PROFISSÃO:REPÓRTER

e n t r e v i s t a

MOISÉS

RABINOVICI
 

Perguntas de Luiz Maklouf Carvalho
 
 

Entrevista feita por e-mail, com respostas enviadas em 14/9/99
 
 

PERFIL RÁPIDO
 
 

55 anos em outubro de 99, natural do Rio de Janeiro.

Jornais em que trabalhou: Última Hora (MG), Diário de Minas,

Binômio, Jornal da Tarde e O Estado de S.Paulo   (33 anos),

Época e Rádio Eldorado.
 
 

LEIA ALGUMAS REPORTAGENS

Psicose do terror pode definir pleito israelense

Vaca vermelha israelense não é sagrada

Os mórmons

As polacas

Casal está à procura de ajuda para morrer

Artista herói de guerra

Em busca do santo arquiteto

Dora Maar - Lágrimas adormecidas
 
 

Leia o artigo Reaja ou se demita
 
 

A ENTREVISTA

Com outro lado de Augusto Nunes e Ariovaldo Bonas


 
 

Luiz Maklouf Carvalho - Quando, por que, aonde e como você escolheu a profissão?

Moisés Rabinovici – Entrei para o jornalismo para desmentir uma notícia. Fazia parte de um grupo de arqueologia no Colégio Anchieta, em Belo Horizonte, que desenterrou um crânio de 10 mil anos numa gruta de Lagoa Santa, em 1962/63. Era uma descoberta importante: mudava um pouco a nossa história pré-colombiana. Mas o repórter do Última Hora que foi nos entrevistar acrescentou alguns zeros. Fomos manchete, com nosso crânio promovido a 1 milhão de anos. Agora, mudávamos a história do mundo! As agências de notícia ligavam para o colégio em busca de detalhes. Fui escolhido para ir ao UH desmentir a notícia. Cheguei ao balcão da redação, numa sobreloja sobre a Praça Sete, no centro da cidade, com uma frase feita: "Exijo a verdade a bem da ciência". Levaram-me ao José Wainer. E ele me pediu que sentasse na redação e escrevesse o desmentido. Sentei-me ao lado de Alberico Souza Cruz. Nunca mais saí de jornal. Já no dia seguinte era repórter de polícia.

LMC - Faria mesma escolha nos dias de hoje?

MR – Sem a menor dúvida.

LMC - Qual foi a primeira matéria em que você se sentiu realmente repórter?

MR – Vendo Zé Arigó fazer das suas operações em Congonhas do Campo. No julgamento das irmãs Poni, em Ouro Preto. Numa grande enchente no interior de Minas. Foram minhas três primeiras viagens como repórter.

LMC - Como começou exatamente sua longa experiência como correspondente no exterior - e que trajetória seguiu até aqui?

MR – Quando o presidente egípcio Anuar Sadat resolveu fazer sua histórica viagem a Jerusalém, em 1977, Murilo Felisberto, que tinha me tirado de Minas para o JT em SP, deu-me uma missão: "Vai, e espera a paz". Poderia estar esperando até hoje. Mas saí do Oriente Médio depois de 8 anos, num cessar-fogo permanente da invasão israelense ao Líbano, em 1984. Depois passei seis anos em Washington. E agora estou encerrando um ano e meio em Paris.

LMC - Que momentos e reportagens considera marcantes na sua vivência em outros países?

MR – Tantos!

O batismo de fogo num laranjal libanês: entrevistava o comandante das milícias sul-libanesas, major Haddad, quando a aviação israelense começou a bombardear uma posição palestina a 1 quilômetro de distância, no topo do Chateau de Beaufort. Até hoje um dos meus ouvidos não destampou.

O cessar-fogo em Beirute: acordei assustado com o repicar dos sinos de igrejas, sem mais o ruído constante das bombas.

Momento histórico: estar no primeiro vôo da companhia israelense El-Al ao Cairo. Quando chegávamos, Sadat, pelo rádio, convidou para um sobrevôo às pirâmides. Logo surgiram dois Migs para escoltar o boeing com a estrela de Davi. Sobre as pirâmides, Menachem Beguin mandou servir champanhe. E disse, lembrando dos judeus bíblicos: "Nós que as construímos..."

