PROFISSÃO:REPÓRTER

e n t r e v i s t a

CHICO OTÁVIO
Repórter especial de O Globo, dez prêmios
de jornalismo, incluindo o Esso 2002


(Foto:www.gersonmartins.jor.br)

PERFIL RÁPIDO


Nome completo: Francisco Otavio Archila da Costa

Idade e local de nascimento: 40 anos (20-03-1962), Rio de Janeiro

Veículos em que trabalhou e funções: jornais ÚLTIMA HORA, O PAÍS, O ESTADO DE S.PAULO (sucursal Rio) e O GLOBO, todos como repórter, além de assessor de imprensa do Sindicato dos Securitários do Rio de Janeiro;

Prêmios recebidos: I Prêmio Previdência Social de Jornalismo (1998), I
Prêmio Cláudio Cláudio Abramo de Jornalismo (2000), VII Prêmio Abrelpe de
Reportagem (2002), Prêmio Esso de Reportagem (1999 e 2001), Prêmio Esso de Informação Econômica (2001), Prêmio Esso de Informação Científica (2002) e Prêmio Esso de Jornalismo (2002). Também fiz parte da equipe que ganhou o Prêmio Esso de Contribuição à Imprensa e o Prêmio Ayrton Senna (categoria mídia impressa) em 2001.

Outras atividades: professor do Departamento de Comunicação Social da
UniverCidade (unidade Ipanema)
 
 
 

A ENTREVISTA

(Perguntas de Luiz Maklouf Carvalho, por e-mail, respondidas em 9 de janeiro de 2003)
 

Como nasceu a pauta da reportagem "Sentenças Suspeitas" - vencedora do
Prêmio Esso de Jornalismo de 2002?

Tudo começou por um grampo telefônico. Com autorização judicial, a
Polícia gravou conversas do banqueiro Alberto Cacciola durante as
investigações sobre o Marka. Um dos diálogos tratava da venda de sentenças.
Cacciola conta a uma funcionária que fora procurado por um advogado carioca, que lhe ofereceu a possibilidade de anulação da busca e apreensão feita em seu banco. O advogado disse que tinha influência no Tribunal Regional Federal do Rio de Janeiro.
Fiquei com isso na cabeça durante dois anos.
Procurei descobrir quem eram os contatos do advogado no TRF. Nessa busca,
topei com uma grande investigação interna, que envolvia exatamente os juízes
com os quais ele se relacionava. Meu colega, Bernardo de la Peña, tinha
outros dados que fortaleciam a idéia de que não se tratava apenas do ato
isolado de um advogado espertalhão. O trabalho cresceu, razão pela qual
montamos uma equipe e abrimos várias frentes de apuração, inclusive no
Espírito Santo.

Como é que a matéria foi sendo feita e quais as maiores dificuldades que
enfrentou?

A maior de todas as dificuldades foi entender a linguagem
jurídica. Isso era essencial, uma vez que o negócio com as sentenças só
funcionava porque usava as brechas que a própria legislação oferecia. Muitas
decisões produzidas por esse esquema eram escondidas atrás de termos
extremamente técnicos, textos empolados. Procurei convencer alguns
especialistas, do primeiro time do mundo jurídico, a ajudar na "tradução"
deste material. Sem modéstia, posso dizer que li centenas de páginas de
processos, todos públicos, à disposição de qualquer um, e fiquei
impressionado ao constatar como era fácil burlar a lei, principalmente na
distribuição de pedidos de liminar. Hoje, a situação mudou. Foram criados
novos mecanismos para evitar a burla. Outra dificuldade foi o
corporativismo. Alguns juízes, infelizmente, não entenderam que as denúncias
estavam focadas em três magistrados e não em todo o Judiciário.

Como é que se articulou o trabalho em equipe durante a execução da matéria?

Sempre apostei alto no trabalho em equipe. Alguns dos meus
melhores amigos foram, num primeiro momento, parceiros de reportagens. A
participação do Bernardo era mais do que prevista, pelo conhecimento que ele
tinha do caso, a relação de amizade e a vontade demonstrada. Renato Garcia
foi agregado pela experiência, principalmente no que diz respeito aos
processos ligados à área de polícia. Fiquei muito feliz quando ele topou,
pois nos deu mais segurança. Mas a grata surpresa foi a contribuição do
Rodrigo Rangel, correspondente em Vitória, lugar de origem de boa parte dos
casos investigados. Apesar da pouca idade, ele surpreendeu pela maturidade e
pelo cuidado na apuração. Para mim, Rodrigo é uma das grandes revelações da
geração que está chegando.

