PROFISSÃO:REPÓRTER

e n t r e v i s t a

LEÃO SERVA
 
 

Perguntas de Luiz Maklouf Carvalho, Cláudio Julio Tognolli, Manoel Carlos Chaparro, Mario Magalhães, Renato Pompeu e Xico Sá. Enviadas por e-mail e respondidas em 27/4/2000.
 
 

PERFIL RÁPIDO
 
 

LEÃO RENATO PINTO SERVA NETO, 40 anos, nasci em São Paulo e vivi durante a infância no distrito de Agulha, município de Fernando Prestes (SP), voltando para SP aos 8 anos.

Trabalhei na Folha de S. Paulo, onde comecei como redator e saí como diretor de Marketing, depois de ter sido editor de Turismo, Suplementos, Cidades, Secretário-assistente e Secretário de Redação; editor-responsável do Notícias Populares. Trabalhei no Jornal da Tarde como diretor-executivo de Redação. Trabalhei como responsável pela montagem da edição paulista e como diretor de Redação do diário LANCE!. Trabalhei na equipe que fundou o jornal LANCE!, responsável pela montagem da edição paulista do jornal e depois como diretor de Redação. Deixei o jornal para trabalhar como diretor de Redação da revista PLACAR, da editora Abril, de onde saí para trabalhar no iG, onde sou responsável pela área jornalística, especialmente o jornal Último Segundo.
 
 

Formação universitária


 
 

Faculdade de Jornalismo PUC-SP(completo)

Mestrado: Pós Graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP, em 1998

Faculdade de Ciências Sociais da Unicamp (incompleto)

Faculdade de Administração da Getúlio Vargas (incompleto)

Escola de Comunicações e Artes da USP (incompleto)



Prêmios recebidos:


 
 

Esso de Jornalismo em Criação Gráfica (1995)

Prêmio Jabuti em 1997 pela edição especial "Romance de um Dia", do Jornal da Tarde

Vários prêmios do Anuário do Clube de Criação de S. Paulo.



Livros publicados:


 
 

1) "Mensagens da Virgem Maria de Medjugorje" (Vozes, 1988) – Apresentação e reportagem; com Clodovis Boff (Prefácio)

2) "Ilustrada 1959-89" (Folha de S. Paulo, 1990), concepção, seleção de capas e organização

3) "20 Textos Que Fizeram História" (Folha de S. Paulo, 1991), organizador/editor.

4) "O Romance de Um Dia" (Jornal da Tarde, 1996), concepção e co-autoria.

5) "A Batalha de Sarajevo" (Scritta, 1994; reeditado em arquivo digital.

6) "Babel – A Mídia Antes do Dilúvio e nos Últimos Tempos" (Mandarim, 1997)

7) "Tempo de Guerra, Tempo de Jornal" (editado em arquivo digital.



A ENTREVISTA


 
 

Luiz Maklouf Carvalho - Por que, como, quando e onde você escolheu a profissão?

Leão Serva – Acho que desde o início da adolescência eu queria ser jornalista, sonhava ser um correspondente de guerra ou viajante. Em alguma medida isso deve ter sido conseqüência do fato de que sou descendente de uma família de jornalistas, meu tatara-tataravô foi o fundador do primeiro jornal particular publicado no Brasil, na Bahia, em 1811, que ele constituiu em Salvador depois que D. João 6 veio para o Brasil. Era um jornal reacionário, chamado "Idade do Ouro no Brasil", que acabou publicando a primeira revista de que se tem notícia na história do país. Desde então, em todas as gerações posteriores sempre houve alguém ligado ao jornalismo. Meu avô Leão chegou a ser dono de "A Cigarra" (que era de seu cunhado), meu tio Mario Pinto Serva foi jornalista a vida toda, lutava por causas iluministas, foi o líder da campanha e, deputado eleito para a Constituinte de 1934, autor das leis do Voto Secreto e da Alfabetização Obrigatória. Meu pai era uma pessoa muito voltada para a política e incentivava muito que nós lêssemos jornais, tivéssemos opinião bem formada sobre os temas de atualidade.

LMC - Faria o mesmo nos dias de hoje? Por quê?

LS - Hoje eu tenho certeza de que seria jornalista, mas mudaria muito minha formação. Se fosse prestar vestibular pela primeira vez agora, prestaria Administração de Empresas (que eu fiz, na Getúlio Vargas, mas larguei) e Antropologia (que também fiz e larguei para fazer jornalismo). Acabei fazendo faculdade de jornalismo contrariado, porque entrei no jornalismo quando passava a vigorar a lei do diploma obrigatório e tive que me resignar ao curso para poder trabalhar. Hoje, eu faria essas duas faculdades porque são fundamentos básicos para o bom jornalista de hoje (ao lado do Direito).