Momento de perigo: uma vez saía do Líbano para o norte de Israel, apenas para transmitir uma matéria, pois um atentado tinha destruído o gerador que a imprensa usava para transmissões no hotel em Beirute oeste, quando vi na estrada uma multidão marchando na minha direção. Parei o carro. Voltar, não podia. Ficar era muito perigoso. Não podia acelerar contra a multidão. Ela vinha furiosa, com cartazes pedindo a libertação de um imã libanês, que se acreditava detido na Líbia, numa escala de um vôo para Roma. Era o sheik Moussa Sadr. A placa do meu carro, alugado em Israel, era israelense. Eu, barbudo, chamado Moisés Rabinovici, claramente judeu. E então? Nada a fazer. A multidão aproximou-se, engolfou o carro em que me mantive com as janelas fechadas, e ele balançou, balançou, mas ninguém tentou abrir a porta ou pareceu preocupado comigo. A turba cega queria a cabeça de Kadafi. Quando em frente ficou vazio, acelerei. Mas parei em seguida. Tremia. Não sei como escapei.

Momentos de terror, nos atentados palestinos.

Momentos de horror, nas represálias israelenses.

Momentos até hoje não digeridos, em Sabra e Shatila.

Momento de pânico, no fogo cruzado de um ataque dos guerrilheiros do Farabundo Marti em El Salvador.

Momento de alívio: em Beirute, uma noite, saí do hotel para dar uma volta. Um xiita ortodoxo tinha acabado de entrar no lobby e metralhar as garrafas de bebidas do bar, proibidas pelo Islã. Saí dirigindo sem prestar muita atenção, mais indignado do que alerta. E me perdi. Não sei como, de repente minha opção era entrar à esquerda e talvez cair na mão de milícias palestinas, ou dos sírios, e à direita, ser confundido com um camicase palestino por israelenses, e virar alvo de tiros. Estava numa área considerada terra de ninguém. Não sei como entrei lá. Mas vi, numa rua, uma placa iluminada, anunciando: "café do Brasil". Mirei o carro na direção, e fui em frente, passando por cima de uma barricada de areia, e freei cercado pelo exército israelense. Prenderam-me o tempo de confirmar que era mesmo repórter credenciado pelo Government Press Office, em Jerusalém, e não um espião ou terrorista.

Momentos de alegria: os acordos de paz com o Egito, Jordânia e OLP.

E de tristeza: enterro de Rabin.

E de impotência: uma faca no rosto, e dois negros me assaltando em pleno dia, ao lado do comitê eleitoral de Mandela, no centro de Joanesburgo repleto de gente. Uma multidão viu o assalto, ninguém moveu um dedo para impedi-lo e ninguém respondeu quando perguntei: - Se a vítima fosse um negro seria diferente?

LMC - E aqui no Brasil?

MR - Entre os seis anos em Washington e o ano e meio em Paris, fiz duas matérias no Brasil que me emocionaram muitíssimo: a de um casal de velhinhos que queria morrer com ajuda médica, e que resolveu continuar vivendo depois da enorme solidariedade humana de que acabou sendo alvo (o Profissão: repórter reproduziu a reportagem), e a chegada da TV num povoado isolado do Piauí, que foi ilustrada por uma foto inesquecível do fotógrafo Clóvis Ferreira. Naveguei também numa chata, a 10 km/hora, pela futura hidrovia do rio Paraguai. Fui buscar o PC Farias na Tailândia (e ao sair de três dias diretos dentro de um avião, sem saber se era ontem ou depois de amanhã, escrevi um caderno inteiro). Fiz reportagens especiais sobre prostituição infantil; Internet, quando novidade no Brasil; crack no centro de SP; a expulsão de ianomamis por garimpeiros em Roraima; o trabalho da arqueóloga Niede Guidon na Serra da Capivara, no Piauí; as eleições na Argentina; e a guerra entre Equador e Peru.

