Justiça a um craque da pena
O poeta e cronista mineiro Paulo Mendes Campos
tem finalmente sua obra completa editada em
livros que começam a ser publicadados este
ano
EDUARDO GRAÇA
(Jornal do Brasil - 28/3/99)
CURITIBA - Relegado a injusto esquecimento, com obra diluída
em disparatadas coletâneas
ou escondida em prateleiras de sebos empoeirados, o poeta
e cronista mineiro Paulo Mendes
Campos (1922-1991) finalmente recebe o tratamento de
luxo dedicado aos craques da pena. O
jornalista Flávio Pinheiro prepara para a Editora
Record a publicação de suas obras completas,
em sete livros, que começarão a ser lançados
ainda este ano.
"Nos sebos do Rio, depois de muita procura, um felizardo
pode encontrar uma coletânea de
crônicas da Editora Sabiá e uma seleta,
mais recente, editada pela Ática. Não mais que isso",
lamenta Flávio. A produção de Paulo
Mendes Campos, ainda que exígua, foi fértil. Seu
primeiro livro, pela Hipocampo (A palavra escrita, 1951),
reunia poemas em uma pequena
edição de luxo, com apenas 110 exemplares.
Virou artigo de colecionador. Em seguida, pela
Civilização Brasileira, publico O domingo
azul do mar (1958), quiçá seu grande momento
poético, e a antologia Páginas de humor
e humorismo. Simulava aí o namoro com a crônica,
que culminaria em O cego de Ipanema (60). O livro nada
mais era que a reunião de textos
publicados no Diário Carioca e em Manchete. Sucesso
inequívoco. Logo viriam, pela Editora
do Autor, Homenzinho da Ventania (62) e O colunista do
morro (65). Pela Sabiá, Paulo
publica em seguida Horas de recreio (67) e O anjo bêbado
(69). Antes disso voltara à poesia
com Testamento do Brasil (66). Fora de catálogo,
todas essas obras voltam ao convívio com
os leitores no segundo semestre.
Durante 30 anos Paulo adotou o Leblon, depois de uma feliz
parceria com Ipanema, onde
dividiu o teto com Rubem Braga. Era dali que via o mundo,
mas a verdade é que fazia pouca
diferença. Ao contrário de amigos como
Drummond ou o próprio Rubem, não seria exatamente
um observador costumaz da vida que voava fora. Preferia
olhar para dentro e preceber o
reflexo do mundão besta nas entranhas do homem
comum. Nunca foi de seguir o caminho
mais fácil. Em uma de suas crônicas mais
inspiradas, concedeu alguns minutos ... à geografia.
E elaborou um roteiro sentimental e cronológico
para a cidade. Para ele a idade, no Rio, se
contava ao contrário. E a cidade vinha correndo
decidida para a primeira infância. Do Centro
velho passando pela maturidade de Flamengo e Botafogo,
Paulinho conferiu a louca
adolescência de Copacabana e a infância tranqüila
de Ipanema e do Leblon. E gostava de
bradar: "Sou mais velho que o Rio. Preciso da frivolidade
de Ipanema, onde tenho meu lar,
meu mar e meu bar".
Essa vulgaridade alegre jamais o contaminou. Não
foi um flaneur. E, apesar do diminutivo
carinhoso dado pelos amigos, sugerindo gostosa cumplicidade,
Paulinho jamais seria um
escritor popular. Muitos tentaram decifrar as razões
dessa sentença. Nelson Rodrigues, com
certeza triunfante, proclamava: "O mal do Paulo é
esse inglês que ele fala". É certo que o poeta
jamais seria citado como Bandeira e o cronista não
seria festejado como Rubem Braga. A
qualidade de sua escrita, no entanto, nunca foi questionada.
Cronista dos cronistas, poeta dos poetas, Paulo Mendes
Campos cultivou seus mistérios.
Detetive nato, foi talvez o amigo Millôr Fernandes
quem mais perto chegou da verdade. Para
ele, Paulinho era um artista de primeiríssima
qualidade não apenas pelo que escrevia, mas
principalmente pelo modo como realizou tal feito. Dos
grandes cronistas de seu tempo, foi o
que primeiro deixou de lado a crônica diária,
talvez um dos motivos de seu esquecimento. O
escritor nunca escondeu dos amigos que jamais gostara
do fazer jornalístico - "trata-se
apenas de simples e pura necessidade". Mas antes da partida
ainda houve fôlego para
revolucionar a crônica. Foi ele quem cerziu o Diário
da Tarde, em 81. Um livro curiosíssimo,
repleto de causos e pequenas frases com forma noticiosa.
"Era quase um pequeno jornal, um
diário mesmo", diz Flávio. E que ratificava
outra característica do autor: jamais seria confinado
a determinado interesse.
Exatamente por isso Flávio Pinheiro propôs
à Record uma empreitada que não se limita a
meramente republicar os livros do autor. Dividiu sua
produção por temas afins e propôs a
reunião de seus textos em oito livros, que revelam
ao leitor nuances da escrita do mineiro de
Belo Horizonte. O primeiro a chegar às prateleiras
reúne suas crônicas líricas. Poema em prosa.
