PROFISSÃO:REPÓRTER
e n t r e v i s t a
MÁRIO
MAGALHÃES
Prêmio Esso de Jornalismo 1999
Perguntas feitas via e-mail
por Luiz Maklouf Carvalho.
Respostas enviadas em
6/2/2000
PERFIL RÁPIDO
Mário Magalhães Alves da Silva.
Nasci no Rio. Dos 9 aos 19 anos vivi em
Pelotas (RS). Torço pelo Flamengo e
pelo Esporte Clube Pelotas. Tenho 35
anos. Prêmios a destacar: os dois de
1999, junto com Ari Cipola e Paulo
Peixoto - Prêmio Esso de Jornalismo e
Prêmio Folha de Reportagem, ambos pelo caso PC. Livro publicado: Viagem ao
País do Futebol (DBA, 1998), em
co-autoria com o fotógrafo Antônio
Gaudério.
A ENTREVISTA
Como, por que, quando e onde você escolheu a profissão?
Resolvi ser jornalista depois de cursar
um semestre de pedagogia e achar
a faculdade absolutamente monótona. Fiz um
novo vestibular, em 1984, e
entrei para a Escola de Comunicação da UFRJ, na
qual me formei em 1988.
Até hoje não sei por que escolhi a
profissão.
Faria a mesma opção nos dias de hoje? Por
quê?
Sim. Porque gosto, e muito, do que
faço.
Em que momento você “sentiu” que era do ramo? Pode
relembrar a
matéria ou a ocasião em que isso se
deu?
Não sei exatamente se sou do
ramo.
Depois de passar uns dois anos como repórter da área de
cultura,
primeiro na Tribuna da Imprensa e, em seguida, no segundo
caderno de O
Globo, dediquei-me a um trabalho que me tomaria quase
três anos e até
hoje considero uma das coisas mais legais que já fiz no
jornalismo:
colaborar, no Rio, com o projeto Chatô conduzido por Fernando
Morais.
Fazia longuíssimas entrevistas, iniciando com duas
perguntas-padrão
(qual foi a primeira vez que o senhor ouviu falar em Assis
Chateaubriand
e a primeira vez que o viu?) e terminando por indagar a última
vez que o
entrevistado esteve com Chatô. Só com um general de pijama, foram
24
horas de gravação, fora os relatos em off.
Revirava arquivos como o do
Diário da Noite (o do Rio, não o de São
Paulo), cuja primeira edição
saiu em 1929 e a última, em 1962. Li tudo,
dia a dia. Durante a Segunda
Guerra, chegava a tirar 12 clichês. Já era
“tempo real”. Não me importava com
as traças que desfilavam pelas
páginas da coleção guardada no porão do prédio
dos Diários Associados.
Nunca vibrara tanto com um trabalho
jornalístico.
Como evoluiu sua trajetória profissional até
aqui?
Fui repórter de cultura da Tribuna
da Imprensa (1986); continuei na
mesma editoria em O Globo
(1987); trabalhei como repórter no projeto
Chatô (1987 a 89); editei
publicações institucionais numa agência de
publicidade de Lisboa (1990); fui
repórter das editorias Geral e Cola
(extinto caderno para adolescentes) de
O Estado de S. Paulo (1991);
editor-assistente do Folhateen (1991) e
de Esporte (1991) na Folha de S. Paulo,
jornal no qual fui repórter
de Esporte (1991 a 1993) e da Sucursal do
Rio (desde 1993). Em 1998,
continuando no Rio, deixei de cobrir esportes
e passei a integrar a equipe de
repórteres da Secretaria de Redação da
Folha.
Quais
são os lados positivos e negativos de trabalhar em
uma
sucursal?
O positivo é a chance de cobrir áreas
diferentes, renovando os desafios.
O negativo, com uma angústia do tamanho do
mundo, é a distância da
edição.
Como nasceram a pauta e,
depois, as matérias, que lhe renderam o
prêmio Esso
99?
A pauta foi apresentada em dezembro de
1998 pelo Josias de Souza, então
secretário de Redação (área de produção) da
Folha. Num investimento
pouco comum na imprensa brasileira, Josias
disse que eu teria o tempo
necessário para investigar o caso que ele julgava
mal explicado.
Em janeiro de 1999 comecei a apurar, indo pela primeira vez a
Maceió.
Voltei em fevereiro e março, quando fiquei 29 dias na cidade.
Ninguém,
fora a direção do jornal e eu, sabia da operação.