LMC - Como é o dia-a-dia de um correspondente - e como ele administra a relação com a família, por exemplo?

MR – Numa crise, em guerra, não há dia-a-dia. Minha mulher sabe que é melhor eu partir para uma cobertura do inesperado do que ficar coçando os dedos com vontade de ter ido. (Quando estourou a guerra das Malvinas, em Israel vários repórteres foram aos mapas para ver como cobri-la. Ali estava o pelotão de choque da imprensa internacional. No dia seguinte, porém, o Líbano de novo voltou a sangrar, e ninguém ficou a ver navios no Atlântico...) Em tempos de paz, tranqüilos, o dia-a-dia é de procura de pautas, contato com fontes, acertos de contas, reciclagem...

LMC - Quais foram as reportagens mais difíceis que você já fez - e por que?

MR – Ao tempo da cobertura em Beirute, todas as matérias eram difíceis. E, depois, havia que transmiti-las. Quando o gerador do hotel apagava, por alguma sabotagem, eu pegava o carro e ia até a fronteira, por uma estrada destruída pelas sapatas dos tanques e com franco-atiradores à espreita. Nada se compara, porém, à volta dos hutus a Ruanda, então dominada pelos massacrados tutsis. A polícia tutsi estava matando à toa. Os telefones não funcionavam. Dormíamos dentro de táxis parados diante do único hotel recomendável, lotado, até que o fotógrafo Vidal Cavalcanti conseguiu uma pensão num bairro muçulmano dos mais miseráveis. Cada vez que transmitia foto ele atraía uma multidão que o via pagar 800 dólares, em notas de 50, porque as de 100 não eram aceitas. Então, para dormir, bloqueávamos a porta do quarto juntando todos os móveis, mais equipamento e malas. Para o material de um fim de semana foi preciso cortar uma floresta até Uganda. O nosso tradutor estava morrendo de AIDS no carro. Nosso motorista ugandense só sabia dirigir na mão inglesa, e toda hora, em Ruanda, ficava na contramão. A gente nunca sabia o que estava comendo exatamente. E dávamos nossas rações da ONU aos refugiados famintos... Os longos plantões da renegociação da dívida brasileira, que cobri em Nova York, foram difíceis porque na rua, muitas vezes sob frio e neve, e com personagens que raramente falavam.

LMC - Quais delas escolheria se fosse convidado a lançar um livro com as melhores? (Não vale responder que as melhores são sempre as próximas, como já fez o Clóvis Rossi).

MR – Escolheria um conjunto dos oitos anos em Israel; outro dos seis anos em Washington, que incluíram El Salvador, Panamá, a guerra do Golfo, as primeiras visitas de Gorbachev, o fim da União Soviética e Pedro Collor em Miami; e, do tempo em Paris, o original de uma reportagem feita com o fotógrafo Masao Goto no Zimbabwe, onde uma entre cada quatro pessoas está com AIDS.

LMC - O que vai mal e o que vai bem na mídia brasileira como um todo?

MR – Puxa, não sei lhe responder esta pergunta.

LMC - Como vê o tratamento que a mídia tem dado ao governo FHC - e, aqui em São Paulo, ao governo Mário Covas?

MR – Agora que talvez volte ao Brasil vou poder acompanhar. À distância não me arrisco. Sei mais das relações de Chirac e Jospin com a imprensa francesa.

LMC - Quais são os seus critérios no relacionamento com as fontes?

MR – Respeito mútuo; palavra honrada (se o combinado é um embargo de publicação até um determinado dia, cumprir); clareza de intenções (há sempre um interesse movendo a fonte de uma informação); se a conversa não for uma entrevista, só background, usá-la devidamente; proteger a fonte, se ela não puder vir à tona; e assim por diante. Os critérios são os do bom senso e de honestidade.

LMC - Que técnicas/métodos de trabalho você utiliza preferencialmente na apuração dos fatos?

