PROFISSÃO:REPÓRTER
 
 

e n t r e v i s t a
 
 

J. R. DURAN
 
 

Perguntas de Cláudio Tognolli, Leão Serva, Lilian Pacce,

Luiz Henrique Amaral, Luiz Maklouf Carvalho,

Manoel Carlos Chaparro, Marcos Emílio Gomes,

Neil Ferreira, Ricardo Setti, Ubiratan Muarrek e Xico Sá.
 
 
 
 

Perfil rápido
 

Não tenho biografia porque não gosto de passado. O fotógrafo é como jogador de futebol: é bom, dependendo da última foto. Não tenho arquivo fotográfico que
retroceda a mais de cinco anos.

Não tenho memória. Mas me lembro que nasci em Barcelona em julho de mil novecentos e cincoenta e dois e que vim morar no Brasil em janeiro de mil
novecentos e setenta. Trabalho e trabalhei para todas as revistas de moda deste país: Playboy, Pop, Manequim, Capricho, Claudia, Mais,
Nova, Marie-Claire, Vogue, Nova Beleza, Vip, Elle, República. Mencione qualquer uma, que eu est(ou)ive lá. Com a revista Playboy tenho uma cumplicidade que em dezembro deste ano fará vinte anos.
De mil novecentos e oitenta e nove até mil novecentos e noventa e cinco residi em New York e comecei a colaborar para o resto das revistas do mundo inteiro:
Harper`s Bazaar USA, Elle França, Elle Espanha, Elle United Kingdom, Tatler, Mademoiselle, Glamour, Marie Claire Espanha, Vogue Espanha, Madame Figaro, Amica, Elle Italia, Vogue Alemanha.
Ao mesmo tempo fiz sempre muita publicidade para clientes como: Philip Morris, British Tobaco, Maybelline, American Express, Elisabeth Arden, Itau, L'Oreal, Ellida Gibs, Nestle, Volkswagen, Renault, Johnson & Johnson, United Distillers. Aqui ou fora do Brasil.
Não tenho uma lista de prêmios. Mas me lembro que um ano, no Prêmio Abril de Jornalismo me deram um 'hors concours' porque parece que tinha ganho prêmios demais e assim não poderia continuar concorrendo.
Hoje estou morando em São Paulo e o dólar fechou a R$2,01.
 
 
 

A ENTREVISTA



LUIZ MAKLOUF CARVALHO - Como, porque, quando e como você escolheu a profissão?

J.R.DURAN - Eu tinha uns quinze anos, década de '60, em Barcelona. Parecia que a vida ia ser um tédio. Poucas perspectivas, uma classe média acomodada e
paralisada pelo franquismo (Francisco Franco, Caudillo de España por la Gracia de Dios, diziam eles, ainda ia demorar dez anos para morrer). Nada se podia
e tudo era difícil.

Um dia entra na casa dos meus pais Oriol Maspons. Fotógrafo, uma figura proeminente nas artes já naquele tempo. Tinha acabado de chegar do Harlem newyorkino , feito um livro fotográfico com poemas de
Garcia Lorca e estava indo passar as férias em... Mallorca!. Vestia calça de xadrez branco e preto e era careca, mas com longos cabelos na nuca. Um cara
inquieto que não escutava niguém, falava absurdos e fazia perguntas interesantes e divertidas. Vinha conversar com meu pai a respeito do casamento
de minha prima. Ele, Oriol, tinha quarenta anos e ia se casar com Coral, a menina mais linda da família, de vinte anos. Para isto tinha de fazer um périplo por todos os meandros familiares, se apresentando e recolhendo o 'nihil obstat' dos notáveis.

Aquele momento foi como uma epifania. Achei que se eu
tinha de ser ou fazer o que fosse, seria alguma coisa como aquela. Viagens, nenhum compromisso aparente, a capacidade de estar em qualquer lugar, satisfazer minha curiosidade. Enfim, um mundo sem barreiras se abria à minha frente. E lá fui eu. No meio do caminho, em mil novecentos e setenta, meus pais emigraram para o Brasil.