Das três matérias
principais publicadas nas quatro páginas do dia 24 de
março, a primeira
apurada foi o inventário inédito de PC Farias. A
segunda, o depoimento da
irmã de Suzana Marcolino, Ana Luiza. A
terceira, as fotografias provando que
o laudo original de 1996 errara a
altura de Suzana, o que até então era uma
questão polêmica e não
conclusiva.
Depois de 24 de março, passei a
trabalhar em conjunto com o Ari Cipola,
correspondente da Agência
Folha em Maceió, cidade onde estive oito vezes
em um ano. Quando o Ari
saiu de férias, entre maio e junho, ele foi
substituído pelo Paulo Peixoto,
correspondente da Agência em Belo
Horizonte.
Como é que
funcionou, na prática, a articulação do trabalho
em
equipe?
Foi um trunfo que tivemos. Sabendo que
seríamos bem ou mal sucedidos
pelo trabalho em conjunto, dividimos as tarefas
de acordo com as
possibilidades de maior sucesso de uns ou outros em
determinados
setores.
Até hoje são raríssimos os dias em que eu e o Ari
não conversamos pelo
telefone. Isso porque a polícia já indiciou nove, e o
Ministério Público
denunciou oito -- a decisão sobre Augusto Farias
será do procurador-geral
da República. Ou seja: o noticiário sobre o caso PC
é pequeno, no
momento, mas continuamos a discutir os passos possíveis para
avançar na
apuração.
A matéria mais recente foi publicada em janeiro -- a
denúncia do MP.
O caso está longe de ser encerrado.
Quantas
matérias foram publicadas na série premiada - e qual a sua
participação no
trabalho de edição?
Foram publicadas matérias em cerca de
cem dias. A edição foi da editoria
de Brasil. Na maior parte do tempo, o
Plínio Fraga editou o material. A
coordenação das reportagens foi, primeiro,
da Gabriela Wolthers e,
depois, da Vera Magalhães. Sempre que possível
converso sobre a edição.
Em relação aos méritos específicos da edição do caso
PC, eles são do
pessoal da editoria de Brasil.
Como
administraram o fato de um dos integrantes da equipe, seu
colega Ari Cipola,
ter recebido ameaças de mortes durante a apuração?
Esclareço o que houve: quando revelamos
que um dos delegados do caso PC
tinha gravado uma proposta de suborno de um
enviado -- jornalista, por
acaso -- de Augusto Farias, o irmão de PC foi à
mídia alagoana atacar com
virulência o Ari, fazendo ataques contra a
independência e a honra dele.
Dizia que, pelo fato de a mulher do Ari
trabalhar no governo de Alagoas,
ele prestava serviços a inimigos de Augusto
Farias.
O deputado não precisava falar mais. Em Alagoas, não é necessário.
A
partir de então, o Ari e a família passaram a receber proteção
da
Polícia Federal e da Polícia Militar, numa situação que perdura
até
hoje.
Depois, houve telefonemas estranhos, anônimos. Um outro episódio
não foi
esclarecido. Por uma questão de segurança, prefiro
ocultá-lo.
Você também fez, no ano passado, uma série vigorosa de
matérias
sobre a violência da polícia - em São Paulo e em outras partes
do
Brasil. Qual é a história dessas reportagens - e em que elas
resultaram
do ponto de vista de apuração dos crimes
relatados?
A direção da Folha decidiu
investir numa reportagem sobre
tortura
policial, à qual dediquei-me por cerca de um mês. Foram
publicadas
matérias em 12
dias.
As mais importantes se referiam a São Paulo. A Lilian Christofoletti
e
eu fizemos reportagens sobre duas
fitas gravadas reservadamente.
Numa, presos registraram agressões e
humilhações sofridas por eles numa
blitz policial numa delegacia. Outros
cassetes mostravam um oficial da
PM incentivando os PMs na base do lema
“lugar de vagabundo é caixão”.
O oficial está afastado as funções e foi
indiciado por vários crimes.
A Lilian entrevistou um soldado do batalhão de
um oficial que ordenava
matar suspeitos feridos antes de chegar ao hospital.
Em Belém,
entrevistei um torturador da polícia civil.
Houve outras
matérias, mas sem a repercussão das já citadas.
A Justiça Militar de São
Paulo quer que a Lilian entregue a identidade
do entrevistado. A Polícia
Civil do Pará quis a mesma coisa de mim. Com
base na lei que garante sigilo
de fonte, calamos.
Que matérias listaria entre as mais
importantes que fez, se fosse
solicitado a fazê-lo? (Não vale dizer que as
melhores serão as
próximas).
