PROFISSÃO:REPÓRTER

e n t r e v i s t a

JOSÉ
MARIA
MAYRINK
(Perguntas de Luiz Maklouf Carvalho, respondidas por e-mail em 16/10/2001)
 
 
 
 

PERFIL RÁPIDO







Mineiro de Jequeri, Mayrink começou no jornalismo em 1962. Depois das redações mineiras, passou, entre outras publicações, pelo Correio da Manhã, Jornal do Brasil, Jornal da Tarde, O Estado de S. Paulo - onde hoje, de volta, é um dos editores executivos, sem prejuízo das reportagens que continua a fazer. Repórter de mão cheia e texto invejável, ganhou, entre outros prêmios, o Esso de Jornalismo de 1971, com a reportagem "Receita para São Paulo". Tem três livros publicados e é co-autor de "3 x30 - Os bastidores da imprensa brasileira", com Carmo Chagas e Luiz Adolfo Pinheiro.
 
 

LEIA ALGUMAS REPORTAGENS
DE JOSÉ MARIA MAYRINK:

MÁRIO COVAS

Último sonho era atuar num tribunal do júri

O estilo 'turrão e mal-humorado' de governar
(O Estado de S. Paulo)

Nossos trens voltam aos trilhos

Investimentos redesenham o mapa ferroviário

Minas Gerais vai ao mar. De trem
(O Estado de S. Paulo)

Um encontro marcado com o passado

Luta pela preservação é constante

Andando com lobos
(O Estado de S. Paulo)

O Evangelho segundo a Canção Nova
(O Estado de S. Paulo)

Obra de d. Paulo é testemunho corajoso de vida

A morte passou raspando
(Jornal dos Jornais)

A história da esquerda nos quartéis
(Jornal do Brasil)
 
 
 
 

A ENTREVISTA






     Como, por que, quando e onde você escolheu a profissão? Faria a mesma opção nos dias de hoje? Por quê?

     Se pudesse voltar no tempo para escolher uma profissão, provavelmente optaria pelo jornalismo. Agora, até com mais consciência do que é esse trabalho. Entrei no jornalismo em fevereiro de 1962, em Belo Horizonte. Eu deixara, sete meses antes, um seminário em Petrópolis (RJ), no segundo ano do curso de teologia. Pretendia ser padre, faltavam dois anos e meio para a ordenação. Tinha uma boa formação na área de ciências humanas (português, latim, francês e até um pouco de grego), mas sabia muito pouco de matemática, física e química. Nem pensar em ser médico ou engenheiro. Planejava ser advogado ou professor, quando vi um anúncio para o curso de jornalismo que a Universidade Federal de Minas Gerais estava abrindo. Fiz o vestibular e me candidatei a uma vaga no Correio de Minas, que seria lançado em março de 1962. Foi um achado, porque deu certo.

     Sua estréia em jornal, ao que contou em "3 x 30, os bastidores da imprensa brasileira", foi como cronista do Jornal do Povo, de Ponte Nova (MG). Ainda lembra das crônicas?

     Meu pai, que era médico em Jequeri, minha cidade natal, colaborava no Jornal do Povo, um semanário dos irmãos Lopes, que faziam tudo na pequena empresa, do editorial ao contato com os assinantes. Escrevi crônicas semanais enquanto dava aulas particulares em Ponte Nova, no segundo semestre de 1961. Lembro-me de algumas crônicas. Duas delas, por exemplo: uma sobre a morte de um primo meu, de 12 ou 13 anos, que se afogou no Rio Piranga, e outra sobre o filho de um fazendeiro de Jequeri, menino da roça que gostava de falar uns inocentes palavrões. O primeiro artigo emocionou os leitores. O segundo me custou, por algum tempo, a amizade da família do fazendeiro, que não gostou do meu texto moralista.

