PROFISSÃO:REPÓRTER

 

e n t r e v i s t a

 

RAIMUNDO

RODRIGUES

PEREIRA

 

Perguntas de Altino Machado, Armando Antenore, Claudio Julio Tognolli, Clóvis Rossi, Enoc Borges, Eugênio Bucci, Fernando Moraes, José Nêumane, Luiz Maklouf Carvalho, Mário Magalhães, Mario Sergio Conti, Paulo Nogueira e Ricardo Setti.

 

PERFIL RÁPIDO

 

Raimundo Rodrigues Pereira, nascido a 19 de setembro de 1940, em Exu, Pernambuco, casado, pai de quatro filhas, um neto. Integrou a equipe que lançou a revista Veja. Dirigiu os jornais Opinião, Movimento, a revista Senhor, a enciclopédia e o jornal Retrato do Brasil. Foi repórter em Realidade, Ciência Ilustrada, Veja, Istoé e Jornal da Tarde. Atualmente dirige o projeto jornalístico Oficina da Informação, que edita uma revista de grandes reportagens.

 

LEIA ALGUMAS REPORTAGENS

DE RAIMUNDO RODRIGUES PEREIRA

 

Como o governo FHC quebrou o país

CPI dos Precatórios: Além da gatunagem

CPI dos Precatórios: O inimigo público

Aids: Os limites práticos da esperança

Justiça: A vitória de Theresa

 

A ENTREVISTA

 

Luiz Maklouf Carvalho – Por que, como e quando você escolheu a profissão?

Raimundo Rodrigues Pereira – Acho que foram se acumulando experiências. Com uns 12 anos fui cronista esportivo, num serviço de alto falantes no interior de São Paulo. Na universidade, o Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) entre 1960 e 1964, fui diretor e cronista de uma publicação interna, que fez certo sucesso entre a estudantada e até, por azar, entre as famílias dos militares que moravam perto da gente. Em 64 fui preso e expulso do ITA, particularmente por causa do trabalho no jornal, que era muito debochado, anarquista. Quando sai da prisão, vivi uns tempos de dar aulas, me formei em Física na USP, mas acabei achando um emprego de repórter, por sinal com um amigo meu, a quem dava aulas de matemática, que hoje é professor na Unicamp, o Ítalo Tronca - na ocasião, editor de O Médico Moderno, uma revista especializada.

 

Luiz Maklouf Carvalho - Com um fôlego de dar inveja, você está novamente à frente de um novo projeto jornalístico - a Oficina da Informação -, que além de um site na Internet está lançando uma revista de grandes reportagens. Como é que o projeto nasceu? Do que se trata, exatamente? E que perspectivas você vislumbra para ele?

RRP – A imprensa da grande burguesia é muito atraente: tem recursos, tem fontes nas camadas mais influentes e poderosas, faz com que sejamos reconhecidos quando publica o que produzimos. Mas lhe falta, hoje, independência para perseguir temas mais difíceis, para pesquisar a verdade mais objetivamente. Daí a necessidade de tentar reorganizar o trabalho da imprensa popular com vistas a criar um mínimo de condições para fazer jornalismo profissional a partir desse outro ponto de vista. Com esse objetivo, em meados de 1997 criamos uma comissão nacional para organizar o projeto da Oficina.

A idéia é que o site de informações diárias seja um ponto de contacto para a formação de uma equipe ampla com capacidade para produzir um semanário de informações, no prazo mais curto possível. Enquanto o semanário não vem, as grandes reportagens servirão para mostrar que o nosso trabalho pode ser importante e necessário. Acho que conseguimos isso com os dois textos que publicamos:O Muro Americano e Brazil Inc, editados junto com a Caros Amigos, da turma do Sérgio de Souza.

 

Clóvis Rossi - Por quê os jornais ditos alternativos puderam florescer durante a ditadura, mas virtualmente morreram com a democracia, quando a lógica diria que deveria ocorrer o contrário?

Luiz Maklouf Carvalho - Por que Movimento fechou? Você está escrevendo algum livro sobre a história do jornal?

