PROFISSÃO:REPÓRTER

Juiz agride jornalistas de ISTOÉ

Guilherme Evelin e Hélio Contreiras
 

(Istoé - 9/7/99)

Sem argumentos para responder às denúncias sobre as escabrosas histórias em torno da
falência da Encol, o juiz Avenir de Oliveira extrapolou. Na quarta-feira 30, convocou uma
entrevista para caluniar a jornalista Sônia Filgueiras, responsável, ao lado de Mino
Pedrosa, pela reportagem em que os advogados da Encol denunciaram a entrega, na casa
de Avenir, de uma sacola com R$ 1 milhão em dólar, desviados do patrimônio da
empresa. Avenir inventou uma história, segundo a qual Sônia teria tentado extorquir R$ 25
mil em troca da supressão do seu nome da matéria. Temendo ser imediatamente
desmentido, proibiu o acesso à entrevista dos jornalistas Mino Pedrosa e André Dusek, de
ISTOÉ. Na tentativa de evitar ser fotografado, Avenir ainda chamou a polícia para
expulsar os dois repórteres dos corredores do fórum, onde aguardavam para registrar a
sua saída. Ao ser fotografado por Dusek, o juiz resolveu partir para a agressão física.
Enquanto o comandante da operação segurava Pedrosa, três PMs agarravam Dusek. Com
o fotógrafo imobilizado no chão, o juiz avançou sobre ele para arrancar a câmara. Com
violência, Avenir quebrou o flash e o usou para golpear Dusek na cabeça. O fotógrafo
ficou com um hematoma de três centímetros na cabeça. Com a máquina nas mãos, Avenir
voltou ao gabinete e ordenou a prisão dos dois jornalistas.

Na delegacia, abriu-se um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO), com
enquadramento dos repórteres no artigo 330 do Código Penal, que significa desobediência
de ordem judicial. Não é o entendimento de alguns dos mais renomados juristas brasileiros.
"O juiz tomou uma atitude típica de bandidos que se acham protegidos pela capa da
magistratura. Assim, escondidos pela toga, agridem jornalistas que estão no exercício
legítimo do seu direito de informar", afirmou o presidente da Ordem dos Advogados do
Brasil (OAB), Reginaldo de Castro. O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) foi ao plenário e
protestou: "Conheço a repórter de longa data e sei de sua excelente reputação." Para o
jurista Evandro Lins e Silva, "os dois estavam em local público, exercendo a profissão, e
não podiam ser presos em flagrante". O presidente da Associação Brasileira de Imprensa
(ABI), Barbosa Lima Sobrinho, afirmou que imprensa não pode ser coagida. "Não
podemos tolerar o arbítrio, parta de onde partir." A Federação Nacional dos Jornalistas
(Fenaj) encaminhou um relatório à Federação Internacional de Jornalistas para denunciar
arbitrariedade, agressão física e a liberdade de imprensa e expressão. Não ficou só por aí.
Além de responder a uma ação judicial de ISTOÉ por calúnia, o juiz também terá de se
explicar num inquérito instaurado pelo Ministério Público para apurar abuso de autoridade.
 

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