PROFISSÃO:REPÓRTER

 Guerrilha feminina

Luiz Maklouf Carvalho é o autor de "Mulheres que Foram à Luta Armada". Leitura fascinante, mas não de digestão tranqüila.

José Lago
(A Tarde)

Mulheres que Foram à Luta Armada (editora Globo, 484 páginas), segundo livro do jornalista paraense Luiz Maklouf de Carvalho, 24 anos de profissão, é uma boa aula de jornalismo e de História. Revela, com precisão e clareza de estilo, inusitadas frestas do período mais obscuro da história recente do Brasil - a ditadura militar que se instalou nos anos 60. Mais especificamente, a decisiva participação feminina durante o enfrentamento entre a guerrilha - urbana e rural, e o poderio militar.
É um livro sem ranços, sem cheiro de revisionismos históricos gratuitos. Aborda, com destreza, os bastidores da esquerda política brasileira, focalizando amiúde as agruras de mulheres - como frisa o título - que efettivamente foram à luta armada. As guerrilheiras, por assim dizer, ou “as terroristas”, como também foram chamadas.
É uma leitura deveras instigante, mas não de digestão tranqüila. O autor faz, ao longo de quase 500 páginas, revelações de pormenores inquietantes. Os métodos de tortura utilizados pelos órgãos de repressão da época, por exemplo, são descritos de forma escancarada, com uma explicitude capaz de fazer o leitor engolir a seco.
Baseado em entrevistas e extensa pesquisa, Maklouf Carvalho - (prêmio Esso Regional de Jornallismo, 1977, atualmente repórter especial do jornal Folha de S. Paulo) explora temas delicados, como amores, inimizades, traições, ocultação de cadáveres e outros detalhes das ações armadas. São dezenas de depoimentos, encadeados com habilidade pelo repórter, que demonstra uma grande capacidade de discernir entre o que é factual e o que não passa de subjetividade especulativa.
Sem pretender fazer um “ensaio” sobre o assunto, o autor legitima sua obra, através da comprovação dos relatos e da veracidade dos depoimentos. Fornece dados biográficos precisos (data de nascimento, nome e sobrenome, codinome, formação escolar, profissão do depoente no momento da participação na guerrilha), imprimindo credibilidade junto ao leitor.
É um livro que fascina, que escapa aos discursos vazios, que revela, às vezes às custas de relatos emocionados, histórias, até então, inéditas. Duríssimas histórias, diga-se. Há mulheres contando detalhes do seu desempenho nas ações guerrilheiras, outras esmiuçando a sempre tensa relação amorosa com os companheiros. Há outras contando os abortos que tiveram que fazer, contando sobre o momentos limítrofes em que tiveram que se entregar, numa sucessão incrível de informações novas sobre temas até hoje considerados tabus. O livro é prefaciado pelo jornalista Fernando Mitre.
Trechos
“Essa doce senhora que me conta seus segredos de guerra não tem a menor idéia de que a próxima pergunta vai pegá-la inteiramente de surpresa, fazê-la chorar ainda mais e trazer à tona, fora de hora, uma história amarga que promete levar para o túmulo. A pergunta diz respeito à morte acidental de uma jovem mulher e à ocultação de seu cadáver”.
Nunca foi fácil falar deste ponto delicado - o comportamento diante da tortura - com integrantes sobreviventes da esquerda revolucionária brasileira. É o maior tabu entre tantos outros - seja pelas conseqüências ffísicas e psicológicas da brutalidade em si, seja pelo fato de que, na maioria dos casos, a tortura venceu e fez com que falassem.”
No meio do tiroteio interno - marca registrada de todas as organizações da época - havia tempo para levar muito a sério determinadas questões sexuais. Na VAR-Palmares, por exemplo, houve um inquérito para apurar (e possivelmente punir) comportamento que não se coaduanava com o que se entendia por moral revolucionária”.


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