiu na vida”, disse o homem, espantado. “Você não era aquele correspondente de guerra que andava pelo mundo?” O pior é que eu me sentia muito bem, cobrindo cidade. Eu respondi para o advogado que por isso mesmo eu tinha voltado, porque a guerra civil do Rio já tinha começado.
Saí e fui pra Veja (essa é outra história). Seis meses depois, foram os paulistas que caíram em desgraça com os donos do JB. E a Veja do Rio foi para o JB. O Marcos Sá Corrêa, novo editor-chefe do jornal, me disse, em seu último dia na Veja: “Rosental, você é da casa. Quando quiser voltar para o JB, você entra lá, escolhe uma mesa e uma máquina de escrever, começa a trabalhar e depois me diz o que está fazendo”. Foi emocionante escutar isso do Marcos, uma das muitas generosidades dele comigo. Mas fiquei mais seis meses na Veja, até que o Marcos me chamou para regressar a Buenos Aires como correspondente. Fiquei dois anos lá, de 85 a 87, quando fui para os Estados Unidos, primeiro com uma bolsa e depois como correspondente em Washington. O Marcos cismou que eu deveria ser editor e me convenceu a voltar para o Rio em 1990. Fiz então uma carreira de editor e fui até diretor da empresa. O JB foi por muito tempo o melhor jornal do país, a vanguarda do jornalismo moderno brasileiro. Devo muito, muitíssimo de minha carreira àquela instituição que aprendi a admirar quando ainda era criança. Também dei muito, muito de mim, de minha vida, de minha carreira àquela casa. Arrisquei minha vida muitas vezes no meu trabalho para o JB. E não me arrependo de nada. É fácil imaginar minha profunda tristeza ao ver sua decadência.

LMC - E o lançamento do JB na Internet?

Foi um momento glorioso para mim no jornal. Tínhamos um jornalista que trabalhava para a área comercial, o Sérgio Charlab, que foi um pioneiro da Internet no Brasil. Ele me convenceu da importância do projeto depois de, sozinho, do computador de sua casa, ter criado uma edição de Internet para o JB no dia 8 de fevereiro de 1995. Eu já era muito ligado nessas coisas. Tinha criado em 1991 o primeiro serviço de notícias em tempo real do país. Era o Sistema Instantâneo de Noticias, da Agência JB, instalado com apoio da Bolsa do Rio. Além disso, eu usava computador desde 1983. Foi com enorme entusiasmo, portanto, que dirigi então o projeto de lançamento do primeiro jornal brasileiro na Internet, em 1995, quando era dificil até explicar para as pessoas o que era a Web. Numa reunião de diretoria, tentei falar cinco vezes com o José Antônio Nascimento Brito, que voltara a dirigir o jornal, sobre o projeto Internet, e ele simplesmente não me deixava explicar. Claro, tinha problemas muito mais sérios que esse negócio que ninguém entendia. Depois da reunião, porém, agarrei o homem pelo braço e não precisei mais de dois minutos para convencê-lo. Ele passou a ser o maior entusiasta do projeto. Foi um golpe e tanto de imagem para um jornal que já estava tão combalido. Não gastamos um tostão, praticamente. Contamos com o apoio da ONG do Betinho, que era um provedor de Internet. Mas infelizmente, o jornal não soube ou não pôde aproveitar esse pioneirismo e lançar projetos mais ousados de Internet, que poderiam ter tido um efeito financeiro muito positivo para a empresa. O Charlab e eu tentamos convencer a empresa a investir num serviço de provimento de acesso. Era muito pouco dinheiro, já tínhamos sócio e tudo pronto, mas não houve interesse. Que pena!

LMC - Como vê o Jornal do Brasil nos dias atuais?

Definitivamente não é mais o mesmo. O JB só não morreu porque foi uma instituição, uma marca tão forte. Tenho muito poucas esperanças que o jornal ainda possa ressurgir das cinzas como uma fênix. Mas torço para que isso aconteça. Sou suspeito para falar disso, mas a crise do JB não foi causada por uma decadência jornalística. Mesmo nos piores momentos que eu vivi lá, o jornal manteve sua qualidade, sua dignidade editorial. A redação sempre teve um grau de independência enorme. Eu me lembro da Míriam Leitão, que era editora de economia, viajando a Brasília para entrevistar o presidente do Banco do Brasil e comentando comigo, à saída do jornal, a sua surpresa. Ninguém tinha recomendado nada, ninguém pedia a ela nenhum cuidado especial, nenhum favor na entrevista, apesar de o Banco do Brasil ser o maior credor do jornal, numa dívida que o JB não pagava nunca. O que não funcionava no JB, para mim, eram outras áreas, como publicidade, circulação, administração, gerência financeira. Era impressionante o que víamos do outro lado quando saíamos de nossa redoma na redação.

LMC - E a grande imprensa diária brasileira de forma geral?

Tenho o maior respeito e admiração pela imprensa brasileira. Temos que colocá-la numa perspectiva histórica para entender sua evolução, o extraordinário progresso que tivemos nas últimas décadas. Claro que temos altos e baixos, que nem sempre acertamos. Mas não gosto dessa visão saudosista que vejo às vezes refletida nas análises da imprensa brasileira. Tenho uma historinha sobre isso que me parece ótima. Fazíamos anualmente esses retiros em algum hotel, nos arredores do Rio, onde todos os editores avaliavam nossa perfomance e o que poderíamos fazer para melhorar. Um dos temas que se repetiam sempre era a necessidade de se resgatar o legendário prestígio do velho Caderno B, aquele grande suplemento cultural que fazia a cabeça da intelligentsia carioca. No último retiro em que estive, o jovem editor do Caderno B, Gustavo Vieira, levou o dever de casa pronto e soltou os cachorros. Esperou que tocassem no assunto e largou uma análise baseada em horas de estudo nos arquivos para ver como era, o que era aquele Caderno B de quando ele estava em fraldas. E nos mostrou que revivê-lo não tinha o menor sentido. O pior é que vendo com olhos de hoje não era tão bom assim.

LMC - Algo lhe entusiasma particularmente no jornalismo brasileiro do momento?

Eu não acompanho o jornalismo brasileiro de forma regular. Fica difícil encontrar algo que me entusiasme em particular. Mas, no Rio, o que me impressiona é a transformação lenta de O Globo e de O Dia em grandes jornais, enquanto nós íamos perdendo terreno no JB. Também me impressiona muito, em São Paulo, a transformação da Folha de S. Paulo no maior jornal do país, a maneira como ela desbancou o vanguardismo do JB no cenário nacional, passando a ser o jornal que mais influenciava o resto da imprensa  A Folha e O Globo são fenômenos extraordinários de viradas de qualidade jornalística. E isso sem prejuízo ou demérito do Estadão, que é um jatobá, uma árvore sólida, viva, estável, que também engrandece o jornalismo brasileiro. Outra virada fantástica foi a do Correio Braziliense. E um exemplo de excelência é a Zero Hora. Aliás, tenho tido boas surpresas pelo Brasil afora, nas minhas viagens. Muitos jornais que eram uma piada nos anos 70, que não tinham idéia de profissionalismo, ética, independência, também se transformaram de maneira espetacular. Fazer bom jornalismo dá dinheiro e felizmente há no Brasil, hoje, mais empresários que começaram a acreditar nisso. Há um enorme apetite dos jornalistas do interior por aprender, por crescer profissionalmente, por descobrir como convencer suas empresas a praticar jornalismo de qualidade. Há muito o que fazer, há muitos defeitos, mas há muito avanço.

Claudio Tognolli - Como você virou correspondente nos EUA?

