PROFISSÃO:REPÓRTER


O SUFOCO DOS PETROLEIROS

Luiz Maklouf Carvalho

[ Jornal da Tarde - 23 / 3 / 97 ]

Bens penhorados — entre eles um imóvel avaliado em R$ 1,9 milhões — contas bancárias bloqueadas, contribuição sindical confiscada, dívidas pendentes, desmobilização da base e, para completar, uma eleição que promete escrachar as divergências internas. É essa a situação do Sindicato dos Petroleiros de Santos e Cubatão — e, com uma ou outra diferença, dos outros 20 sindicatos da categoria — quase dois anos após a greve que assustou o país e provocou o primeiro confronto entre o governo Fernando Henrique Cardoso e o movimento sindical que gira em torno da Central Única dos Trabalhadores.

“Nós estamos mendigando”, diz Averaldo Menezes Almeida, 38, presidente do Sindipetro da Baixada Santista, no prédio quase-fantasma que abriga a suntuosa sede do sindicato, em Santos. Averaldo foi o líder da ação mais radical da greve dos petroleiros — a dramática ocupação da Refinaria Presidente Bernardes, em Cubatão, de 10/5 a 2/6 de 1995. Dizia, então, entre muitas outras bravatas, que resistiria até a morte — até ser obrigado a capitular, com três centenas de companheiros, e render-se à evidência de que o confronto fora vencido pelo governo Fernando Henrique Cardoso, com grande ajuda do Tribunal Superior do Trabalho.

Foi o TST que declarou a greve ilegal — e que puniu os 21 sindicatos com uma multa de R$ 100 mil por cada dia dos 21 em que a decisão foi desrespeitada. Houve quem achasse que iria acabar em pizza — mas o fato é que a decisão está sendo cumprida à risca. Cada Sindipetro está devendo R$ 2,1 milhões — e a cobrança judicial, além de determinar o bloqueio das contribuições sindicais (R$ 80 mil mensais no caso de Cubatão) e das contas bancárias, ainda determinou a penhora de todos os bens. Os petroleiros lutaram, e continuam lutando, para livrar-se do pagamento da dívida — uma decisão que consideram política e que não reconhecem. No plano estritamente financeiro, para driblar o confisco, reduziram as contribuições sindicais descontadas em folha pela Petrobrás a simbólicos R$ 0,1. Passaram, então, a recolher os 3% de praxe no boca a boca nas portas das refinarias — e daí o “mendigando” de Averaldo. Não recolhem os R$ 80 mil, ouvem alguns desaforos, mas têm conseguido arrecadar entre R$ 50 mil e R$ 60 mil, o que permite pagar a folha dos 47 funcionários e dos 14 demitidos em conseqüência da greve.

No plano político, os petroleiros tentaram uma anistia via Congresso. Conseguiram a unaminidade da Câmara e a quase unanimidade no Senado — mas amargaram o veto implacável do presidente Fernando Henrique Cardoso. Têm como último recurso a derrubada desse veto via Congresso e o julgamento de um recurso extraordinário que impetraram junto ao Supremo Tribunal Federal. “É tudo que nos resta”, diz Averaldo, consciente de que os bens penhorados, incluindo a bela sede avaliada em quase R$ 2 milhões, podem realmente ir à praça, para serem vendidos em leilão.

O pior, para os petroleiros, é que o fiasco da greve levou a categoria, uma das mais organizadas do país (índice de sindicalização de 95%), a um estado de quase letargia. “Estamos completamente isolados”, reconhece Averaldo durante um passeio rápido pela sede quase vazia do prédio que tem um auditório de 800 lugares. “A categoria se afastou completamente”, diz ele, informando que até os três barbeiros, sempre atarefados, foram reduzidos a um, por falta do que fazer. No momento a preocupação central de Averaldo é a eleição sindical, marcada para 23, 24 e 25 de abril. Ele diz ter lutado por uma chapa consensual —mas acusa a tendência cutista Articula ção de ter dado um golpe e apresentado uma chapa que rompia os acertos anteriores. Resolveu, então, por uma “questão de brio”, candidatar-se à reeleição. “É ruim para a categoria — já que as divergências vão aflorar”, reconhece. O candidato adversário é o petroleiro Luiz Alberto.