     É dessa época, também, o primeiro livro que você escreveu, "Pastor e vítima". De que se trata? É verdade que o personagem foi canonizado anos mais tarde?

     Escrevi "Pastor e vítima" em 1960, no centenário do personagem, missionário italiano na Etiópia, Giustino di Jacobis, que Paulo VI canonizou nos anos 70. Era um biografia na base da pesquisa, em cima de textos estrangeiros. Eu contei a história do missionário pensando no leitor brasileiro. Vendeu 10 mil exemplares, com renda revertida para os alunos do seminário do Caraça, onde estudei quatro anos.

     Como é que você entrou para o Correio de Minas? O que eram o jornal e a imprensa mineira naquela época? Com que personagens conviveu – e quais destacaria?

     Havia faixas nas ruas de Belo Horizonte anunciando o lançamento do Correio de Minas. Fui então procurar o editor-chefe do futuro jornal, Guy de Almeida, que estava selecionando a equipe numa sala alugada no prédio do Binômio, no qual ele trabalhara com José Maria Rabêlo. Subi pelo elevador com um terno de linho branco, gravata azul e sapatos pretos, levando um exemplar de "Pastor e vítima" e recortes do Jornal do Povo como credenciais. Guy de Almeida folheou o livro e sentenciou: "A história não interessa, mas o estilo é de repórter". Consegui o emprego.
     O Correio de Minas foi um jornal criado pelo antigo PSD e financiado pelo Banco da Lavoura, mais tarde Banco Real, para apoiar a reeleição de Juscelino Kubitschek para a presidência da República. Durou até 1965, quando JK foi cassado pela ditadura militar.
     A proposta era o lançamento de um jornal moderno e bem feito, receita do Jornal do Brasil, nossa bíblia, nosso modelo. A gente quase copiava o JB. Foi com ele que a minha geração descobriu o lead e, principalmente, aprendeu a gostar de um bom texto. Belo Horizonte tinha uma imprensa meio provinciana, mas que já despertava para o jornalismo profissional, participante, moderno. Além do Estado de Minas e do Diário da Tarde, dos Diários Associados, havia O Diário, chamado de Diário Católico, porque pertencia à Mitra Arquidiocesana, Diário de Minas, Folha de Minas e a edição mineira de Última Hora, que rodava no Rio.

     Que tipo ou área de cobertura o ensinou a ser repórter? Destacaria alguma matéria neste começo de carreira?

     A cobertura policial. Comecei como setorista da Delegacia de Furtos e Roubos. Meu primeiro trabalho de destaque foi uma reportagem sobre a inauguração do Museu de Arte Sacra de Mariana, aonde fui como enviado especial do Correio de Minas. Era uma viagem de 100 quilômetros, mas marcou minha estréia na cobertura de assuntos religiosos, aproveitando a bagagem cultural de ex-seminarista. Em 1963, já no Diário de Minas, fiz uma reportagem sobre o prefeito de Corinto, no norte de Minas Gerais, que havia vendido uma praça da cidade. A pauta e o lead, fantástico, foram de Fernando Gabeira, meu chefe de reportagem.

     Como é que foi a história de ter errado o nome do Pelé – e que lição você tirou do ato falho?

     Foi ao escrever um texto sobre Pelé empresário, pois ele estava fazendo então seus primeiros investimentos. Tive dúvidas ao grafar o nome completo dele e perguntei em voz alta: "O nome do Pelé é Joaquim ou Sebastião Arantes do Nascimento?" Um colega já veterano pensou um instante e respondeu: "Joaquim Arantes do Nascimento". E assim ficou escrito nas páginas de 3 Tempos, revista do Correio de Minas, na qual eu colaborava.
     Falta de informação, mas também ato falho, pois esse episódio refletia, no fundo, uma cultura racista. Por que um negro se chamaria Édson, e não Sebastião ou Joaquim, nomes mais comuns entre os negros de minha terra? Pelé já era bicampeão mundial.

