Depoimentos reconstituem a
história íntima da
esquerda durante
a luta armada nos anos 60 e 70
Folha de S. Paulo - 3 de maio de 1998 - Caderno "Mais"
MARIO CESAR CARVALHO
da Reportagem Local
Há um cadáver escondido no armário da esquerda.
Foi um
acidente, ao que tudo indica. Uma militante da VPR (Vanguarda
Popular Revolucionária) aprendia a montar e desmontar um
revólver quando, boom!, um tiro alvejou uma simpatizante do
grupo guerrilheiro. O que fazer? Era 1968. Quase todos ali eram
procurados pela polícia política. A decisão foi
enterrar o corpo da
garota em algum lugar da Grande São Paulo e mandar o viúvo,
testemunha da morte acidental, para o exterior. O máximo que
se
sabe da vítima é que se chamava Beth. Os que sabem a
sua
identidade não falam. O tema é tabu e foi um dos segredos
mais
bem guardados da guerrilha.
O cadáver escondido no armário da esquerda foi descoberto
pelo
jornalista Luiz Maklouf Carvalho, que o revela no livro "Mulheres
Que Foram à Luta Armada". O livro é uma espécie
de história da
vida íntima da guerrilha brasileira. Por não comungar
com o
triunfalismo com que a esquerda costuma se auto-retratar,
tornou-se uma coleção de tabus: revela a vida amorosa
das
guerrilheiras, a violência sexual dos torturadores, os inocentes
que
morreram nas ações, delações e justiçamentos
(os que foram
assassinados pela esquerda sob suspeita de traição).
É com esses traumas que Carvalho tece a história das
mulheres
que pegaram em armas contra o regime militar (1964-1985).
Repórter da Folha, ele entrevistou cerca de cem guerrilheiras
e
detalha a história da metade delas no livro.
É uma história ciclotímica, uma montanha russa
de euforia e
massacre. As trajetórias de Dulce Maia de Souza e Renata
Guerra de Andrade, as primeiras guerrilheiras da VPR
(Vanguarda Popular Revolucionária), sintetizam esse sobe-desce.
Dulce, jovem de classe média que fazia cursos de arte com Mário
Pedrosa, amiga de Gilberto Gil e Jorge Mautner, teve vários
ápices na guerrilha: estava com o grupo que matou o capitão
norte-americano Charles Chandler, assaltou bancos e integrou o
comando que jogou um carro-bomba contra o Quartel General do
2º Exército, tudo em 1968. À época do atentado
contra
Chandler, ajudava a montar o filme "O Bandido da Luz
Vermelha", de Rogério Sganzerla.
O inferno de Dulce foi a tortura após a prisão, em 1969.
Pendurada de cabeça para baixo, levava choques na vagina
enquanto um sargento berrava: "Você vai parir eletricidade" (leia
trechos nas páginas 5-5 e 5-6).
A história oficial da esquerda costuma acabar na sessão
de
tortura, mas Dulce rompe com o maniqueísmo que considera todo
militar um crápula: "Havia sargentos maravilhosos", conta no
livro.
Dulce diz também que, sob tortura, revelou um encontro que teria
com Marco Antônio Brás Carvalho. Com a informação,
os
militares mataram o guerrilheiro.
Renata, a "terrorista loura", como era chamada nos anos 60 por
causa da peruca que usava como disfarce, relata que ações
ousadas, como o carro-bomba que matou o soldado Mário Kozel
Filho no QG do 2º Exército, tinham motivações
quase infantis.
Segundo Renata, o atentado foi uma resposta a uma provocação
do general Manoel Rodrigues Carvalho de Lisboa, comandante
do 2º Exército.
Dias antes de o carro-bomba explodir no QG, em junho de 1968,
os guerrilheiros haviam assaltado um hospital militar em São
Paulo. "Não houve heroísmo por parte do inimigo em entrar
num
hospital e roubar minhas armas. Agora, desafio que façam isso
em
meus quartéis", provocou o general.