MR – Hoje estou fascinado com programas que organizam os dados que se colhe em entrevistas, trabalho de campo e em, arquivos de jornais, bibliotecas, governos, enciclopédias e etc., via Internet. Uso o Folio, uma ferramenta muito mais poderosa do que preciso. Lá se vai o tempo em que o repórter se perdia na papelada que juntava. E que, depois de enviar o texto para a redação, descobria, num papelinho, uma informação preciosa que deixou de fora. Hoje dá para ter controle da montanha de dados acumulados, e num instante. Mas tudo começa com o repórter no local de sua reportagem.

LMC - O que é que repórteres nunca devem fazer?

MR – Cair na tentação freqüente de alterar a realidade para obter um impacto. Mesmo se o entrevistado ficou a um milímetro de uma frase sensacional não podemos copidescá-lo. É preciso trabalhar com o que se tem, não com o que se deveria ter. A gente não trabalha o ideal, mas o possível. Cabe ao repórter fazer as perguntas fundamentais, e o que ele obtiver será a matéria. Um repórter também não pode sair para uma entrevista sem informações sobre o seu entrevistado.

LMC - O que acha das semanais Veja, Época e Istoé - e da quinzenal Carta Capital?

MR – Leio todas porque tenho que lê-las, como dever de casa. As reportagens de autor, quando as há, são em geral bem boas. Mas os arroubos criativos, os textos audaciosos, experimentais, estão cada vez mais raros.

LMC - Quem fez (ou faz) a sua cabeça, no melhor sentido da expressão?

MR – Aprendi e aprendo tanto de tanta gente que fica difícil listar. Mas agradeço o empurrão inicial ao Murilo Felisberto, ao Mino Carta e aos mineiros com quem vim para SP trabalhar na criação do JT. O Mino pregava a humildade. E essa é uma postura em falta no mercado de trabalho, ocupado por muita gente pedante e pretensiosa. Uma grande fonte de ensino foi também o saudoso JB. Não se podia começar o dia sem lê-lo.

LMC - Qual é o caminho das pedras para transformar a apuração num texto de primeira?

MR – Uma atenta observação. De pequenos detalhes nascem grandes textos.

LMC - No geral, como é que "nasce" o seu lead?

MR – Nunca me esqueço de uma madrugada em que estava empacado num lead, nos primórdios do Jornal da Tarde, e o Mino Carta me socorreu. Ele me passou uma fórmula mágica: comece pela última coisa que aconteceu. E até hoje faço isso, embora "a última coisa" não esteja mais necessariamente limitada ao tempo. Grande Mino! Aprendi a escrever ainda ao tempo de Beirute. Lá o telex tinha fila. Quando chegava a minha vez, e pressionado pelos que esperavam bufando, premidos por deadlines, teclava uma palavra, depois outra, e mais outra. Cada uma era definitiva. As máquinas não permitiam volta atrás. Só podia ir em frente. Todos dizíamos ali que escrevíamos com "a pele", sem espaço para burilações.

LMC - O furo vale uma missa?

MR – Aleluia! Mas, atenção: depois de obter o furo, há que publicá-lo. Já tive um furo mundial que só foi publicado depois que a Associated Press o deu. Por um desses acasos, os embaixadores latinos em Israel designaram um diplomata brasileiro a passar à imprensa a denúncia de que a Costa Rica estava a ponto de transferir sua embaixada de Tel-Aviv para Jerusalém. A intenção era impedi-la de ir adiante. Nem os Estados Unidos reconhecem que Jerusalém seja "a capital indivisível de Israel", embora o apoiem. Fui o repórter escolhido, porque conhecido do diplomata. Durante dois dias, a matéria não saiu, porque, para uma redação tão distante, qual era importância de uma mudança de uma embaixada costarriquenha no Oriente Médio? A AP ganhou o furo da mesma fonte, e o difundiu no ato. Um a um, e cada dia um, os países árabes foram rompendo relações com a Costa Rica. Virou uma história sensacional. Então, cobraram-me uma matéria.

LMC - Que comparações você faz - para o bem ou para o mal - entre a mídia norte-americana, a européia e a brasileira?