     Você colaborou com duas publicações mineiras que entraram para a história – a revista Alterosa e o jornal Binômio. O que era cada uma delas – e que matérias ou histórias o marcaram mais?

     Fiz várias reportagens para Alterosa, excelente revista mensal dirigida pelo excelente jornalista Roberto Drummond e bancada pelo então governador Magalhães Pinto, suposto candidato a presidente da República pela UDN. No Binômio não cheguei a escrever, mas trabalhei com vários companheiros, a começar pelo Guy de Almeida, que vieram do semanário. Alterosa foi uma revolução na imprensa mineira, com repercussão nacional. Espelhando-se em Paris Match, Roberto Drummond inovou a diagramação, abriu as fotos e valorizou o texto. A revista investia em grandes reportagens. Gabeira, Ponce de León, Oswaldo Amorim, Carmo Chagas e Dirceu Soares foram alguns de seus repórteres. Escrevi algumas reportagens como colaborador, entre elas uma reportagem de capa sobre o Concílio Ecumênico, mas aquelas que mais me marcaram foram a desses repórteres.

     Pode contar com detalhes o episódio em que o editor do Binômio, José Maria Rabêlo, deu um soco na cara do general Punaro Blay?

     O jornal publicou uma reportagem sobre Punaro Blay revelando o passado fascista dele como comandante no Espírito Santo. Furioso, o general foi tirar satisfação com Zé Maria, na sede do Binômio. Em meio à discussão, agrediu o jornalista com o bastão de comando. Zé Maria, lutador de judô, esbofeteou o militar, que naturalmente não engoliu o desaforo. Alguns dias depois, não sei se foi no dia seguinte, ele reuniu um pelotão de recrutas do 12.º Regimento de Infantaria e do CPOR, invadiu a redação e empastelou o jornal. Avisado a tempo, Zé Maria fugiu e passou semanas foragido, sob a proteção de Guy de Almeida e, depois, do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. O jornalista Moacyr Japiassu, que era repórter do Correio de Minas e fazia o CPOR, recusou-se a participar da incursão. Desertou e agüentou as conseqüências.

     Depois do Correio de Minas, você foi repórter do Diário de Minas, trabalhando, entre outros com o Fernando Gabeira. Alguma reportagem a destacar, nesse período?

     A reportagem sobre o prefeito que vendeu a praça de Corinto. Veja-se o lead que o Gabeira fez para a matéria:
     "Um homem de meia idade, que usa slacks como Jânio Quadros e tem uma mecha de cabelos brancos, é o Moisés Lupion de Corinto, uma cidade de 8.500 habitantes a 250 quilômetros ao norte de Belo Horizonte, que foi a última a saber que ele vendeu a sua Praça da Bandeira, por Cr$ 400 mil, sem hasta pública e com escritura passada."
     Não é perfeito? A extravagância de Jânio, a fama de corrupto de Lupion, a imagem do marido traído... tudo isso em cinco exemplares linhas. E, o melhor de tudo, com minha assinatura no texto do Gabeira...

     Como foi a transição Minas/Rio de Janeiro?

     O sonho de todos nós, os focas mineiros, era ir para Rio ou São Paulo. Última Hora de São Paulo acenava com excelentes salários e alguns colegas aceitaram a proposta. Preferi arriscar o Rio, pensando no JB. Numa tarde de sábado, em maio de 1963, José Maria Casassanta, que havia sido correspondente do jornal em Belo Horizonte, telefonou para Carlos Lemos, no Rio, para me arrumar uma vaga. Estávamos tomando um aperitivo no Mercado Municipal. No fim do telefonema, ele comemorou: "Abri para você a porta mais difícil do Brasil". Pedi demissão no Diário de Minas, enxuguei as lágrimas da namorada, Maria José, e peguei o noturno Vera Cruz para o Rio. "Vaga? Não temos vaga nenhuma", espantou-se o Lemos, quando me apresentei no JB. Ele disse que José Maria Casassanta costumava indicar candidatos que jamais apareciam e, sendo assim, não custou confirmar a vaga pra mim. Fui o primeiro que levou a chance a sério.