RRP – Nós sofremos golpes pesados no final da transição do Regime Militar para a Nova República. Tivemos os atentados contra as bancas de jornais que reduziram as vendas de banca de Movimento, por exemplo, pela metade. Sofremos também com a incompreensão, dentro da esquerda, quanto ao papel da imprensa democrática e popular, não partidária, que era o caso da maioria dos órgãos da chamada imprensa alternativa. Veja-se a propósito, logo a seguir, o incrível livro do Bernardo Kucinski, que ganhou um título de mestre na USP com uma espécie de consolidação dessas idéias, cheias de preconceito quanto às relações entre os jornalistas independentes sem partido, que participaram da luta institucional contra a ditadura, como eu, e os jornalistas militantes na luta clandestina contra o regime, como o Carlos Azevedo e o Duarte Pereira, que colaboravam conosco.

Além disso, cometemos muitos erros. Eu, por exemplo, conhecia pouco muitos aspectos essenciais para o sucesso do jornalismo popular, como o trabalho de organização de informações, a questão das vendas, a promoção, etc.

Finalmente, não se pode dissociar o destino da imprensa democrática e popular que militava contra a ditadura do destino desse próprio movimento, que a apoiava. O setor mais à esquerda da luta política contra o Regime Militar também não conseguiu se impor no país – a grande burguesia ganhou a transição e, depois de uma Nova República de resultados modestos, chegamos a Collor de Mello e FHC.

Acho que é necessário escrever uma história do Movimento. Até hoje, porém, não achei que essa seja minha tarefa.

 

Clóvis Rossi - O Newton Carlos costumava me dizer, faz muitos anos, que um jornal de esquerda teria público, mas não teria anunciantes. Continua sendo verdade ou nunca foi verdade?

RRP – Anunciantes do mercado, que nos procurem porque os ajudaremos a vender produtos comerciais, independentemente da questão ideológica, me parece difícil que tenhamos, nas condições atuais. É possível ter anunciantes institucionais, que vejam que temos um público modesto mas influente, para os quais seja vantajoso levar determinadas mensagens, informações. Temos tido esse tipo de anúncio nos dois números de revista que fizemos. E estamos começando a vender esse tipo de publicidade no site. Quanto aos anúncios mais comerciais, imagino que só os teremos se tivermos muito mais força – tiragem, prestígio – e se as condições culturais no país se alterarem. Os empresários, mesmo os que não são assim tão reacionários, hoje têm medo de passarem a impressão de estarem apoiando a esquerda.

 

Fernando Moraes - Você acredita que o desaparecimento da chamada "imprensa alternativa" se deveu apenas à repressão (política e econômica) ou o hermetismo da linguagem também contribuiu para que ela nunca chegasse ao grande público?

RRP – Para alcançar um público mais amplo não basta conhecimento do assunto e uma linguagem clara. Depende também do assunto. Às vezes o redator conhece o assunto, é muito claro, mas o grande público não está interessado, ou até desconhece do que se trata. A imprensa democrática e popular tem uma tarefa difícil, a meu ver. Ela precisa sempre trabalhar para elevar o nível de compreensão média a respeito dos problemas políticos, econômicos, científicos, culturais. Deve procurar fazer isso através da pesquisa e do trabalho árduo. Não pode pretender estar adiante: deve lutar para conseguir fazer avançar esse nível de conhecimento, sendo parte do movimento popular e democrático.

Como se vê, é o oposto do que dizia o Hearst, que inspirou o Cidadão Kane, do Orson Welles. O Hearst achava que sempre se perde (dinheiro) quando se superestima o nível de consciência médio do povo.

 

Fernando Moraes - Do jeito que andam as coisas no Brasil - do ponto de vista político, econômico e social - não lhe parece que está na hora de lançarmos um jornal sem comprometimento com o governo - ou seja, um jornal independente?

RRP – O propósito da Oficina é contribuir para que surja esse jornal. Aliás, Fernando: onde você está, que ainda não o encontrei para que você faça parte da Oficina?