A VPR aceitou a provocação. "Depois a gente se autocriticou
por
ter feito isso, que não serviu para nada. A não ser matar
o
rapazinho", diz Renata, hoje editora-assistente da Enciclopédia
Britânica do Brasil.
Amores e afetos tiveram mais impacto sobre a vida dos
guerrilheiros do que sugere a imagem pública da esquerda. O
caso
mais extremado foi o do guerrilheiro Cláudio de Souza Ribeiro.
Em 1964, Ribeiro estava na assembléia dos marinheiros que
funcionou como pretexto para o golpe militar de 31 de março.
Em
1969, já militante da VPR, foi colocado na parede por Cleide
Dall'Olio, com quem vivia: a guerrilha ou ela, eram as opções
de
Ribeiro. Ele escolheu Cleide, mesmo escalado para a guerrilha do
Vale do Ribeira. Mudaram-se para Recife, onde ele voltou à
militância.
Em 1971, Ribeiro descobriu que era traído e matou a mulher com
três tiros. O que se conta é que logo em seguida apresentou-se
à
delegacia: "Acabei de matar minha mulher e sou um terrorista
procurado", teria dito.
Carlos Lamarca, líder guerrilheiro e amigo de Ribeiro, anotou
no
diário: "Só posso achar que Matos (codinome do marinheiro)
enlouqueceu, a ponto mesmo de desejar se autoflagelar, e com o
sofrimento justificar ter abandonado a Revolução".
No caso de Darci Rodrigues, ex-sargento da VAR-Palmares
(Vanguarda Armada Revolucionária), era machismo mesmo,
segundo a guerrilheira Sônia Lafoz.
Rodrigues foi acusado de forçar uma relação sexual
com a
guerrilheira Carmen Jacomini. "Ela andava de calcinha e sutiã
no
aparelho. Eu cheguei pra ela e falei: "Ó, assim não dá.
Nós
estamos sozinhos aqui e não vai ficar assim'±". Não
ficou mesmo.
Carmen sentiu-se violentada e encaminhou o caso à direção
da
VAR. A apuração não deu em nada. Hoje, Darci diz
que a
relação foi consentida.
Sônia Lafoz e Vera Silvia Magalhães -a guerrilheira que
ajudou a
sequestrar em 1969 o embaixador dos EUA, Charles Elbrick, e
no filme "O Que É Isso, Companheiro" é desdobrada nos
papéis
representados por Fernanda Torres e Cláudia Abreu- são
vozes
solitárias a reclamar do machismo.
Lúcia Murat, militante do MR-8 (Movimento Revolucionário
8 de
Outubro) à época e hoje cineasta (dirigiu "Doces Poderes"),
tem
uma visão diametralmente oposta à das duas, mas reconhece
que
sua feminilidade saiu arranhada da luta armada: "Eu era uma
gatinha da zona sul do Rio. Era bem nascida. Eu nunca me senti
tão livre na minha vida quanto em alguns momentos de
clandestinidade. Na luta armada a gente perde um pouco a
feminilidade: salto alto não combina com assalto", conta.
Com o isolamento que os militares impuseram à guerrilha, as
ações adquiriram conotações cada vez mais
emotivas, segundo
Sônia Lafoz. Foi assim com o sequestro do embaixador da
Alemanha, Ehrenfried von Hollene, em 1970. "Pesava muito
libertar 40 companheiros. O lado afetivo, sentimental, teve um
peso muito forte", diz a ex-guerrilheira da VPR e MR-8.
Com a morte rondando a cada minuto, tudo era extremado.
"Você se despedia de um companheiro num ponto e não sabia
se
ia voltar a vê-lo. Havia intensidade em cada momento", lembra
Nancy Mangabeira Unger, guerrilheira do PCBR nos anos de
chumbo e hoje professora de filosofia na Universidade Federal da
Bahia.
O isolamento da guerrilha não foi anunciado por nenhum dos
líderes da esquerda -foi sentido na pele pelos guerrilheiros.