     Seu primeiro jornal, no Rio, foi o Correio da Manhã, com o Jânio de Freitas, ainda no meio da reforma editorial que tanta polêmica causa até hoje. Você tem a sua tese sobre essa reforma? Como é que a redação convivia com essas mudanças? Como avalia essa experiência?

     Foi o próprio Carlos Lemos quem me indicou o Correio da Manhã, que iniciava uma reforma gráfica e editorial sob o comando de Jânio de Freitas. Ele levou para lá uma equipe saída do JB, que incluía, entre outros, Zuenir Ventura, José Ramos Tinhorão e Sérgio Noronha. O chefe de reportagem era José Silveira, vindo da Última Hora de Porto Alegre, não sei se com passagem pelo JB, onde eu o reencontraria depois. A experiência durou três meses apenas, porque morreu o dono do jornal, Paulo Bittencourt.
     O mais marcante foi a reforma gráfica, feita por Amílcar de Castro. Ele colocou fios nas colunas do jornal e levou os articulistas para a última página do primeiro caderno. A inovação dava mais destaque a Carlos Drummond de Andrade e outros colaboradores, mas, se bem me lembro, não agradou aos leitores. A guinada política viria depois, com o golpe militar, que o Correio da Manhã enfrentou. Em junho, julho e agosto de 1963, o jornal teve duas equipes quase inimigas -- a antiga e a do Jânio de Freitas -- que não se entendiam. No enterro de Paulo Bittencourt, cada uma delas fez a sua cobertura...

     Como viu e viveu a participação da imprensa no pré e no pós-golpe de 64? Como você se posicionava na ocasião – e como foi a sua participação no jornal Panfleto?

     Eu era redator registrado na Rio Gráfica Editora, de propriedade de Roberto Marinho, e emendava o expediente, à noite, na redação de O Globo como copydesk. Acompanhei a movimentação militar meio à distância, porque não estava na reportagem. Torcia pela vitória de João Goulart. Um dia, um colega me deixou embaraçado no restaurante, ao anunciar: "Nossos tanques estão avançando". Não eram os meus. O Globo e o JB foram ocupados por fuzileiros navais do almirante Cândido Aragão, janguista. Eu estava apavorado, porque havia feito duas ou três reportagens para o tablóide Panfleto, de Leonel Brizola. Uma era sobre supostos maus-tratos que os marinheiros recebiam nos navios da Marinha de Guerra. Quando as tropas ameaçaram avançar contra Carlos Lacerda no Palácio Guanabara, eu estava numa sala da Rua México, no centro do Rio, onde Jânio de Freitas preparava o lançamento de outro jornal, que acabou abortando. Foi dali que ouvi tiros vindos disparados no Clube Militar.

     Como se deu a mudança para o Jornal do Brasil? O que era o JB naquele época? Quais foram as pessoas e os personagens marcantes deste período? Que matérias você destacaria entre as que fez – incluindo a primeira experiência de cobertura internacional e a cobertura das grandes passeatas de 68?