Eu era correspondente do JB em Buenos Aires em 1987, quando ganhei a bolsa Nieman para jornalistas na Universidade de Harvard. Era para passar um ano em Harvard, estudando o que eu quisesse. O Marcos Sá Corrêa me convidou para ser correspondente em Washington, depois do meu ano em Harvard. Foi ótimo porque pude aproveitar para direcionar meus estudos, transformando a bolsa numa especie de preparação para meu próximo posto de correspondente. Na verdade, o meu sonho era ser correspondente em Washington, mudar de ares, do terceiro mundo para o primeiro. Mas foi um pouco decepcionante. Depois de tantos anos como correspondente na América Latina, cobrindo golpes de estado, guerrilhas, guerras e “otras cositas más”, passar a cobrir dívida externa pelo telefone me pareceu meio chato. É impressionante como se trabalha pelo telefone em Washington. Eu me lembrava da ironia de como era dificil apurar qualquer coisa pelo telefone na América Latina, onde o entrevistado queria quase sempre te ver, te olhar nos olhos. Em Washington, tive fontes governamentais que me atendiam sempre, me ajudavam com boas informações, mas se espantavam quando eu falava em visitá-las.

CT - Conta prá gente aquele epísódio de você ter sido o primeiro a ter feito uma reportagem sobre a fazenda do Brizola no Uruguai...

Foi lá por 1985, creio. Eu era correspondente do JB em Buenos Aires. Veio uma pauta dizendo que todo mundo no Rio tinha muita curiosidade de saber o que o Brizola realmente tinha no Uruguai, porque ia tanto lá, como era sua fazenda, se levava vida de rico, se tinha muita coisa ou pouca coisa. Havia muito mistério sobre essas viagens. Lá fui eu...
O Uruguai é muito pequeno, todo mundo conhece todo mundo. Em poucas horas, eu já tinha reunido um montão de informações. Sabia o tamanho da fazenda, quanto tinha custado, de quem ele tinha comprado. Sabia o tamanho e o valor do apartamento dele em Pocitos, uma praia perto do centro de Montevidéu. Sabia por onde ele andava. E então fui ao apartamento do Brizola para ver se ele ou alguém da família estava lá. Encontrei a nora dele, que, com a porta meio aberta, me disse que o filho do Brizola estava fazendo um cooper e não tardaria. Fui para a portaria e fiquei esperando. Quando ele chegou, suado da carreira, conversamos. Expliquei a matéria que estava fazendo e ele me contou algumas coisinhas, mas disse que eu precisaria da autorização do pai dele para poder visitar a fazenda. Por coincidência, chegou o capataz da fazenda e fui apresentado a ele. Eu lhe disse que dali ia à fazenda, pois continuaria tentando apurar minha matéria. E fui. Primeiro, conversei com pessoas na cidadezinha proxima, creio que se chama Carmem. Depois fui até a fazenda. Da estrada se vê a casa, no alto de um monte. Falei com vizinhos. Como as pessoas de Carmem, os vizinhos também falavam bem dele. Resolvi me aproximar e falar com as pessoas da fazenda. Passsei uma porteira e entrei. Cheguei a outra porteira, mais próxima da sede, onde veio uma pessoa me atender. Era um peão muito amável que se chamava Medina (mesmo nome de um adversário político importante de Brizola no Rio, naquela época). Eu falei que era jornalista brasileiro, que vinha de Montevidéu, onde tinha conhecido o filho do Brizola e o capataz. Ele me convidou a entrar e eu tirei fotos da casa mais de perto. Com as chaves na mão, ele chegou a me convidar a entrar na casa, mas eu disse que não, que achava que isso não seria certo. Pronto. Só isso. Fui embora. Liguei para o jornal e disse: “Se vocês estavam esperando uma matéria negativa, anti-Brizola, com revelações de riquezas e tramóias, podem tirar o cavalinho da chuva. Se vocês quiserem uma matéria leve, interessante, mostrando o que Brizola faz, como é a tal fazenda e sua casa simples e bonita, o que mais ele tem, a vidinha que leva quando vai descansar no Uruguai, isso é precisamente o que tenho.” O jornal topou e a matéria saiu bem. Alguns amigos ainda me gozaram, perguntando se eu tinha virado brizolista, para ter feito uma matéria tão positiva para ele. Eu respondia que não era brizolista, mas que tinha feito uma matéria normal, contando o que vi e o que apurei. Um ano ou dois depois, o Brizola perdeu a eleição no Rio, escapou para Nova Iorque e mais tarde só o jornal tinha o furo de que ele estava em seu refúgio no Uruguai. O editor me liga e me manda ao Uruguai ver se o Brizola me dava a sua primeira entrevista pós-eleitoral, algo que lembrasse aquela entrevista histórica do Vargas ao Samuel Wainer, no Rio Grande do Sul, dizendo que voltaria. E o editor ainda me gozou: “Você fez aquela matéria tão positiva... agora ele vai te receber bem”. Do aeroporto de Montevidéu, enquanto pegava um carro alugado, liguei para o apartamento do Brizola e ele mesmo atendeu. Eu me apresentei e ainda disse com orgulho: “Governador, eu que fiz aquela matéria sobre sua fazenda, lembra?”  Achei que aquilo seria um “abre-te sésamo”. Foi o contrário. Recebi a maior bronca.. Minha matéria, tão positiva aos olhos de todo mundo, tinha sido para Brizola e sua família uma grave violação de sua vida privada, pela qual eu deveria ter sido castigado severamente. Ele usou uma expressão de fazendeiro para ilustrar que pela tradição gaúcha eu merecia até castigo físico. Claro, força de expressão, imagino. Fiquei com uma questão ética na cabeça. Será que passei dos limites? Claro que o peão achou que, se eu tinha conhecido o filho do Brizola e seu capataz, eu automaticamente tinha recebido passe-livre. Mas eu não disse isso, não insinuei isso, não tive a intenção de enganá-lo. E não quis entrar na casa, quando me dei conta de que aquilo sim seria invasivo. Eu ainda me inclino a achar que não fiz nada eticamente desabonador e que o Brizola não pode reclamar de matéria sobre sua vida privada porque ele é um homem público. Mesmo se a matéria tivesse sido negativa.

CT - Quais são as tuas atribuições aí na Universidade do Texas?

Sou professor de jornalismo e dirijo uma cátedra financiada através de uma doação de um milhão e meio de dólares de uma fundação ligada à segunda maior cadeia de jornais dos Estados Unidos, Knight Ridder. Sou o equivalente a um professor-titular no Brasil e tenho “tenure”, ou seja, a estabilidade no emprego, baseada na liberdade acadêmica, que os professores de carreira conquistam nas universidades americanas, depois de suar a camisa. No meu caso, porém, já entrei com esse privilégio pois eles reconheceram que eu já tinha suado o suficiente como jornalista. É uma situação muito privilegiada, pois além de entrar no exército como general, sem nunca ter sido tenente, capitão, coronel, etc, ainda por cima tenho meus próprios recursos financeiros. Minhas três áreas de ensino e pesquisa são: reportagem internacional (focalizando sobretudo o trabalho dos correspondentes estrangeiros), jornalismo na América Latina (enfatizando a luta pela democracia e pela liberdade de expressão no hemisfério) e jornalismo online. Esta última área é a que me ocupa mais ultimamente.

Você acha que o jornalismo dos EUA é melhor que o brasileiro. Por quê?