Quando foi presa em dezembro de 1969, a militante da ALN
Cida Costa teve um choque. "Uma mulher começou a gritar:
"Morra, sua terrorista! Morra, sua terrorista!'. Foi horrível.
Você
pensava que estava fazendo a coisa numa direção, mas
essas
mesmas pessoas pelas quais você assumia uma postura, o povo,
o
teu povo, não estava entendendo", diz no livro.
Não há arrependimento entre as guerrilheiras. Criticam
o
despreparo militar da esquerda, o conhecimento esquálido da
teoria marxista, mas não viam outra alternativa senão
a luta
armada.
O economista Ladislau Dowbor, ex-guerrilheiro da VPR e hoje
professor da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica
de São
Paulo), acha que luta armada e tortura se retroalimentavam. "De
certa forma, as próprias torturas justificavam a nossa luta
armada,
como os policiais e militares justificariam a tortura com o fato de
estarmos armados. Nos processos de polarização, o culpado
é
sempre o outro", escreveu na página que mantém na Internet,
reproduzida no livro.
O único arrependido declarado é um torturador, o delegado
de
polícia Davi dos Santos Araújo. Em entrevista a Carvalho,
ele diz
o seguinte sobre a Oban (Operação Bandeirantes), um centro
de
tortura em São Paulo: "Se eu pudesse voltar no tempo, eu não
teria entrado naquela casa". Sobre seus colegas de tortura:
"Somos 300 desgraçados, 300 miseráveis. Fiz tudo certinho
na
polícia para ser um delegado de classe especial, para ser um
diretor-geral, e o sistema não permite. Por que não permite?
Porque você é torturador, porque você é malufista".
As guerrilheiras, pelo menos, entenderam melhor a história do
que
o torturador arrependido.
A OBRA "Mulheres Que Foram à Luta Armada", de Luiz Maklouf
Carvalho. Ed. Globo (Av. Jaguaré 1485. CEP 05346-902,
SP, tel. 011/3767-7000). 484 págs., R$ 27,00. Nas livrarias.
TRECHOS DE DEPOIMENTOS DO LIVRO
Confronto
Damáris Lucena assiste seu marido
reagir a um cerco policial e ser
baleado dentro de casa até virar
"peneira"
da Reportagem Local
Damáris Lucena viu o marido, o mecânico e guerrilheiro
Antônio
Raimundo Lucena, ser assassinado por policiais na casa em que
viviam em São Paulo. O casal escondia os fuzis que o capitão
Carlos Lamarca levou do quartel de Quitaúna (Grande São
Paulo).
Em 20 de fevereiro de 1970, a casa foi cercada. Queriam levar
Antônio, mas ele pegou um fuzil e reagiu. Virou uma peneira,
como conta a mulher, hoje uma dona-de-casa de 71 anos.
"Chovia muito. Quando a gente deu fé os homens entraram que
nem uns monstros, invadindo tudo. Eram da polícia, fardados,
uns
cinco ou seis, tudo armado. "Doutor' estava dormindo. Eu estava
ajudando na lição das crianças. "Cadê seu
marido?', eles
perguntaram. "Dormindo', eu disse. Mandaram chamar. Eu disse
pra mim mesma: "Pronto, entregaram nós'. Fui chamar: "Doutor,
tem um monte de polícia aí'. Ele levantou, saiu sem camisa
e foi
ver o que era. Mandaram ele botar a camisa pra levar embora. Aí
o tiroteio foi danado. Os homens estavam armados. Qual era a
dele? Ele tinha que se defender, estava dentro da casa dele. Eles
queria ele vivo, pra torturar. Ele tinha certeza de que se caísse
nas
mãos deles não ia sair vivo. Iam matar ele na tortura,
porque iam
descobrir quem ele era.
Tinha um FAL por cima da mesa, coberto, que ficava sempre à
mão. O "Doutor' pegou o FAL e atirou. Eles atiraram de uma vez.