MR – Eu não consigo passar sem os jornalões americanos e a revista The Economist. Recebo a Slate por e-mail. Percebo o seguinte: ao acabar o New York Times ou o Wall Street Journal aprendi alguma coisa, ficaram alguns artigos separados para uma leitura posterior, tenho vontade de arquivar algumas informações, ou compartilhar com amigos o que li. Normalmente, quando termino de ler os jornais brasileiros, terminei. Os furos são exceções. Um e outro dos nossos colunistas, também. Aos domingos caminho para comprar o Sunday Times. E vale a caminhada. Já os jornais franceses não me acrescentam muito. Todos dão basicamente as mesmas informações, com variações próprias do Libèration e do Figaro ou Le Monde.

LMC - Que livros aconselharia para um repórter que está começando na profissão?

MR – Não tenho uma biblioteca básica. Li de tudo, dos "jornalísticos" Hemingway, Gay Talese e Thomas Friedman, dos clássicos brasileiros e da literatura universal, até tão improváveis como Krishnamurti e Alan Watts. E continuo lendo vorazmente, sempre que tenho tempo. Ler sempre refresca o próprio texto. Meu último livro foi Le Harcèlement Moral, que me levou ao artigo que rendeu esta entrevista. Estou acabando o Pantera no Porão, do Amos Oz.

LMC - Repórteres podem mudar de identidade para obter informações?

MR – Só uma vez "mudei de identidade", mais por graça do que qualquer outra coisa. Apresentei-me como "primo de Pelé" na porta de sua casa de Santos no dia em que ele se casava. Valeu-me a simpatia geral. Já vi repórter passar por parente de alguém para entrar num presídio em hora de visita. Há pouco tempo um repórter se fantasiou de padre para obter uma entrevista. Quase perdeu a credencial e o emprego. Não sou capaz de mentir tendo por profissão a investigação da verdade. É uma contradição. Como alcançar a verdade mentindo? Como ser honesto falseando?

LMC - Jornalistas devem receber jabá - qualquer que ele seja?

MR – Já ganhei várias canetas em congressos e fim de ano. Nas reuniões do FMI em Washington todos repórteres recebem uma pasta com papelada, convites e um presente dentro – às vezes um radinho, outras vezes um despertador, coisas assim. Sem contar a própria pasta, que serve para guardar computador. Numa conferência sobre AIDS em San Francisco me deram um pacotão de camisinhas. O que fazer? Recusar? Levei de lembrança o cardápio da El Al do primeiro vôo Tel-Aviv/Cairo: cometi algum pecado? Para mim, vale o seguinte: enquanto nesse nível de lembrancinhas, agrados a todos numa reunião internacional, os presentes me cobram uma certa culpa e a permanente discussão dos limites que devem ser fixados. Nunca ganhei nada que possa, mesmo remotamente, eqüivaler a um compromisso. Acho que aí está a fronteira. Na minha longa trajetória no jornalismo nunca estive diante de um jabá-suborno. Mas não vejo como recusar o cocar de um índio dado com pureza e espontaneidade. Tente entrar na casa de um palestino e não tomar o cafezinho que ele oferece com tanto prazer... Recusar poderá até mesmo ofendê-lo.

LMC - Que papel ocupa ou deveria ocupar a reportagem propriamente dita na imprensa brasileira?

MR – O mais nobre.

LMC - Qual é a história do artigo "Reaja ou se demita", publicado originalmente no "Observatório da Imprensa"?