Eu acho que sim, embora eu tenha o jornalismo brasileiro num conceito muito elevado em termos globais. Nunca pensei em fazer uma análise comparativa profunda, mas há muito poucos países no mundo, em minha opinião, onde se poderia facilmente identificar um jornalismo melhor que o brasileiro. Os Estados Unidos certamente estariam entre estes poucos países, apesar de todas as falhas estampadas freqüentemente na mídia daqui. Os jornalistas americanos desenvolveram ao longo de sua história estándares profissionais e éticos que lhe asseguram um padrão de qualidade raramente vistos em outras partes do mundo. Infelizmente, esses estándares têm sido desrespeitados ultimamente, no que se considera uma das maiores crises que o jornalismo dos Estados Unidos já enfrentou. A qualidade tem caído, a credibilidade dos jornalistas está em baixa e já há quem veja o jornalismo americano cavando sua própria sepultura. De todas formas, para voltar à pergunta, o jornalismo brasileiro só se desenvolveu profissional e qualitativamente nas últimas quatro ou cinco décadas. Viemos de uma tradição de corrupção generalizada, amadorismo, uso da imprensa como simples alavanca de interesses políticos e empresariais. Evoluímos muito. Temos um jornalismo melhor que nossos pais tiveram, mas ainda temos muito o que melhorar. E o pior é que somos macacos de imitação exagerados dos americanos e estamos importando sintomas da crise deles: crescente concentração dos meios em poucas mãos, excesso de mercantilismo, mescla de jornalismo com entretenimento, abandono de nosso compromisso social de informar para abraçar temas que dão mais ibope, etc.

CT - Você é visceralmente contra a faculdade de jornalismo. Explique-se!

Claudio, como você pode achar que eu sou visceralmente contra a faculdade de jornalismo se eu ganho a vida atualmente ensinando alunos americanos numa faculdade de jornalismo e treinando jornalistas em vários países? Comecei a ser professor de jornalismo aos 21 anos de idade, no Rio. Adoro ensinar jornalismo. Eu sou visceralmente a favor da faculdade de jornalismo. Eu não gosto de várias coisas nos currículos de jornalismo que vejo em algumas faculdades, a começar por uma ênfase exagerada em comunicação social, uma disciplina respeitável, mas que não precisa receber tanta atenção por parte dos estudantes que pretendem dedicar-se ao jornalismo profissional. Tampouco gosto quando há tanta ênfase nas faculdades de jornalismo ao jornalismo propriamente dito, como se fossem escolas técnicas ensinando um ofício qualquer. Eu acho que devemos ter faculdades de jornalismo com uma grande ênfase em humanidades, uma grande flexibilidade curricular para que os estudantes aproveitem seu tempo na universidade para fazer disciplinas de outras áreas, como filosofia, politica, economia, leis, negócios, sociologia, etc. Acredito numa educação humanística no básico, que culmine em cadeiras de técnicas de jornalismo e de estudos dos meios de comunicação. Por isso mesmo, acredito muito no modelo em que o curso de jornalismo aparece como um mestrado de um ano, sem importar que faculdade o aluno fez na graduação. Desde que cheguei no Texas, defendo isso aqui. Pelo menos agora temos um mestrado profissional, sem necessidade de muita teoria. Em vez  de tese, o aluno faz uma monografia ou mesmo uma produção jornalística de peso.

CT - Quem são os teus ídolos no jornalismo?

Puxa vida, isso é complicado. Meu primeiro impulso é dizer que não tenho ídolos. Se você quer dizer colegas que eu admiro muito, tem vários aqui mesmo na lista dos entrevistados de "Profissão:repórter". Mas como estou respondendo essa pergunta aqui em New York, a duas horas da cerimônia de entrega do prêmio Maria Moors Cabot, da Universidade de Columbia, aproveito a dica para destacar um dos homenageados desta noite, o Clóvis Rossi. Acho que eu tinha 20, 21 anos quando comecei a ler as matérias dele no Estadão. O cara escrevia de todas as partes do mundo, arrasava, era o máximo. Acompanhei de longe a carreira dele. Um dia, eu estava cobrindo o caso de uma brasileira presa no Uruguai, a Flávia Schilling, e conheci o Clóvis. Eu não podia acreditar que ali estava eu, como correspondente internacional, ao lado do Clóvis, num ônibus velho, numa noite fria, indo para um “ponto” onde nos iam encontrar para levar a uma entrevista meio clandestina com uns esquerdistas, em plena ditadura militar do Uruguai, 1980. Quando contei pro Clóvis, lá no fundo do ônibus, que o admirava tanto e há tanto tempo, ele me disse meio triste: “Rosental, eu só tenho passado. Já fui editor-chefe do Estadão, já viajei pelo mundo como repórter, como você lembra, e agora não vejo mais futuro para mim”. Eu disse que ele estava enganado. E estava mesmo. Ele teve um brilhante futuro nestes 21 anos desde aquela conversa, mostrando dignidade, sensibilidade, profissionalismo e entusiasmo para o trabalho (leia-se paixão pelo jornalismo), que raramente são vistos. Esta noite pretendo lembrar isso para ele e desejar que continue tendo um grande futuro.

Conte pra gente do que se trata o International Center for Journalists, do qual vc é consultor.

 O ICFJ não está sequer entre as organizações com as quais tenho mais relações, mas gostei muito dessa primeira experiência de trabalhar com eles, como instrutor, não como consultor. O ICFJ se dedica ao treinamento de jornalistas de todas as partes do mundo, programas de apoio a empresas jornalísticas ou organizações profissionais de jornalistas. Um dos programas deles, por exemplo, consiste em levar um jornalista profissional americano, por um período, para dar cursos, ensinar os mais variados aspectos do jornalismo, como diagramação ou técnicas de investigação em países em desenvolvimento. Um deles esteve este ano em Manaus, ajudando o sindicato e os jornalistas locais. Esse programa, aliás, é financiado pela mesma fundação que financiou minha cátedra, a Knight. Eu acho que essas fundações americanas dão um grande exemplo que deveria ser seguido por empresas e empresários brasileiros que fizeram suas fortunas graças ao jornalismo, e deveriam dar algo de volta para melhorar a qualidade do jornalismo brasileiro. Já é hora de que isso comece a ocorrer no Brasil, através das fundações ligadas às grandes empresas de comunicação.

CT -  Em fevereiro, a Corte Suprema dos EUA determinou que fitas obtidas de forma ilegal são válidas na peça judicial. O que você acha disso?

Não foi bem assim. Foi uma decisão cheia de senões, muito cuidadosa, porque os juízes sabiam que estavam entrando num terreno minado, em águas nunca dantes navegadas. Basicamente, o que eu me lembro da decisão é que eles disseram que naquele caso específico, como se tratava de uma gravação obtida ilegalmente mas sobre um tema de interesse público, e que envolvia figuras públicas, prevalecia o interesse público e a liberdade de imprensa. Mas é importante observar que a sentença tem uma grande quantidade de ressalvas e manifesta enorme preocupação com o crescente impacto da tecnologia na invasão da privacidade dos cidadãos. Acho que se deve analisar caso a caso, pois também não tem graça nenhuma a imprensa ser usada por bandidos que estão por aí gravando as conversas das pessoas de forma criminosa. É um dilema e tanto, que deve ser visto caso a caso.

CT - Quais os livros que mais te marcaram?

Eu acho que tive diferentes ciclos de influência. Um dos mais importantes foi o de Machado de Assis, que reencontrei no meio dos meus 20. Adoro todos os seus livros, todos os seus contos. Lí alguns na escola, como se estivesse tomando remédio, e depois, quando já era jornalista, os amei como se estivesse saboareando um bom vinho. "Quarup", de Antônio Calado, teve um enorme impacto em mim. Acho que estava muito ligado à época, ao início da década de 70 e ao que vivíamos naquela época. Por algum tempo eu era capaz de recitar trechos de "Quarup". “A Primeira Vítima”, de Phillip Knightley, que me foi presentado por meu amigo José Casado, teve também um impacto marcante na minha vida. Hoje adoto esse livro no meu curso e sou colega do Phillip Knightley no conselho do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos. "Casa Grande e Senzala", "Os Sertões", "Cem Anos de Solidão", "Grande Sertão: Veredas", "As Veias Abertas da América Latina" (o livro do Galeano, censurado, lido numa cópia xerox em espanhol, como se fosse uma preciosidade – e foi, despertou meu interesse pela América Latina). Ah, teve a fase do McLuhan ("A Galaxia de Gutemberg", "Entendendo a Midia como Extensão do Homem"); teve aquelas complicações do Marcuse, do Sartre... Olha, foram tantos livros marcantes que não vou falar me lembrar de todos. O último é um pequenininho que se chama “The Elements of Journalism”, de Bill Kovach e Tom Rosenstiel. Tomara que saia logo no Brasil. Eu acho que será um clássico, uma tentativa de resgatar o jornalismo americano de sua atual crise.

