PROFISSÃO:REPÓRTER


Deputado roubou filme do JB

Vítima foi fotógrafo que registrava a
revoada de parlamentares de Brasília

FABIANO LANA

(Jornal do Brasil – 4/2/2000)



BRASÍLIA - Extremamente irritado, o deputado Celso Russomano (PPB-SP) tomou o filme do fotógrafo do JORNAL DO BRASIL Fernando Bizerra Júnior, que registrava ontem os parlamentares que deixavam Brasília, à tarde, no salão de embarque do aeroporto. "Eu quero que você tire esse filme. Você não me pediu. Eu tenho direito à minha imagem!", gritou o deputado, ao saber que estava sendo fotografado.

Russomanno partiu, em seguida, da ameaça para o ataque. O deputado tomou o filme da mão do fotógrafo e o expôs à luz. Como se não bastasse, tentou rasgá-lo. Por fim, levou o filme para a sala de embarque, de onde pegou um avião da empresa Rio-Sul para São Paulo, com decolagem marcada para as 17h. Russomano não quis falar com a reportagem do JB nem justificar sua saída de Brasília em plena quinta-feira. O incidente foi testemunhado por passageiros e funcionários do aeroporto.

Agressão - De acordo com empregados da Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária (Infraero), não é a primera vez que Russomanno se envolve em confusões no aeroporto. Ele já teria agredido verbalmente os funcionários da empresa após se recusar a voltar ao guichê para atualizar seu cartão de embarque, que estava sem a etiqueta de código de barra. A Infraero chegou a fazer uma queixa à Câmara dos Deputados contra o deputado.

Russomanno, entretanto, não é o único a desrespeitar as regras do aeroporto. O deputado Eurico Miranda (PPB-RJ), segundo os funcionários, se recusa a tirar seus objetos pessoais para passar pelo detector de metais ou colocar sua bagagem no equipamento de raio X. Argumentando que é um deputado, ele, às vezes, nem deixa que seu cartão de embarque seja conferido. Eurico também já chegou a criticar os colegas que se deixavam revistar.

Um grande número de deputados abandonou Brasília na quinta-feira. Alguns deles, como Nelson Marquezelli (PTB-SP), deram suas explicações sem precisar usar a agressividade de Russomanno. "Todas as semanas, nessa convocação, eu vou embora às quintas. Amanhã, tenho reunião com uma associação de plantadores de mandioca e vou receber o prefeito de Altinópolis. Tenho compromissos até a manhã de domingo e durante toda a segunda", disse.

Bases - Marquezelli defende mudanças no horário de trabalho dos deputados. "É fundamental esse contato com as bases. Defendo que o parlamentar fique em Brasília por três semanas por mês, de segunda a sexta, e durante uma semana se dedique a base", propõe.

Já o deputado Márcio Fortes (PSDB-RJ) foi lacônico ao justificar sua saída na quinta-feira. "Tenho compromissos em São Paulo com o meu partido", disse. Ontem, foi um dia de muita presença no Congresso. Compareceram 474 dos 513 deputados, que votaram destaques da Reforma do Juciário. Do Rio de Janeiro só não foi Arolde de Olveira (PFL). No Senado compareceram 73 dos 81 representantes, inclusive todos do Rio.

Flagrante de violência

FRITZ UTZERI*

Bater em Fernando Bizerra Júnior está se transformando num esporte. Primeiro, foram militares que tentavam impedi-lo de registrar o desmanche de um toldo armado para festa privada em terreno público, o Forte de Copacabana, com a presença do presidente da República. Agora, o agressor é um deputado, que se notabilizou por invadir recintos, empresas e até residências, sempre acompanhado por uma câmera e, a pretexto de defender consumidores, transmitir pela TV o seu pequeno mundo cão de justiceiro faz-de-conta. Eram conflitos do tipo carpinteiro (geralmente um pobre coitado) não entrega cama, já paga, a outro pobre coitado. Graças a essa enganação, e apostando na imaturidade política do eleitorado, elegeu-se parlamentar, para "defender os consumidores".

"Eu tenho direito à minha imagem!", gritava, possesso, o parlamentar, ao ser flagrado em embarque de gazeta, abandonando o local onde o contribuinte lhe paga para trabalhar. Esse mesmo direito, ele nunca deu aos que perseguiu com sua câmera e seria curioso observar a sua reação se alguém, nos tempos em que posava de Robin Hood, lhe roubasse a fita da mesma maneira que roubou o filme do JORNAL DO BRASIL. Ao agredir o fotógrafo, o deputado devia estar ciente de sua culpa e tentou, a todo custo, evitar que seu deslize ficasse documentado. Curiosamente, esse cidadão é jornalista e, ao agir desse modo contra um colega de trabalho, fere gravemente a ética profissional. Com a palavra, o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo...


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