LMC - Qual o momento ou matéria que considera mais decisivo/marcante no começo da carreira?

LS - A primeira coisa que escrevi para uma publicação não estudantil foi uma reportagem que eu propus para a revista "Singular e Plural", de Marcos Faerman, em fins de 1978, sobre grafites nos muros de São Paulo. Ocorreu que o Marcos Faerman gostou da matéria e deu capa para ela. Imagine a minha emoção olhando uma revista nas bancas cuja capa era minha primeira matéria na vida...

Mais tarde fui trabalhar na Folha de S. Paulo e logo fiz algumas reportagens de que me orgulho, a começar por uma entrevista com o cineasta Mario Peixoto, que andava recluso em Angra dos Reis. Fiz a entrevista e foi minha primeira chamada de capa na Folha, acabou iniciando uma saga em minha vida: na entrevista Peixoto citou um certo artigo muito famoso que o cineasta russo Sergei Eisenstein teria escrito sobre seu filme "Limite". Passados alguns dias, encontrei uma professora de faculdade, a crítica de cinema Stela Senra, que elogiou a entrevista mas me disse que desconfiava da versão de que Eisenstein tivesse escrito o artigo, ela achava o estilo do texto muito pouco eisensteiniano e achava que havia uma fraude na história. O temor de ter comprado uma versão falsa me levou a passar 8 anos estudando e entrevistando gente sobre o filme, perseguindo a possibilidade de desvendar essa história. O que eu acabei fazendo em 1991, quando numa entrevista o próprio Peixoto admitiu. É um furo de que me orgulho ao mesmo tempo que me angustia até hoje pois logo depois ele morreu e eu temo sempre que seu gênio pudesse ser tido como uma mentira, o que não é o caso.

LMC - Em que veículos trabalhou, e em que funções, antes de entrar na Folha de S. Paulo?

LS - Antes da Folha eu era apenas free-lancer: fui colaborador dessa "Singular e Plural", depois trabalhei num jornal chamado "Lira Paulistana" (ligado ao teatro em que começaram Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção), fui correspondente de um jornal indigenista chamado "Porantim" (do Conselho Indigenista Missionário, ligado à CNBB) e fui copidesque de uma divisão da editora Abril que se chamava Abril Livros (hoje parte da Nova Cultural).

LMC - Como evoluiu sua trajetória na Folha até chegar ao cargo de secretário de Redação?

LS - Comecei como redator da Ilustrada em junho de 1983. Depois fui editor-assistente, repórter, editor-assistente de Educação e Ciência, editor de Turismo, editor de Suplementos Semanais, editor de Cidades, secretário-assistente de Redação. Fui nomeado secretário de Redação em 1988. Em 1990 assumi o cargo de editor-responsável do Notícias Populares,para implantar o novo projeto editorial. Meses depois voltei à Secretaria de Redação da Folha.

LMC - Que balanço você faz do desempenho nesse cargo - e quais foram as maiores dificuldades que enfrentou no relacionamento com a Redação e com a direção do jornal?

LS - Acho que nesse período o jornal viveu uma fase de crescimento vertiginoso e penso que contribuí para isso. Dediquei sempre muita atenção à área técnica, me impus de cara o objetivo de fazer com que o jornal tivesse cores nas capas todos os dias, pois queria marcar minha passagem pela Primeira Página com algo de impacto (até então só a capa da segunda-feira era colorida, por esforço pessoal do Matinas, meu antecessor no cargo). Fiz isso por decisão própria, combinada com Otavio Frias Filho. Até um dia em que dei algumas fotos preto e branco na capa e o Sr. Frias, o dono do jornal, reclamou. Foi quando notamos que ele não havia comentado mas havia gostado da coisa e então ela se tornou uma marca do jornal.

Do ponto de vista editorial, aqueles foram os anos da eleição de Erundina em SP, a primeira eleição presidencial (e toda a polêmica sobre a edição com os resultados do primeiro turno), os atritos entre Collor e o jornal, a queda do Muro de Berlim, a Guerra do Golfo, a morte de Chico Mendes (cobri o julgamento dos assassinos).

Em relação a meus antecessores, sinto que fui o primeiro secretário de Redação da gestão Otavio Filho, de fato. Antes o cargo tinha uma luz própria editorial. Otavio procurava ser um editor-in-chief de fato, insistia muito que não queria ser uma "rainha da Inglaterra". Penso que essa foi a causa de seus atritos com Caio Tulio (nomeado na época do Boris Casoy), o secretário de edição antes. Então eu sempre considerei que deveria ser um facilitador da gestão dele. Achava que, na Folha, naquele momento, eu não determinaria a linha editorial do jornal, que já estava fortemente enraizada àquela altura, teria uma influência menor na linha editorial e então deveria me concentrar na infraestrutura, na organização, na relação com o industrial, que eram fraquezas do grupo de editores daquele tempo. Me dediquei então aos projetos gráficos, ao fluxo de fechamento, aos sistemas de computação, enfim, a questões tecnológicas e estruturais etc.

