PROFISSÃO:REPÓRTER

RADIALISTA É MORTO POR PISTOLEIROS
NO MATO GROSSO DO SUL

Luiz Augusto Michelazzo

[ O Globo - 30 / 10 / 97 ]

SÃO PAULO - O jornalista Edgard Lopes de Faria, que investigava crimes de pistolagem denunciados pelo GLOBO na região de Dourados, a segunda cidade do Mato Grosso do Sul, foi assassinado ontem de manhã em Campo Grande, capital do estado. Com a morte de Faria, conhecido como Escaramuça, sobe para 281 o número de pessoas assassinadas supostamente por pistoleiros na região, 71 delas só neste ano.

Apresentador da TV Record em Campo Grande, Faria, que tinha 48 anos, foi morto, segundo seu filho Marcos Antônio Lopes de Faria com sete tiros de pistola 7.65 e seis tiros de escopeta calibre 12, minutos antes da apresentação do programa "Na boca do povo", na rádio FM Capital, onde iria revelar nomes de mandantes dos crimes. O secretário da Segurança Pública do Mato Grosso do Sul, Joaquim d’Assunção Felipe, prometeu empenho na elucidação da morte do jornalista, mas não quis comentar a hipótese de ação de pistoleiros.

As reportagens do GLOBO, comentadas por Faria na rádio e na TV, mostravam um novo cemitério clandestino em Guia Lopes e a utilização da Lagoa da Pedreira, às margens da Rodovia Dourados-Ponta-Porã, como local de desova de cadáveres.

Ontem a advogada Gisele Fontoura, presidente do Centro de Defesa dos Direitos Humanos Marçal de Souza, de Campo Grande, confirmou ter entrevista agendada com Faria, no programa "Na Boca do Povo", na TV, para falar sobre os crimes de pistoleiros.

- O método utilizado pelos assassinos de Faria é característico dos pistoleiros da região, que liqüidam suas vítimas na rua, na frente de todos, confiantes na impunidade e na intimidação de testemunhas - disse a advogada.

Ela revelou que somente este ano três advogados - Divino Mandele de Paula, Jacob Rodrigues da Costa e Edson Renaldo de Oliveira - foram assassinados por pistoleiros. Outro advogado, José Pereira de Jesus Filho, ficou tetraplégico ao ser atingido por disparos na espinha. Os quatro, segundo ela, eram advogados populares, conhecidos por patrocinar causas trabalhistas contra fazendeiros e empresários.

ENTIDADES PEDIRÃO INTERVENÇÃO
DO EXÉRCITO EM MS

Luiz Augusto Michelazzo

[ O Globo - 2 / 11 / 97 ]

DOURADOS (MS) - A Comissão de Direitos Humanos (CDH) da Câmara e o Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH) do Ministério da Justiça vão pedir ao presidente Fernando Henrique Cardoso a intervenção do Exército na luta contra o chamado sindicato da pistolagem e os grupos de extermínio do Mato Grosso do Sul, que mataram 281 pessoas nos últimos dois anos e são acusadas do desaparecimento de outras 200 pessoas. Os deputados federais Pedro Wilson (PT-GO) e Dalila Figueiredo (PSDB-SP), membros do CDH, que estiveram na semana passada em audiência pública na Câmara Municipal de Dourados, querem a imediata exoneração do secretário da Segurança do Mato Grosso do Sul, Joaquim D’Assunção Felipe de Souza, a quem acusam de omissão, e o afastamento temporário do governador Wilson Martins Barbosa (PMDB). O secretário de Segurança se recusa a falar sobre os pistoleiros.

Relatório elaborado pelas comissões ao qual o GLOBO teve acesso mostra que as investigações feitas por entidades de defesa dos direitos humanos provaram o envolvimento de policiais civis e militares em assassinatos no Mato Grosso do Sul. Quatro estão presos. Os dois deputados revelaram ao GLOBO que receberam ameaças de morte, por telefone, sexta-feira em Brasília. A segurança da Câmara provou que as ameaças partiram de um telefone público de Dourados. O jornalista Edgar Lopes de Faria foi abatido com 13 tiros na última quarta-feira. Ele vinha denunciando grupos de extermínio.

Para a deputada Dalila Figueiredo, a situação atingiu níveis intoleráveis na área próxima ao Paraguai. A deputada quer uma solução para a segurança do Mato Grosso do Sul semelhante à que o Governo federal encontrou para a situação financeira de Alagoas.

Segundo Wilson, que se encontrará depois de amanhã com o ministro da Justiça, Iris Rezende, a CDH vai propor a formação de uma subcomissão para intervir e garantir a segurança no Mato Grosso do Sul, com representantes do Ministério da Justiça, da Polícia Federal, do Ministério Público, do Governo do estado, da OAB, Judiciário e entidades civis e de direitos humanos do Mato Grosso do Sul. O deputado quer que os policiais federais e militares do Exército que agirão nas investigações dos grupos de extermínio sejam convocados em outros estados.

Baseado em denúncias do Centro de Direitos Humanos Marçal de Souza, de Campo Grande, e nos depoimentos ouvidos em Dourados, a CDH constatou que enquanto a pistolagem comete assassinatos seletivos por encomenda, os grupos de extermínio atuam no atacado, matando indiscriminadamente.

Os preços dos assassinatos por encomenda (a maioria contratados por vingança, cobrança de dívidas, maridos traídos e problemas políticos) variam entre R$ 500 a R$ 2 mil. Já os grupos de extermínio e esquadrões da morte, segundo o relatório da CDH, são financiados por empresários e matam homicidas, assaltantes, traficantes, ladrões de cargas e carros, consumidores de drogas.

A equipe do GLOBO foi seguida de perto pelos pistoleiros e teve a janela traseira do carro quebrada em Ponta Porã. Celulares grampeados e intimidações veladas são comuns, como as recebidas pela advogada Gisele Fontoura, presidente do Centro Marçal de Souza. Até o delegado Roberto Queiroz, que comanda as operações antigrupos de extermínio em Dourados, não sai de casa sem colete a prova de balas, duas pistolas automáticas e uma escopeta calibre 12. Levantamento das comissões revela que só em Dourados, nos sete primeiros meses deste, ano 46 pessoas foram assassinadas por pistoleiros.


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