     A tão esperada vaga no JB surgiu em agosto de 1964. Não sei mais quem me convidou, mas aí entraram as mãos de Carlos Lemos e do Murilo Felisberto, que estava criando o Departamento de Pesquisa. Fui para a reportagem. Eis aí dois personagens marcantes dessa época. Mas devo acrescentar outros nomes, como Alberto Dines, Luiz Orlando Carneiro, José Gonçalves Fontes, Lago Burnett, José Silveira e Fernando Gabeira. Entre os repórteres, cito Beatriz Bonfim, Fernando Pinto e Mário Lúcio Franklin.
     Reportagens 'marcantes', pelo menos para mim, foram um levantamento sobre os problemas urbanos do Rio e uma série sobre o sistema universitário brasileiro.
     A primeira viagem internacional ocorreu em 1966, quando Dines me mandou cobrir uma reunião da Organização dos Estados Americanos (OEA) no Panamá. De lá fui à Guatemala, onde as eleições presidenciais estavam ameaçadas por um golpe de estado. Fui também à República Dominicana, que estava ocupada por forças dos Estados Unidos, Brasil e outros países. Era uma situação de guerrilha urbana. Quando voltei ao Brasil, em março, minha primeira filha, Cristina, tinha nascido em Belo Horizonte. Só fui conhecê-la três dias depois.
     Em junho de 1968, cobri as manifestações estudantis no Rio. Fiz o texto final da cobertura de uma excelente equipe que acompanhou a Passeata dos 100 mil, na Avenida Rio Branco. Foi uma batalha no asfalto, que eu vi de dentro de uma Rural, na esquina das ruas Miguel Couto e Ouvidor.

     Você saiu do JB para o Jornal da Tarde, em São Paulo, a convite do Murilo Felisberto, mas acabou trabalhando, primeiro, em Veja, no comecinho, e em Realidade, do meio pro fim. Como é que foi esse período?

     Em julho de 1968, decidi trocar o Rio por São Paulo. Até hoje não sei por quê - e Maria José, minha mulher, menos ainda - pois estava bem no JB, então em sua melhor fase. Não era questão de salário, embora tenha ido para Veja ganhando duas vezes mais. Viajei com passagem do Jornal da Tarde, mas acabei aceitando o desafio de Veja, a conselho do Murilo Felisberto, que me acolheria seis meses depois. A experiência na revista foi meio traumática. Peguei dois meses de números zero e uns três da fase inaugural, cheia de incertezas e problemas. Em novembro de 1968, Mino Carta me emprestou à Realidade, cuja equipe havia pedido demissão. Quando acabou o empréstimo, minha vaga havia sido extinta em Veja. Mino Carta perguntou se eu não queria ir para Intervalo, uma revistinha de programação de TV da Editora Abril. Agradeci, fui para o JT.

     Em janeiro de 69 você entrou no Jornal da Tarde. O país vivia o pós-AI 5, a guerrilha urbana, a censura da ditadura militar. O que era o JT naquela época?

     Foi justamente no dia 13 de dezembro de 1968 que fui pedir emprego ao Murilo. Os jornalistas estavam em greve, em protesto contra o AI 5. Murilo, Ivan Ângelo e mais uma meia dúzia de editores estavam fechando o jornal com Ruy Mesquita. "Comece em janeiro", me disse Murilo Felisberto, sem interromper o serviço. A censura à imprensa ia engrossar, quando começassem as guerrilhas. O ambiente era tenso, mas não senti muito as conseqüências, porque fui ser redator da Editoria Internacional. A redação do JT, que na época era vespertino, era uma festa -- o melhor ambiente que já vi até hoje numa redação. Muita brincadeira, muita descontração, mas também trabalho sério, com excelentes reportagens. Alguns nomes? Fernando Portela, Flávio Márcio, Moisés Rabinovici, Marco Antônio Rezende, Kleber de Almeida, Marco Antônio Menezes, Inajar de Souza, Valdir Sanches, Valéria Wally, Cláudia Batista, Marcos Faerman, Antônio Carlos Fon, Percival de Souza, José Eduardo Borgonovi e Silva (Castor), Gabriel Manzano, Ouhydes Fonseca, Guilherme Duncan de Miranda, Rolf Kuntz, José Eduardo Faria, Anélio Barreto, Randáu Marques, Demócrito Moura, Sandro Vaia, Moacir Bueno...

     Você cobriu, entre outros episódios da guerrilha urbana, o assassinato do Marighella, em 4 de novembro de 69, tendo sido o primeiro repórter a chegar ao local? Como foi essa cobertura?

