E N T R E V I S T A
REPÓRTER DE POLÍTICA DE O ESTADO DE S. PAULO
P E R F I L R Á P I D O
A ENTREVISTA
Luiz Maklouf Carvalho - Como e porque você entrou na carreira?
Entrei nessa história no finzinho de 1973. Estava saindo de uma boa experiência em outro ramo, funcionário de algumas empresas no Interior de SP. Foram cinco anos praticamente dedicados a um tipo de serviço completamente diferente do que hoje fazemos e oferecemos. Bons tempos. Creio que o jornalismo surgiu na minha vida porque sempre gostei muito de ler jornal, desde pequeno. Gostava, sobretudo, de um caderno de esportes de O Globo. Devorava esse caderno. Havia morado uns tempos em Realengo e não perdia o Maracanã aos domingos. Em 73 decidi fazer jornalismo. Estava, então, com 18 anos recém-completados. Influenciou-me muito a cobertura que os jornais deram sobre o golpe no Chile, o Pinochet rasgando Constituição e povo. Essas coisas e fatos acabaram me levando a imaginar que poderia ser jornalista, um dia.
Paulo Nogueira (editor executivo de Exame) - Você considera que o jornalismo brasileiro melhorou ou piorou desde que você iniciou sua carreira? E o Estadão?
Paulo, o jornalismo melhorou mas poderia estar melhor, mais dinâmico e eficaz não fosse o amordaçamento da independência política de alguns veículos que vivem uma lua-de-mel descarada com o poder. Fecham os olhos para um mundo de escândalos. Às vezes, podemos creditar essa situação à linha editorial. Há casos, porém, em que isso ocorre por decisão de segundo ou terceiro escalões. Prefere-se a comodidade de fazer um jogo de faz-de-conta com o governo ou mesmo com autoridades secundárias. Nos tempos da censura você sabia a cara do inimigo, aquele burocrata que vinha encher o saco todo dia. Enfim, estava no papel dele. Hoje, no entanto, em alguns lugares surgem relatos e queixas sobre um tipo de censura mal-disfarçada, traiçoeira, venenosa, que serviria a dois senhores simultâneamente, o patrão e o poder. Mesmo assim, apesar dessa situação, creio que o jornalismo melhorou. Você me pergunta sobre o Estadão. Bem, passou por muitas transformações nesse quarto de século.
Paulo Nogueira - Se pudesse voltar atrás, você optaria outra vez pelo jornalismo?
Creio que sim, Paulo. Nesses quase 24 anos de jornalismo vivi grandes momentos.
Ricardo Setti (diretor de redação de Playboy) - Caro Fausto, em meus longos 32 anos de experiência já fiz de tudo, inclusive um pouco de reportagem policial. Guardei daqueles tempos uma imagem de promiscuidade muito grande entre a maioria dos repórteres e as fontes, de policiais propiciando favores para jornalistas, e vice-versa, entre outras coisas. É claro que tínhamnos então, e temos hoje, grandes repórteres policiais, com ética impecável e tudo o mais que exigem as normas de conduta da nossa profissão. Mas gostaria de saber como você avalia, atualmente, a média dos nossos jornalistas que se ocupam de reportagem policial sob esse ponto de vista.
Você tem razão. Houve uma época em que alguns repórteres policiais mantinham relacionamento muito estreito com policiais. Atualmente, isso não é mais assim. A grande maioria dos repórteres policiais age com independência. São profissionais corajosos, que não hesitam em denunciar esquemas de corrupção, arbitrariedades, ações violentas. De qualquer forma, às vezes é possível compreender esse tipo de ligação, sobretudo se o repórter usar a amizade para dar grandes furos. O problema é que nem todos fazem isso. Ouvem revelações importantes sobre os bastidores da polícia mas são incapazes de transformar isso em matéria. Guardam segredos. Uma coisa é certa: isso não acontece apenas na área policial. Também nos setores de política e economia há casos de amizade muito forte entre repórteres, deputados, senadores e empresários.