CT - Você é a favor de reportagens feitas somente com o auxílio do computador, aí nos EUA conhecidas como "CARs" ?

Se mais jornalistas brasileiros entendessem que computador não é apenas uma máquina de escrever de luxo, a qualidade e a quantidade de matérias investigativas seria muito mais alta na imprensa brasileira. Pelo menos nos tempos em que eu a acompanhava mais de perto, notava esta ausência do uso de computadores para ajudar o trabalho de apuração, de investigação jornalística. Cruzando dados, acessando bases de dados, dando sentidos a números publicados de forma ininteligível, reportagens feitas somente com o auxílio do computador podem ser muito úteis. No entanto, não gosto deste “somente”. Preferiria que sempre houvesse também o trabalho tradicional de entrevistas, personagens, o lado humano, a cor, a historinha e não apenas as revelações frias destas entrevistas aos dados.

CT - Você acha que a mídia dos EUA está colaborando com uma suposta "paranóia americana" ao repetir "n" vezes as imagens dos atentados?

A repetição das imagens daqueles aviões chocando-se com o World Trade Center foi, sem dúvida, exagerada. Mas não é a causa da paranóia americana e talvez a paranóia americana não seja realmente uma paranóia, mas um temor real. O terrorismo alcancou um marco, um nível de destruição maior do que até a mais exagerada imaginação de Hollywood tinha sido capaz de produzir. E a história do terrorismo mostra uma escalada, um atentado-mór supera o atentado-mór anterior. Como será o próximo? Será mesmo paranóia pensar que os terroristas estão agora interessados em armas químicas ou bacteriológicas? Será mesmo paranóia pensar que não hesitariam em usar uma bomba atômica? Hoje, no vôo de Austin para New York, vi os sinais de que o mundo já não é o mesmo desde daquela manhã trágica de 11 de setembro. O piloto deu instruções de segurança aos passageiros (evitem ficar de pé, disse ele), a aeromoça pediu que um sujeito voltasse para seu lugar antes que ela abrisse a cabine de comando para dar a comida dos pilotos, pediram minha identidade várias vezes, e o piloto do vôo anterior avisou que ninguém se assustasse com a fumaça negra que saía de uma área do aeroporto – era apenas treinamento de bombeiros.

CT - Dizem que umas das tuas geniais sacadas foi ter inventado o jornal toalha de bar, que hoje é copiado em todo o país. Conte isso prá gente...

Não tenho o mérito da invenção. Apenas me juntei a um querido amigo jornalista carioca já falecido, o Lanning Elwis, que teve a idéia de aproveitar a toalha de mesa de bar para imprimir nela um jornalzinho de humor, com piadas, charges, palavras cruzadas e até um “torpedo” (o formulário de um bilheitinho, no canto da toalha, para mandar a(o) vizinha(o) da mesa ao lado). Foi uma experiência legal.

CT - Porque no Brasil é tão pequeno o mercado de revistas alternativas como a Caros Amigos???

Aqui nos Estados Unidos, a imprensa alternativa também luta com dificuldades, mas é grande, conta com a solidariedade de muita gente e acaba sobrevivendo às constantes tempestades. No Brasil, já tivemos época, na ditadura, em que a imprensa alternativa tinha razoável penetração de mercado e, sobretudo, uma grande repercussão. O mundo de hoje certamente é mais complexo, mas é muito importante insistir, pois estas coisas são cíclicas. A imprensa alternativa é muito útil para a democracia, num mundo dominado cada vez mais pelas grandes corporações. Creio que a tecnologia abre novas perspectivas para os meios alternativos, que estão prosperando de forma extraordinária na Internet, por exemplo.

CT - Fale dos teus alunos aí no Texas...O que você fala pra eles, o que eles querem ouvir, etc...

Depende. Eu tenho alunos de graduação, de mestrado e de doutorado. Tenho, como disse, áreas diferentes. Há de tudo. Dos que estão aqui para ganhar um canudo e cair fora, aos que questionam, brigam o tempo todo; dos esquerdistas aos conservadores; dos que sabem que há um mundão lá fora aos que não têm a menor idéia do que sejam as vidas não-americanas que se vivem neste enorme planeta. Uma das coisas que mais me impressiona são os hispanos, os americanos filhos de imigrantes latino-americanos que chegam à minha aula de Jornalismo na América Latina sem ter a menor idéia da história do intervencionismo dos Estados Unidos no hemisfério. Têm nomes como Juarez ou Hernandez, mas não falam espanhol, não conhecem nem a geografia da América Latina. Já tive aluno que achava que o Brasil estava no lugar da Vanezuela, no mapa. Ou outros que só sabiam identificar o México num mapa sem nomes. O mais chocante é quando falo dos golpes, como Guatemala 1954, Chile 1973, das invasões e conspirações. Eles olham para mim incrédulos, perguntando, “nós fizemos isso?” Que pena que tantos se apaixonam tão tarde na vida por olhar para suas raízes, pois os pais imigrantes não queriam falar disso, não queriam que falassem suas línguas, muitas vezes pressionados pelo persistente racismo. Mas o que me agrada mais é falar de jornalismo, ensinar a escrever um lead, explicar o que é notícia e, sobretudo, pregar que jornalismo é paixão. Pena que não sei dizer em inglês, com precisão, que “jornalismo é uma cachaça”.

CT - Conte a história de que o filho do ex-diretor de redação, Abe Rosenthal, queria te conhecer porque achava que o teu nome fora dado em homenagem ao velho Abe...

Nos EUA, todo mundo pensa que meu nome é sobrenome. E sempre me perguntam como é que alguém pode se chamar Rosental. Houve uma época que eu estava meio cheio disso, então inventava uma história diferente cada vez que me vinham com essa chateação. Uma vez, quando era correspondente em Washington, uma repórter do New York Times me fez esta pergunta e me saí com essa história de que, quando nasci, minha mãe olhou bem pra mim e pensou, “esse menino pode vir a ser jornalista e pode imigrar para os EUA; como tem esse jornalista, Abe Rosenthal, que está despontando no New York Times, vou botar o nome em homenagem a ele, e quem sabe no futuro não lhe dá um emprego en Nova Iorque”. O Abe Rosenthal era o editor-chefe do Times. Ora, claro que era uma brincadeira, mas não falei nada. Naquele mesmo dia, a moça me liga e diz que o filho do Abe Rosenthal queria me conhecer e que o pai dele me adotaria, que a história era maravilhosa. Eu então perguntei se a moça estava maluca, disse que era brincadeira. Ela ficou desapontada e disse que não tinha coragem de dizer isso pro rapaz. Talvez ele até hoje pense que tem um jornalista brasileiro que recebeu o nome em homenagem a seu pai. Depois disso, quando inventava minhas histórias passei a explicar que era brincadeira.

CT - O que você acha dos prêmios de jornalismo no Brasil??? Fazem justiça ou não???