Comecei sendo o assistente do assistente do assistente. O resto foi longo, mas divertido, do jeito que sempre imaginei que ia ser. Por outro lado, Oriol se casou com Coral, tem um filho chamado Alex, não usa mais calça xadrez, mas continua fotografando.

LEÃO SERVA - Eu voltei há poucas semanas de Barcelona e queria te fazer duas perguntas inspiradas por essa viagem: 1) Antes o Brasil era um país de imigrantes: nossa população aumentava muito e nossos horizontes se ampliavam com a vinda de estrangeiros para cá. Hoje é um país de emigrantes: anualmente milhares de pessoas vão para outros países, onde vão trabalhar, supostamente para fazer dinheiro e voltar, mas muitas vezes acabam nunca mais voltando. Você que é um pouco uma parte dos dois universos, testemunha do tempo em que estrangeiros vinham para cá, mas que é brasileiro e exatamente parte da geração que quis ir embora, como vê o Brasil hoje? O que sonha para seus filhos? O "que que tá pegando"? Por que o Brasil não destampa?

J.R.DURAN - Acho que antigamente o preço das passagems internacionais (apesar da Stella Barros) era muito caro. Mas talvez a razão verdadeira seja
que o Brasil esteve fechado para o mundo por longos anos (décadas?). A primeira vez que estive na República Tcheca levei um choque. Não tinha mais
comunismo, o último tanque soviético tinha acabado de dobrar a esquina. Fiquei chocado ao descobrir um país que parecia estar nas mesmas condições do Brasil.
A diferença entre ricos e pobres, os prédios mal feitos e mal acabados, as pessoas sem saber bem o que se passava. Aliás, a coisa dos edifícios foi
fatal. Eram tão horrorosos quanto os de São Paulo. Talvez os arquitetos tivessem tido as mesmas influências (ou a falta de). Um país fechado ao
mundo, como o Brasil era. Hoje em dia a informação corre mais rápida e as pessoas sabem que existem outros paraísos fora do Brasil. Que ser tetracampeão
(vocês tem de engolir) só é válido a cada quatro anos e apenas durante um mês. Hoje cada um escolhe o paraíso que prefere.

Agora, o que pega? Bem, se eu soubesse seria candidato à Presidência. Somos um país jovem (o que são cento e cinqüenta anos?), com todos os defeitos de um
recém-nascido. Faz pouco tempo li o livro "D. João VI no Brasil", de Oliveira Lima. Parece que nada mudou e é provável que nada mude. Mas o que mais assusta
é que parece que poucos vão tentar mudar alguma coisa. Um país sem uma alternativa política não tem muitas chances de mudar. Por exemplo: o primeiro presidente que tivemos depois do regime militar mudou a Constituição para alterar a duração do mandato. O atual (situação, oposição) mudou a Constituição para poder se reeleger.

LEÃO SERVA - Qual é a fama da Telefônica da Espanha na
Espanha? Você sabe? É boa? Devemos ser otimistas ou pessimistas?

J.R.DURAN - Tenho um primo que mora em Barcelona, não o fotógrafo, um outro. Toda vez que vai esquiar nos Pirineus me liga para me encher o saco ("e
aí, muito quente, aqui esta nevando, bla bla blá..."). Bem, ele me liga do celular, de uma montanha, e nevando. Se o aparelho pega lá, espero que aqui em São
Paulo, que não neva, um dia também pegue.

UBIRATAN MUAREK - Aqui na Inglaterra os fotógrafos e a moda descobriram os "deficientes físicos fashion": amputados e aleijados estão na capa da revista
Dazed and Confused, nas campanhas da Benetton e nos desfiles de Alexandre MacQueen. Há um caso brasileiro, a foto de Telma Villas-Boas para a exposição
Photojeanic, armada pela Fórum de Tufi Duek. Na sua opinião, trata-se de uma reação desesperada frente ao esgotamento de uma fórmula - a fotografia de moda
- ou de algo mais profundo, uma mudança social?