Moisés Rabinovici – Eu estava em Skopje, na Macedônia, entre refugiados do Kosovo, quando mudou a cúpula de Época, na sexta-feira 9 de abril. Adiante 5 fusos horários, a notícia só me acertou, como um dos mísseis que caíam na Iugoslávia, no sábado à tarde. Um amigo, por telefone, avisou: "Olha, vai começar agora uma limpeza étnica". Na segunda-feira mandei um e-mail para o novo diretor. Desejava-lhe sucesso, ao mesmo tempo em que sondava meu futuro. E ele me respondeu: "Conto contigo. Vamos em frente nesta cavalgada pelo Oeste. grande abraço. Augusto". Recebi ordem de voltar imediatamente da Macedônia, sem escrever mais nada sobre os kosovares. O "Oeste", como descobriria aos poucos, era o Brasil em relação à França. Passaram-se três a quatro semanas, e as propostas de pauta não foram mais respondidas. Nenhuma matéria mais saiu tal qual enviada, quando raramente publicada. Nenhum contato com a direção da revista. Nenhuma informação sobre os planos da nova Época. Marginalização total. Fritura. Um dia, no Le Monde, li uma nota de um livro sobre "assédio moral" no trabalho, Le Harcèlement Moral. Comprei-o. Enquanto o lia, o Nouvel Observateur deu-lhe uma capa e entrevistou sua autora, a psiquiatra Marie-France Hirigoyen. Fui procurá-la como paciente, não repórter. E ela me aconselhou "a reagir" para manter minha sanidade mental. Ou me demitir. Para ela, se as vítimas de perseguição no trabalho reagirem, os tiranetes perderão a impunidade. E reagi como repórter, escrevendo.

LMC - Por que você omitiu do artigo o nome do editor contra o qual fez graves acusações?

MR – A primeira versão do artigo trazia nome e reproduzia e-mails trocados. Mas eu a tinha escrito para mim, apenas por terapia na fase de fritura. Foi uma recomendação médica: "reaja". Quando surgiu a idéia de publicar, concluí que o nome não seria importante para leitores não jornalistas. Os do ramo certamente saberiam de quem se trata. A minha intenção nunca foi a de atacar alguém, mas a de denunciar um fenômeno, como o fizeram outros antes de mim. Não encetei uma campanha pessoal. Pretendi incentivar uma profilaxia nas relações de trabalho. (Hoje, 13/9, vi que a manchete do Notícias Populares é um projeto de punição contra o "chefe-carrasco", apresentado pelo vereador Arselino Tatto, do PT.)

LMC - O que aconteceu, concretamente, nas relações profissionais entre você (que era correspondente em Paris da revista Época) e o editor que acusa?

MR – Nada mais foi publicado, quando o era, e nunca como enviado. Até aí, dirão: "controle de qualidade". Fosse isso, que me despedissem por incompetência. Senti-me tratado com total desprezo. Reduziram-me a trabalhos de enviar fax, fotos e relatórios. Matéria, nem pensar. Nem sequer havia diálogo. Estava negociando um visto para Iugoslávia. Tinha mobilizado os embaixadores brasileiros em Paris e Belgrado. Recorri ao chanceler Lampreia. Quando me ligaram de Belgrado com a informação de que meu visto estava aprovado, e eu informei SP, porque era necessário mais um contato na embaixada da Iugoslávia em Brasília, recebi um e-mail assinado pelo Maranhão, com quem trabalhei no Estadão: "Te retorno subito". Nunca mais respondeu. Logo depois outro repórter partiu para Belgrado. Soube por um participante de uma reunião de pauta que o Augusto chegou a declarar que "não queria o Rabino na Iugoslávia". Era só me avisar... E foi o que acabou fazendo o editor de Mundo, por e-mail. O novo chefe dos correspondentes não se dignou a falar comigo uma única vez. Enviou-me um e-mail cujo destinatário só poderia ser outro, provavelmente um dos dois diretores, quando avisei a duas editorias que esperavam matérias para a semana que acabava de ser demitido via Fedex: "e-mail para Izalco, cópia para mim. teor parecido também tem o e-mail para cleber (Cultura), com cópia para mim. como evitei ao máximo conversar com ele, até que fosse operacionalmente inevitável, talvez deva, por cortesia(?) dar algum retorno mesmo que retórico. abs,. Bonas"

Beleza... Devolvi o e-mail ao remetente. E recebi a explicação: "(...) como indica o meu e-mail, estava pisando em terreno minado. Já nos conhecemos de outros carnavais e dispensamos apresentação e tratamento formal. Como o meu e-mail trocado indica, evitei qualquer contato em situação equívoca, provocada pela habitual boataria, na esperança de mantermos relacionamentos francos. Fica o meu abraço, Bonas".