Sou do júri de três prêmios, atualmente. O da Editor and Publisher, para os melhores jornais americanos na Internet; o Maria Moors Cabot, para jornalistas cujas carreiras se destacam no hemisfério, especialmente contribuindo ao entendimento entre as Américas, dado pela Universidade Columbia, de Nova Iorque; e o Prêmio Cemex-FNPI, dado pela Fundação para um Novo Jornalismo Ibero-Americano, criada e presidida pelo Gabriel Garcia Marquez. Para este último prêmio, que vai distribuir 100 mil dólares a jornalistas latino-americanos este ano, foram registrados quase 700 trabalhos. Imagine a trabalheira de leitura, a briga entre os jurados, o sofrimento, a ânsia de ser justo. Nunca acompanhei de perto e nunca concorri a prêmios no Brasil, nem nunca fui convidado para nenhum júri. Mas, pela minha experiência aqui fora, sei das dificuldades do processo de seleção. Uma coisa que acho estranho no que ouvi falar sobre prêmios brasileiros, é que representantes dos veículos que estão concorrendo podem votar e advogar dentro dos júris, como se estivessem falando como representantes de suas empresas. Se isso é verdade, acho que de alguma maneira deveria ser corrigido. O júri deveria ser grande o suficiente para que quando se estivesse deliberando sobre o caso de uma matéria da empresa de um dos jurados, este deveria sair da sala e deixar que os colegas deliberem à vontade. Se não for assim, os veículos que têm representantes no júri levam uma vantagem enorme e acaba vencendo o representante que fala mais alto.

CT - Porque vc acha que aumentaram tanto os processos contra jornalistas no Brasil?

A imprensa brasileira é muito agressiva. Isso é bom para a democracia, já que ela tem mesmo que exercer o seu papel de cão de guarda, de vigilante, de fiscal do interesse público. Não há democracia se não existe uma imprensa independente cumprindo esse papel. Mas esse papel deve ser exercido dentro de limites éticos e legais, para evitar que essa liberdade se transforme numa guerra de vale-tudo ou numa arma para facções. Uma das coisas mais admiráveis na história da imprensa dos EUA é como a justiça firmou princípios sólidos de apoio à liberdade de imprensa, entendendo e impondo claramente seu papel de pilar da democracia. Embora na crise atual do jornalismo americano isso esteja mudando um pouco devido ao desprestígio da imprensa, ainda existe nos EUA uma base sólida para a liberdade de imprensa. Uma das mudanças tem sido a atitude de júris populares, que acham que a imprensa não deveria ter tanta liberdade. Há uma visível má vontade na opinião pública, mas os princípios da Primeira Emenda continuam sólidos como uma rocha. No Brasil, no entanto, falta essa base. Creio que as escolas de Direito não ensinam a importância da liberdade de imprensa, pois escuto falar cada vez mais de sentenças ou decisões judiciais que mostram uma tremenda ignorância sobre esses princípios democráticos tão óbvios e tão preciosos. Ouço falar de casos em que juízes se transformam em censores, numa violação gritante do que está em nossa Constituição. Só posso imaginar que isso seja conseqüência da ignorância desses juízes sobre o papel da imprensa numa sociedade democrática. Deveríamos fazer esforços para educar a sociedade brasileira em geral e os juízes em particular sobre o significado, o alcance da liberdade de imprensa.

CT - O que mais te chocou ao ouvir relatos de jornalistas processados quando você recentemente veio ao Brasil dar palestras pelo ICFJ?

O que mais me chocou foi ver a falta de um esforço coordenado dos jornalistas e dos meios de comunicação em defesa da liberdade de imprensa e dos jornalistas. Em relação à violência contra jornalistas, o descaso chega a ser vergonhoso. Quando um jornalista brasileiro é assassinado ou agredido, parece haver mais indignação e esforços coordenados de denúncia e demanda de justiça por parte de organizações estrangeiras do que de brasileiras. Nos dois seminários que fizemos no Brasil, escutei versões completamente opostas, por exemplo, sobre as razões pelas quais foi assassinado um fotógrafo no Pará, que tinha tirado fotos dos cadáveres do massacre de Eldorado de Carajás. Como pode ser que num país como o nosso, com os recursos que temos, não somos capazes de organizar um sistema de reação imediada quando ocorre algum ato violento contra jornalistas no exercício da profissão? Como pode ser que não tenhamos capacidade de investigar rapidamente esses casos? Como pode ser que os jornais não destaquem esses casos?

CT - Liberdade de imprensa é liberdade de empresa, dizem por aí. Você concorda?

Não é que a frase seja desprovida de qualquer fundamento. Mas tenho visto esse argumento ser usado pelos comunistas, por exemplo, para justificar sua visão de que os meios de comunicação sejam usados em benefício do partido, como força de agitação, propaganda e mobilização. Escutei isso em Cuba e em outras partes. É um desdém pela liberdade de imprensa porque ela só beneficiaria os ricos, os poderosos e não o povo. Eu não acredito nisso. Acho que a liberdade de imprensa é indispensável para a existência da democracia. Claro que os grupos poderosos estão sempre procurando tirar proveito, mas a diversidade de vozes e de meios de comunicação acaba criando antídotos para isso. O sistema não é perfeito, mas não conheço outro melhor. Além disso, estamos no amanhecer de uma nova era dos meios de comunicação, em que a censura ou a manipulação da verdade por meios monopolísticos se torna cada vez mais difícil, senão impossível. Imagine se na época da Web, dos e-mails, do satélite, uma empresa ou um grupo de empresa pode impor, como antes, sua verdade.

 LMC - Quais foram as melhores reportagens que você fez no Brasil?

Fiz muito mais reportagens no exterior do que no Brasil. Acho que uma das melhores no Brasil foi na Veja, em 1985, quando  o Élio Gáspari lançou o desafio, às vesperas do início da Nova República,  de que algum repórter achasse uma pista que permitisse a reabertura do caso Baungartem. E eu consegui. Localizei um coronel que tinha deixado o SNI e me deu uma longa entrevista que permitiu a reabrir o caso na imprensa, levando meses depois à reabertura do próprio inquérito.
Na minha fase do Caderno B, talvez as melhores tenham sido sobre o naturalista capixaba Augusto Ruchi. Ainda no B, teve uma que adorei. Era sobre as pessoas que trabalhavam de madrugada no Rio. Fiz uma pequena crônica sobre cada personagem. Cada crônica começava com uma determinada hora, das 18h às 6h e ficava num quadrinho, 12 ao total. Não me lembro mais.

LMC -E no exterior, como correspondente, incluindo as entrevistas exclusivas?

Da fase da Espanha, creio que minha melhor foi uma reportagem sobre a anistia e o Pacto de la Moncloa, que selaram a transição da ditadura franquista para a democracia. Foi importante porque saiu no Brasil no meio da grande discussão sobre a anistia, no governo Figueiredo, em 1979. Da fase da Argentina, foram tantas. Uma das primeiras foi inesquecível: uma entrevista exclusiva com o temido ministro do Interior do Paraguai, em que ele reconhecia a prisão de vários argentinos, chilenos e uruguaios, tidos como desaparecidos políticos. O Domingo Laíno, líder da oposição a Stroessner e uns ativistas dos direitos humanos, me convenceram a publicar a entrevista de imediato, dizendo que disso poderia depender a sobrevivência daquelas pessoas.
Creio que as coberturas de cinco golpes de estado ou tentativas de golpes na Bolívia, num perído de apenas dois anos e meio também foram muito boas. Sempre fui dos primeiros jornalistas a chegar nos golpes e rebeliões. Uma vez, cheguei a publicar um plano de golpe que um coronel ligado ao narcotráfico estava começando a executar. Foi uma exclusiva, o plano foi abortado e o coronel prometeu publicamente, numa coletiva, que me mataria a pauladas.
Na Argentina, tenho muito orgulho de ter entendido e escrito que o desastre da guerra das Malvinas significava o fim da ditadura militar naquele país. Lembro-me de colegas tomando um uisquinho lá em casa e dizendo que eu tinha sido exagerado e sensacionalista ao sacar essa conclusão numa matéria em que descrevia a ira dos argentinos queimando ônibus e carros e chegando à porta da Casa Rosada em fúria, quando souberam que o noticiário era todo mentiroso e que haviam de fato perdido a guerra de forma humilhante.
Da época do México, tenho muitas histórias das guerras da América Central, mas há uma que foi especialmente importante para mim. Fui para a selva de Chiapas, no México, investigar histórias de massacres na vizinha Guatemala. Consegui, junto com um amigo do New York Times, uma matéria reveladora de um massacre de toda uma aldeia indígena da Guatemala. Entrevistamos testemunhas, sobreviventes. Mais de 15 anos depois, tudo foi confirmado pela Comissão da Verdade sobre a guerra suja na Guatemala, numa investigação da ONU que chegou a encontrar os restos mortais das vítimas, a maioria mulheres e crianças.