 

Fernando Moraes - Fernando Henrique chegou a fazer parte do Conselho Editorial de vários jornais alternativos. Como é que, à luz do papel que ele teve durante a ditadura, você avalia o governo dele?

RRP – Fui copidesque do FHC no Opinião, onde ele brilhou como colunista político. E ele foi do Conselho do Movimento e do Retrato do Brasil. Já no Movimento, no entanto, ele começou a desenvolver idéias diferentes das que orientavam a maioria do jornal, em relação a questões essenciais, como sobre a posição americana em relação às nações dependentes.

Acho que seu governo está sendo uma continuidade, agravada, do governo Collor, e realizou um trabalho de destruição das fronteiras econômicas nacionais responsável pela estagnação econômica do país nos anos 90. Como se sabe, nesses anos, crescemos menos que no período da chamada "década perdida", os anos 80.

 

Luiz Maklouf Carvalho - Como você avalia o tratamento que mídia brasileira dá ao governo FHC? Algum veículo em particular lhe dá mais alergia neste aspecto?

RRP – Os grande jornais no máximo discordam do governo quanto a alguns de seus métodos. De um modo geral o apóiam porque concordam com seus objetivos: o sucesso do livre mercado, da livre iniciativa, da sociedade cristã e ocidental. Nesse particular, ultimamente, a Veja tem se destacado como um órgão de defesa apaixonada dessas idéias. A revista continua tendo gente que vale a pena ler, bons repórteres e profissionais. Mas me parece que teve um ataque de neoliberalice.

 

Eugenio Bucci - Raimundo, eu me lembro de te ver numa reunião, há poucos anos, falando para vários jornalistas: "revolucionária é a informação". Concordei e concordo inteiramente. Sua fala, na ocasião, ficou para mim como uma pequena aula. Não esqueci mais. E hoje? Em que episódio da história recente do país foi sonegada informação ao cidadão?

RRP – Talvez o preceito seja mais antigo e mais amplo: "a verdade é revolucionária", dizia o Trotsky; em termos bíblicos se poderia dizer "crê na verdade e a verdade vos libertará". Hoje, eu penso que isso quer dizer o seguinte: a verdade não está dentro de nós; a verdade é mais objetiva; o nosso esforço deve ser no sentido de transformar o jornalismo numa busca da verdade social, que não está nas redações, mas que, com trabalho, pode ser descoberta no processo social em curso.

Acho que a reeleição do Fernando Henrique Cardoso se deu num quadro de sonegação de informações essenciais aos eleitores. E o próprio presidente é o principal responsável por essa falta. Ele passou semanas, antes das eleições, negociando, junto com seus porta-vozes na área financeira – Pedro Malan, Gustavo Franco, Pedro Parente – um acordo que acabaria promovendo a atual recessão que o país atravessa. Na campanha eleitoral, no entanto, falava de um outro programa de governo: na vez do social, da geração de empregos, etc.

A imprensa só mostrou essa contradição em linguagem cifrada, através dos colunistas que noticiavam as negociações com os credores, praticamente clandestinas, abertas apenas para os altos círculos financeiros que até participavam delas. Aliás, alguns colunistas da nossa imprensa se transformaram nisso: repórteres dos grupos privilegiados. E uma massa até ampla de repórteres se transformou no contrário: em catadores de informações escolhidas para sustentar matérias definidas de antemão por teses em estoque nas redações.

 

Eugênio Bucci - Olhando para os grandes jornais brasileiros, hoje, qual você acha que está melhor?

Ricardo Setti - Qual é sua opinião sobre a qualidade dos grandes jornais? Há algum que você aponte como o melhor? Por quê?

RRP - Não leio vários jornais brasileiros ao mesmo tempo, para poder comparar. Sou assinante da Folha de S. Paulo e do Correio Braziliense (moro em Brasília). O CB tem uma boa equipe na área internacional. A Folha é hoje o grande jornal do país em termos de recursos materiais e humanos – profissionais fixos, equipe de colaboradores. Mas não é um bom jornal na minha opinião: investiga pouco o que é mais relevante - portanto não tem um foco agudo sobre o desenvolvimento da conjuntura, nas suas várias áreas; e a posição política de muitos de seus mais bem informados colaboradores e editores é centrista ou de direita.