     Começo de noite, Corinthians e Santos jogando no Pacaembu. Não havia repórteres na redação, quando chegou a notícia do tiroteio. Mandado às pressas para os Jardins, fui o primeiro a chegar ao local. Vi o corpo de Marighella jogado no banco de trás de um fusca, o sangue escorrendo pela boca. Policiais e agentes dos serviços secretos da Marinha e do Exército reivindicavam o "sucesso" da operação. Pouco depois, a rua estava coalhada de jornalistas. Os jornais deram páginas e mais páginas, mas quase só a versão da polícia. A versão do outro lado viria depois. Quase morri de medo, porque dois dos frades dominicanos envolvidos no episódio haviam passado por minha casa, dias antes, para pedir que eu abrigasse dois militantes da JOC (Juventude Operária Católica) de passagem para o Uruguai. Não tive coragem de hospedá-los e aleguei falta de segurança em minha casa, o que era verdade. Eu morava na Rua Caiubi, em Perdizes, a mesma da igreja dos dominicanos. Passei a noite ouvindo sirenes de carros de polícia.

     Qual é a sua avaliação da postura da imprensa e dos repórteres da época em relação aos episódios da guerrilha urbana?

     Faço uma avaliação indireta, pois nunca fui escalado para cobertura de guerrilha urbana. Sofri, sim, os efeitos da censura, que cortou várias matérias minhas, substituídas no JT por receitas de doces e bolos. No caso de Marighella, fui convidado para assistir, no Dops, um vídeo com depoimentos dos frades dominicanos. Uma coisa deprimente, porque os frades respondiam a uma voz que os interrogava em off. Suponho que foi um interrogatório montado. Nunca vi uma cena de tiroteio e morte, mas tive notícias de vários casos. Assim como de prisões e torturas, inclusive de colegas de redação. A direção de O Estado de S. Paulo e JT teve atitude firme contra a censura e corretíssima em relação a seus funcionários envolvidos em denúncias de subversão.

     Quais foram as reportagens marcantes que você fez para o JT – incluindo a história, com detalhes, da matéria "Receita para São Paulo", Prêmio Esso de Jornalismo de 1971?

     Várias reportagens na área da educação me deram grande satisfação profissional. Fiz também uma matéria sobre o livro -- "Quem escreve, quem edita, quem lê" -- e uma série sobre o pioneirismo do Projeto Rondon, ambas premiadas. A mais importante foi, sem dúvida, "Receita para São Paulo", em parceria com Ricardo Gontijo. Foi um diagnóstico dos problemas de São Paulo, do ponto de vista de 50 técnicos reunidos num seminário, que o novo prefeito, Figueiredo Ferraz, deveria enfrentar. Não acreditava que fosse ganhar o Esso de 1971, foi o Gontijo que apostou nele. A reportagem consistiu em sair a campo para mostrar a realidade dos desafios que os técnicos apontavam no seminário.

     Você cobriu o golpe que derrubou Salvador Allende, no Chile, a morte de Pablo Neruda, a viagem de Geisel ao Japão e a morte de Mao Tsé Tung, entre outras reportagens internacionais. Como foi essa experiência?
E que momentos/matérias destacaria?

     Cheguei a Santiago 11 dias depois do golpe, quando os militares abriram o aeroporto para os primeiros jornalistas estrangeiros. Fui com Carlos Brickman e Clovis Rossi, que trabalhavam também no grupo Estado. Toque de recolher, tiroteios, o barulho dos helicópteros caçando comunistas na periferia... Neruda agonizou e morreu três dias após nossa chegada ao Chile. Cobri o enterro dele, foi a primeira manifestação política contra o golpe de Pinochet.
     No caso de Mao Tsé Tung, eu estava cobrindo a viagem do presidente Ernesto Geisel ao Japão. Rossi, editor-chefe do Estado, me mandou pegar um avião para Pequim. Não consegui, porque os chineses vetaram o acesso da imprensa. O máximo que consegui, numa série de equívocos, foi reverenciar a memória de Mao na câmara ardente montada na garagem da embaixada da China. Quando fui pedir o visto, a assessora de imprensa entendeu que eu estava apresentando meus pêsames. Só podia dar nisso um caipira de Jequeri falando inglês com uma camarada chinesa...