Ricardo Setti - Vou dirigir a você uma pergunta semelhante à que você me fez aqui mesmo no Profissão:repórter: por que nós, jornalistas tão ávidos em encontrar irregularidades nos poderes Executivo, e principalmente Legislativo, somos tão condescendentes com o Judiciário?
A situação é clara: os juízes julgam nossas matérias, quando elas provocam ações penais ou indenizatórias por danos morais/patrimoniais. A maioria dos jornais vive intimidada e tem receio de manter sob fiscalização os atos do Judiciário.
Cid Benjamim (redator - O Globo) - Dou aulas para estudantes de comunicação e me espanto com a quantidade de alunos que não tem por hábito ler regularmente jornais e revistas (livros, então, nem se fala). Não tenho dúvidas de que quem não lê regularmente, mesmo que faça direitinho suas provas na faculdade e ganhe o diploma ao final, não será um bom profissional da área de comunicação. Como resolver esse problema?
Você tem razão. Há uma resistência extraordinária aos livros, jornais e revistas, qualquer publicação enfim. Confesso que livros nunca foram o meu forte. Mas jornais e revistas me atraem muito. Sempre admirei muito o Marcos Faerman, velho companheiro de Jornal da Tarde. Um texto fantástico, como o do Valdir Sanches. O Marcão tem uma biblioteca com uns 5 mil livros. O sujeito lê como um louco. Muitas vezes, o Marcão recomendava-me livros. Mas eu acabei optando por outro caminho que recomendo aos seus alunos: rua. Um repórter deve estar na rua, permanentemente. Fazer uma reportagem indo ao local, conhecendo os personagens, olhando nos olhos do entrevistado pode, muitas vezes, superar essa falha. Você conquista recursos e encontra argumentos (além, é claro, de boas informações) para construir um bom texto. Hoje, muitos recém-formados partem para as entrevistas pelo telefone. Também é útil, mas jamais irá suplantar a rua.
Luiz Maklouf Carvalho - O jornalismo vive um momento de questionamento — especialmente no que diz respeito à ética. Quais são os procedimentos que você considera inadmissíveis deste ponto de vista?
O que mais violenta a ética é o jornalismo chapa-branca. É triste reconhecer que ainda estão em atividade jornalistas que, após um começo de carreira aparentemente combativo, decidiram adotar outra linha de trabalho, torta, atrelada a administradores públicos. São jornalistas subservientes a governantes e políticos.
Eugênio Bucci (Editor de Superinteressante) - O que você achou da experiência na TV?
Foi muito bom. Trabalhei com gente muito capaz, o Paulo Markun, o Carlos Nascimento, o Dante Matiussi, o Cabral, a Silvia Poppovic, a Regina Pitoscia, o Ming, o Flávio Prado, enfim uma equipe muito competente, profissionais impecáveis. O problema da TV é o superficialismo. E, naturalmente, o horror às matérias de denúncia sobre corrupção nos governos. Vez ou outra você pode ver alguma coisa de corrupção mas, repare, envolvendo fiscaizinhos de prefeituras, tiras de delegacias de bairro, agentes de presídios e só.
Neil Ferreira (publicitário da DPZ) - Você acha que é mesmo papel da imprensa plantar um menino de rua pedindo esmola para o presidente do Banco Central e depois fazer um escândalo nacional quando o cara negou a esmola ? Quantas vezes nós mesmos, que estamos atirando as pedras, já negamos esmolas na esquinas de tanto que já as demos sem no entanto aplacar nossas consciências ?
Uma cena absurda como essa provoca mesmo indignação. Não aceito esse tipo de coisa. Nenhum profissional deve se prestar a produzir ou maquiar uma cena ou informação.
Luiz Maklouf Carvalho - Você é um repórter de fontes fiéis e bem situadas. Qual é o segredo para fazê-las e mantê-las?