Naquele período, o jornal era movido por um voluntarismo romântico de seus quadros, eu entre eles.

Ao mesmo tempo, no trato com as pessoas, fui sempre muito barroco, exagerado: no carinho e na dureza. Mas acho que mesmo quando fui duro, excessivamente duro até, jamais passei uma mensagem de perseguição pessoal ou algo assim, de forma que mesmo aqueles com quem tive conflitos têm comigo uma relação cordial.

LMC - Que momentos considera marcantes de sua experiência internacional como correspondente da Folha? Quais deles foram os mais tensos e/ou difíceis?

LS – As guerras, sem dúvida. Cobri em um ano e meio, aproximadamente, conflitos armados na Bósnia (fui o primeiro jornalista brasileiro a escrever de dentro de Sarajevo, no começo da guerra civil), Angola, Somália, Kuait, Moçambique e Irlanda do Norte. E cobri também a crise do casamento de Charles (fiz a matéria sobre a declaração do príncipe dizendo que queria ser um tampão de Camila).

Os momentos mais difíceis, tensos, foram a chegada a Sarajevo, um momento de concentração total; a saída da cidade, guiando um carro através de uma zona de conflito, chegaram a atirar em nosso carro (por sorte erraram); na Somália fui agredido por uma multidão e tive medo; em Angola eu, Pedro Bial e seus companheiros da Globo fomos detidos por guerrilheiros que ameaçaram matar nosso motorista, o que seria um golpe enlouquecedor, que por sorte conseguimos evitar (acho que as palavras desesperadamente calmas de Bial seguraram o tiro).

LMC - Seu livro sobre a experiência em Saravejo mereceu, de Frei Beto, no Estadão, uma crítica demolidora - por você depois rebatida no mesmo tom. Um dos pontos da discussão versou sobre a forma de cobrir os conflitos - se dos hotéis ou das fontes indiretas, ou se do palco dos acontecimentos. Como foi a sua experiência neste aspecto? Que métodos de trabalho utilizou na Bósnia, em Angola e Moçambique e nos outros conflitos que cobriu?

LS - Em verdade, a crítica de Frei Betto não era demolidora. Era ligeira: para não discutir o livro em detalhes, ele o comparava a clássicos como Tucídides, Tolstói, Hemingway. Seria como seu eu comparasse os livros dele aos de S. Tomás de Aquino, Santo Agostinho... Isso é a reprodução do modelo clássico de crítica literária antiética descrito por Balzac em "Ilusões Perdidas". Depois, ele apontava uma série de mudanças de tempo na narração do livro, cenas que eram descritas no presente e em seguida no passado, no mesmo parágrafo. O que revelava descuido da redação mas sem maior importância no livro. Ele tinha toda razão de ter mágoa pela crítica que fiz a um livro dele dez anos antes, que continha uma frase leviana, condenável. Mas eu não esperava que ele guardasse a raiva na geladeira por dez anos, em vez de protestar ou polemizar publicamente na hora. Mas acho que dos dois lados esse já é um episódio superado.

LMC - Ao voltar do exterior, em 93, você foi diretor de marketing da Folha. Como se deu essa mudança de campo de atuação? Que experiência tirou dela?

LS – Tirei a conclusão de que minha vocação de fato era o jornalismo. Tive banzo. Acho que o gosto que tenho por negócios e por marketing não deve dominar meu cotidiano.

LMC - Qual a sua avaliação da experiência no jornal Notícias Populares?

LS – Maravilhosa. O jornal cresceu muito (até a morte do Ayrton Senna, o recorde de circulação do jornal era uma edição que fiz, lançamento do novo projeto gráfico do jornal). Acho que é um meio de comunicação muito legal, pequeno o suficiente para dar ao seu editor pleno controle do negócio inteiro (editorial, industrial e comercial).

LMC - O que achou de positivo e negativo do período em que foi diretor executivo de redação do Jornal da Tarde?

LS – Positivo: acho que pude mostrar a mim mesmo e à equipe que eles poderiam acumular vitórias, implantar projetos (como o jornal de domingo) que pareciam impossíveis. Que uma gestão mais atuante poderia inclusive premiar os jornalistas (demos aumentos de salários para todos os editores e para 30% da Redação, acho que isso não acontecia no jornal desde os anos 80). Negativo: trabalhei muito e não consegui fazer o jornal ocupar uma posição mais destacada no mercado.

LMC - Você ganhou o Prêmio Esso de Criação Gráfica em 95, com uma série de capas do JT sobre o Mike Tyson - onde aos poucos seu soco poderoso ia "rasgando" a capa do jornal. Qual é a história dessa "sacada"?