J.R.DURAN - Parafraseando o poeta e o filme, podemos dizer que a vida é bela se a alma não é pequena.
Quando uma foto pode ser, digamos , polêmica, duas perguntas me vêm à mente. Uma: a foto é bonita, marcante, interesante? Duas: a intenção foi bela?
A qualidade e o padrão estético é uma coisa que deve ser apreciada individualmente de acordo com os padrões e referências estéticas de quem olha. A intenção é mais difícil de descobrir, e não depende de nós.

Vi a foto de Telma Villas-Boas e a acho interesante. Bela iluminação, textura, etc., e me parece que se enquadra perfeitamente ao universo fotográfico dela.
Não me cabe julgar a intenção, mas o olhar da adolescente na foto me parece honesto. Agora, Dazed & Confused? Bem, o nome explica um pouco, não?

UBIRATAN MUAREK - Porque 90% das revistas encontradas na banca de qualquer esquina, de qualquer cidade do mundo, trazem sempre a mesma foto, no mesmo ângulo, com a mesma luz, do mesmo tipo de mulher, com o mesmo sorriso e a mesma falta de conteúdo?

J.R.DURAN - Acho que devemos nos interessar por apenas 10% do que está na banca. O resto é o resto, e reflete o to be or not to be de qualquer editor: publicar o que o leitor quer ou o que o leitor precisa?
Mas, com certeza, nossos 10% vão fazer parte de algum 90% de outro leitor que não vai gostar do que nós gostamos.

MARCOS EMÍLIO GOMES - Você já está mais inclinado a trocar o estúdio - a praia onde nunca chove e onde estão todas as mulheres - pela vida real, consolidando
o plano de ser um jornalista de viagem, como contou certa vez?

J.R.DURAN - Emílio, tive que nadar muito para chegar a esta praia. Trocar, nunca. Mas cada vez mais estou mais aberto a matérias que não sejam exatamente em minha área específica. O jornalismo de viagem é uma coisa que está perto de mim por causa das viagems que faço e penso que seria o passo mais próximo para alguma coisa diferente. Até o fim do ano espero
publicar um livro de fotos. Duzentas e vinte páginas e cento e oitenta fotos. É um reflexo dos meus últimos cinco anos. E lá tem fotos de mulheres, de
lugares, de gente, de casa, de objetos. Mas se for para subir morro, enfiar o pé na lama ou suar a camisa para obter uma boa foto, uma boa matéria, não tem
problema não, estou aberto para qualquer parada. E bota qualquer nisso.

MARCOS EMÍLIO GOMES - Você admitiria publicar seu famoso diário, se não agora, pelo menos no futuro? Conte uma passagem da qual você não poderia
jamais citar o nome verdadeiro dos personagens.

J.R.DURAN - Escrevi estas respostas originalmente na quarta feira de cinzas. Tinha acabado de voltar do Rio de Janeiro (sorry Maklouf, te disse que não gostava de Carnaval mas o dever me chamou) e tinha passado, uns dias antes, algumas horas no discutido Camarote da Brahma. Pode-se dizer (com um certo exagero) que metade das mulheres que estavam lá com os respectivos
namorados, namoradas, maridos, amantes, o que seja, estão, também, nos meus diários. Pensei que não seria honesto contar coisas que sei, e nunca contei,
apenas para me sentir, digamos, como o Fodão do Bairro Peixoto. Então, acho que a resposta é não. Mesmo que contasse alguma passagem sem dar nomes, me
sentiria como uma espada de Dâmocles na vida delas. É melhor deixar como está, no mínimo até o dia em que eu mudar de opinião.

LUIZ MAKLOUF - Quem "fez" a sua cabeça na área da fotografia?

J.R.DURAN - Não é uma pessoa. Acho que qualquer imagem, música, página de livro, filme, paisagem ou mulher que vi nos últimos quarenta anos, servem e
servirão de inspiração algum dia.

