Dirigir a Veja
Por Mario Sérgio Conti
(Nascido em São
Paulo em 1954, foi diretor de redação de Veja de 91
a 97. Artigo publicado no livro Jornalismo é...**,
coordenado por Nemércio Nogueira e editado pela Xenon, com a colaboração
da Associação Brasileira de Anunciantes e a Associação
Brasileira de Imprensa. Aqui reproduzido com autorização
do autor)
* É lidar com números grandes. Em setembro de mil novecentos e noventa e sete, a revista está com circulação média de um milhão, duzentos e cinqüenta mil exemplares por semana. Cada um dos exemplares é lido por quatro pessoas.
* É se dirigir a cinco milhões de seres; mandar em cento e sessenta e um jornalistas; ser chefiado por um patrão.
* É imaginar alguns desses cinco milhões de mulheres e homens. A adolescente que prega a capa com o revolucionário na parede do quarto. O jovem que lê o perfil da beldade enquanto pedala a bicicleta ergométrica na academia. A moça que sabe que os colegas que a olham sabem que seu pai, governador, está sendo chamado num título de asno e ladrão. A gerente se congratulando por ter recusado o emprego no banco que, demonstra a reportagem, está pela bola sete. A aposentada que discorda do ensaio sobre a velhice. O presidente se irritando com a entrevista do ministro. O cineasta que vê na resenha melindrosa cinco anos de trabalho indo pelo ralo. A criança que recorta a foto da baleia para colar na cartolina do trabalho escolar. O engenheiro com a boca cheia de opiniões que leu há pouco, no banheiro da firma. A advogada, na sala de espera do dentista, ri da previsão errada feita meses antes.
* É imaginar em vão. Cada um dos cinco milhões atravessa a revista de um jeito, determinado pela sua classe social, sexo, idade, onde vive, experiência. O leitor médio é uma balela. O leitor de verdade é o concreto.
* É festejar que sejam cinco milhões de leitores, e não espectadores. Eles não são sacos vazios jogados no sofá, sendo passivamente preenchidos pelas imagens e sons transmitidos de graça pela televisão. Esses cinco milhões prezam a atividade mental que a leitura propicia. Eles gastam dinheiro para se informar, aprender, se divertir com a leitura da revista.
* É encarar as pesquisas com ceticismo. Pesquisas qualitativas servem para detectar tendências, quando muito. Quantitativas, para constatar intuições prévias. Mesmo que houvesse uma pesquisa que refletisse fielmente o que os leitores querem -- e não há, porque cada leitor quer do seu jeito -- ela seria inútil. Não se faz revista com que o leitor pensa. Leitores lêem. Editores editam.
* É perceber que as cartas de aplausos e protestos tendem a se anular. Opiniões fortes, bem expressas, fazem com que a seção de cartas fique boa e atraem mais mensagens do mesmo teor.
* É reconhecer que mesmo o leitor mais inteligente, como é o seu caso, não tem paciência para quem escreve de maneira obscura. Ele percebe, pôr exemplo, que neste texto não há numerais, mas, como não sabe o motivo, fica enfadado e tende a considerar o autor um tolo, um pretensioso.
* É ter a pretensão de surpreender. De desalienar. De revelar o latente, o oculto. De fazer com que os mesmos tristes, velhos fatos, repetidos durante a semana toda, reapareçam novos no domingo.
* É contar o que foi a semana, para todos e para ninguém.
* É não ver televisão. Noticiários, novelas, entrevistas, nada. Convencional, a cabo, por satélite, nenhuma. (Abra exceções para as edições extras, com noticiário ao vivo.) A televisão distorce a realidade através do processo. Para uma revista, a televisão vira realidade quando gera comentários que chegam à Redação.
* É não ouvir rádio, jamais. Nem no congestionamento. Nem no estádio. Nem as edições extraordinárias, com seu falso senso de urgência e importância.
* É zelar para que a realidade só apareça na revista através de cento e sessenta e um jornalistas -- incluindo os das Vejinhas do Rio e São Paulo, ilustradores, fotógrafos e paginadores. Esse bololô de gente, reunido num ambiente insalubre, a Redação, é a alma da revista.
* É ter a casca grossa, que a pressão é brava.
* É não se deixar fotografar ou dar entrevistas. A revista fala por si, é auto-explicativa. Quem deve aparecer é a Redação.
* É, de quando em quando, relembrar para a Redação as máximas cínicas do ofício. Uma: nunca ninguém perdeu dinheiro subestimando a inteligência do leitor. Outra: a função do bom editor é separar o joio do trigo, para publicar o joio. A de Mark Twain: primeiro apure os fatos, depois pode distorcê-los o quanto quiser.
* É não ter ídolos ou modelos.
* É buscar uma equipe diversificada. Mauricinhos, eruditas, rebeldes, dondocas, especialistas, gaúchos, jovens, sábios, humildes, generalistas, conservadores, japonesas, arrogantes, toda uma fauna humana e alguns espécimes do reino animal, deveriam ter seu lugar numa Redação.
* É demitir rápido, sem discussão, expondo os motivos. Ter uma testemunha da conversa.
* É ouvir os repórteres assim que eles voltam da rua, para captar a emoção da descoberta, o relato sem a elaboração.
* É levar em conta as reportagens de autoria de ombusdsmen, as entrevistas feitos por críticos de imprensa, os títulos concebidos por colunistas de ofício. Se forem razoáveis, ler o que têm a dizer sobre a revista.