LMC - Qual é a substância factual das acusações?

MR – A seguinte: por duas vezes, um mesmo editor, em duas publicações diferentes, se deu o direito, impunemente, de perseguir um repórter, a quem paradoxalmente elogiava, ao contrário de demitir. Alguém resumiu assim: "Ele morde e sopra". Longe de mim achar que tenha sido o único. E sei que não fui mesmo. Talvez me indignei um pouco mais do que os outros, por ter sofrido uma dose dupla, e resolvi reagir.

LMC - Como se dava o relacionamento profissional entre o correspondente em Paris e o editor em São Paulo - via telefone? E-mail? - e como evoluiu do começo ao fim?

MR – Não houve relacionamento. Ao tempo do Estadão, peguei um avião em busca de uma conversa esclarecedora em SP. Não fui recebido! Na fase parisiense, já diretor da revista, ele veio a Paris. Não avisou, e muito menos procurou o correspondente. Grosseria... Nunca telefonou, para Washington ou Paris. E os telefonemas que dei de Washington nunca ultrapassaram sua secretária. Dirigiu-se a mim indiretamente mesmo quando quis que lhe comprasse nos Estados Unidos umas gotas oftalmológicas. (Eu as comprei).

LMC - Por que resolveu tornar pública a questão?

MR – E por que não? Todos que tratam da questão são unânimes: deve-se expor o arbítrio, denunciar o tiranete e chamar a atenção para o problema do assédio moral, que, segundo o Nouvel Observateur, cresce à medida em que o mercado de trabalho vai ficando menor.

LMC - Você inicialmente tentou publicar o artigo em veículos de grande circulação - como Estadão, Istoé, e Folha de S. Paulo. Como se deram essas negociações - e por que, afinal, nenhuma delas publicou seu artigo?

MR – Não tentei publicar. Mostrei-o a um amigo, apenas para que visse a que estava me dedicando, enquanto sumido do mercado, e ele me perguntou: -Por que não publicar? Daí a idéia. Como pressentia meu fim na Época tão logo não fosse mais preciso cobrir o Guga em Roland Garros, tinha iniciado um flerte com a Istoé. Alguém me aconselhou: "Você tem que mostrar o artigo à Istoé, como um jogador deve dizer a um clube que está com o joelho arrebentado, antes de ser contratado". De repente, publicado, o texto poderia provocar uma repercussão que não agradasse ao novo editor... Resumindo: a Istoé quis o texto para uma capa. Acho que já a estavam até produzindo, por coincidência. Era a semana do feriado de 9 de Julho, uma sexta-feira. Na quarta-feira me perguntaram se poderiam enxertar no texto um material nacional. Achei que o esvaziaria, se topasse. E, para mim, nada seria mais normal do que a separação natural em duas retrancas. Ora, não tinha escrito o texto para a Istoé; ela é que o quis. Eu corria todos os riscos, inclusive o de complicar o acerto final com a Época. E não estava ganhando nem um tostão, nem mesmo uma promessa de emprego, agora já demitido. Só pedi que me avisassem a tempo, se não a publicassem, para que então eu tentasse um outro veículo, e pudéssemos sair ao menos juntos. Aí um inesperado problema. Tive eu que arrancar a fórceps uma informação dos desígnios da Istoé, no feriado de sexta-feira. Liguei para o Helinho Campos Melo dezenas de vezes. Não sei o que o levou a não me dar um retorno, e até hoje, nós que cobrimos juntos a invasão americana ao Panamá na caça ao general Noriega. (Nota do editor: Hélio Campos Melo, ouvido a respeito, preferiu não se pronunciar)Fui saber pela editora que a matéria era capa, não o meu texto. Fazer o quê na tarde do 9 de julho? Enviei por e-mail o texto ao Clóvis Rossi, na Folha. Ele o passou adiante. Ia sair! De noite, porém, ligou-me o editor do Domingo, com dois pedidos: adiar a publicação para quinta-feira, e despersonalizar a abertura, que não acho personalizada. Qual sentido teria publicar o texto, tirando o que o motivou, quase uma semana depois de ser o assunto de capa da Istoé? Não topei. E disparei o texto via Internet a meus amigos. E eles, a outros amigos. E assim foi. E assim continua.