Gosto particularmente de duas publicações conservadoras estrangeiras: do The Wall Street Journal e do The Economist. Elas mantêm certos traços do jornalismo burguês da época em que a burguesia era uma classe revolucionária.

 

Eugênio Bucci - Jornalismo pra você é uma vocação, uma função pública, um prazer ou uma militância? O que dizer das novas gerações de jornalistas?

Ricardo Setti - Qual é sua avaliação a respeito do comportamento ético dos jornalistas brasileiros?

Armando Antenore - Depois de tanto tempo de profissão, o que o motiva a continuar exercendo o jornalismo?

RRP – Já tentei deixar o jornalismo independente, que é uma posição meio incômoda, para me dedicar à política, que considero um trabalho essencial. Fracassei nessa passagem, por minhas próprias limitações, basicamente. Não acho, portanto, que o jornalismo seja uma vocação de vida: já tive outras – fiz a "peneira" do Palmeiras, onde também fracassei (aliás, eu e o Rivelino). No entanto, gosto muito de ser repórter, de ir atrás do que é novo, de ter o privilégio de apresentar coisas que pretendo conhecer.

O jornalismo é frequentemente um comércio, uma forma de vender mercadorias adaptadas ao gosto dos fregueses. Mas deveria ser um serviço para o desenvolvimento social. O bom jornalismo, o trabalho de acompanhar o dia a dia buscando o que é novo, é uma parte do processo de conhecimento do mundo e de nós mesmos. Acho que o jornalista não cresce se não for capaz de ver isso, de compreender que tem uma função social. Muitas vezes o jornalista cai na engrenagem do dinheiro e do capitalismo: escreve para sobreviver ou aluga seu talento para quem pagar mais. O jornalismo para mim também é um trabalho. E o trabalho feito com gosto, além de ser um ganha-pão tem um valor moral. Sinto-me bem por ter saúde e poder trabalhar as quarenta e quatro horas por semana exigidas dos demais trabalhadores, embora ache que seria bom se todos pudéssemos trabalhar menos.

 

Ricardo Setti - E em relação às revistas semanais de informação -- há alguma que você apontaria como sendo a melhor? Quais são, em resumo, as principais qualidades e defeitos de VEJA, IstoÉ e Época?

RRP – Já falei sobre a Veja, que eu lia regularmente e deixei de fazer. A Isto É, que é menos alinhada com o governo, me parece em assuntos culturais, meio esotérica, freqüentemente. Tive preconceito contra a Época, quando ela saiu, por causa da fórmula de subdividir tudo em textículos, que parece empobrecedora. Depois disso tenho lido alguns de seus números. Em geral, agora, procuro ver o que as três têm de bom para saber se vou comprar ou não.

 

Ricardo Setti - Quem são, para você, os dez melhores jornalistas brasileiros em atividade?

RRP – Não tenho conhecimento para fazer uma lista dessas.

 

Luiz Maklouf Carvalho - Você é essencialmente um grande repórter - daqueles que fica com o olho brilhando e a cabeça fervilhando quando está em ação. Ou, melhor: daqueles que realmente botam a mão na massa, literalmente correndo atrás até de caminhão de lixo, como você fez em uma bela matéria recente para o Jornal da Tarde. Qual é a receita básica para uma grande reportagem? E como você avalia a qualidade de reportagem na imprensa brasileira?

RRP – Tome-se, por exemplo, a belíssima O Muro Americano, do Carlos Azevedo e do Sebastião Salgado, que nós publicamos. A idéia da matéria surgiu de fragmentos da história do Muro que li no National Geographic e no Economist. A grande idéia – fazer o Azevedo ir da costa da Califórnia até o Golfo do México acompanhando o Muro e ouvindo as pessoas – era óbvia, mas por incrível que pareça, não conheci até agora nenhuma outra revista que tenha feito. Grande, eu acho, foi a compreensão de que a história poderia ser uma forma dramática de abalar a verdade do mundo do capital financeiro, sem fronteiras. Bom, portanto, era o ponto de vista do grupo da Oficina que correu atrás de 30 mil reais para a gente poder investir na matéria.