LS – Tyson saiu da cadeia alguns meses antes e eu quis fazer uma capa com um soco dele explodindo a página. Ficou muito feia. Demos assim mesmo. Mas o Paulo Sérgio Roberto, um artista gráfico da equipe do jornal, ficou encafifado e tentando uma solução melhor. Um dia, várias semanas depois, conseguiu. Ficou muito perfeita. Então decidimos fazer uma série quando Tyson fosse lutar pela primeira vez, meses depois. Daí, numa segunda-feira, havia um pequeno defeito num pequeno pontinho na página; um dia depois virou um rasgo maior, até explodir vários dias depois (no sábado da luta) com o Tyson saindo inteiro "de dentro" do jornal.

LMC - Quem faz, ou fez, a sua cabeça no melhor sentido da expressão?

LS – Sempre que penso em minhas influências mais fortes me dou conta de que conheci na infância os dois narradores arquetípicos descritos por Walter Benjamin no seu célebre ensaio sobre o romance: meu pai era um viajante em sonhos (o marinheiro), me deu a curiosidade de conhecer o mundo; meu avô materno, filho de imigrantes, era o camponês, uma pessoa enraizada em seu mundo viajando pela memória. Ele dizia que "não há nada que um homem faz que outro não possa aprender a fazer". Ele morreu no dia em que eu iria começar a trabalhar na Folha e eu considerei isso um sinal muito forte de que minha infância tinha acabado e eu deveria caminhar com meus próprios pés. Ele trabalhou muito a vida toda. Então eu sempre dedico o meu trabalho a ele. Depois de mais velho, me tocou uma frase de Octavio Frias de Oliveira que ecoa em minha cabeça: "Nada resiste ao trabalho" (em verdade um dístico no portal do instituto Manguinhos, no Rio). Mais próximos: Caio Túlio Costa e Matinas Suzuki, que foram como irmãos mais velhos desbravando o mundo profissional que eu estava começando a enfrentar.

LMC - Você está vivendo uma nova experiência como diretor de um jornal na Internet - o Último Segundo, da IG. Como é que nasceu o projeto - e como é que a coisa funciona, no dia-a-dia?

LS – O projeto nasceu como a área de jornalismo do iG, quando na área de conteúdo ainda estávamos apenas eu e o Matinas. Nasceu do diagnóstico de que o jornalismo na Internet brasileira era muito fraco e permitia várias formas de entrada no mercado. Como tudo no iG, prevíamos um crescimento bem mais lento do que está se dando na realidade, o que é sempre uma alegria.

LMC - Acha que esse tipo de jornal pode chegar a ser concorrente da imprensa escrita diária?

LS – É uma aposta: no curto prazo, terá um impacto mais psicológico, sobre os jornalistas mais do que sobre os leitores. No médio prazo, vai influenciar o leitor, obrigando os jornais a alterarem o jeito como funcionam, forçá-los a se dedicar a ocupar as lacunas dos jornais online (falta de reflexão e profundidade). E no longo prazo, acho que vai sim, fazer um estrago no mercado, numa divisão geracional em que parte do mercado (por idade ou necessidade) se informará de um jeito e parte de outro.

LMC - Em artigo recente na Folha de S. Paulo (Uma só mídia/ 17/2/2000) Otavio Frias Filho comentou, sem citar nomes, que esses jornais, "criados por bancos afeitos a operações de alto risco e rápido retorno, muitos dos conteúdos criados na Internet não passam de expedientes feitos às pressas para atrair clientes potenciais de mercadorias a ser empurradas. O jornalismo é pretexto, não produto". Como vê esse comentário? "Último Segundo" veste essa carapuça?

LS – Não, não vestimos a carapuça. Ao contrário, saudamos a atenção que ele dedicou à Internet, mas discordamos do comentário. O Otavio tem textos brilhantes, leio sua coluna semanalmente. Acho que o artigo manifesta uma preocupação com a Internet que mostra que ele está atento ao que há de mais importante no horizonte de sua área de atuação, o jornalismo. Mas acho que aquele parágrafo não tem a menor importância e foi escrito apenas para dar uma satisfação ao público interno, que talvez não quisesse ouvi-lo falar de jornalismo em internet numa hora em que a única coisa importante acontecendo no gênero era o surgimento do Último Segundo.

É um argumento muito parecido com os que eram usados contra seu pai, quando comprou a Folha, e contra ele, quando assumiu a direção do jornal, e por isso ele fica desconfortável ao brandi-lo.

LMC - "Notícias do Planalto", de Mario Sérgio Conti agitou e continua agitando as redações. O que achou do livro?