Não se pense que Averaldo perdeu o pique. Afinal, como um sindicalista profissional, formado em História, ele pertence ao Movimento por Uma Tendência Socialista do Partido dos Trabalhadores, é diretor de imprensa da Federação Única dos Petroleiros e ainda vai enfrantar uma disputa eleitoral difícil. O que mudou foi a sua disposição para a crítica e a autocrítica, bem maior do que há dois anos. Nesse sentido, ele reconhece que a greve ficou isolada — e não poupa farpas à direção majoritária da CUT (leia-se Articulação e Vicentinho), seja em relação à greve, seja em relação à postura atual. Admite também que FHC, com “um golpe de mestre”, conseguiu avariar “momentaneamente” o movimento sindical urbano.

Qual é a situação do Sindipetro quase dois anos depois da greve?

É muito desgastante. Nossa Senhora! Nós estamos mendigando. A palavra correta é essa: mendigando. O que está fazendo a gente resistir aqui é aquele espírito de que o sindicato tem que continuar existindo. Porque se não fosse isso eu já tinha aberto o bico, já tinha ido cuidar das minhas crianças. Tem gente, felizmente uma minoria, que reage mal quando a gente vai pedir o dinheiro. A gente ouve desaforo. Às vezes eu perco as estribeiras e falo algumas graças pro companheiro, porque não estou pedindo pra mim. Estou pedindo pra manter essa entidade.

Você participa pessoalmente dessa, digamos, mendicância?

Eu e todos os diretores.

A greve foi uma derrota fragorosa dos petroleiros ou uma vitória retumbante do presidente Fernando Henrique Cardoso?

Nem uma coisa, nem outra. De certa forma passou a ser uma derrota a partir do momento que não veio nada financeiramente. Foi uma vitória política mas só percebe isso quem tem uma militância maior. Seria o fato de ter exposto a que o Fernando Henrique veio, qual a finalidade, qual o seu trabalho, a quem ele está servindo.

Isso pra você — porque para a massa da categoria foi uma derrota acachapante?

É. Pra massa foi uma derrota, porque não se ganhou nada. Só com o tempo ela vai perceber que nem tudo foi derrota. Mas teria que dar tempo ao tempo.

Então o FHC levou?

A princípio pode ter sido uma vitória, porque ele também conseguiu quebrar a mobilização de várias categorias, que ficam com medo de acontecer o que aconteceu com a gente. Mas eu acho que o massacre que os petroleiros sofreram ficou marcado. A história nunca esquece esses massacres. Num futuro mais próximo isso estará revertendo ao contrário — e aí sim os petroleiros vão perceber que nem tudo foi derrota.

Qual foi o erro principal que vocês cometeram na direção daquela greve?

O erro principal é que nós não avaliávamos que o Fernando Henrique, que vem de uma postura de esquerda, fizesse o que fez. Eu cheguei a ver o Fernando Henrique aqui no Sindicato dos Metalúrgicos, em plena ditadura, solicitando a união dos sindicatos para resgatar o país da mão da direita, que à época, segundo ele próprio, era Antônio Carlos Magalhães, Sarney, todo esse pessoal que hoje é seu aliado. Votei nele pra senador. A gente não esperava que o Fernando henrique fosse ao extremo e fizesse o que fez. Gastou R$ 4 milhões importando produtos de última hora dinheiro que seria suficiente para dar o aumento pretendido. Armou todo um esquema para estourar a greve. Ele tinha na mente que estourando os petroleiros de certa forma matava ou segurava boa parte da luta do país. Essa era uma avaliação que ele tinha e que nós não tínhamos. Esse foi um erro nosso.

Na prática foi o que ocorreu — porque o fracasso da greve dos petroleiros desmobilizou o movimento sindical.

É verdade. Desmobilizou o movimento sindical como um todo. Aí sim está a grande vitória do Fernando Henrique: ele quebrou a mobilização a nível nacional. Momentaneamente essa foi a grande vitória dele. E foi uma coisa que nós não avaliamos. Foi o nosso grande erro.