Acho que é preciso ter uma posição favorável, para enxergar as coisas. No trabalho de reportagem, é preciso combinar continuamente a obsessão pelos fatos e pelos detalhes, com um esforço de generalização, de compreensão das linhas mais gerais que os fatos simplesmente não apresentam diretamente. Geralmente, numa matéria que exige mais tempo, costumo dormir com um caderno de anotações na cabeceira. As vezes, acordo à noite e os fatos vão se mostrando de várias formas, sugerindo coisas, ganchos, novas investigações. (A propósito, no entanto, é preciso lembrar aquele grande músico americano que uma vez resolveu acordar e anotar a genial melodia original que parecia ter sonhado. No dia seguinte, ao tocar, descobriu que era Star Dust...)

 

Paulo Nogueira - O jornalista pode ser engajado -- como no seu caso -- sem virar mero propagandista das próprias causas e idéias?

RRP – Ter uma causa não significa repetir palavras de ordem e contrabandear ideologia como se fossem jornalismo. Acho que uma causa, um ponto de vista inicial sobre o mundo, se é bom, ajuda a esclarecer a verdade. Mas um ponto de vista não é o jornalismo. É uma pre-condição. É preparar-se para poder ver o que é novo. O jornalismo é sair em busca do que é novo. A graça do jornalismo está nisso.

 

Mário Sérgio Conti - Quando você voltará a publicar na grande imprensa matérias como a da origem das línguas e a do abuso sexual de crianças?

RRP – É preciso que nos postos de comando da grande imprensa estejam editores que confiem nesse trabalho, como foi o caso de Veja, na sua época.

 

Mário Sérgio Conti - E o livro sobre o processo contra a Thereza Imanishi-Kari, a quantas anda?

RRP – Fiz uma parte, sobre a discussão entre os estatísticos. E parei por causa da Oficina. Mas ainda espero concluir. Minha filha que mora em Berlim e viveu com a Thereza, trabalha comigo na história. Mas ela também parou, porque teve o Leon, meu primeiro neto. Nos EUA saiu um grande trabalho contando a história, do ponto de vista do David Baltimore, o Nobel de Medicina que co-escreveu o famoso artigo que deu origem ao processo. Mas falta uma história do ponto de vista daquela que é, de fato, a verdadeira heroína, a Thereza e, volta e meia me surpreendo querendo achar o tempo que falta para realizar essa tarefa.

 

Luiz Maklouf Carvalho – Por que a esquerda brasileira - em especial o PT - não consegue criar um jornal de grande expressividade?

RRP – Não é só o PT: o PCdoB, o PDT, o PSB, o PPS também não conseguem. E os jornalistas sem partido e sem patrão também não conseguiram até agora recriar algo parecido com o Movimento – com uma redação de uns 30 profissionais, sucursais no país, correspondentes no exterior, presença nacional, qualidade técnica semelhante à dos órgãos da grande burguesia.

A se medir pelo peso dessas correntes no Congresso e pelo número de semanários de informação das grandes empresas, eu diria que é necessário unir todo o campo progressista para ter a força suficiente para recriar algo como Movimento. Além disso, é preciso engenho e arte, para achar a fórmula certa.

 

Altino Machado - O que você considera como essencial para quem se dispõe a exercer a profissão de jornalista?

RRP – Tomar partido na vida. Gostar de escrever sobre o que se passa fora de sua cabeça. Gostar de explicar o que é novo e relevante, independentemente da área de conhecimento onde a novidade acontece.

 

Altino Machado - Li artigo do Alcides Ferreira no qual ele afirma que a crítica profissional ao jornalismo, atualmente, é um desfile de ressentimentos por parte de  veteranosjornalistas. Qual sua opinião sobre esses "patrões" da imprensa no país?