LMC - Quais foram as boas histórias que você viveu como jornalista – boas ou ruins, engraçadas ou perigosas.

São tantas histórias que não sei quantas e quais posso contar aqui. Na guerra de El Salvador, minha primeira e minha última coberturas foram as mais dramáticas. A primeira porque foi minha estréia numa situação de guerra e porque foi cheia de episódios dramáticos. Como uma matéria sobre um sargento que cuidava de uma cidadezinha do interior. Eu viajava com companheiros de uma TV alemã, a ZDF, e nós nos deparamos com toda uma família assassinada, incluindo crianças de seis e sete anos, que tiveram seus corpos mutilados. Em pouco mais de duas horas de investigação, descobrimos em detalhes a história de um sargento apontado pela comunidade como culpado daquele e de outros massacres. Ele matou a família porque um dos filhos foi levado, aparentemente à força, pela guerrilha. Naquela mesma semana, contei a história ao presidente de El Salvador. E um ano depois um assessor militar americano me confirmou que o sargento era um assassino contumaz e que tinha sido preso.
Na minha última viagem, em 1989, vivi as situações mais perigosas de toda minha experiência em El Salvador. Numa dessas ocasiões, um guerrilheiro atirou a pouca distância contra o táxi em que eu viajava. Era a primeira vez que eu via aquele clarão prateado saindo do cano de um fuzil em minha direção. Eram garotos que não entendiam nada, só gritavam, no meio de uma zona da capital em que o Exército lutava para expulsar a guerrilha. Fiquei detido pelos meninos guerrilheiros até que consegui ir até o posto de comando mais próximo falar com o chefe, “el viejo”, um cara de uns 20 anos, que mandou liberar a mim e ao táxi.

LMC - Porque trocou o jornalismo de redação pela carreira universitária?

Quando vi o anúncio classificado que convocava candidatos para essa cátedra no Texas, eu achei que era uma grande oportunidade para mim. Eu achava que já tinha encerrado um novo ciclo no JB e na minha carreira e estava pensando em mudar de vida. No final das contas, a oportunidade era muito melhor do que eu pensava. Eu já tinha dado aula por mais de sete anos no Brasil e tinha gostado daquela experiência. O desafio de ensinar jornalismo em inglês, para americanos, nos Estados Unidos, era enorme e pensei que ia ficar menos tempo por aqui. Mas acabei gostando. Não sei até quando ficamos, mas não estou com pressa de voltar, como é o caso da minha mulher ,que morre de saudade o tempo todo. Eu também tenho saudade, mas as condições aqui são excepcionais.

LMC - Como avalia o tratamento da imprensa brasileira em relação aos governos FHC?

Não acompanho com regularidade a imprensa brasileira, para fazer uma avaliação atualizada. Mas acho que em geral o Brasil tem uma imprensa bastante agressiva e independente. Duvido que o Fernando Henrique esteja contente com a cobertura que recebe. Mas duvido que o PT e os outros partidos de oposição não achem que a cobertura é favorável a FHC.

LMC - Quem fez ou faz a sua cabeça, no melhor sentido da expressão?

Não sei. Se alguém fez minha cabeça, fez sem eu perceber. Não tive na minha carreira nenhum guru, nenhum mentor.

LMC - O que é que jornalistas nunca devem fazer?

Inventar, mentir, esquentar matéria, ser injusto, perder a sensibilidade, a compaixão, a capacidade de se indignar e a noção de que nesta profissão representamos o interesse público acima de qualquer outra coisa.

LMC - Quais são seus livros/filmes preferidos sobre jornalismo?

Ando totalmente apaixonado pelo livro “The Elements of Journalism”, de Bill Kovacj e Tom Rosenstiel, lançado este ano nos Estados Unidos. É o resultado de um longo trabalho para analisar a crise do jornalismo americano e resgatar os fundamentos dessa profissão que tem sido esquecidos ou abandonados. O último filme de jornalismo legal que vi foi "The Insider", mas tenho uma pequena coleção de filmes que contam historias de correspondentes estrangeiros, começando com “Foreign Correspondent”, de Alfred Hitchcock, de 1940, "O Ano em que Vivemos Perigosamente", "Killing Fields", "Under Fire"...

LMC - Como é o seu dia a dia na vida acadêmica?

Dou aulas terças e quintas, mas atendo alunos, participo de bancas de doutorado, supervisiono teses de mestrado, dou conferências, palestras e cursos extras em vários países e cidades, participo de conselhos e diretorias de entidades de jornalismo, escrevo artigos acadêmicos, etc. Viajo muito mais do que gostaria, mas agora ando evitando viagem e falando através de videoconferência. Mas tenho uma espécie de frila fixo, como diríamos no Brasil, como consultor permanente do maior jornal do México, El Universal. Há mais de um ano que os ajudo em sua operação de Internet. Ao contrário da “dedicação exclusiva” das universidades brasileiras, nos EUA as universidades até gostam que você esteja ligado com a indústria, realizando projetos ou sendo consultor, dentro é claro de certos limites de tempo e que você esteja trabalhando na área de suas atividades de ensino e pesquisa.

LMC - Como vê as experiências de crítica da mídia que estão se desenvolvendo no Brasil?

Desde que eu saí do Brasil essa crítica da mídia parece ter-se intensificado muito e acho isso de suma importância para o amadurecimento da imprensa brasileira. A mídia é um setor empresarial grande, importante, poderoso, sofisticado o suficiente para receber uma cobertura adequada das páginas de economia dos jornais, o que por muito tempo foi um tabu. Além disso, é muito saudável que se cubra também o conteúdo jornalístico oferecido por essas empresas. Das análises acadêmicas à crítica regular de meios  especializados, isso ajuda a dar transparência à mídia. Creio também que essa crítica da mídia precisa ser consumida não só por nós, profissionais que estamos ligadas a ela, mas também pelo público em geral. Jornalismo deveria ser matéria obrigatória de todas as faculdades. A cidadania precisa entender como a mídia funciona, para poder interpretar melhor os produtos que ela lhe oferece diariamente.

LMC - Para onde aponta o jornalismo do século XXI com o crescimento da Internet?

 A Internet é apenas a parte mais visível, mais popular de algo muito mais importante e de alcance muito maior que é a Revolução Digital, de onde estamos criando a Sociedade da Informação. Não são apenas rótulos, são mudanças revolucionárias nas formas como a humanidade comunica, armazena e acessa informações. O jornalismo está sendo afetado fortemente por essa revolução. A Internet foi motivo de previsões exageradas e catastróficas, como se o mundo inteiro fosse mudar de uma hora para outra. O jornalismo na Internet ia acabar com outras formas de jornalismo num piscar de olhos. Já tínhamos visto esse filme antes, em outras ocasiões similares de surgimento de outras formas de jornalismo. No final sempre houve um processo de adaptação e convivência. O jornalismo na Internet está meio por baixo agora, devido a vários fatores. Mas não está morto. Ao contrário, continua crescendo. Cada vez há mais gente que depende da Internet regularmente para acessar notícias. Numa pesquisa de outubro de 2001, feita pelo instituto Harris, 8% dos entrevistados dizem que a Internet é sua principal fonte de notícias. É um percentual igual aos que disseram que era o rádio sua principal fonte. Para mim isso é extraordinário para uma forma de jornalismo que existe há apenas cinco ou seis anos. E isso é apenas o começo. A geração Internet ainda não chegou ao mercado de trabalho. Será uma geração que nunca conheceu o mundo sem computadores, sem Internet, sem a lógica da base de dados. Estamos apenas na infância desta nova forma de jornalismo. Estamos criando sua linguagem, sua narrativa. Ainda estamos tateando, mas eu acredito que nos próximos anos vamos ver um mundo pós-Internet, com formas de jornalismo adaptadas aos novos equipamentos que vão aparecer para substituir os computadore que conhecemos hoje. O futuro me parece mais na direção do palmtop que do laptop, mais na direção do e-book que na do celular. Os jornalistas devem se preparar para essas mudanças, mesmo aqueles que pretendem continuar nos meios tradicionais, pois estes estão sendo afetados pela nova rearrumação do ambiente da mídia. Estamos apenas experiementando os efeitos da futura convergência dos meios, da possibilidade de misturar texto, áudio e video numa só narrativa jornalística. Mas será um processo lento, em que os meios atuais ainda conviverão pacificamente por muito tempo.