O homem é movido a desafios. O
jornalista tem de achar sempre que serão
as próximas. Não tem
jeito.
Você cobriu a área de esportes por algum tempo. Que
avaliação faz
da cobertura da mídia nessa área?
No geral, é veneranda com empresários,
dirigentes, técnicos e jogadores.
Já foi pior. Melhorou nos últimos anos.
Alguns avanços viraram vícios.
Exemplo: estatísticas ajudam a analisar o
futebol. Quando se sobrepõem
ao resto, por exemplo, rendem matérias muito,
muito chatas.
O que vai mal e o que vai bem na mídia brasileira
como um todo?
O que vejo de melhor é o esforço em
reportagens de fôlego de vários
órgãos e jornalistas. O pior é a sabujice com
os governos.
E no reportariado, de maneira
geral?
Incomoda-me uma certa visão de que no
passado é que era bom, maravilhoso
etc. De fato, já houve mais investimento
em reportagens extensivas. Mas
hoje há repórteres que fazem matérias
estupendas. Cito um exemplo: a
série do Bob Fernandes sobre bastidores da
Polícia Federal e a presença
de CIA e DEA no Brasil publicadas no ano passado
pela Carta Capital. É
um exemplo de excelência em
jornalismo.
Repórter pode receber jabá?
Depende do que seja jabá. Caixa de
bebidas e eletrodoméstico, por
exemplo, creio ser descabido aceitar. Um
adesivo, um livro, pode ser. É
preciso avaliar cada caso com bom senso e
integridade.
Como administra sua relação com as
fontes?
Com os mesmos valores com que trato
qualquer pessoa. É preciso ser
sincero e decente. Acima de tudo,
independente.
Acha correto trocar de identidade - ou usar outros
expedientes do
gênero - para obter informações?
Não como regra. No limite, é
legítimo.
Como é o seu dia a dia como repórter da sucursal da
Folha no Rio de
Janeiro?
Trabalho normalmente na sucursal, mas o
chefe ao qual me subordino está
em São Paulo: Fernando Canzian, secretário de
Redação. É ele quem
coordena a equipe de repórteres da Secretaria. No Rio, há
dois
jornalistas na equipe: Elvira Lobato e eu. Reporto-me, portanto,
ao
Fernando Canzian. Nas questões específicas sobre o Rio, ao diretor
da
sucursal, Marcelo Beraba.
Qual é a história de seu livro
“Viagem ao país do futebol”,
classificado entre as 10 indicações de
livro-reportagem no Prêmio Jabuti
do ano passado?
No fim de 1996, o editor de Esporte,
Melchíades Filho, perguntou se eu
tinha alguma idéia para um investimento
mais profundo em reportagem.
Propus um bye-bye, Brasil, contando histórias
prosaicas, dramáticas,
humanas, em centros longe de Rio e São Paulo. Em 1997,
passei quatro,
cinco meses, trabalhando no projeto, junto com o fotógrafo
Antônio
Gaudério. Viajamos para Sul, Norte e Nordeste. Depois, reunimos
as
principais reportagens e as publicamos no livro, lançado pela
editora
DBA, em junho de 1998.
Quem fez ou faz a sua cabeça,
no melhor sentido da expressão?
Em jornalismo, muita gente. Se algum
dia reunir um punhado das
qualidades do Janio de Freitas, me darei por
satisfeito.
O livro Notícias do Planalto, de Mário
Sérgio Conti, mexeu com a
imprensa brasileira. Qual a sua opinião sobre o
livro?
É leitura obrigatória. Tenho
divergências pontuais, o que é natural.
Está provado cientificamente que
Suzana Marcolino não atirou nas horas
que antecederam sua morte. A polícia e
o Ministério Público, em
investigações independentes em 1999, sustentaram
isso, indicando os
co-autores dos homicídios. Conti pensa o contrário. No
balanço geral,
porém, ele foi muito feliz. Li o tijolo em dois
dias.
Como avalia o tratamento da mídia em geral em relação ao
governo
FHC?
Subserviente, com
exceções.
A quantas anda a questão da ética na imprensa
brasileira, na sua
avaliação?
As discussões provocadas por
Notícias do Planalto mostram que os
jornalistas estão mais dispostos
a refletir sobre o jornalismo. Assim, é
natural que aberrações éticas tendam
a diminuir progressivamente.
Como é que nasce o seu lead? Algum
macete em especial?
Sai mais na transpiração que na
inspiração. Em jornalismo diário, é
assim.
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