Foi muita violência, muita brutalidade. Eu enfiei um menino
embaixo da mesa, os outros debaixo da cama. Foi muito rápido,
muitos tiros. Eu só sei de uma frase contundente que ele falou:
"Cuida dos nossos filhos'. Quando eles derrubaram meu marido, a
arma caiu pra lá e ele caiu pra cá. E eu vi ele assim,
ainda vivo. O
sangue já estava escorrendo, era uma peneira só, ele
não tinha
como reagir. Mas veio um e deu um tiro de miseri córdia no olho
de vidro. Foi muito confuso. Mas eu sei que o "Doutor' matou um
e acertou outro.
Até hoje eu não sei direito como a casa caiu. Não
sei se
delataram ou se a polícia estava atrás de bandidos. Sei
que o
aparelho era fechado, pouca gente tinha conhecimento dele. É
possível que tenha sido um acidente e que a ligação
com a
questão política tenha sido feita depois. Vasculharam
a casa,
encontraram as armas, trouxeram um caminhão para levá-las.
Diziam: "Vamos matar logo todo mundo'. Me deram um bofetão.
"Mata ela logo, acaba com essa raça de filhos da puta.' Eles
pareciam uns demônios. Ficaram lá até o começo
da noite, mas
não disse ram nada relacionado à política.
Quando me levaram pra delegacia, ali pelas sete de noite, o corpo
do "Doutor' ainda estava lá. Aí eles já tinham
feito a ligação,
porque eu escutei um falar: "Vocês deviam ter matado ela
também'. O outro respondeu: "Não. Essa mulher vai ser
uma boa
fonte de informação'. Fomos pra delegacia de Atibaia,
eu e as
crianças. Aí foi chegando delegado de tudo quanto era
lugar. O
Fleury, o capitão Maurício, o capitão Albernaz."
Depoimento de Damáris Lucena no livro "Mulheres Que Foram à
Luta Armada" (Ed.
Globo)
Elas contam como enfrentaram os
choques elétricos
da Reportagem Local
Dulce Maia foi uma das primeiras guerrilheiras da Aliança
Libertadora Nacional. Participou de três assaltos a banco e,
em
junho de 1968, foi uma das militantes que jogou um carro-bomba
no QG do 2º Exército, causando a morte do soldado Mário
Kozel Filho.
A ousadia do atentado e a morte do soldado deixaram os militares
irados. Presa em 1969, sofreu violências sexuais e choques
elétricos nas sessões de tortura.
Violência sexual era um tipo comum de tortura contra as mulheres.
Áurea Moreti, militante de uma microorganização
que atuava em
Ribeirão Preto, as Forças Armadas de Libertação
Nacional,
também foi "noiva de torturador", como diziam seus algozes.
Leia
abaixo o relato de Dulce Maia e Áurea Moreti sobre a tortura
que
sofreram.
'Você vai parir eletricidade'
"Os militares chegaram lá às duas da manhã. Eu
já estava
dormindo. Fui presa na noite do dia 25 de janeiro na frente de
minha mãe, debaixo de pancadas, num corredor polonês.
Me
levaram para o quartel do Ibirapuera, o mesmo da bomba,
episódio que àquela altura já tinha sido aberto,
incluindo a minha
participação. Fiquei horas a fio amarrada em um banco.
A tortura
durou a noite toda. Ao amanhecer, para escapar da tortura, eu
disse que tinha um ponto, um encontro com um companheiro.
Não pensava. Só queria sair da tortura. Levei-os a uma
rua perto
da Augusta, no trecho da praça Roosevelt, que estava em obras.
O ponto era frio - eu tinha inventado- e não encontramos
ninguém. À tarde aconteceu a mesma coisa.
Eu era sempre pendurada nua, de cabeça para baixo. Uma vez
puseram um arame na minha vagina. O sargento metia a cabeça
entre as minhas pernas e gritava: "Você vai parir eletricidade'.
Essa foi uma lembrança amarga que ficou. Mas havia sargentos
maravilhosos. Alguns me ajudaram. Estavam chocados com as
torturas porque alguns colegas seus também estavam sofrendo.