Ou, como dizia o escritor, tão somente a masturbação
altamente espiritual de um sujeito. Em
seguida vêm os textos filosóficos. Onde
um perpelxo Paulo se detém sobre o gênero humano
com lupa singularíssima. Investiga a ansiedade
de viver, passeia pelo folclore de Deus e
alcança uma densidade existencial pouco comum
ao gênero. Depois virão as crônicas
esportivas. Dispersas em revistas e jornais, falam do
coração preto-e-branco, atleticano e
botafoguense. Há ainda um tomo dedicado aos textos
de humor, outro aos perfis de grandes
artistas, e as crônicas brasileiras. Aqui Paulo
fala do jeito brasileiro e de nossas mazelas. Suas
crônicas sobre o Brasil refletem também
o bicho político. Jamais escondera suas posições
socialistas e cultivou a amizade com o líder das
Ligas Camponesas, o pernambucano
Francisco Julião.
No ano 2000 ainda devem ser publicados um livro dedicado
a toda sua poesia e seus escritos
autobiográficos. Entre eles as 20 páginas
de Trinca de cópias, em que conta sua experiência
com o LSD. "Revisitar a obra de Paulo foi um prazer.
Trata-se de um finíssimo estilista, um
soberbo escritor. Era um equívoco do mercado editorial
deixá-lo de lado", diz Flávio, editor da
revista Veja Rio.
Em um primeiro contato com o traço de Paulo pode-se
perceber a particularidade de suas
crônicas. São textos de um poeta. Delicados,
líricos, subjetivos, mesclando, sem medo de cair
no piegas, memórias de infância e os mais
intrincados temas sociais. Estilo naturalmente
condenado ao envelhecimento, principalmente por seu caráter
cotidiano, conseiderado por
muitos um gênero literário menor, a crônica
em geral vai perdendo o interesse com o passar
dos anos. A obra de Paulo Mendes Campos, no entanto,
contraria a sentença que ele próprio
muitas vezes proferiu. Quando percebia que o cronista
passava ... frente do poeta, se
chateava. E dizia que a prosa era uma grande bobagem,
porque era de todos. A poesia, ao
contrário, era de indivíduo. Ninguém
a tomaria dele. "Minha maior surpresa no entanto foi
perceber como suas crônicas não são
perecíveis", conta Flávio.
Quando Paulinho chegou ao Rio, em 45, Minas era Drummond
e sua Riosa do povo. Mas, em
meio a uma das gerações mais exuberantes
da literatura brasileira, Paulinho logo formaria o
inseparável quarteto mineiro, ao lado de Otto
Lara Resende, Hélio Pellegrino e Fernando
Sabino. Com eles tomou de assalto a imprensa carioca.
E colaborou emO Jornal, Correio da
Manhã e Diário Carioca. E se desatacou
por ir se transformando, sem quase perceber, numa
espécie de Clarice Lispector da crônica.
Coube a Paulinho falar do mais difícil, do sentimento
do mundo, da perenidade da vida, dos percalços
da paixão. E pelo frágil viés da crônica.
Talvez por isso Fernando Sabino prefira não falar
sobre a redescoberta da obra de Paulinho. E
o último dos mineiros avisa que a emoção
é grande demais para se acomodar debaixo de
aspas. O amigo Wilson Figueiredo lembra do "eterno angustiado"
e da tarefa que cumpriu
com prazer de 84 a 91, quando trazia para o JORNAL DO
BRASIL os textos de Paulinho. Foi
exatamente Flávio Pinheiro, já então
um apaixonado pelo cronista do indizível, quem articulou
a volta do autor ... grande imprensa. "Entrevistei Paulinho
apenas duas vezes. Uma delas, com
Augusto Nunes, tinha objetivo certo: queríamos
persuadí-lo a reeditar sua obra para termos
um gancho para uma grande entrevista. Infelizmente isso
acabou não acontecendo", lamenta
Flávio.
Casado com a inglesa Joan Abercrombie, com quem teve dois
filhos, Gabriela e Daniel, Paulo
Mendes Campos recebeu os jornalistas como de costume.
Adorava contar histórias, era um
frasisita irrecuperável e mostrava-se satisfeito,
entre goles de uísque, com a pungência da
vida. "O vazio me enche", dizia. Tímido sem ser
eremita, durante certo tempo acompanhou o
amigo Silvio Campello em suas caminhadas no calçadão.
Mas achava aquilo tudo meio sem
propósito. Continuou a fumar e a beber. Muito.
Sofreu com a gota. Envelheceu nos barris da
vida. Mas não ficava se lamuriando. Ainda havia
muito o que olhar. E era preciso elaborar
forma e conteúdo. Para deleite dos poetas, para
o prazer dos cronistas. Por isso mesmo dizia,
convicto, que vivia intensamente. Sem maiores peripécias.
Mas urgente, certeiro.
Exatamente assim foi seu embate com a morte. Um resfriado
forte, com ares de pneumonia,
resultaria, no intervalo de uma semana, em um fulminante
derrame cerebral. Na madrugada de 2
de julho de 1991 Paulinho acordou passando mal. Sua mulher
o levou ao banheiro mas um
infarte fulminante o liquidou. A cena toda durou um par
de minutos. O tempo exato de uma
despedida. Sem concessões para tributos ou manifestações
de pesares. Bem do jeito de
Paulinho, que ficaria levemente ruborizado com a empreitada
de Flávio Pinheiro. Ou repetiria,
assim como quem não quer nada, as linhas finais
de seu "Poema didático": "De todo, se
multipliquei a minha dor, também multipliquei
a minha esperança".