Posso fazer um pequeno 'name droping': Helmut Newton, Paul Bowles, Terence Malick (muitos anos antes de 'The thin red line'), Robert Mitchum, Orson Welles, Stendahl, Raymond Chandler, Claude Lelouch, Eric Rohmer ('Le jennou de Claire', 'Le jennou de Claire'!), Adolfo Bioy Casares, Truffaut, Kafka, Jane
Birkin (quando casada com Serge Gainsburg, que Kate Moss que nada!), Alberto Sordi, Jacques Henry Lartigue, Robert Doisneau, Lawrence de Arábia, James
Elroy, Julio Cortazar, Emilio Salgari (alguém lembra de Sandokan?), Robert Hugues, Mempo Giardinelli, Manuel Vazquez Montalban, Antonio Muñoz Molina,
Juan Jose Millas, Antonio Machado, Joan Manuel Serrat, Jeanette Winterson, Richard Avedon, Hernst Haas, Rossini, Miles Davis, Oscar Peterson, Gerry
Mulligan, Robert Capa, Tom Jobin, Evelyn Waugh, Wim Wenders, Terenci Moix, Matisse, Hugo Pratt, Cartola, Bruce Weber, Horst Faas, Eich Fischl, Rimbaud,
Dean Martin, G. Cabrera Infante, e por aí vai.

LUIZ MAKLOUF - Como vê o tratamento que a mídia tem dado ao governo FHC?

J.R.DURAN - Acho que fora o Carlos Heitor Cony, que já faz tempo está dizendo que o rei está nu, e do Élio Gaspari, Luís Fernando Veríssimo ou Jânio de
Freitas (e que me perdoem os outros poucos que não foram mencionados), todo o mundo em geral estava bem impresionado. Parecia que o fato de FHC 1&2
exalar um certo resplendor tipo Rei Sol cegava momentaneamente as pessoas. Não sei não. A crise ecônomica está aí. Mas uma coisa é certa: qualquer crise econômica é decorrente de uma crise política.

LUIZ MAKLOUF - Qual foi a parada profissionalmente mais dura que você já enfrentou?

J.R.DURAN - Responder a estas perguntas. Ainda mais depois que deletei, sem querer, claro, todo o texto pronto e tive de fazer tudo de novo. Caracoles!.

LUIZ MAKLOUF - Como vê o trabalho de reportagem fotográfica na mídia (revistas e jornais) - e aproveitamento que os veículos dela fazem?

J.R.DURAN - Antes de mais nada acho que em geral (e é claro que tem exceções, aqueles 10% do Muarrek, senão não poderia trabalhar) aqui no Brasil as revistas e jornais são feios. Feios pra caramba. É uma tipologia pavorosa, um uso ruim das fotos, uma impressão lamentável.
Em termos de revista, por exemplo. Existe nos EEUU um cargo que é o de 'creative director'. Abaixo do diretor de redação, e acima do editor de arte e do editor de texto, tem este diretor criativo. A idéia é muito simples: é ele que analisa do ponto de vista criativo como resolver cada pauta. Uma matéria de
variedades (Madonna, Ivette Sangalo?). Temos uma pauta para o texto e um espaço para as fotos, mas como resolver isto sem que seja tudo parecido com o
que já foi visto? Pergunta ao diretor criativo, porque o diretor não pode se encher o saco com o dia-a-dia destas minúcias (Ivete não quer isto, o irmão
dela não quer aquilo), e o editor de arte está resolvendo o pepino de outras matérias a serem fechadas na redação. O diretor criativo te ajuda a resolver criativamente os problemas fotográficos. E, muito mais importante, sem abrir a página de uma outra revista e dizer para você: "queríamos uma coisa parecida com esta, você consegue?".