Por que o fracasso de uma greve como essa vai sempre pras costas quentes da mídia, do presidente da República, etc? Qual é a culpa de vocês próprios, lideranças do movimento? Quais são os fatores internos que determinaram a derrota?

A CUT falhou muito. A nossa greve ia acontecer antes — mas a CUT chamou uma greve nacional. Nós atrasamos por vários meses, esperando a mobilização nacional. Quando fechou a data nacional nós achamos que o empenho da CUT foi quase nulo. Ela não se empenhou na greve. De certa forma não puxou as outras categorias. Isso fez com que a gente caísse mais no esquecimento. Faltou solidariedade aos petroleiros naquele instante.

Porque você acha que a CUT cometeu esse erro em incrementar a greve nacional, sonhar alto e não conseguir segurar?

A CUT tem várias tendências dentro dela. Havia uma corrente trabalhando para fortalecer a luta. E uma outra corrente — a Articulação — achava que o momento não era de embate. Ficou uma guerrinha interna dentro da CUT e o fato é que a ajuda dos petroleiros ficou limitada a dois ou três dirigentes da CUT.

Como você avalia o comportamento do Vicentinho, presidente da Central, em relação à greve?

Há uma história muito gozada. O Vicentinho esteve na nossa base no mesmo dia em que fez aquela declaração de que a greve era incorreta. Foi recebido de braços abertos, deu mais de 100 autógrafos lá dentro, e disse o seguinte: “Vocês estão certos, temos que continuar, não vamos perder, vamos manter a luta”. Esse foi o discurso do Vicentinho na refinaria de Cubatão. No mesmo dia ela falou para a imprensa que a greve dos petroleiros era um erro. A revolta foi tão grande que as camisas e os bonés autografados foram rasgados. Se naquele instante o Vicentinho voltasse o clima era insuportável pra ele. O pessoal ouviu um discurso de manhã e outro de tarde. Achou que foi falso. Isso pegou muito mal pra ele. Até hoje, a nível de pertroleiros de Cubatão, realmente o Vicentinho não goza de simpatia.

Como é que fica a solidariedade do movimento sindical cutista em relação à situação difícil que vocês enfrentam hoje?

Eu não quero generalizar. Nós temos sindicatos extramamente solidários. A Administração Portuária, por exemplo, nos doou R$ 20 mil. Os metalúrgicos de Santos também tem nos ajudado nos ajudado.

E a CUT? Cadê a solidariedade da CUT?

A CUT de certa forma acabou fazendo o papel do governo. Está nos deixando isolados. Fez uma campanha de R$ 1.00 para os petroleiros em cada Estado — mas simplesmente não fez nenhum trabalho em cima disso. Fizeram um monte de cartazes, distribuíram nos Estados. Eu estive em Sergipe e vi um monte de catazes dessa campanha jogado num canto como se fosse lixo. Ou seja: não deu a menor importância. Não houve solidariedade na prática. Nós nos sentimos realmente meio isolados.

É grave, não?

Eu diria que a CUT não trabalhou no sentido de isolar, mas também não fez nada para evitar que ficássemos isolados. O Vicentinho tem falado pontualmente sobre o assunto — mas realmente eu esperava mais empenho. Se não a gente fica muito no discurso — e o fato é que com discurso ou sem discurso o sindicato tem que sobreviver, os funcionários do sindicato têm que comer, tem um trabalho político a fazer. De certa forma estamos nos isolando cada vez mais.

Como é que o resultado objetivo da greve — ou seja: zero — influiu na categoria petroleiros em relação a direção sindical.

De maneira muito ruim. A massa quando não vê os efeitos diretos no bolso, procura os culpados por tudo. E vai estar sempre jogando essa culpa na direção sindical. Eu não fujo dessa responsabilidade não. É claro que a massa queria a greve — e que nós assumimos essa responsabilidade, trabalhamos para que a massa tivesse esse pique. Então assumimos também a nossa responsabilidade. Agora, depois de uma greve dessas a situação pega para a direção. A base começa a querer achar culpados e aí nesse meio começam a surgir oportunistas que começam a dizer o seguinte: “Está vendo, o negócio é conciliar”. Às vezes até envolvidos pela própria empresa.