* É ter consciência que poucas amizades resistem a algumas anos de trabalho em comum numa Redação.
* É comandar uma Redação, e não administrar um orçamento. Torrar dinheiro para conseguir um furo ou fazer a melhor cobertura de uma notícia momentosa. Economizar clips no dia a dia.
* É incentivar o trabalho em equipe, apesar das vaidades, da competição, das antipatias, das redes de amizade e interesse.
* É não confiar em ninguém fora da Redação.
* É constatar que um chefe, às vezes, pode ser admirado. Às vezes, pode ser considerado um igual, um companheiro. Mas os sentimentos que ele desperta costumam ser o desprezo, a inveja, a antipatia.
* É ler O Estado, O Globo, JB e o Herald todos os dias. Time, Newsweek e The New Yorker todas as semanas. New York e London Review of Books quinzenalmente. Vanity Fair e Esquire mensalmente. Novos Estudos, Praga, Revista da USP sempre que saírem. Acompanhar os alternativos até perderem o viço ou morrerem (no momento: Azougue, Caros Amigos, Cult).
* É dar uma olhada no que cair na mão. Panfletos direitistas, receitas de pipoca, bulas de vitamina, suplementos agrícolas, jornais de turfe, cardápios argentinos, catálogos de modo, dicionários de mineralogia, revistas de aviação.
* É fugir dos economistas, ideólogos disfarçados de cientistas que, através da imprensa, empulham o Brasil há quase vinte anos. A ideologia deles: abrir uma consultoria ou um banco assim que saírem do governo.
* É dividir os fatos e seres do universo, passados e presentes, em duas categorias: os que rendem matéria e os que não.
* É ouvir todos e decidir sozinho.
* É ter um bom balaio de lugares-comuns (et un compartiment secret avec les vrais trucs de métier).
* É não esquecer quem ajudou a revista nas horas difíceis, mesmo depois de anos de afastamento.
* É lastimar não ter seguido o conselho de João Gilberto: durante a Rio 92, quando o tiroteio contra Collor, e as suas reações, eram abomináveis, dar uma capa com o Dalai Lama, que visitava o Brasil.
* É raramente, ao acaso, sem saber, exercer o poder. Passear na avenida Paulista e se abespinhar com a invasão dos camelôs. Na semana seguinte, na Vejinha, publicar quatro páginas contando que são mais de quatrocentos deles e responsabilizar o prefeito pela sujeira. Um dia depois da publicação, a guarda municipal expulsa os camelôs e ocupa a avenida. A cidade melhora. Quatrocentas pessoas perdem o ganha-pão.
* É passar boa parte do dia no telefone. Procurando quem passe notícias e dê idéias para a próxima edição. Discutindo com quem reclama de injustiças e erros da edição passada.
* É não confiar em ninguém fora da família.
* É ter uma boa lista de inimigos. Botar nela apenas os que tentaram ferir, os fortes, os poderosos. Concorrente que fala mal em mesa de bar, por exemplo, não conta.
* É fazer ver aos inimigos que um dia, num futuro brumoso, eles estarão tranqüilos, esquecidos...
* É sentir, na madrugada de sábado, depois de fechar uma edição com reportagens exclusivas, títulos criativos, capa bonita -- sentir algo parecido com a alegria.
* É constatar, na noite do mesmo sábado, afundando constrangido na cadeira do cinema, que aquela droga passando na tela está com três páginas elogiosas na edição que deu alegria.
* É não manter relações com anunciantes e publicitários. Eles lá, nós cá. Igreja e Estado.
* É manter boas relações com a gráfica. Na hora do atraso, é preciso contar com ela, só com ela.
* É não perder de vista que as pessoas se aproximam, gostam e querem ficar amigas do cargo, e não da pessoa que o exerce.
* É procurar enxergar o interesse. Ele sempre existe e, no mais das vezes, é material: o interesse do artista, do criminoso, do padre, daquele que foge e que procura o jornalista. E saber que a maior parte das notícias independe das motivações de seus protagonistas.
* É não deixar que se publiquem palavrões e fotos de gente pelada.
* É juntar casos de notícias, retalhos de informação, pedaços de memória, estilhaços de estilo, e reapresentá-los em setenta páginas de texto, tabelas, fotos, gráficos, ilustrações.
* É ter um acordo com o patrão quanto ao que fazer no atacado e divergir no varejo.
* É ter uma relação profissional e objetiva com o patrão. Uma relação que, por implicar em franqueza e discordância, oferece pouco espaço para a amizade.
* É considerar um erro que a quarta maior revista semanal de notícias do mundo em circulação, Veja, tenha um lucro maior que Time, Newsweek e US News.
* É reconhecer que há pouquíssimos empregos tão bons e divertidos quanto este.
* É saber que a semana passará,
que a próxima edição será impressa, que todo
esforço se perderá, que ninguém lembrará de
nada, nunca; e justamente por isso é preciso fazer o melhor possível
e recomeçar na segunda-feira.
JORNALISMO É...tem artigos de Boris Casoy, Célia Pardi,
Cláudia de Souza, Diléa Frate, Jânio de Freitas, José
Nêumane Pinto, Juca Kfouri, Lillian Witte Fibe, Luiz Nassif, Ricardo
Noblat, Ricardo Setti, Salomão Esper, Sandro Vaia, Sonia Racy, Zuenir
Ventura e Nemércio Nogueira.