HÁ 20 ANOS CENSURA
LIQUIDAVA "OPINIÃO"
Célia de Gouvêa Franco
[ Folha de S. Paulo - 30 / 3 / 97 ]
Criado por Fernando Gasparian, o primeiro jornal de oposição ao regime militar projetou FHC e Weffort
No início de 1997 vão se completar 20 anos desde que acabou o "Opinião", o primeiro jornal de oposição ao regime militar (1964-1985), que alcançou repercussão nacional na década de 70.
Lançado em novembro de 1972, durante o governo do presidente Emílio Médici, quando a ditadura militar estava no auge da sua força, o jornal foi concebido para ser um canal para manifestação de intelectuais e jornalistas de oposição.
Ele acabou ajudando a projetar nacionalmente nomes como o do então apenas sociólogo Fernando Henrique Cardoso, dos atuais ministros Luiz Carlos Bresser Pereira e Francisco Weffort e dos economistas Maria da Conceição Tavares e Paul Singer, entre outros.
Sua circulação atingiu um máximo de 38 mil exemplares, ainda no seu primeiro ano de vida, numa época em que a revista "Veja" (que ainda não tinha um sistema de assinaturas) vendia 42 mil.
O "Opinião" acabou em abril de 1977, "quando não era possível mais aguentar a censura", segundo o ex-deputado federal Fernando Gasparian, 66, dono da empresa que publicava o jornal.
Nacionalismo A iniciativa de criar a publicação foi do próprio Gasparian, conta o jornalista Raimundo Pereira, 56, chamado pelo empresário para montar a equipe de jornalistas e tocar o projeto. Ele ficou no jornal durante quase três anos.
Gasparian, que se qualifica como um "pragmático nacionalista" começou a pensar num jornal de oposição no início dos anos 70, quando morava na Inglaterra, para onde se mudou por causa das ameaças de prisão feitas por um grupo de militares, irritados porque o empresário ajudava estudantes e dissidentes do regime.
Sua fórmula para o jornal combinava uma equipe pequena de jornalistas, colaboradores escolhidos entre intelectuais de oposição ao regime e traduções de algumas das mais respeitadas publicações internacionais, como os jornais "Le Monde", francês, e "Guardian", inglês, e o "New York Book Review" (que publica resenhas de livros).
Censura e bomba - Rapidamente, o jornal ganhou prestígio e, mesmo sem qualquer campanha de divulgação, já nos primeiros números vendeu mais de 25 mil exemplares.
Começaram a chamar atenção dos leitores matérias que tratavam de assuntos que eram pouco tratados pela chamada grande imprensa. O jornal deu grande cobertura, por exemplo, à Guerra do Vietnã e aos problemas do "milagre" brasileiro, a época de grande crescimento econômico do final dos anos 60 e início dos 70.
Um dos artigos que atraiu leitores e polêmica foi uma reportagem que fez pela primeira vez um cálculo mais preciso sobre o valor da dívida externa (que era de US$ 10 bilhões e não de apenas US$ 3 bilhões como dizia o então ministro da Fazenda Delfim Netto), lembra Pereira.
Reação - A reação do governo militar também não tardou. Foi imposto um draconiano sistema de censura e várias pessoas que participavam do jornal -incluindo Gasparian e Pereira- foram várias vezes detidas e processadas.
Em 15 de novembro de 1976, dia de eleição de vereadores e quando o país já entrava no lento, gradual e seguro processo de distensão política, uma bomba explodiu no escritório do jornal, no bairro Jardim Botânico, no Rio de Janeiro.
O "Opinião" foi o jornal mais censurado pela ditadura militar, mas outras publicações, ligadas a partidos ou grupos políticos de esquerda, foram "fisicamente destruídos e seus jornalistas, presos ou mesmo mortos", diz Pereira.
O "Opinião" vendia 38 mil exemplares por semana.
Semanário lançou FHC - "Os vira-casacas do desenvolvimentismo continuaram fiéis a um dos seus mitos: o de que sem capital estrangeiro não há desenvolvimento possível."
Pouco mais de 20 anos atrás, num dos seus artigos para o "Opinião", com o título "Os mitos da oposição", Fernando Henrique Cardoso analisou a mudança de posição nas décadas de 60 e 70 de parte da elite brasileira, que passou a adotar a defesa do nacionalismo e do desenvolvimento a partir de recursos internos e da empresa pública.
Foi nesse contexto que FHC comentou o "mito" de que sem capital estrangeiro não é possível haver desenvolvimento, afirmação que hoje soa irônica para um presidente cujo governo depende da entrada líquida de capital estrangeiros de US$ 26 bilhões.
Fora ocasionais comentários como esse, que destoam do seu atual ideário, FHC não precisaria pedir que fossem esquecidos seus artigos o jornal "Opinião", publicados entre 1972 e o início de 1977. Escrevendo basicamente sobre política, em especial sobre a redemocratização do país e sobre o modelo de Estado que o Brasil deveria ter, FHC se revela, nesses artigos, muito parecido com o FHC presidente da República.
"Fernando Henrique nunca foi um homem de esquerda radical, sempre foi um democrata radical", diz Raimundo Pereira, editor-chefe do jornal no seu início e que se encarregava de editar os textos de FHC.