RRP – Acho que a tarefa dos jovens jornalistas foi dificultada por duas décadas e meia de neoliberalismo, que é uma doutrina que se alimentou das cinzas dos últimos fracassos do campo socialista - da burocratização da União Soviética e do fracasso da Revolução Cultural Chinesa. No entanto, os veteranos jornalistas, que se acomodaram a esses tempos e que ajudaram a prorrogá-los, não podem, com certeza, falar mal dos jovens jornalistas.

 

Luiz Maklouf Carvalho - O que é que um repórter nunca deve fazer?

RRP – O repórter é, como se dizia, a testemunha ocular da história. Pode, até, de boa fé, insistir em descrever coisas irrelevantes. Ou que causem confusão, mais do que esclareçam o quadro geral. Mas ele não pode inventar que viu para compor a história. Não pode por aspas onde não ouviu dizer.

 

Luiz Maklouf Carvalho - Você coordenou, no começo de Veja, a primeira matéria de denúncia sobre as torturas praticadas pela ditadura militar - entre elas o caso Chael, o estudante de Medicina assassinado em um quartel do Exército, no Rio de Janeiro. Qual é a história dessa reportagem? Como ela nasceu - e quais foram os bastidores?

RRP – Era o começo do governo Médici, que havia sido escolhido num debate intenso entre umas três correntes militares, que Veja cobriu com uma grande equipe, que eu havia coordenado. Fez-se uma brecha no regime, em função dessa disputa, me parece. Um belo dia, alguém da equipe – ou o Luiz Gutemberg ou o Dirceu Brizola - trouxe a história de que "o presidente não admite torturas". Com base nisso o Mino programou uma primeira capa, com essa frase e uma imagem da justiça. O Élio Gáspari, logo que a revista saiu, repercutiu a frase do Médici junto ao ministro da Justiça, Alfredo Buzaid, que disse então que iria apurar as denúncias de tortura.

A partir daí, junto com mais gente – acho que o Bernardo Kucinski também participou – coordenei o trabalho e escrevi o texto. Foi um dossiê sobre a tortura no Brasil, cujo lead se baseava em algo que o Raymundo Faoro tinha feito, se não me engano. O Mino teve papel decisivo. Bancou a capa: fez desligar os telefones da redação para impedir que a censura nos avisasse que o tema estava proibido, como de fato ocorreu para outras publicações.

 

Luiz Maklouf Carvalho - Você e o Mino Carta estiveram juntos em vários projetos - como Veja e, mais recentemente, o Jornal da República. Por que a colaboração parou aí? E o que você acha da revista do Mino, a Carta Capital?

RRP – O Mino e eu estivemos juntos na Veja, na Senhor e depois no Retrato do Brasil. O RB, um jornal diário que levou alguns anos de preparação e durou apenas um mês, foi uma experiência traumática e nos separou. Posteriormente, fui convidado por ele e fiz parte da equipe que participou de uma reforma da Isto É, que ele fez no começo de 1993. O Mino se demitiu da Isto É e eu sai junto com ele, embora não pelos mesmos motivos, pois sou amigo do Domingo Alzugaray. Tenho visto a Carta Capital e comprado alguns números em função de bons trabalhos que apresenta. Mas é uma revista para empresários e não sou leitor regular dela.

 

Armando Antenore - Você ainda acha possível que se faça no Brasil um jornal de esquerda (e de grande circulação)?

RRP – Tenho quase 59 anos e acho possível que ainda possa ler ou até mesmo participar de um jornal de esquerda que seja mais do que foi o Movimento, que seja como a Última Hora, um jornal vibrante e sofisticado, diário, de grande repercussão no país, que eu lia no início dos anos 60, quando comecei a tomar consciência política dos problemas e da cultura nacionais.

 

Cláudio Júlio Tognolli - Raimundo, o que é jornalismo investigativo, hoje em dia ???

RRPQuando via uma cortejo de notáveis conduzindo um ladrão para a forca, o padre Vieira dizia: "Lá vão os grandes ladrões enforcar os pequenos". Muitas vezes, o jornalismo investigativo de hoje é isso: uma perseguição a pessoas para sugerir que o sistema, sem eles, funcionaria. Como o Collor exibindo marajás para poder desmontar o Estado brasileiro.