A respeito dos jornais. Trabalho pouquíssimo para jornais e só sei vagamente dos problemas do dia-a-dia.  Acho que depois do Jornal da Tarde do
Murillo Felisberto ninguém dá muita bola para a foto. Mas uma coisa me chamou a atenção um outro dia. O caderno Mais, da Folha de S. Paulo, publicou umas fotos do Sebastião Salgado. Diagramação impecável, impresão também e legendas legíveis! Agora,
normalmente o jornal não é tão impecável nestes três items.

Então me pergunto: será que o Salgado consegue isto porque ele é o Salgado e se o material não for bem impresso o homem fica emputecido e nunca mais? Veja bem, não falo da foto, porque o cara é gênio. Falo do resto - apresentação, diagramação, impressão, legendas.

Uma vez o Fernando Moreira Salles, quando era um dos donos da IstoÉ (lembram?), me perguntou porque o fotojornalismo no Brasil não ia para frente.
Eu respondi que a razão era muito simples: temos nomes impecáveis, profissionais de verdade, que infelizmente acho que não são bem remunerados. Acho que este é o segredo. Pagar bem. Quem paga exige qualidade e a responsabilidade de quem vende é muito maior.
Hernan Cortes, quando conquistou o México, tinha um lema: "Por Dios, por la Gloria y por el Oro". Se o fotógrafo sai na rua sabendo que vai ganhar pouco,  e que a edição não vai ser gloriosa, só resta entregar a Deus.

LUIZ MAKLOUF - O que é que te irrita mais no dia a dia da profissão? E o que mais te agrada?

J.R.DURAN - Me irrita uma foto mal editada. Acho que deve ser a mesma sensação de um repórter quando o texto é mal editado. Já arranjei brigas consideráveis
por causa disto. Mas não vale a pena. Se os caras não respeitam o trabalho, faço um sorriso patético e não volto a trabalhar com eles. Hoje em dia apenas
peço uma coisa: não me cortem a foto. Podem publicar do tamanho que quiserem, página dupla, tamanho lupa, até de cabeça para baixo (acredite se quiser: no ano
passado, na revista ELLE Brasil, em uma reportagem de moda de doze páginas, me publicaram duas fotos de página inteira de cabeça para baixo. Quando fui
comentar a coisa, depois da revista estar nas bancas, ninguém tinha percebido!).

O que me agrada mais é quando uma matéria me surpreende, quando o talento do produtor somado ao do diretor de arte faz com que as fotos melhorem na revista.

LILIAN PACCE - Qual foi a foto/fotografada que te deu mais tesão?

J.R.DURAN - Normalmente essa coisa do tesão não se manifesta assim, sem querer, nessas horas. Afinal se supõe que sou um profissional. Mas se por acaso cometesse a indiscrição de comentar uma coisa destas, seria uma falta de sensibilidade imperdoável para com a segunda, terceira, quarta, etc. colocadas.

LILIAN PACCE - O que dá mais prazer: fazer moda ou nu? Por que?

J.R.DURAN - O grande prazer é o prazer de fazer uma foto bem feita. Aliás, não é uma foto, é uma imagem. Porque fotos se fazem a cada segundo, mas imagems
são difíceis de conseguir. Uma imagem fica na memória do leitor muito mais tempo do que uma foto. Uma imagem é para sempre (parece publicidade de brilhantes,
mas saiu assim). Por exemplo, o outro dia decidimos fazer um catálogo de moda em um Circo.
O Circo Garcia. A vitória pessoal daquele dia é que apesar de fotografar em um circo não usei nenhum animal como suporte para o trabalho. Nem elefante, nem
cavalo, nem macaquinho. Apenas as texturas do circo. O trabalho ficou ótimo.
Saí do comum para entrar em outro universo - que não teria visto se não estivesse alerta e tivesse deixado o piloto automático ligado.

NEIL FERREIRA - Você fotografou a Roberta Close antes e depois da operação. O que viu "antes" ? Como foi possível fotografar a "pessoa" nua, com o "equipamento" ainda "lá"? E o que viu "depois"?

