PROFISSÃO:REPÓRTER

ENSAIOS

A ética da "denúncia"

Jânio de Freitas*

(Do livro "Jornalismo é...")


 
 

Uma das muitas dificuldades de quem lida, na imprensa brasileira, com informação inconvencional -- aquela que expõe ilegalidades e imoralidades dos poderes públicos -- é ser visto como alguém que está fazendo jornalismo, e não política. Mesmo entre jornalistas, a busca e a publicação de informações inconvencionais são vistas quase sempre como oposicionismo. Quando existe, porém, as implicações políticas desse jornalismo independem do jornalista.

A rotulação se deve, antes de mais nada, a outra, anterior, que faz com que a informação inconvencional seja chamada, com freqüência, de denúncia. Não se pode dizer que tal uso da palavra esteja errado, tantos e elásticos são os seus possíveis significados, entre a precisão técnica do seu emprego jurídico e a baixeza do seu teor quando exprime delação.

Apesar de tamanha largueza, denúncia é uma denominação imprópria no jornalismo. Mesmo quando revela improbidades administrativas e práticas políticas repulsivas, o que o jornalismo faz não é denúncia, é informação, é notícia. E assim ficam explicadas as aspas que sapequei no tema que me foi encomendado para este livro.

A ética do jornalismo -- do meu ponto de vista, melhor se diria a ética devida pelo jornalismo -- tem merecido livros, ensaios e artigos em número cada vez maior, com a novidade de algumas abordagens interessantes. Já a grande maioria das considerações, quase sempre em artigos, desqualifica-se por um de dois motivos; ou pelo desconhecimento das realidades internas do jornalismo e do seu conflito com outras realidades, ou por serem textos produzidos apenas pelo bom-mocismo às vezes ressentido e sempre hipócrita, sem qualquer intenção séria. Mesmo jornalistas têm incorrido nesse comportamento - e, não por acaso, costumam ser os que já deixaram marcas de sua vulnerabilidade ética.

Na essência, a ética da "denúncia" não tem particularidades, não se diferencia da ética exigível dos demais gêneros de trabalho jornalístico. A sua aplicação, sim, requer a observância de alguns procedimentos específicos, cuja falta comprometeria a ética. É o caso, por exemplo, da necessidade de distinguir, tão bem quando possível, a ação negocista ou a ilegalidade a ser denunciada e, de outra parte, o objeto do negócio ou de ilegalidade.

Com freqüência, o motivo de uma compra governamental ou de uma obra pública é procedente, mas aproveitado por agentes da corrupção. Outros projetos e transações são de utilidade discutível e outros ainda são criados só para possibilitar negociatas. Não basta ao jornalista, portanto, o conhecimento da irregularidade em si. É preciso informar-se aquém e além do tema central, para formar um juízo que vai determinar a modalidade e a dimensão da "denúncia". Só assim se assegura que a "denúncia", de um lado servindo ao interesse público, como é próprio do jornalismo, não o prejudique de outro.

O alcance humano da "denúncia" é outro problema a merecer atenção especial. A mim tanto aconteceu de apontar governadores e ministros como responsáveis pelos atos irregulares em questão, como também aconteceu de procurar poupá-los, por inocentes, até de suspeitas naturais do leitor. Isso parece uma providência óbvia, mas não é bem assim. Em grande número das "denúncias", para não dizer na quase totalidade delas, o jornalista brasileiro, além de evitar comprometer os altos figurões, procura até protegê-los. E a "denúncia" que seria um ato ético do jornalismo torna-se ela própria anti-ética, pelo comprometimento só dos menos fortes.

Os efeitos políticos da "denúncia" que atinge um poder fogem ao controle do jornalista. Isso não o isenta, muito ao contrário, de uma obrigação eticamente indispensável: a "denúncia"jornalística é um ato de informação aos cidadãos, uma das possíveis contribuições do jornalismo à consciência cívica e às instituições democráticas - ou seja, não é um ato policial, de promotoria, nem político-partidário. Qualquer desses sentidos pode aparecer no desenrolar da "denúncia" já fora do âmbito jornalístico, mas, se presente no propósito e na forma do ato original, então não será jornalismo.

A proteção inviolável aos informantes dispensa referências. Um cuidado extra que adotei, porém, simbolizará aqui o rigor das precauções para não prejudicar terceiros: dias antes de revelações mais quentes e já previstas, nenhum encontro com amigos que pudessem ser tomados como informantes, por quem os visse em minha companhia. Tal precaução durou, às vezes e em relação a certas pessoas, períodos inteiros em que um dado assunto foi tema constante no meu trabalho.

Seja em abordagem apenas prática (é o caso aqui) ou teórica, a ética da "denúncia" conduz ao que lhe é mais antagônico e, a meu ver, mais importante: a anti-ética da não-"denúncia". Ou seja, o mal maior de muitos meios de comunicação e jornalistas, que é a omissão deliberada diante de possíveis "denúncias". Ou, o que dá no mesmo, os artifícios para aparentar um jornalismo independente e "investigativo" sem, no entanto, o fazer. Os truques são inúmeros, desde o tratamento grandiloqüente de temas periféricos até a revelação grave, como assunto, mas poupando os responsáveis finais, se figuras poderosas ou situadas em postos-chave para os interesses do suposto denunciante.

De um ponto de vista mais amplo do que os malefícios causados por falhas éticas à reputação das pessoas, a anti-ética da não-"denúncia" situa-se, com certeza, entre os procedimentos mais responsáveis pelo atraso social, administrativo, institucional e político do Brasil. Cada omissão e cada limitação da "denúncia" mais consolidam algum aspecto negativo da realidade brasileira. E mais dificultam a consciência e o exercício da cidadania por cada um de nós.

Esta visão me leva a afirmar que as "denúncias" no jornalismo, pelo menos aquelas de que fui parte, não tem a ver com moralismos, mas com justiça social.
 
 

*(Jânio de Freitas assina uma coluna diária na "Folha de S. Paulo" e integra o Conselho Editorial do jornal. Dirigiu jornais e conduziu as reformas de modernização do "Jornal do Brasil", do "Correio da Manhã" e da "Última Hora"-RJ, entre outras atividades no jornalismo que lhe valeram prêmios no Brasil e no exterior)


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