LS – Achei uma leitura agradável, rápida, um texto jornalístico delicioso. As passagens que vivi estão imprecisamente descritas, me parece que foram baseadas em relatos de pessoas que em verdade não viveram as cenas ou não têm boa memória. O que me levou a questionar o resto do livro. Mas acho um livro importante e com defeitos que não tiram seu valor. Li uma crítica que, me parece, Mario Sergio deveria responder, a de Paulo Moreira Leite, por ele ter sido seu companheiro a vida toda.

LMC - Como avalia o tratamento de mídia ao governo FHC?

LS – Acho que a maioria dos meios de comunicação deu um tratamento positivo ao presidente enquanto ele gozava de grande popularidade. Agora age com mais independência e criticismo, numa fase em que ele está mais impopular. Mas
acho que nas duas fases os verdadeiros problemas e qualidades do governo não são revelados. A imprensa cobre muito o governo pelas declarações dele e contra ele e por fatos de importância efêmera, não consegue ver os verdadeiros fluxos da história se manifestando por baixo das aparências e dos factóides. Acho que o governo FHC tem pecados imperdoáveis, como a incapacidade de enfrentar adversidades normais para um estadista. No entanto, aos trancos e barrancos o governo tem sido responsáveis por avanços importantes em certos campos (na economia, por exemplo) que parecem produzir resultados em longo prazo e que a imprensa não identifica. Os jornais costumam criticar os efeitos de curto prazo das medidas de longo prazo que eles pedem em seus editoriais, por exemplo.

LMC - O que acha das revistas semanais Veja, Istoé e Época, e da quinzenal Carta Capital?

LS – Veja é para mim uma dessas coisas que faz parte tão integrante de minha vida que não consigo me imaginar sem ela. Não gosto de sua fase atual, meio sem sal, mas semanalmente eu a leio inteira. Sobre a Época, acho que passa por uma fase vibrante, trepidante, o que falta à Veja, mas ainda tenho certa dificuldade de "navegar" pela revista, de entender sua seqüência. Gosto muito da Carta Capital. Como tudo que Mino Carta faz, tem uma personalidade forte, quente, como seu diretor. É admirável comparar sua qualidade e sua repercussão com o tamanho do expediente. É um sinal de energia do Mino.

LMC - Jornalistas devem receber jabá?

LS – Não devem, por princípio.

LMC - Repórteres podem mudar de identidade para obter informações?

LS – Em princípio não. No entanto, algumas matérias importantes já foram feitas assim. Eu diria que a decisão é difícil mas não usaria um princípio fundamentalista de que nunca em hipótese alguma isso pode acontecer (é como escuta telefônica: não deve ocorrer... a não ser que um juiz autorize, o que mostra que em alguns casos deve).

LMC - O que há de pior na mídia brasileira de maneira geral? E de melhor?

LS – Acho a mídia brasileira, em geral, epidérmica. De melhor? Ela é melhor do que a média do país, sem dúvida do que se poderia esperar da mídia de um país em desenvolvimento, como o nosso. Acho que ela é uma mídia de nível compatível com a Bélgica que há dentro desta Índia que é o Brasil.

LMC - Que reportagens escolheria, entre as que fez, para compor um livro de dez, se tivesse que escolher ?(Não vale responder que serão as próximas)

LS – 1) As entrevistas de Mário Peixoto (uma seqüência delas até a última, quando da revelação do artigo falso de Eisenstein); 2) A cobertura do julgamento dos assassinos de Chico Mendes; 3) A Política da Broa de Milho, sobre o projeto cultural do ministro Aloísio Pimenta e de Ziraldo; 4) A viagem para a Iugoslávia, sobre as aparições da Virgem Maria em Medjugorje; 5) As entrevistas com Caetano Veloso sobre cinema; 6) O metrô de Stálin (turismo, sobre o Metrô de Moscou); 7) A história de Francisco Félix de Souza, o Xaxá, um brasileiro que viveu no Benin (África) e se tornou um dos homens mais ricos do mundo traficando escravos para o Brasil; 8) Turismo: o roteiro de Jack Estripador por Londres; 9) A cobertura da guerra da Bósnia; 10) A narrativa do dia em que fomos detidos pelos guerrilheiros em Angola.

LMC - Há não muito tempo você voltou a Universidade para fazer pós-graduação. Como foi essa experiência e que tese defendeu?

LS – Foi muito rica, entre 1994 e 1998. Era para defender uma tese em doutorado direto, mas resolvi parar os créditos antes, quando a dissertação ficou pronta e a defendi como Mestrado. Tive uma convivência com jovens luminosos que estão ampliando os horizontes do conhecimento no Brasil e que são absolutamente desconhecidos pelo jornalismo. Conheci jovens jornalistas. Tive que ler um monte de coisas. Enfim, foi como se eu recarregasse a pilha de reflexão, depois de anos só descarregando a que eu tinha acumulado até o início dos anos 80.