Teve um que volta e meia abria a porta da cela, numa clara
demonstração de preocupação. Outros traziam
algodão molhado
para passar nos meus lábios, arrebentados pelos choques.
O começo do desastre foi a queda do caminhão. Todo mundo
falou. Não contaram tudo, mas falaram, especialmente o Hermes,
que se tornou um traidor. Não estou julgando o comportamento
de ninguém. A tortura é algo animalesco -e até
eu, que aguento
qualquer dor, que já fiz até mielograma, tive um comportamento
aquém do que eu esperava. Fui barbaramente torturada durante
muitos meses. Eles me tinham ódio por várias razões
-a primeira
delas por eu ser mulher e estar resistindo como podia. Eles sabiam
que eu estava ocultando. Diziam que eu era macho -o que de
certa forma era um elogio dentro da concepção machista
dos
torturadores. Queriam saber quem era meu professor de ioga.
Achavam que eu fazia ioga porque aguentava a tortura."
A noiva do torturador
"Os soldados vinham na grade e
gritavam: "Boneca terrorista'.
Diziam que iam jogar dados para
saber qual ia ser o primeiro da fila.
Uma noite, desmaiada de cansaço e
de pau-de-arara, eu dormi na cela.
De repente, no escuro, um tropel na
escada, uma gritalhada dentro do
quartel. Já acordei com eles
invadindo, arrebentando, xingando,
um já dando chute, outro me
amarrando com a corda. Me
levaram escada acima. Era a
Operação Bandeirantes que tinha
chegado no pedaço. E já tinha uns
caras passando a mão no meu
corpo, dizendo que iam casar
comigo. Um deles virou meu noivo.
"Não, você não, quem vai casar
com ela sou eu.' Me agarrou.
Era uma cena louca, um corredor
cheio de soldados dos dois lados, eu
passando com aquele bando. O cara
agarrado em mim falou "eu vou
casar com ela' e de repente eles
começaram a cantarolar a marcha
nupcial, os próprios soldados, lá, lá,
lá rá, lá, lá, lá rá, e eu
passando de
noiva do torturador para ser
estuprada na sala de torturas, lá em
cima. É todo um terrorismo. Ele me
agarrando, ele e os outros,
avançando, passando a mão,
pegando mesmo. Nos seios, nas
coxas, tudo, pra eu acreditar que lá
em cima seria o estupro. De repente
me jogam numa sala. Tinha uns 20,
sei lá quantos. Já estava tudo
armado. A máquina de choque, a
cadeira. Dá um desespero. Quando
entrei na sala de tortura, meu
"noivo' rasgou a minha roupa e,
nua, me amarraram na cadeira e
jogaram água no corpo para
aumentar o efeito do choque
elétrico. Essa coisa da ameaça
sexual era permanente -e pra mim
isso aí não tem perdão.
O delegado regional Renato
Ribeiro Soares estava presente, mas
não queria entrar na sala de
tortura. Estava retraído. Mas aí os
outros fizeram ele entrar, dizendo
inclusive que ele tinha que me
torturar. "Que delegado de merda
você é?', diziam. Ele entrou. (...)
Choque nos seios, na vagina, na
boca, no braço. Faziam com
sadismo mesmo. Eram profissionais
em arrancar coisas das pessoas. Pra
você ter uma idéia, no meio da
tortura o dr. Renato desmaiou e foi
retirado da sala. Então eu falo que
eu fui mais homem do que ele
(risos). Desmaiou e foi carregado
pra fora. Isso dá uma idéia do que
estava ocorrendo."
(Depoimento de Áurea Moret)i
Os mortos
A militante da ALN Lídia
Guerlenda recorda como o roubo de
uma pistola por guerrilheiros
transformou-se em tragédia
da Reportagem Local
Lídia Guerlenda, hoje médica em Registro, no interior
de São
Paulo, teve um sonho em que apontava uma pistola Luger para a
cabeça do delegado e torturador Sérgio Paranhos Fleury
e na
hora H a arma falhava.