LMC - Qual o significado deste episódio na sua carreira profissional - e que conseqüências advieram depois que o artigo foi veiculado?

MR – É duro levar porrada e ficar quieto. Resolvi não abrir mão de meus direitos, o que seria o caso se me demitisse. Sem ser demitido, como poderia arcar com a multa do rompimento do contrato de aluguel em Paris? Como pagar passagens e mudança? Agüentar custou caro. Uma manhã meu olho direito apareceu roxo, como se tivesse levado um soco. Veias capilares tinham sangrado, e o médico diagnosticou: tensão. O que acontece a um veterano repórter quando todos seus textos são rescritos? Passei a duvidar da minha capacidade profissional, mesmo que num caso o lead enviado, e refeito, tenha empatado com o do Sunday Times uma semana depois. Sempre fui inseguro – e fiquei bem mais, a um nível doentio, amargo. E sofri inúmeras e imerecidas humilhações. Isto não se faz! Esse lixo tem que ser varrido de nossa profissão, que vive da verdade e de honestidade. Você me pergunta das conseqüências da publicação do artigo. Acho que prestei um serviço e continuo prestando. Isso não deve acontecer com mais ninguém. As relações no trabalho precisam ser claras, honestas. Os tiranetes não podem agir impunemente. O Brasil já reconhece a figura jurídica do assédio sexual. Um dia punirá também o assédio moral.

LMC - Como vê as relações chefes/subordinados na imprensa brasileira de maneira geral?

MR – Eu tive um chefe severo quando comecei no Última Hora de Minas. Ele jogava meu texto no lixo, e dizia: faz outro. Era duro, porém não sacana. Ensinou-me a trabalhar. Fui chefe anos a fio, no Jornal da Tarde. Editei a Geral ao tempo dos dois grandes incêndios de SP. Vários dos meus repórteres se tornaram depois meus chefes. Tivemos e temos ótimas relações. Havia um espírito de equipe raro hoje em dia. Imperava a camaradagem, não a canalhice.

LMC - Que limites considera que um editor não pode avançar em relação a um subordinado - e vice-versa?

MR – Digo no artigo, e o repito: um editor tem todo o direito de despedir quem quiser. Torturar, não. No meu caso, o chefe mudou a vida de toda uma família duas vezes. Minha filha de 6 anos está hoje radiante por ter passado do maternal para a "escola dos grandes" em Paris. Aqui está começando o ano letivo. E aí, o segundo semestre. Ela vai perder um ano escolar. Outra filha vinha fazer Biologia. Para o caso de demissão de correspondente no exterior acho que deve existir um mínimo de previsão. Que se acerte o desfecho para um fim de ano, por exemplo. Que não se atrapalhe ainda mais a vida de um desempregado no exterior.

LMC - Até que ponto o artigo o "queimou" no mercado - como costuma acontecer em questões do gênero?

MR – Será que me queimou? Eu me queimaria se não seguisse o meu instinto de repórter, reportando. Dei um testemunho – como os relatos de outras vítimas na Istoé. Não prescindi da abertura porque ali me coloco como uma vítima – e uma dupla vítima do mesmo editor, em dois países diferentes. Que repórter deixaria passar um personagem assim? Depois, o assunto é best-seller na Europa, preocupa a Organização Internacional do Trabalho, o livro da doutora Hirigoyen deve ser lançado no Brasil...

LMC - Qual é a sua opinião sobre o editor referido após o rompimento?

MR – Incrível: acho o editor competente! Mas, para mim, jornalismo não pode conviver com a mais ligeira falsidade. Devemos ser apaixonados pela verdade. Se um editor não consegue falar a verdade a um de seus repórteres, poderá ter a confiança dos leitores?

LMC - Que lições você tirou do episódio?

MR – Que, ao partir para o exterior, deve se ter um contrato assegurando que sua vida não vá desabar se mudar o chefe a 10 mil quilômetros de distância.

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