PROFISSÃO:REPÓRTER

DEPUTADO AGRIDE JORNALISTAS NO ACRE

Altino Machado

[ 6 / 2 / 97 ]

Nenhuma providência foi tomada até aqui (6 de fevereiro) pelas autoridades de segurança contra as agressões fisicas e as ameaças de morte contra Antonio Stélio e a mim, respectivamente, feitas pelo deputado Roberto Filho. A queixa-crime sequer foi enviada pela Corregedoria de Polícia ao delegado para abertura do inquérito. Não fomos jamais ouvidos. A fachada de minha casa continua com marcas de balas e até hoje ninguem esclareceu nada.

Desde a morte de Chico Mendes, passando pelo assassinato do ex-governador Edmundo Pinto, o Estado do Acre lembra, infelizmente, violência, arbítrio, cumplicidade e omissão. Os crimes ocorrem na esfera estadual enquanto o governo federal evita qualquer intervenção e fica em situação constrangedora.A tradição dos inquéritos na região, quando feitos, é de imputar responsabilidade às vítimas ou a conclusão pela inexistência de autoria.

O governador Orleir Cameli (sem partido) tem adotado a postura "formal" de não se envolver com os fatos. A conduta do próprio governador parece contribuir para a onda crescente de violações e impunidade no Acre. Cameli já responde a sete inquéritos no Superior Tribunal de Justiça (STJ), na corte especial criada para julgar governadores, onde é acusado por crimes de peculato, contrabando, dispensa ilegal de licitação e superfaturamento, falsidade ideológica e sonegação de impostos.

Desde que assumiu, tem sido acusado de transgredir leis, ignorar licitações, atropelar o orçamento, depositar dinheiro público em conta bancária de suas empresas, negociar com empresa colombiana suspeita de envolvimento com o narcotráfico, trabalhar com caixa dois, envolvimento com contrabando de muamba no Boeing 727-200, invasão de terras indígenas, sonegação de impostos, promoção de trabalho escravo, exploração ilegal de madeira, quatro registros no Cadastro de Pessoa Física (CPF), superfaturar obras e privilegiar as empresas de sua família nos setores de construção, transporte e de distribuição de combustível.

Para quem não sabe: o deputado me agrediu porque citei o nome da mulher dele, a vereadora Maria Lenice, por envolvimento na compra de gabaritos que motivaram a anulaçao do vestibular na Universiade Federal do Acre. A vereadora me enviou rosas brancas enquanto o marido mandou avisar que nao estava preocupado com a repercussão. "Meus eleitores não sabem ler e nunca ouviram falar em diabo de Internet", disse o crápula.

Sei que a transferência para Brasília não desfaz o risco de vida que corro desde 1988, quando comecei a trabalhar para a Agência Estado. Esse quadro se agrava com o fato de que estou indo sozinho. Aqui vão ficar minha esposa e minhas três crianças. Os anos de trabalho no Acre não me pssobilitaram formar capital para bancar, neste instante, a transferência de todos. O Sistema JB pagará apenas a minha passagem, além do modesto salário.

Tenho acompanhado as discussões neste fórum e as vezes fico irritado com a preocupação excessiva dos colegas com os nossos erros. Acho que há um erro mais grave: a falta de solidariedade. Notas de repúdio são insuficientes para alguém em minha situação.

Em 1992 fui transferido pela Agência Estado para Brasília e depois para Goiânia após o assassinato do governador Edmundo Pinto. Tive que voltar ao Acre no ano seguinte...

Eu pergunto:

Vale a pena morrer por encarar a profissão com seriedade?

Vale a pena virar maldito numa aldeia?

A quem recorrer?


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