J.R.DURAN - Neil, não vi muita coisa não. Geralmente não fico encarando a coisa lá entre as pernas. Para ela(e)s não ficarem sem jeito e eu também. No
caso Close, ela não estava muito a fim de escancarar. Então eu, como cavalheiro que tento ser, fingi que não via nada.

Agora, fotografar a Close nua com equipamento foi simples e divertido. A única coisa que eu tinha em mente era sacanear com todos os leitores, fazer com que todos ficassem a fins da(o) Close.

MANOEL CARLOS CHAPARRO- Qual a sua opinião sobre a técnica e a linguagem de Sebastião Salgado?

J.R.DURAN - Acho que pode ser respondido, com admiração, em uma palavra só: impecável

MANOEL CARLOS CHAPARRO - Como ocorre a interação entre estética e técnica no seu jeito de trabalhar?

J.R.DURAN - Penso tecnicamente apenas antes de fazer o trabalho. Dias antes vou imaginando o que vou precisar para realizar as imagems que quero. Seja
luz, filme, locação, etc. Na hora da foto mando bala sem pensar muito, apenas sentindo o que está acontecendo, deixando as coisas acontecerem. Cem por cento de intuição e zero de reflexão. O segredo é ter controle da situação, para poder deixar as coisas um pouco fora do controle quando necessário. Pode parecer
um paradigma, mas não é. Aliás, aí vai um outro que parece mas não é (este de Pedro Martinelli): se você viu a foto é porque não a fez.

MANOEL CARLOS CHAPARRO - Refletindo apenas sobre a própria experiência (é sempre mais fácil julgar os outros...), até que ponto, e em que situações, a
questão ética se coloca no seu trabalho?

J.R.DURAN - Como que um cara que trabalha com cem por cento de intuição e zero por cento de reflexão pode se resolver eticamente na hora do click? Tento manter a
cabeça sempre no lugar. Não mentindo, nem para mim mesmo.

Em um filme de Wim Wenders (e aprendenders) tem um prólogo que é um trecho do Novo Testamento.
"A luz do corpo é o olhar.
Se o olhar é puro
todo o corpo estará cheio de luz.
Mas se o olhar é maldoso
todo o corpo estará cheio de escuridão"
Matheus VI, 22.

RICARDO SETTI - O que você ainda não fez como fotógrafo, e que gostaria de fazer?

J.R.DURAN - Gostaria de ter feito uma guerra. Pode até ser nos morros do Rio, mas uma guerra. O pau comendo de todo lado e eu tentando achar o melhor ângulo sem ter controle nenhum (aquele controle indispensável). Sou da geração que acompanhou a guerra do Vietnam pela televisão, todas as noites às oito, e sempre me fascinou o trabalho da imprensa. Arnett, Halberstam, Haas, são algums dos nomes de jornalistas que acompanharam esta guerra, que mudaram a opinião pública dos EEUU e que eu sempre admirei.

RICARDO SETTI - Que mulher brasileira você ainda não fotografou, e que gostaria de ver nas páginas de PLAYBOY?

J.R.DURAN - Luana Piovani. Acho que ela bateria recordes estratosféricos de tiragem.

RICARDO SETTI - No campo da fotografia, quais são as preocupações éticas que o afligem?

J.R.DURAN - Acho que não deveria afligir, tem de ser uma coisa autómática, sem muita dúvida. O 'Livro das Virtudes', de William J. Bennett, lista dez virtudes como fundamentais: disciplina, compaixão, responsabilidade, amizade, trabalho, coragem, perseverança, honestidade, lealdade e fé.

É a resposta à pergunta de M.C.Chaparro. Para mim fotografar é um prazer, uma necessidade. Fotografo
quando me pedem e quando não me pedem. É uma maneira de ver o mundo, de estar no mundo, de me aproximar das pessoas e de, até, tentar me entender. Não
esqueça que as minhas fotos refletem um universo particular. Então, quando fotografo sou feliz, ansioso para fazer a coisa certa, mas feliz. Essas
energias, felicidade, mais vontade de acertar, não me deixam muitas alternativas das que possa me arrepender. Talvez se eu tivesse de lidar em
termos jornalísticos com a verdade dos fatos, os meus dilemas seriam mais radicais e minhas encruzilhadas mais freqüentes. Fotografo o que vejo, mas o
que vejo não tem que ser a realidade.