Em 1971, quando ela e outros militantes da ALN foram roubar o
revólver de dois guardas-noturnos em São Paulo, a arma
dos
guerrilheiros não falhou e os guardas foram mortos, como ela
conta no trecho ao lado.
"Fomos expropriar um 38 de um guarda-noturno. Em Santo
Amaro, numa travessinha da Granja Julieta. Sabíamos que tinha
um guarda que andava armado. Antônio Carlos Bicalho Lana com
a metralhadora. Uns e Outros no volante. Eu e o Portuguesinho na
externa. Foi uma tragédia. O guarda achou que era um assalto
à
casa. Então deu uns passos pra trás em direção
à porta da casa,
já gritando: "Não tem nada dentro, a casa está
vazia, não tem
nada dentro'. Eu e o Portuguesinho, cada um com um 38, fomos
pra cima render o guarda. "Mãos pra cima. Dá aqui essa
arma.' O
guarda não entendeu muita coisa, ficou apavorado e começou
a
guinchar. Eu nunca esqueço isso. Ele guinchava igual a um animal
ferido. Eu e o Portuguesinho não tivemos iniciativa. O Lana
percebeu a vacilada, saiu com a INA e acabou dando uma
coronhada na cabeça dele. Mas ele tirou a arma e atirou. O Uns
e
Outros, no volante do carro com uma 9 milímetros, atirou pro
lado onde ele estava e em seguida pro outro lado onde apareceu
outro guarda. Eram dois irmãos. Morreram os dois. Tinham vindo
do Nordeste há pouco tempo para trabalhar em São Paulo.
Entramos todos no carro e fomos embora. Nem a arma pegamos.
Apavorados. Eu, porque fiquei com a arma na mão, achando que
não precisava tudo aquilo. Portuguesinho também. Eu cheguei
na
pensão em que eu morava, guardei a arma e vomitei, vomitei e
vomitei. "Ai, meu Deus do céu. Se for isso aqui, acho que não
vai
dar certo.' Eu orava num quarto de pensão na Sumaré.
Isso
ocorreu em janeiro ou fevereiro de 71. Foi uma sensação
muito
ruim nos dois sentidos."
(Depoimento de Lídia Guerlenda)
Desespero
da Reportagem Local
Em 1969, homem que era homem não fazia plástica. Foi por
isso
que o capitão Carlos Lamarca disfarçou-se de "cabeleireiro
gay"
para alterar o rosto e conseguir andar nas ruas, segundo a
ex-guerrilheira Sônia Lafoz.
À época, o dirigente da VPR era o guerrilheiro mais procurado
do
país por ter desertado do Exército e articulado a guerrilha
no Vale
do Ribeira. Veja como foi a operação plástica,
segundo Sônia:
O dia em que Sônia Lafoz comprou
"cuequinhas vermelhas e um
pijama arrumado" para o capitão
Lamarca fingir que era um
cabeleireiro gay
"O médico sabia,
mas a clínica não. A equipe de
enfermagem, o anestesista, ninguém
sabia. Então você tinha que entrar
com a conversa de que era um
paciente que queria melhorar a
cara, o nariz, a arcada dentária,
porque se achava feio e precisava se
arrumar. Então, que justificativa
que eu tinha que dar? Que era um
homossexual! Hoje é comum, mas
naquela época homem não fazia
cirurgia plástica. Então a gente foi
por aí. Na casa a gente ficou
treinando com ele. Ele ficava puto.
"Olhe, você se comporte com mais
delicadeza, você mexa assim com a
mão', coisas do gênero. Tinha que
treinar um pouquinho. Eu tive que
comprar umas cuequinhas
vermelhas, umas coisas mais
efeminadas, um pijaminha mais
arrumado. A idéia era criar a
melhor história possível, com
detalhes. Nós fomos arrumar a mala
e ela ficou em cima da cama. "Eu
não ponho isso', ele disse. "Você
põe', eu disse. "Não vou pôr, eu não
quero, eu não preciso disso.' A
gente aproveitava pra fazer gozação.