Manoel Francisco Brito (Kiko)- Você foi correspondente estrangeiro para publicações brasileiras durante longo período de sua carreira jornalística. Você acha que a qualidade desta atividade na imprensa nacional é melhor do que foi na sua época?

Confesso que não tenho acompanhado com muita freqüência o que nossos correspondentes de hoje em dia andam publicando. O que vejo, porém, é em geral de boa qualidade, de qualidade similar a do nosso tempo em Washington, meu caro Kiko. Sempre resisto à tentação de achar que tudo na época da gente era melhor e que as novas gerações são piores ou mais preguiçosas por default. Vejo com tristeza, porém, o declínio no número de correspondentes estrangeiros na nossa imprensa. Mesmo a TV Globo, que mantém seus escritórios em Nova Iorque e Londres, exagerou nos últimos anos na visão de que alguém pode simplesmente ir à rua de Londres ou de Nova Iorque e de lá apresentar uma notícia que acontece a milhares de quilômetros de distância. Isso não é ser correspondente. Lembro dos bons tempos em que cruzava com o pessoal da Globo fazendo reportagem internacional de verdade, onde quer que estivesse ocorrendo algo importante.

MFB - Se você trabalhasse hoje num jornal brasileiro e tivesse condições de abrir duas posições de correspondente estrangeiro em qualquer lugar do mundo, que lugares você escolheria? Por que?

Se eu já tivesse correspondentes nos lugares mais óbvios nos Estados Unidos, Europa e Argentina, creio que abriria uma frente nova na Beijing e outra em Bogotá.  Mas tudo ia depender se houvesse grana como nos velhos tempos para dar mobilidade aos correspondentes. Preferia talvez investir em deixar os atuais correspondentes viajarem, em vez de abrir novas frentes e tê-los presos numa única cidade.  Por que Beijing e Bogotá? Estive em Beijing há uns poucos meses e fiquei fascinado pela cidade e pelo país, pela importância do que vai acontecer ali nas próximas décadas com repercussões enormes na Ásia e no resto do mundo. Só um correspondente que more lá, entenda a cultura e a história daquele povo pode apresentar uma visão fidedigna e deixar os leitores com uma idéia do que vem pela frente. Bogotá por causa da óbvia razão – aquela guerra sem fim – e porque o Brasil precisa prestar mais atenção para o Norte da América do Sul, dos países andinos às Guianas. Além da Colômbia, a Venezuela seria área prioritária do meu correspondente em Bogotá.
 

MFB - Iindique dois livros que você considera fundamentais para qualquer jornalista interessado em cobrir a America Latina.

Dois livros que despertaram meu interesse pela América Latina, lá no início dos anos 70 foram “América Latina: estruturas sociais e instituições políticas” (algo assim), de Jacques Lambert, e “As Veias Abertas da América Latina”, do Eduardo Galeano. Para entender o México, é fundamental ler “Vizinhos Distantes”, de nosso amigo Alan Riding. Para ter uma visão mais atual da América Latina e encontrar uma das mais belas narrativas jornalísticas sobre a América Latina é indispensável ler Alma Guillermo Prietto, especialmente “Looking for History: Dispatches from Latin America”, que saiu este ano, e “The Heart that Bleeds: Latin America”, que saiu há uns cinco ou seis anos. Mas quem seria capaz de entender América Latina sem ler o Gabo, Gabriel Garcia Marquez?
 

MFB -  Quais as diferenças de formação de um jornalista no Brasil, onde você foi professor, e nos Estados Unidos, onde voce é professor?

A primeira diferença é que o aluno de jornalismo daqui estuda menos jornalismo e comunicação do que aí. Só um quarto dos cursos podem ser de jornalismo. Os outros três quartos são de um currículo básico flexível, formado através de matérias obrigatórias e eletivas de várias faculdades. A flexibilidade é enorme. O aluno pode fazer um “major” em jornalismo e um “minor” em literatura ou economia, coisas assim. Acho que a ênfase nessa formação humanística, generalista, é muito boa. A condição de trabalho para os professores é outro fator essencial ao analisar as diferenças. Fui professor aí e agora sou aqui e posso te assegurar que as conseqüências dessa abismal diferença de condições de trabalho do corpo docente têm um impacto fortíssimo na qualidade do ensino que os estudantes recebem. Outra diferença é a ligação entre a universidade e as empresas jornalísticas. Fui editor no JB, por cinco anos, e durante todo aquele tempo nunca tive contato com as faculdades de jornalismo do Rio. Aqui tenho sempre contato com os jornais, com as entidades jornalísticas dos Estados Unidos, participo de suas convenções e conferências. Semana que  vem, haverá a feira de trabalho que se repete aqui na faculdade todo semestre. Dezenas de empresas jornaísticas de todo o país mandam pessoal de recursos humanos para recrutar alunos. E olha que aqui o diploma não é pré-requisito para alguém trabalhar como jornalista.
 

MFB - Cinco conselhos que você daria a qualquer repórter que pretenda
perseguir a carreira de correspondente estrangeiro.

Eu podia repetir cinco vezes o conselho “ler muito” e creio que estaria dando a melhor resposta. Ler, estar bem informado sobre a história, o contexto dos eventos internacionais, ajuda a desenvolver a capacidade de análise que todos os correspondentes devem ter. História é fundamental.
Mas vamos lá, o que mais? Desenvolver uma base sólida de experiência profissional como repórter e como redator. Saber apurar bem e saber escrever bem e de forma rápida. Outro conselho é saber inglês bem. Inglês é a língua franca. Mesmo se a pessoa dominar outras línguas ou a língua falada no país onde ela será correspondente, é fundamental que também fale inglês. Desenvolver a versatilidade que permite ao correspondente escrever sobre o que pintar, sem prejuízo de certas especializações dependendo da ênfase dos países que vá cobrir. A especialidade da moda aqui nos Estados Unidos para um jovem tornar-se correspondente com mais facilidade é economia. A globalização forçou a abertura de uma nova frente de correspondência internacional na área de negócios. Empresas como Bloomberg, Bridge, Dow Jones, etc, estiveram abrindo bureaus ao redor do mundo nos últimos anos. O New York Times criou uma rede paralela de correspondentes, paga pela editoria de negócios.  Como é muito difícil que uma empresa te mande como correspondente, a idéia de fazer uma tentativa como free-lance ou stringer (frila fixo) também deve ser analisada com carinho pelos candidatos, embora implique em certos riscos. O macete é analisar esses riscos muito bem, estabelecer uma rede de contatos em diferentes meios que possam ter interesse em colaboração originada naquela parte do mundo, pegar a trouxinha, viajar e torcer pelo melhor. Sempre é bom ter a passagem de volta mais ou menos garantida, para o caso de não dar certo.

MFB - Decline todos, mas todos mesmo, os apelidos que você ganhou ao longo de sua carreira na imprensa brasileira. Não vale deixar nenhum de fora.