RICARDO SETTI - Qual é sua maior frustração?

J.R. DURAN - A única fustração que tinha, uma coisa de muitos e muitos anos, a resolvi faz um tempo. Queria aprender a pilotar helicópteros, fascinação desde
criança, que achei que nunca aconteceria. Acontece que decidi que nunca é tarde para nada e me matriculei em um curso de pilotagem. Aprendi a pilotar. Posso dizer que por enquanto não tenho fustrações. Parece simplista mas felizmente é uma realidade. Talvez possamos falar de ansiedades: melhorar o meu trabalho, melhorar os conceitos. Mas são coisas que dependem apenas de mim, e que por isto não me fustram. Sei que com o tempo cabe apenas a mim chegar aos meus limites.
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CLAUDIO TOGNOLLI - Caro Duran, queria que vocë me respondesse depois de fazer uma consideracão sobre esse trecho do Jorge Luis Borges:
" A música, os estados de felicidade, a mitologia, os rostos trabalhados pelo tempo, certos crepúsculos e certos lugares, querem dizer-nos algo, ou algo
disseram que não deveriamos ter perdido, ou estão por dizer algo; esta iminência de uma revelação, que não se produz, é, talvez, o fato estético".
Relembrando das tuas fotos que você considera as mais belas, você acha que o fato estético é, de fato, a iminência de uma revelação que não se produz ?
Você acha que as melhores fotos que fez já estavam prontas na tua cabeca, e você simplesmente encontrou matéria-prima, na cena, para expressar algo
inominável que intuía ?

J.R.DURAN - Sempre preferi, oh heresia!, Bioy Casares a Borges e sempre me diverti com este contraponto. Uma coisa assim como os Beatles e os Rolling Stones. Mas usarei as palavras de Borges, que disse:

"...Bioy renueva literariamente un concepto que San Agustin y Origenes refutaran, que Louis Auguste Blanqui razonó y que dijo con musica memorable Dante Gabrielli Rossetti:
"I have been here before,
But when or how I cannot tell:
I know the grass beyond the door,
The sweet keen smell,
The sighing sound, the ligths around the shore..."

Isto está no prólogo de "La
invencion y la Trama" / Adolfo Bioy Casares / Obras Escogidas" Tusquets Editores / 1991. É isto que sinto toda vez que realizo uma foto que me surpreende.

CLAUDIO TOGNOLLI- Quando as pessoas vêem um por do sol, por exemplo, costumam dizer "olha, parece um cartão postal", quando na verdade é o cartão postal que parece aquilo. Você acha que a fotografia tem esse poder de reverter a ordem natural das coisas ?

J.R.DURAN - Pior do que um por do sol e de um cartão postal de um por de sol é a revista CARAS, que reverte qualquer um dos cinco sentidos.

CLAUDIO TOGNOLLI - O Aristóteles falava " a arte imita a vida". Mas o Oscar Wilde, em 1899, deu uma porrada nesse conceito, dizendo que " um por do sol só
existe para alegrar mais um cartão". Você acha isso, que a vida imita a arte, ou o contrário?

J.R.DURAN - Se por um lado Aristóteles não tinha a concorrência da novela das oito (eu acho que a vida imita a novela das oito que imita a arte), acho que
Mr. Wilde queria impresionar alguns rapazes aquele dia, ou apenas estava de muito mau humor. Eu, com menos pretensões filosóficas ou vitorianas, tento
fotografar de perto a vida que eu imagino como ideal. Um universo imaginário, particular, ao qual se remetem todas as fotos que realizei, porque este é o arquivo de minha fonte de inspiração.

LUIZ HENRIQUE AMARAL - Entre as mulheres que você fotografou, qual a que mais te surpreendeu agradavelmente? Por que? Qual a que deu mais trabalho, seja pela timidez ou pela falta dela?