Ele ficava morrendo de irritado.
Mas era uma pessoa muito doce, um
gozador também. Entrou logo na
brincadeira. "Vocês se cuidem,
cuidado comigo', dizia. Ficou uma
coisa mais relaxada. O Lamarca era
uma pessoa muito terna, alegre,
brincalhona. Ele teve medo da
operação, como qualquer ser
humano. "Será que vai dar certo?
Será que vai doer? Será que vão me
pegar?'
A gente tinha muito medo de que
ele acordasse da anestesia e não
lembrasse ou tivesse algum tipo de
atitude na confusão do
pós-anestésico e gritasse qualquer
coisa. Mas foi tudo tranquilo.
Levamos ele, todos armados. Nas
cercanias tinha um carro disponível
caso acontecesse qualquer coisa.
Eu falei pra ele falar pouco. Cruzar
a perna daquele jeito feminino, com
a mão por cima, e deixar que eu
falasse: "Ele é meu irmão, vai fazer
a plástica'. Os documentos todos
falsos. Eu e o Wellington ficamos
no quarto, esperando, apreensivos.
Ele também estava muito
apreensivo. Porque foi uma cirurgia
muito grande, mandíbula, arcada
dentária, nariz, rosto, uma coisa
muito forte. Voltou com o rosto
enfaixado, só se viam os olhos.
Quando acordou da cirurgia,
perguntou várias vezes se tinha dito
alguma coisa. Também era uma
preocupação dele. Saiu no outro
dia. Foi para um outro aparelho e
eu fui embora."
(Depoimento de Sônia Lafoz)
Amor
da Reportagem Local
Maria do Amparo Araújo, militante da ALN (Aliança Libertadora
Nacional), vivia numa casinha no subúrbio do Rio quando recebeu
a tarefa de abrigar um guerrilheiro. No começo, tratou friamente
Thomaz Antônio da Silva Meirelles Neto. Um dia, num ônibus
lotado, começaram a se aproximar. Nessa noite, Thomaz esperou
Maria em casa com uma garrafa de vinho e flores na mesa. Foi
uma linda história de amor -até que Thomaz desapareceu
na mão
dos militares em maio de 1974.
Um ônibus lotado e a paixão
infinita de Maria do Amparo
"Um dia, entretanto, o companheiro precisou sair cedo para cobrir
um ponto. Pegamos juntos o mesmo ônibus, lotadíssimo,
e não
tinha como não ficarmos perto um do outro.
Hoje agradeço a Deus a ruindade do sistema de transporte
urbano no Rio de Janeiro daquela época. O companheiro "grudou'
mesmo, aproveitou-se da situação, enquanto eu, por outro
lado,
não me fiz de rogada. Adorei a viagem, que acabou sendo muito
emocionante. Ele desceu na av. Brasil, para o seu compromisso, e
eu continuei até o centro, onde trabalhava. Passei o dia com
a
cabeça nas nuvens, o coração aos pulos querendo
quebrar as
amarrações que eu havia colocado, a alma em chamas. Eram
muitas as dúvidas e as inseguranças sobre como seria
chegar em
casa logo mais à noite.
Afinal o dia passou. Cheguei em casa já era noite. Estava tudo
limpo, organizado, lindo, flores na mesa, ao lado uma garrafa de
vinho, o companheiro deitado na rede que ficava meio que do
lado de fora da casa, lendo jornal, cheio de charme. Havia
preparado seu plano de sedução com todo o requinte, conspirou
com a noite, a lua estava cheia, daquelas bem grandes e com halo
circundante avermelhado/laranja/amarelado, do jeito que deixava
o céu bem fundo, largo, imenso e distante como os nossos
sonhos, loucos e bons sonhos. Era maio de 73, e eu ia completar
23 anos. Ainda hoje tenho a mania de sonhar sonhos distantes; às
vezes penso que é só para sentir saudades deles se não
se
realizarem.