Acho que tenho algumas fontes interessantes. Elas me municiam com dados sobre inquéritos ou ações. Mas você sabe que não existe muito esse lance de exclusividade. Há fontes volúveis. Se você retarda a publicação de um material, elas batem à porta de outro. Acho que para manter uma fonte é preciso estar ali, de plantão, quase todo dia.
Luiz Maklouf Carvalho - Você perde uma fonte mas não perde um furo — ou a fonte é absolutamente sagrada?
A fonte deve ser tratada com respeito, o profissional deve fazer de tudo para preservá-la. Mas creio que um furo não pode deixar de ser dado para não ferir uma fonte. Nessa hora, é preciso avaliar bem. Se a notícia é boa, de interesse público, vale a pena arriscar um eventual rompimento. Afinal, o que levaria uma fonte a não aceitar a publicação de uma história que seja do interesse do contribuinte?
Neil Ferreira - Um jornalista, Élio Gáspari, pretenso oposicionista, criou o carimbo "FFHH" a pretexto de combater a reeleição. Você não acha que o tiro está saindo pela culatra, o carimbo transformando-se em de mensagem de "FHC em dobro", já, antes mesmo das eleições se realizarem ? Isto é, o jogo já está perdido para as oposições antes mesmo de começar ? Esta atitude do jornalista não está mascarando a adesão dele aos poderosos do momento?
Eu acredito que o Élio tenha compromissos com as fontes dele, mas não creio que iria mascarar alguma coisa. O “FFHH” faz parte do estilo dele, irreverente, contestador.
René Decol - Prezado Fausto, uma pergunta politicamente incorreta: no tempo da ditadura, os militares fecharam o congresso sob a alegaçao que ele abrigava corruptos, e demagogos e, que, enfim, a democracia brasileira nao era madura o suficiente para permitir um poder legislativo autônomo. Minha pergunta: será que os militares estavam tão errados?
Os militares estavam errados. Cabe a nós, eleitores, mudarmos alguma coisa nesse País, principalmente no Legislativo. Há muito o que mudar, a pressão pública é o melhor caminho para banir parlamentares bandidos.
Sérgio Sá Leitão (editor geral do Jornal dos Sports) - O Maluf diz que é perseguido pelo Ministério Público Federal em São Paulo e pelo Ministério Público Estadual de São Paulo. Você tem publicado diversas reportagens com denúncias contra o Maluf cujas fontes são procuradores e promotores, inclusive com trechos de inquéritos (sigilosos) que correm na PF. Assim... Eu pergunto... O Maluf está certo? E, neste caso, você estaria sendo "usado" pelo MPF e pelo MPE, ou por membros de tais instituições? Ou, ao contrário, o Maluf está errado? E neste caso, trata-se de um político incapaz de conviver com a crítica, para quem a existência de fiscais da sociedade, sejam públicos (MPF e MPE) ou privados (a imprensa) é insuportável?
Todo repórter acaba sendo mais ou menos “laranja”. Quando faz matérias denunciando o Maluf, está beneficiando, ainda que indiretamente, seus opositores, o pessoal do PT ou o tucanato. Quando o alvo é o PT, por exemplo, a coisa interessa ao Maluf. Não limito meu material a partidos ou pessoas. Se o denunciado é o Maluf ou o Covas, escrevo do mesmo jeito. Não há compromisso de espécie alguma. Neste caso envolvendo Maluf com precatórios e frangos, tenho mantido vigilância direta sobre a PF, a Procuradoria da República e o MPE. O Maluf é um tipo que todos conhecemos. Não admite críticas. Todos sabemos como ele conseguiu se eleger em 1992 e como conseguiu eleger seu sucessor. À base de muito dinheiro público. Homens assim merecem sofrer severa fiscalização da Imprensa.
Luiz Maklouf Carvalho - Cite cinco bons e cinco maus momentos de sua carreira profissional?