J.R.DURAN - Tinha uma atriz, que desapareceu do palco, chamada Lídia Brondi. Começo dos anos oitenta. Tinha cara & corpo de ninfeta (palavra que abomino, mas que na época era o adjetivo que ela carregava) e o país inteiro enlouqecido por esta menina. Edição especial de PLAYBOY, encarte com não sei quantas páginas. (Nota do editor: encarte de 68 páginas na Playboy 145-A, 1987. As fotos de Duran ocupam 36 páginas). Achei que a coisa ia ser complicada porque a revista levou anos tentando convencê-la.

Finalmente chegou a hora e poucos minutos antes de começar a sessão ela me disse: "olha, vou fotografar nua apenas uma vez na vida, nunca mais, faça o que quiser porque não vou dar nenhum palpite" (normalmente sempre tem um momento em que fica uma coisa assim, este ângulo não, porque não gosto do meu braço, ou joelho, ou o que seja). Dito e feito. As fotos ficaram com uma realidade impressionante, porque não tinha nenhum filtro psicológico, nenhum véu, nenhuma autocensura. Fiquei impresionado.

Agora, dar trabalho, dar trabalho, ninguém dá muito, mas que a coisa não é tão fácil, também não é.

LUIZ HENRIQUE AMARAL - Qual a mulher que você mais gostaria de fotografar e ainda não teve oportunidade?

J.R.DURAN - Adolfo Bioy Casares tinha um tio, que se chamava Enrique e que lhe dizia: "Todas las mujeres del mundo son tres o quatro"( é verdade , está no
mesmo livro donde achei a resposta para o Tognolli). Bem, talvez ele falasse isto porque ele não era fotógrafo. Acho que existen infinitas mulheres. E
assim como Borges um dia calculou quantos anos devería viver para ler todos os livros do mundo, eu não consigo imaginar quantas vidas deverei viver para
fotografar todas as mulheres que me intrigam.

XICO SÁ - Duran, você já faz parte do imaginário sexual brasileiro, pois leva aos mais longínquos banheiros, cadeias e quartos de pensão do país, um alento, um jeito de devorar as mulheres com os olhos. Você também consegue ficar tarado com as suas fotos? Ou é como o cozinheiro que não aprecia mais a própria comida?

J.R.DURAN - Olha, eu sou o que em linguagem forense se chama de "efeito causal". Estou lá fotografando, mas não estou lá. Nem acho que a mulher me vê quando estou fazendo as fotos. Tenho a certeza (e a esperança) que nestes banheiros longínquos, cadeias, quartos de pensão e etcs. quem é louvado é o objeto de minhas fotos, e não o fotógrafo. Agora, se a parábola do
cozinheiro é para saber se enjoei de mulher, não enjoei não.

XICO SÁ - Defendo que em qualquer mulher,
qualquer uma mesmo (sem exceção), é possível encontrar uma parte, uma coisa bela. E amamos esta dita mulher por esta parte escolhida -um joelho, uma  omoplata etc. Por onde começa a funcionar/trabalhar seu olho quando avista uma mulher?

J.R.DURAN - Acho que é sempre um perigo se apaixonar por uma covinha de um sorriso, porque inevitavelmente você vai ter que suportar (literalmente) o corpo todo.

Começo a funcionar pensando na personalidade da pessoa a quem tenho de fotografar. Como ela será que é? Como vai responder ao trabalho? Como vou fazer para ela se sentir à vontade? Fico tentando imaginar como ela é na
realidade. A personalidade, o humor (a falta de), enfim, um perfil psicológico bem pessoal que me dirá qual é o limite dela.

Na hora de fotografar, o que me interessa, mais do que o corpo, é o rosto. O rosto é importante, porque os olhos são o espelho da alma (esta é velha,
hem?) mas os lábios são o espelho do corpo (imagina então o que não consigo adivinhar olhando uma foto 3x4?).


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