Era a noite do dia 14 de maio de 1973. Me sentei em uma
almofada que estava estrategicamente colocada ao lado da rede,
respirei fundo, olhei para ele. Nunca tremi tanto na minha vida;
afinal, podia ter sido apenas uma questão de ônibus lotado.
Mas
não foi. Houve um grande curto-circuito de olhares, depois um
longo e confiante abraço, um aquecimento no coração,
nossas
almas mergulharam fundo num infinito, não sei onde. Perdi
também a noção de quanto tempo durou aquela coisa
mágica, um
transe. Ficamos fora do ar, passamos muito tempo conversando
ali do lado de fora, falamos da vida, entramos muito tarde,
tomamos o vinho e tivemos a primeira noite de todas as outras
358 noites e 358 dias de muito amor, tesão e cumplicidade que
vivemos. Assim começou o meu casamento com aquele que
dividiu comigo um infinito e profundo sentimento de amor e paz.
(...)
Foram dias únicos. Para mim aquele tempo foi o tempo de todos
os tempos."
Depoimento de Maria do Amparo
Isolamento
da Reportagem Local
Maria Aparecida Costa entrou para a Faculdade de Direito da
USP em 1963 e cinco anos depois estava na ALN.
Em 1969, o cerco começou a se fechar. Em 24 de setembro, seu
companheiro, Takao Amano, foi preso em São Paulo e ela teve
de fugir para o Rio. Sem dinheiro, com a comida começando a
faltar, foi presa a 8 de dezembro de 1969 por uma colega de
faculdade que trabalhava para os militares. Veja o seu choque:
Cida Costa descobre que o "povo"
não entendia por que ela estava
lutando
"Uma mulher começou a gritar: "Morra, sua terrorista! Morra,
sua
terrorista!'. Isso foi um impacto. Depois disso eu acho que não
ouvi mais nada. Na saída do bar ela gritou: "Morra, terrorista'.
Foi
terrível. Você tinha a ilusão, você pensava
que estava fazendo a
coisa numa direção, mas essas mesmas pessoas pelas quais
você
assumia uma postura, o povo, o teu povo, não estava entendendo.
É duro você sentir isso num momento desses. É um
tapa na cara.
Foi exatamente o que eu senti. Como se as coisas se
estilhaçassem, uma manhã que se quebrou. O sol, as coisas
e o
grito da mulher. É um negócio que te gela, te joga meio
pras
sombras. Um momento muito horroroso. Eu senti: estou sozinha.
Estamos sozinhos.
O julgamento naquela hora foi este.
No Dops do Rio tinha um delegado que não deixou me baterem.
Eu estava lá como presa do Exército, negando tudo, dizendo
que
havia um engano, que eu era do Paraná. Dei um endereço
falso,
para ganhar tempo, mas eles voltaram mais furiosos. O rapaz que
foi preso comigo tinha dado o endereço da casa dele -onde, azar
dos aza res, eles encontraram balas de fuzis.
Voltaram com a mãe do rapaz, uma senhora idosa. "Essa
vagabunda desviou meu filho.' Foi uma cena. Ela estava
desesperada. Queriam me levar lá pra baixo, mas o delegado não
deixou torturar. Eu nunca consegui saber quem era ele. Estava
claro que a minha história estava furada -mas mesmo assim ele
não deixou. Não sei quem é, nunca soube. Me colocou
num lugar
isolado e ali não botaram a mão.
Do Rio me levaram pra São Paulo, de carro, direto para a Opera
ção Bandeirantes. Foi um inferno. Eles acham inadmissível
você
ser mulher. Entrei na tortura: porrada, cadeira-de-dragão, choque
pra caralho. Três dias de pau. Um pega pra capar. Eles queriam
o
serviço. Gritos. Um ódio tão grande, visceral.
Não estavam
cumprindo ordens. Faziam aquilo porque nós representávamos
uma grande ameaça. Tinham convicção do que estavam
fazendo.
Não era representação. Só não fui
torturada sexualmente."
Depoimento de Cida Costa