Prefiro resumir a coisa assim: bons momentos existiram quando consegui dar alguns furos; maus momentos quando vi matérias sendo engavetadas, inexplicavelmente.
Cláudio Tognoli (repórter especial do Jornal da Tarde) - Caro Fausto, considero você o melhor repórter do Brasil. A pergunta é: por que você é tão low key, não vai em festas, não dá palestras, nunca quis escrever livros, odeia concentrações. De onde vem essa síndrome de lobo solitário da imprensa ???
Elemento, você está equivocado. Não sou o melhor repórter. Esse título pode cair bem para você. Quanto a festas e concentrações prefiro evitá-las porque gosto mais do sossego, do isolamento.
Cláudio Tognolli - Você omite notadamente seus louros. Então te cobro: conte TUDO sobre aquele elogio que o Otto Lara Rezende te fez há 17 anos, no Globo, falando que “Fausto Macedo é o que há de melhor na literatura”.
Nada tão especial assim, Tognolli. Foi uma cobertura sobre um assalto que terminou com sete mortos em São Caetano, outubro de 1983. Na época, eu trabalhava no Jornal da Tarde e o espaço era muito bom. Uma página significava vinte laudas, 400 linhas. Com boas fotos. Gostava muito de ir ao local de um crime. Naquele dia foi possível descrever o assalto com detalhes. O Otto achou bom o texto. Fiquei muito feliz com isso.
Cláudio Tognolli - Você acha que o jornalismo investigativo está acabando?
Não, mas acho que o jornalismo investigativo está concentrando suas forças, hoje, em fontes oficiais. Também é um recurso interessante. É um caminho que proporciona boas histórias. Afinal, as maracutaias estão dentro do poder. Além disso, diante da indústria das ações indenizatórias, é muito importante que o repórter dê um respaldo oficial à matéria. Não vejo nisso nenhum gesto acovardado. Trata-se de um comportamento prudente, uma forma de driblar eventuais processos. Nos dias atuais (e veja que estamos diante de uma nova Lei de Imprensa) isso é necessário. Note, inclusive, que a grande maioria dos jornais prefere publicar denúncias dando a elas um certo tom oficial na história, fulano abriu inquérito, beltrano vai investigar, tal autoridade recebeu denúncia, deputado divulgou dossiê... Raros são os repórteres que ainda têm coragem de assumir uma denúncia. Reconheço e aplaudo esses jornalistas.
Vasconcelo Quadros (repórter
do Jornal do Brasil) - Você
trocou a área policial pela política. Que diferença
há entre as duas áreas e quala mais interessante do ponto
de vista jornalístico?
A diferença é que os
bandidos da polícia são enquadrados no Código Penal
e os bandidos da política são enquadrados na Lei do Colarinho
Branco. São bandidos do mesmo jeito. Você sabe bem disso.
Depois de 19 anos na área policial, passei os últimos cinco
na política, voltado para casos de corrupção no governo,
improbidade administrativa, coisas do gênero. É muito mais
realizador trabalhar nessa área.
Vasconcelo Quadros - Que limites deve ter o repórter que lida com denúncias?
O limite da independência.
Valdir Sanches (repórter especial do Jornal da Tarde) - Como um repórter de texto elaborado, interessado em histórias “humanas”, se transformou num profissional de tipo certeiro, que fustiga os poderosos?
Realmente eu gostava muito de tentar
produzir textos bem arrumados, seguindo exemplos como você e o Faerman.
Mas a violência em SP chegou a tal ponto que tornou-se banal. Cansei-me.
Embora não tenha perdido a sensibilidade, percebi que não
sentia mais grande entusiasmo em frequentar delegacias de bairro atrás
de uma história. Isso coincidiu com o fato de que em meados de 92,
a política do jornal O Estado de S. Paulo pediu-me para cobrir duas
investigações da Polícia Federal, uma sobre o esquema
PC-Collor e a outra sobre a privatização da Vasp. Acabei
mudando de área definitivamente.