LMC - A quantas andas a experiência de lançar uma editora de livros pela Internet?

LS – Eu hoje a acompanho como autor, não como editor. É uma editora pequena, não tem ainda a massa crítica de originais suficientes para garantir um fluxo grande de gente pelo site (www.uol.com.br/bmgv). Mas é a primeira editora de livros virtuais de que tenho notícia no Brasil, lançada dois anos antes do Bill Gates mergulhar nesse negócio, o que é uma honra.

LMC - Que importância teve a leitura na sua formação de jornalista? Que relação mantém com os livros no dia a dia? E que livros considera básicos para a formação de um repórter?

LS – O hábito de leitura para mim foi fundamental. Eu não me lembro de um momento de minha vida desde o ginásio em que não tenha tido sempre comigo um livro. Leio durante todos os minutos que tenho livre. Adoro ler e me ressinto de não ter tempo para ler mais. Acho que um jornalista deve ler de tudo, mas principalmente livros sobre o mundo externo, países e realidades longínquas, livros que ampliem seus horizontes, livros de viagem. Como repórter, acho que o livro mais importante que li foi "A Primeira Vítima", de Philip Knightley, um ensaio sobre a história dos correspondentes de guerra que é um petardo contra o jornalismo como um todo. Muito importante para que a gente não incorra nos mesmos erros dos nossos antecessores. Acho muito importantes também a autobiografia do Cláudio Abramo, editada pelo Cláudio Weber Abramo, seu filho, um exemplo completo de jornalista; e a autobiografia do Samuel Wainer, um livro apaixonante mas também um relato de uma relação pouco saudável com o poder da época.

LMC - Que filmes sobre jornalismo você incluiria numa lista dos melhores? Algum que o tenha encantado mais particularmente?

LS – Sou apaixonado pelo "Antes da Chuva", sobre a Macedônia. Acho muito importante também o "Under Fire" (Sob Fogo Cruzado) e o "Salvador, o Martírio de um Povo". Os três tratam dos limites éticos e técnicos do jornalismo (no caso, do fotojornalismo).

Cláudio Julio Tognolli - Uma vez fui tomar uma caipirinha com o Janio de Freitas, num Galetos, lá no Rio, e ele repetia "o melhor secretário de redação que a Folha já teve foi o Leão". Por que ele disse isso?

LS – Tognolli, se o Janio disse isso, com toda a experiência que tem (eu o considero o mais importante exemplo vivo de jornalista), eu me sinto extremamente honrado. Acho que o jornalismo nos dá poucas alegrias e certamente uma delas é poder ser reconhecido por alguém que se admira. Vindo dele, então... Suas palavras devem ser um sinal da dedicação com que eu fazia o contato com os colunistas, diariamente, para ver como estavam e o que tinham que poderia ser levado à Primeira Página. Janio é muito correto, não gosta de ligar pedindo destaque para suas matérias. Os secretários por sua vez não costumam contatar os colunistas (talvez porque se sintam sem tempo). Além disso, embora eu considere que a edição não é um momento democrático, sou muito transparente, consulto os outros a quem considero referenciais sobre decisões que tenho que tomar e com isso tento fazê-las mais uma expressão de um grupo de pessoas. E como membro do Conselho Editorial, Janio é um excelente conselheiro. Então eu jamais economizei em telefonemas para ele.

Claudio Julio Tognolli - Você que já foi um católico fervoroso, o que acha hoje da Igreja?

LS - Olhe, Tognol, não sei por que você colocou o verbo no passado. Tenho a mesma religião desde os 22 anos e procuro me ocupar dela do mesmo jeito. Mais ou menos como no discurso de John Kennedy, procuro mais entender como posso contribuir com a Igreja do que como ela poderia me ajudar. Acho que uma característica profundamente negativa da sociedade moderna é que as pessoas se consideram o centro do universo e como tal, escolhem religiões como quem vai ao supermercado e procuram aqueles ritos que satisfaçam curiosidades, desejos pessoais. Isso pode até levar ao crescimento pessoal mas o sentido da coisa está errado, trata-se de um crescimento horizontal, um "ego-rdamento", digamos, não uma elevação. O que acho da Igreja: acho que ela é uma ponte, sólida como sempre. Às vezes parece longa demais, outras parece frágil, outras parece balançar um pouco. Mas estou certo de que é o caminho de vida. Hoje, enquanto escrevo, estou profundamente tocado pela grandeza da peregrinação do Papa João Paulo 2º à Terra Santa e de seu esforço por estabelecer uma união com as outras denominações cristãs. Me parece que a Igreja entra no século 21 muito mais forte do que entrou no século 20, exatamente por expor com mais transparência as suas fraquezas.