Fernando Gasparian, dono do "Opinião", amigo de FHC e quem o convidou a escrever no jornal, acha que se as idéias políticas do presidente não mudaram, hoje ele se mostra muito menos nacionalista do que antes, como demonstra sua disposição de privatizar a Vale do Rio Doce, por exemplo.
O que ninguém discute é a importância do "Opinião" como "trampolim" político de FHC. Ele mesmo reconhece que o jornal foi sua primeira tribuna política, como contou a um grupo de jornalistas em Washington, quando esteve nos EUA no ano passado.
Sociólogo e professor respeitado, FHC era no início dos anos 70 conhecido apenas no meio acadêmico. Escrevendo no "Opinião", passou a ser muito mais conhecido fora da universidade e convidado a escrever para outras publicações.
FHC também exerceu outro papel, informal, na rotina do "Opinião", lembra o jornalista Antonio Carlos Ferreira. "Ele já demonstrava naquela época o que sabe fazer melhor -negociar. Sempre que surgia uma divergência entre o Fernando Gasparian (o dono do jornal) e os jornalistas ou com colaboradores, era Fernando Henrique quem fazia a ponte."
Ferreira também se lembra bem que os primeiros textos de FHC não primavam exatamente pela elegância estilística.
"Nós, jornalistas, aconselhávamos os intelectuais a escreverem de forma mais simples, mais acessível. O Fernando Henrique, algumas vezes, tomou esse conselho muito ao pé da letra e tentava ser popular usando expressões como "é aí que a porca torce o rabo". Os primeiros textos dele acabaram sendo aprimorados na redação e acho que isso ajudou o Fernando Henrique a escrever melhor".
O jornal "Opinião" publicava rotineiramente prosaicos artigos sobre xadrez, escritos por um especialista do jornal inglês "Guardian". Um desses artigos acabou engrossando as estatísticas sobre a ação da censura no jornal.
O censor decidiu cortar uma matéria sobre uma determinada partida de xadrez, que terminava com a seguinte frase: "As pretas ganharam". Preocupados com a questão racial, os militares tinham dado ordens para que fosse censurada qualquer matéria que pudesse, mesmo que remotamente, ser interpretada como uma menção ao assunto.
Esse caso, lembrado pelo jornalista Antonio Carlos Ferreira, 49, secretário de redação do "Opinião" durante cerca de três anos, ilustra o tratamento reservado ao jornal pela censura, muito mais severo do que o destinado a outros jornais e revistas.
Segundo um levantamento publicado pelo jornal no seu penúltimo número, datada de 1º de abril de 1977, nos quatro e meio anos de sua existência foram preparadas para ser publicadas 10.548 páginas (em formato tablóide), mas só chegaram às mãos dos leitores a metade disso, 5.796 páginas mais precisamente. As matérias restantes foram censuradas.
Esquema especial - Inicialmente, a censura ao "Opinião" funcionava segundo o mesmo sistema imposto a outras publicações, com um censor trabalhando na redação do jornal. No caso do "Opinião" era uma censora, "a D. Marina", lembra Raimundo Pereira, editor do jornal.
Ainda no seu primeiro ano de existência, porém, o governo adotou um sistema especial para o "Opinião" e passou a exigir que todo o material a ser publicado fosse mandado para o escritório da Polícia Federal, no Rio de Janeiro, de onde era encaminhado para a sede do órgão, em Brasília.
Essa exigência acarretou profundas mudanças no esquema de trabalho do jornal, lembra o jornalista Dirceu Brisola, 52, editor de assuntos políticos nos primeiros 18 meses do "Opinião".
As matérias precisavam ser feitas com muita antecedência, o jornal começou a fazer matérias em número muito maior do que o necessário para cada edição, os jornalistas passaram a adotar "truques" para evitar os cortes da censura.
Numa época em que os censores cortavam sistematicamente todos os leads (a abertura da matéria), por exemplo, os jornalistas passaram a escrever matérias com dois leads, o primeiro, falso, para ser cortado pela censura, e o segundo, o verdadeiro.
Quando não era possível substituir uma matéria censurada por outra, o espaço saía preto.
Ganhou, mas não levou O jornal também impetrou um mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal, alegando que a censura era inconstitucional, conta Fernando Gasparian, dono do "Opinião".
Ele ganhou a ação, mas, "logo em seguida, o presidente (Emílio) Médici baixou um decreto, com base no AI-5 (Ato Institucional número 5, que concedia poderes especiais ao presidente da República) que tornava "legal" a censura", relembra Gasparian.
Mesmo assuntos tratados por outras publicações eram proibidos no "Opinião".
No final, dizem todos os entrevistados, foi o desgaste provocado pela disputa semanal contra a censura que acabou levando ao fechamento do jornal.
Em abril de 1977, foi publicado um editorial em que se anunciava que a partir da semana seguinte o jornal só sairia se não fosse censurado. E, de fato, na edição seguinte, o material a ser publicado não foi mandado para Brasília como acontecia rotineiramente.
Em vez disso, foi montada uma mini operação de guerra para evitar que a edição sem censura fosse apreendida: o "Opinião" foi impresso em uma editora de publicações japonesas, no bairro da Liberdade, em São Paulo, em vez de ser impresso numa gráfica no Rio.
Mesmo com essas precauções, grande parte da edição foi apreendida, foi aberto um processo contra Gasparian (que acabou sendo arquivado, já na época da distensão política) e o "Opinião" nunca mais circulou.