Kiko, você sabe que meu apelido na América Latina foi Rosentelex, porque quando eu grudava num telex não largava mais e porque desafiava qualquer um a ver quem conseguia escrever uma matéria diretamente naquela máquina infernal – você tinha que apertar uma tecla sempre que quisesse trocar de algarismos para letras e vice-versa, além do mais não tinha retorno para correção… Outro dia me dei conta, espantado, que os jovens correspondentes nem sabem o que era um telex. Bom, mas como você continua um grande sacana, está querendo que eu revele o apelido que voce tentou me botar, mas que obviamente não colou: Rosinha. Até porque eu soltava um bom palavrão toda vez que você me chamava por esse absurdo apelido. Olha pra minha cara e veja lá se tenho cara de Rosinha!

Moisés Rabinovici - Chamavam-no "rosentelex", ao tempo do telex; "rosenfax", na do fax; mas, e agora, na era internet, do laptop? E em que você mais ensina do que reporta?

Até que eu gostava do meu apelido de Rosentélex (sim, com ênfase no segundo e). Tinha orgulho da maneira como consegui me adaptar aquela máquina infernal. Eram bons tempos. Mas agora, com os computadores, não tem nenhum apelido similar. Quando dou minhas consultorias e me apresentam como gurú, me sinto lisonjeado mas isso é obviamente um exagero carinhoso. Não tenho estatura de um gurú.

MR -  Quando é que você volta pro Brasil?

Não tenho uma idéia muito precisa sobre isso. Ja vou fazer seis anos aqui e talvez complete dez. O importante, sim, é que quero voltar. O problema é que as condições de trabalho aqui são excelentes, gosto muito do que faço e creio que é uma boa oportunidade para que meus filhinhos (a mais nova tem apenas um ano e a mais velha tem 8) sejam bilingües.

MR - Qual foi o impacto em você, hoje um texano, "rosentexas", do bombardeio às torres do WTC e do Pentágono?

Foi enorme. A primeira notícia chegou pelo rádio, às 8 da manhã, quando acabara de deixar as crianças na escola e vinha a caminho da Universidade. Pensei que fosse um aviãozinho perdido, um acidente relativamente pequeno. Quando estava no meu escritório preparando-me para a primeira aula do dia (International Reporting), uma aluna chegou apavorada com a notícia da gravidade do atentado. E enquanto ela falava, meu irmão me ligou de Vitória, Espírito Santo, me dando a notícia do Pentágono. Corri para minha sala de aula, onde tem três televisores e pedi ao colega que estava lá para ligar. Interrompi a aula dele e dediquei minhas duas aulas, toda a manhã, para assistir, consternado, arrasado, aquelas cenas dantescas, ao lado dos meus alunos, que aos poucos foram chegando. Alguns choraram. O pai de uma menina da classe anterior à minha trabalhava no World Trade Center e ela entrou em pânico. Estive por vários dias atônito, deprimido, como o resto do país. Quando me começaram a chegar piadinhas por e-mail, nos dias posteriores, não achei nenhuma graça. Quando via aquilo pela TV ao vivo, eu ainda tentei articular algo com meus alunos, uma espécie de análise instantânea de como o mundo seria diferente de agora em diante. Mas não funcionou muito. Na semana seguinte, já estava eu em meus freqüentes vôos, a vida seguia adiante. Mas o mundo, de fato, nunca será o mesmo. Agora, enquanto respondo, estamos todos aqui nervosos com a onda de cartas com Antraz e o temor de que os ataques biológicos se estendam ainda muito mais. Eu estava em Washington, na assembléia da Sociedade Interamericana de Imprensa, quando a carta com Antraz chegou ao senado. O tema dominou a reunião e certamente pela primeira vez nos quase 60 anos da sociedade, na hora de reclamações sobre agressões contra a liberdade de imprensa, a delegação dos Estados Unidos tinha muito a dizer em vez de apenas escutar as lamentações dos latino-americanos.

MR - Já o vi com os dedos coçando quando, bolsista em Harvard, você não pôde escrever sobre a derrubada de um avião comercial (foi o Panam 103? qual foi?), em visita a brasileiros correspondentes em Washington (que tiveram que interromper o encontro e partir para o trabalho em seus laptops). Dói muito a um repórter estar impedido de reportar mesmo atropelado pela notícia?

Não me sinto “impedido” de reportar, a não ser pelas minhas múltiplas atividades dentro e fora da universidade. Durante ano e meio, tive uma coluna em O Globo sobre América Latina. Mas desisti porque havia um conflito com minhas outras atividades, incluindo as viagens. Um dia estava numa conferência na Finlândia, onde fui falar sobre jornalismo na Internet. Fazia 23 graus abaixo de zero, nevava sem parar, enquanto eu passava horas no quarto do hotel escrevendo sobre Fidel Castro. Alguma coisa estava errada. Joguei a toalha, com a idéia de escrever esporadicamente, mas ainda não consegui. No começo, quando tudo isso estava acontecendo, eu me sentia apenas vítima. A Anabela Paiva me convidou para escrever um artigo para o no.com, mas eu não consegui e até senti certa satisfação de não ter obrigação de cobrir aqueles eventos. A coceira apareceu agora, mais recentemente, vendo a crise, a guerra lá no Afeganistão. Aos poucos renasceu a vontade de ser repórter outra vez, de viajar. Na Guerra do Golfo, eu fiquei meses lá esperando o início dos combates, inclusive semanas no Iraque, mas voltei ao Brasil com os trabalhadores da Mendes Junior. Quando pensava em voltar para a região, uma hepatite, provavelmente contraída no Iraque me deixou de cama. Foi uma enorme frustração não ter participado da cobertura de guerra propriamente.
Mas, de todas maneiras, hoje em dia é diferente. Para começar acho que não faria as mesmas loucuras de 10 ou 20 anos atrás. Aliás, Rabino, eu me lembro de estar no meio de um tiroteio em San Salvador, em 1989, quando você apareceu, saindo com mala e cuia de um táxi, diretamente do aeroporto para o combate. E era sua primeira visita à guerra de El Salvador. Nunca tinha visto ninguém fazer esse trajeto, sobretudo num país desconhecido. Voce é que deve estar se coçando para que te mandem para a guerra, não é?

MR - Houve um tempo em que o correspondente "cobria" um país, dispensando a "cozinha" da redação de consolidar um texto baseado em informações de várias agências. Você teve uma temporada assim, ao que me lembre. Mas é esse o trabalho de um correspondente?  Hoje, quando leitores podem ler a cobertura do mundo pelos jornais on-line de todos os países, qual a função do correspondente?  Será só o de ir atrás de vítimas brasileiras nos atentados terroristas? O de "descobrir" o Brasil lá fora?

Rabino, não tenho a menor dúvida de que o trabalho de cobrir um país, uma região, ser os olhos e os ouvidos dos seus leitores numa parte do mundo, explicar, colocar num contexto para o público de seu país o que se passa numa área remota do mundo - tudo isso é o verdadeiro trabalho do correspondente estrangeiro, que na última década tentaram assassinar. Primeiro, tentaram assassiná-lo porque acharam que o mundo pós-guerra fria era muito mais simples de entender. Depois, achavam que ao ver a CNN transmitindo ao vivo algum acontecimento tornava os tele-espectadores instantaneamente especialistas. Agora, essa história de poder ler a mídia local. Nada, absolutamente nada substitui o trabalho do tradicional correspondente estrangeiro. Ao morar no país, falar sua língua, conhecer sua cultura e sua história, conviver com seu povo, etc, o correspondente se torna um especialista, capaz de explicar melhor as notícias internacionais. Um dos efeitos mais imediatos da atual crise tem sido uma reflexão, aqui nos Estados Unidos, sobre os danos causados por esse declínio no uso de correspondentes e o virtual desaparecimento de notícias internacionais. Tomara que a imprensa brasileira também entenda isso e volte a valorizar os verdadeiros correspondentes estrangeiros, dando-lhes condições de trabalho.


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