Cláudio Julio Tognolli - O que pensa do Otavio Frias Filho?

LS - Não tenho contato com ele há muitos anos, desde que voltei da Inglaterra, em 1993. Tenho boas memórias da convivência anterior a esse período. E dou muita importância às minhas características profissionais desenvolvidas no convívio com ele, como disciplina, hierarquia e método. Não consigo pensar um editor sem agenda, sem organização pessoal, sem método de trabalho claro para si e para os que o cercam. Esse Otavio introjetado, digamos, é muito importante para mim.

Renato Pompeu - O que você acha do Otavio Frias Filho e do Fernão Mesquita?

LS - Já falei do Otavio. O Fernão é um herdeiro de uma tradição riquíssima de um tipo de jornalismo europeu em que o editor é um político diferente, que exerce a política com seus editoriais. É evidentemente o que mais se preparou para isso;, seus irmãos e primos estudaram e se prepararam mais para outras formas de exercício do jornalismo. Essa é uma persona muito pesada, cheia de obstáculos que a tornam uma frustração quase permanente (como dizia o mestre do pai dele, o Gianino Carta, no jornalismo perde-se uma batalha por dia). E talvez para escapar dessa angústia, ele, ao contrário de seu pai, seu avô, seu bisavô, se volta mais para o cotidiano do jornal, mais arejado e informal do que o dos editorialistas, mas ao mesmo tempo mais cheio de batalhas perdidas. Fernão empresta a cada reportagem e página a importância de um editorial que pode mudar o mundo (parece um pouco o poema de Fernando Pessoa) e sofre muito por isso.

Manoel Carlos Chaparro - O que, no jornalismo esportivo, mais o incomoda? E o que mais lhe agrada?

LS - Várias coisas me incomodam em certos momentos do jornalismo esportivo. 1) Imprecisão; 2) tentativas de assumir a paixão do torcedor; 3) textos longos e vazios, clichês; 4) a incapacidade de detectar o que de fato quer a paixão do leitor.

O que mais me agrada no jornalismo esportivo: 1) a empatia imediata que seu tema desperta em parcelas imensas do "leitorado"; 2) a juventude das novas redações que estão nascendo/crescendo; 3) a solidariedade entre os que exercem o jornalismo esportivo; 4) me agrada ver como hoje ideais de precisão, imparcialidade e de contato direto com o leitor são facilmente incorporados pelos jornalistas esportivos.

Mário Magalhães- Qual a maior dificuldade de fazer uma revista mensal sobre futebol num país em que o calendário é caótico e a organização, precária?

LS - A maior dificuldade é exatamente decorrente disso, de não se poder prever quem está bem (pois pode perder amanhã), quem acerta, quem brilha etc. Acho que acertamos a mão na Placar, no ano passado, por centrar a revista em personagens que brilham em times de grande torcida. Mas a Placar está sempre exposta a dar capa para um time ou jogador que na semana seguinte pode estar no ostracismo.

Mário Magalhães- Por que nunca vingou no Brasil uma publicação com o vigor editorial e o sucesso da "Sports Ilustrated" norte-americana?

LS - Estou convencido que isso se deveu sempre a custos. O primeiro passo para uma publicação de esportes dar certo é ser muito barata. Placar nunca foi muito barata. O Lance! de São Paulo, a R$ 0,75, disputava, quando de seu lançamento, o posto de jornal mais barato da cidade. O do Rio, com os mesmos 75 centavos, era mais caro do que os jornais populares (O Dia, Jornal dos Sports e depois Extra). Moral da história: o de São Paulo pegou mais rápido do que o do Rio, que só reverteu a tendência quando baixou o preço para R$ 0,50. Acho que há milhões de americanos com dinheiro para comprar a Sports Ilustrated, ou seja, ela tem um preço popular para eles, um país de classe média, como se costuma dizer. Este é um país pobre. Não adianta ficar angustiado se perguntando porque as massas não compram uma revista que cobre bem iatismo, críquete, mesmo basquete, que são obsessões dessa pequena, mínima, classe média/alta brasileira. Basta ver como a Placar cresce este ano consistentemente ao baixar seu preço e com um projeto editorial baseado em futebol.

Mário Magalhães - Qual foi a maior dificuldade que você enfrentou na implantação do "Lance!"?

LS - Tudo é difícil quando se trata de tirar um jornal do nada. Houve dificuldades industriais, dificuldades para fazer uma turma de jornalistas inexperientes produzirem um bom jornal. Mas todas essas dificuldades foram amplamente superadas pela redação com uma velocidade incrível. Um ano depois, no entanto, constatamos que as previsões sobre seu potencial de mercado no plano de negócios tinham sido exageradas e ele só poderia vingar se diminuísse drasticamente seus custos (para caber nas receitas reais). E aí a Redação pagou um tributo muito grande, de redução radical de quadros. Tive que demitir dezenas de jornalistas e isso foi muito frustrante. Mas estou convencido (agora inclusive amparado nos fatos) de que esse foi o custo para salvar o projeto e o emprego dos que ficaram e então acho que, dos males, foi o menor.