     Em 77, depois de 8 anos e meio anos bem sucedidos no JT, você decidiu voltar para BH? Por quê? E como foi esse retorno?

     Saudade da roça, foi como expliquei na época. Decidi voltar a Minas Gerais, morar em Belo Horizonte, ficar perto de Jequeri e do Caraça.
Pedi demissão em São Paulo, pus a casa à venda, fui ser chefe de reportagem da sucursal do JB. Durou dois meses. Senti agonia com o horizonte profissional de Minas, nostalgia de tudo o que havia feito até então fora de lá. Luciano Ornelas viu meu baixo astral e conversou com Miguel Jorge, que me convidou para ser editor internacional do Estado, cuja redação ele e Luciano haviam assumido. Voltei na mesma hora, para a angústia de Maria José e da família dela.

     Como se deu a sua volta para O Estado de S. Paulo – e como avalia os cinco anos em que foi editor de Internacional, e depois de Geral, sem deixar de ser repórter?

     Deveria passar uns três meses na Internacional, fiquei cinco anos. Foi uma experiência nova no cargo de editor que consegui desempenhar a contento com a ajuda de uma boa equipe. Alguns dos companheiros dessa época continuam no jornal até hoje. Voltei à reportagem em 1982 e assumi a Geral em 1987. Na verdade, não deixei de ser repórter, pois viajei várias vezes para coberturas internacionais durante esse período. Estava sempre de olho na rua e, quando podia, escapava da redação.

     Depois do Estadão, você foi ser editor da revista Família Cristã, onde se especializou ainda mais na cobertura dos assuntos religiosos. Como avalia o tratamento da imprensa, de modo geral, a esse segmento? Que matérias – e furos – você deu nessa área?

     A revista Família Cristã, das irmãs paulinas, me parecia uma boa alternativa quando decidi sair do jornal. Não era para ter saído, mas estava magoado com a orientação de uma nova equipe, chefiada por Augusto Nunes. Eu sempre cobri assuntos de religião, FC não foi bem uma especialização. Aliás, fiz reportagens sobre outras questões na revista. Em 1990, ganhamos dois prêmios da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) - uma sobre economia informal e outra sobre prostituição de adolescentes. Religião é assunto obrigatório na imprensa, mas deve concorrer com outros assuntos pelo critério de notícia. Ao longo de quase 40 anos de profissão, dei algumas matérias exclusivas naturalmente. Lembraria a cobertura da assembléia da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) em 1995, quando adiantei, contra todas as previsões, que d. Lucas Moreira Neves seria eleito presidente da entidade pela oposição.

     Nos últimos anos você voltou ao JB, e depois, ao Estadão. O que encontrou de diferente nos dois jornais?

     No JB, a novidade era o fato de eu trabalhar numa sucursal, a 500 quilômetros da sede. É um desafio, mas também uma frustração. A gente escreve a reportagem, aperta uma tecla e perde o controle. O pessoal da sucursal só conhece os companheiros da matriz pelo telefone. A volta ao Estadão, em março de 2000, me deu satisfação imensa. Sempre gostei muito da empresa que, conforme disse, havia deixado com pesar. Reencontrei mais de 100 colegas das primeiras passagens por lá. O visual havia mudado um pouco, mas a readaptação foi imediata.

     Qual é o seu dia-a-dia no Estadão, hoje?