Porque não houve reação da categoria quando o presidente da República vetou a anistia aprovada pelo Congresso Nacional?

Não aconteceu nada porque àquela altura a categoria já estava agasalhada de tanta porrada que tinha tomado.

Como é que você entendeu o veto do presidente?

Foi mais uma decepção, uma frustração. Mais uma vez o presidente nos surprendeu.

O presidente vetou para não avalizar o fato de vocês terem pisado em cima da decisão de um tribunal superior, o TST. O fato é que vocês pisaram em cima da estrutura institucional de maneira clara, politicamente assumida e defenderam que erra correto desmoralizar a decisão do TST porque acharam que naquele momento a lei não servia para vocês.

Nós tínhamos que pisar. Já pisamos outras vezes. Achamos que o TST não julga com isenção. Julga politicamente. A nossa categoria tem consciência de que o TST não pode existir porque ele não julga a lei. Ele julga o que o presidente em exercício à época manda. Não é à toa que os juízes são nomeados pelo presidente da República.

De todo modo, do ponto de vista dos interesses do governo, o presidente aplicou um golpe de mestre que desmobilizou o movimento sindical.

Foi um golpe de mestre momentâneo, de médio prazo. Mas eu tenho certeza que com o tempo a história vai resgatar esse golpe de mestre. Eu acredito que num futuro médio o que ele fez vai reverter ao contrário. Um exemplo é a Margaretch Tatcher, que desmontou o movimento sindical na Inglaterra, bagunçou, cortou tudo. E três anos depois o negócio virou. O que o FHC fez foi um golpe de mestre. Mas aos poucos a história vai resgatando — e no resgate o FHC vai pagar.

Você acha que ainda consegue convencer a tua base, alguma vez, a ocupar novamente a refinaria?

Vai demorar. Mas depende muito da conjuntura. Do jeito que vai hoje, quando 60% da base está com salários defasados, está no sufoco, numa condição dessa o pessoal está por tudo ou nada. O problema é que o petroleiro ainda tem o que perder. O Movimento dos Sem Terra mobiliza tanto porque trabalha com um pessoal que não tem mais nada a perder. Petroleiro ainda tem. Mas do jeito que está caminhando, a situação vai ficar catastrófica num futuro bem próximo. A questão da previdência, por exemplo, pode ser um grande fator de mobilização, porque petroleiro tem aposentadoria especial.

Que balanço você faz da ocupação da refinaria?

O fato de nós termos ocupado sozinho foi um erro. Não nosso, mas das outras refinarias que não ocuparam. Nós tínhamos um acordo nesse sentido. Se as outras refinarias achavam que não iam ocupar de jeito nenhum, eu acho que a gente tinha que ter jogado mais limpo entre nós mesmos. Dizer: “ó, aqui não deu, não vai dar”. O que a gente sabia lá, pelo telefone, era sempre a perspectiva de outras ocupações. Só que isso não aconteceu nunca. Nós esperamos demais que isso acontecesse, mas não acontecia. Entre nós a gente colocava: continua ou não? Havia a determinação de resistir até a morte. E você entrava nesse clima.

“Resistir até a morte” era a palavra de ordem mais comum.

É verdade. O pessoal puxava da alma mesmo, com uma revolta muito grande.

Mas não adiantou nada. Tiveram que sair mesmo.

Saímos porque ficamos sozinhos.

De quem foi a culpa? Da Federação Única dos Petroleiros?

Não, porque a FUP depende das informações que chegam lá. Hoje a gente tem consciência de que a FUP recebeu algumas mentiras. Tipo assim: “Aqui tá tudo correto, estamos segurando tudo”. E na verdade não estavam. O quadro não era verdadeiro. Não dá pra culpar a FUP. Se tem mentira, ela vai passar mentira. Tem documentos de que passaram mentira. Eu não culparia a FUP. Eu culparia algumas direções sindicais que às vezes não trabalharam com a verdade, o que provocou muitos problemas.


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