Mário Magalhães - O que a imprensa esportiva brasileira tem de melhor e pior? Em que precisa mudar? Qual a melhor imprensa esportiva do mundo?

LS - Falo do que conheço. Acho que a melhor imprensa poliesportiva do mundo é a norte-americana (Sports Ilustrated e ESPN à frente). Em jornais diários, acho que os melhores cadernos de esportes são os dos diários de prestígio ingleses. E a melhor imprensa latina de futebol, a espanhola. Acho que esses três são gêneros diferentes. Acho que o Lance! segue o modelo de imprensa latina de futebol, de que gosto, acho divertido, tem sangue quente. Acho que a Placar tentava um modelo que não existe, meio americano, em um país latino. Agora, desde o ano passado, ela é latina e talvez isso explique essa sua recuperação, o crescimento que está vivendo.

LMC - Que avaliação faz da experiência em Placar?

LS – Gostei muito. Acho que trabalhei na Placar com frieza na decisão editorial e na gestão administrativa e com grande emoção no relacionamento pessoal. Essa química se revelou deliciosa. A revista cresceu, a produtividade mais que dobrou e todos, no entanto, ficamos felizes.

Xico Sá -  Quando entrei na Folha, uns dez anos atrás, você tinha a fama de comandar a redação no grito. O grito é necessário ou se tratava apenas de uma cultura ``folhal'' da época?

LS - Acho que energia é fundamental e eu sou enérgico. Não tenho medo de gritar. O grito pode ser necessário tanto para o exercício do comando como também para evitar que o estresse todo recaia sobre o estômago do líder. Hoje no entanto eu compreendo mas renego esse comportamento, acho que nem sempre ele colabora com o objetivo de melhoria do profissional ou da equipe. Então, críticas duras e específicas passaram a ser reservadas. Hoje grito de alegria, grito para elogiar, para vibrar e para fazer críticas coletivas e autocríticas. Acho que em termos de decibéis meus ambientes de trabalho podem ser até mais barulhentos, mas passaram a ser mais alegres e, principalmente, mais transparentes. Isso se revelou fundamental para alcançar sucessos mais rápidos.

LMC - Conta-se que certa vez, na Folha, Renato Pompeu referiu-se a você como "o rei dos animais" - historinha que entrou para o folclore das redações. Pode contar o episódio?

LS - Isso aconteceu de fato. Lido em letras de imprensa, parece ter sido uma crítica pública do Renatão, uma desautorização. Não foi. Foi uma ironia sutil, bem colocada, que nos fez rir a todos, inclusive eu mesmo. O fechamento da Ilustrada era um caos permanente, um grupo inexperiente, liderado por inexperientes, que tinha que fechar sempre mais cedo do que parecia possível. Eu era um jovem editor-assistente gritão e tive uma discussão com alguém. Renato esperou a coisa acabar e então, com seu jeito meio lento, que fica entre o autômato e o cara que busca as palavras precisas no dicionário interior, disse vagarosamente: "Leão, você é realmente o rei dos animais". Foi edificante, didático.

Claudio Julio Tognolli - Se tivesse de fundar um jornal, o que ele teria que os atuais não têm?

LS - Um capital pulverizado, democratizado, para reduzir a personalidade do proprietário; uma quota importante de ações para os funcionários, como fazem as empresas contemporâneas; uma gestão financeira preocupada com o lucro, para permitir a perpetuação da empresa e a satisfação do acionista com o papel de acionista. Uma direção profissional, com participação acionária. Um regulamento que proíbe parentes de acionistas de trabalhar efetivamente na empresa (mesmo correndo o risco de perder talentos, essa medida evita o efeito opressivo que o poder hereditário exerce sobre o trabalho cotidiano dos que não têm esse poder).

Do ponto de vista do produto, esse jornal teria também o preço fixado a priori em função da capacidade do leitor-alvo. A partir desse preço, se fixa o tamanho da Redação e o número de páginas.

Por fim, o fundamental: uma redação extremamente enxuta que cobre um menu relativamente pequeno (comparado aos jornais existentes) de assuntos, escolhido por decisão do corpo editorial, com profundidade (ao contrário do modelo predominante hoje, que afirma a cobertura epidérmica de um sem número de temas).

Algumas semelhanças: o conteúdo do Libèration francês; o tamanho da Redação do Lance!; o número de páginas do Notícias Populares; a ousadia gráfica e a integração entre visual e conteúdo do Jornal da Tarde dos anos 70.


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