     Sou um dos editores executivos, mas atualmente tenho poucas funções burocráticas. Voltei à reportagem. Chego à redação por volta das 11h da manhã e fico até 8 ou 9 da noite. Com freqüência, escrevo em casa, especialmente quando se trata de matérias trabalhosas, que exigem mais atenção e consultas. O computador facilitou muito as coisas.

     O que vai mal e o que vai bem na imprensa brasileira de modo geral?

     Não gostaria de ser injusto com uma avaliação superficial. Mas acho que, em geral, os jornais andam meio acomodados. Limitam-se, às vezes, à cobertura oficial e burocrática. Há repórteres que apuram matérias pela Internet. Isso ajuda, mas não pode suprir a reportagem. Há também coisas positivas. Jornais e revistas reagem a essa situação, investigam malandragens e denunciam corrupções. Se muita coisa mudou no País nesses últimos anos, foi graças à imprensa.

     A quantas anda a valorização da reportagem nos dias de hoje?

     Sempre depende do esforço individual de repórteres, de chefias comprometidas com as boas histórias e de recursos financeiros. Alguns jornais ainda investem em reportagem. Fora da grande imprensa, há tablóides e revistas mensais que apostam na reportagem. Mas a repercussão, nesses casos, é relativa.

     O que é que um repórter nunca deve fazer?

     Correr da notícia, perder o gosto pela reportagem, fugir do contato com a realidade.

     Quem fez ou faz a sua cabeça no melhor sentido da expressão?

     Guy de Almeida, Dídimo Paiva, Roberto Drummond, Alberto Dines, Murilo Felisberto e José Hamilton Ribeiro no jornalismo. São Vicente de Paulo e o Caraça na minha formação religiosa. E, de modo especial, Maria José e nossas filhas Cristina, Mônica, Luciana e Juliana, que compartilham as alegrias e os sustos dessa minha profissão.

     Quais foram os livros que você escreveu – e qual é a história de cada um?

     Escrevi três livros e participei de um quarto. "Solidão", "Filhos do Divórcio" e "Anjos de Barro" são a transcrição ampliada de reportagens publicadas no Estadão. Os personagens são reais, mesmo quando não aparecem os seus nomes. No caso de "Filhos do Divórcio", por exemplo, usei nome fictícios, para proteger as crianças e seus pais. A técnica de apuração, a linguagem e a estrutura são de reportagem. E a credibilidade do autor é a de um repórter. Os dois primeiros livros nasceram de pautas sugeridas por colegas -- Robson Costa, que já morreu, no caso de "Solidão", e Marcos Wilson, no caso de "Filhos do Divórcio". O livro "3 x 30" é o depoimento de três jornalistas que começaram juntos em 1962. Carmo Chagas, Luiz Adolfo Pinheiro e eu, focas do Correio de Minas, contamos nossa trajetória profissional.

     O furo vale uma missa?

     Dei poucos furos na vida. Mas o furo é o sonho de todo repórter. É o que faz a diferença.

     Qual foi a importância da leitura na sua profissão – e quais são os seus livros de cabeceira relacionados ao jornalismo?

     Não são bem livros de cabeceira, mas aprendi muito com "Introdução ao Jornalismo", de Fraser Bond, que me ensinou as primeiras técnicas, e com os mestres Ernest Hemingway ("Tempo de Viver' e "Tempo de Morrer") e Rubem Braga ("Crônicas da Guerra na Itália"), exemplos de textos de boa reportagem. Acrescento mais um: o antológico "O Deserto dos Tártaros", do jornalista italiano Dino Buzzati, que conta a história de um tenente isolado nas montanhas à espera de um inimigo invisível. Na faculdade, o mestre foi Drummond de Andrade, não o poeta, mas o cronista de "Fala, Amendoeira", que a professora Ângela Vaz Leão fazia os alunos analisarem para aprenderem português. A influência da leitura é às vezes inconsciente, imperceptível, mas fundamental. É lendo que se aprende a escrever.