 

Cláudio Júlio Tognolli - O IRE (Investigative reporters and editors, sindicato dos jornalistas investigativos dos EUA) diz que nos ultimos oito anos 14 prêmios Pulitzer foram conquistados com a ajuda da Internet. Você usa a Internet, ou não confia nela????

RRP – Uma das bases da Oficina é a idéia de usar a Internet. Principalmente para permitir o trabalho coletivo de uma equipe ampla, espalhada por vários lugares. Outra idéia é organizar o que já está disponível, para que o repórter saia à rua melhor armado.

 

José Nêumane - O fato de burocratas de redação serem sempre mais bem remunerados do que os repórteres tem, a seu ver, algo a ver com a burocratização e a padronização das notícias e o súbito, precoce e pranteado desaparecimento do jornalismo investigativo velho de guerra?

RRP – Uma redação precisa de um corpo de dirigentes que comande e organize o trabalho. O fato de eles serem bem remunerados é compreensível. Ruim é o fato de muitos serem, apenas, prepostos dos patrões, que, além de garantir a linha do jornal, pouco fazem para desenvolver o trabalho da redação e muitas vezes são até entraves a esse trabalho.

Acredito que a indústria cultural, que, por exemplo, vende suplementos especiais do Titanic e da morte da Princesa Diana do Oiapoque ao Chuí, valoriza de fato esses quadros burocráticos.

 

Mário Magalhães - Uma instituição acadêmica norte-americana escolheu as 100 reportagens do século. Quais são as três melhores reportagens que você já fez? E as dez melhores do Brasil no século 20?

RRP – Fiz para a Realidade, edição da Amazônia, "Os estrangeiros (um fato). Roubam a Amazônia (um mito). Roubam mesmo? (Uma questão)", que acho relevante. Fiz para o Movimento, "A greve dos quatrocentos Lulas", sobre a comissão de greve dos metalúrgicos do ABC no início dos anos 80, que saiu num livro junto com textos de outros repórteres. Fiz também uma investigação de seis meses sobre a compra da usina termelétrica de Candiota pelo governo do Rio Grande do Sul.

A usina foi comprada no tempo do general Figueiredo, o Brasil pagou 400 milhões de dólares por ela, ficou devendo 1 bilhão e, ao que me consta, ela ainda está na França. Esse trabalho foi feito junto com um advogado do Rio Grande do Sul, Roberto Davis, e com o Armando Sartori, que é editor hoje na Oficina de Informações. Mas saiu apenas num resumo do semanário Brasil Agora, do PT, já falecido, e num relatório da Assembléia Legislativa do Rio Grande.

 

Enoc Borges - Raimundo, no período final da ditadura militar lembro de você dando palestras sobre a realidade brasileira na Zona Leste da cidade de São Paulo. As palestras tinham como "patrocinador" o PC do B. Pergunto se você tinha ligação com o partido e, se esse contato direto com o público era uma forma de fazer jornalismo, já que a imprensa estava sob censura, assim você levava a informação boca a boca? O que houve com o jornal Movimento? Por quê você não apareceu mais na grande imprensa?

RRP – Companheiros do PCdoB, como o Aurélio Peres, e da ala esquerda da igreja, como o Santo Dias, patrocinaram inúmeras palestras minhas e de uns poucos outros jornalistas na época do Movimento pelas periferias de São Paulo, em particular na área da Freguesia do Ó, na Zona Sul e na Zona Leste da cidade. As palestras, com a preparação e os debates que exigiam, nos ajudavam a entender melhor o que escrevíamos e, nos permitiam, como você sublinha, falar com mais liberdade. O Movimento foi fechado pela equipe que o dirigiu no final de 1981 por ter-se esgotado, jornalística, política e comercialmente. Depois do Movimento estive na revista Ciência Ilustrada, da Editora Abril, na revista Isto É, em Veja, no Jornal da Tarde.

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