O que acha do tratamento que a mídia brasileira dá, de maneira geral, ao
Poder Judiciário?

Desde o início dos anos 90, com a descoberta do envolvimento dos
juízes com a máfia da Previdência, vem crescendo o interesse da mídia pelos
problemas internos do aparelho judiciário. Neste aspecto, é preciso
reconhecer que o próprio Judiciário tem agido com mais rigor nos casos de
corrupção interna e se esforça para encurtar a distância que ainda o separa
da opinião pública (fosso aberto em duas décadas de ditadura militar no
país). Pena que essa abertura ocorra no momento em que as redações enxugam
as suas equipes e acabam com os setoristas nos tribunais. Sem repórteres
especializados, fica muito mais difícil entender o funcionamento do aparelho
judicial.

Como vê a quantidade de ações judiciais contra órgãos da mídia e as
sentenças que ultimamente tem sido proferidas contra vários jornalistas?

É justo e democrático o direito de qualquer cidadão buscar na
Justiça a reparação por um dano moral que julgar ter sido causado pela
mídia. Até porque não existem instituições infalíveis. Mas há exagero ou,
para usar um termo jurídico, litigância de má fé. O que se busca, na
verdade, não é a reparação, mas a indenização, muitas vezes sustentada por
pedidos absurdos, sem amparo legal. Funciona como uma loteria. Se o cidadão
não leva, basta jogar o bilhete no lixo. É lamentável e obriga as empresas a
montarem grandes aparatos jurídicos. A Justiça tinha de punir a litigância
de má fé e rever os valores das indenizações. Grandes jornais são capazes de
suportar o ônus de uma indenização milionária, mas uma sentença contra um
pequeno jornal do interior pode representar o seu colapso financeiro e o fim
da liberdade de imprensa naquele lugar.

Você, pessoalmente, responde a processos? Como os encara e em que pé estão?

Se os autores não recorreram, no momento não respondo a qualquer
processo. Mas já fui, algumas vezes, acionado por conta do meu trabalho. Se
o repórter está seguro do que publicou, não há razão para temores.

A preocupação com a eventualidade de processos dificulta a sua atuação como repórter? Em quê? E como enfrenta essa situação?

 A chamada indústria do dano moral mudou a rotina do repórter,
principalmente em reportagens mais profundas. No meu caso, posso afirmar que a chefe do Departamento Jurídico do jornal onde trabalho virou uma parceira em certas matérias. Quando necessário, ela acompanha todas as etapas do trabalho. Lê, dá opiniões, faz ressalvas, sem qualquer prejuízo para o
conteúdo. Costumo brincar, dizendo que ela virou repórter. Além disso,
procuro gravar o importante e recolher a maior quantidade possível de
documentos, que são ordenados por assunto, com cópias que ficam arquivadas
no Jurídico. Com esse cuidado, sempre estamos prontos para enfrentar uma
demanda judicial. Acho que isso faz parte do jogo. Para mim, é uma
preocupação obrigatória. Só serve para melhorar a qualidade da apuração.

Como, quando, onde e porque escolheu a profissão? Faria a mesma escolha nos dias de hoje?

Entrei para a faculdade, em 1980, disposto a ser publicitário. No
ano seguinte, já estava estagiando como artefinalista no BOM DIA, um jornal
de bairro da Barra da Tijuca e Jacarepaguá. Certa ocasião, faltou repórter
para cobrir os bailes de carnaval na região e perguntaram se eu poderia
quebrar o galho. Topei e, desde então, nunca mais parei. Não me vejo em
outra atividade. Sou completamente apaixonado por minha profissão.

Quais as lembranças boas e ruins dos primeiros anos de carreira e em que
veículos?

Como repórter do BOM DIA, entrevistei um amargurado Lúcio Costa,
que protestava contra as alterações em seu plano piloto para a Barra da
Tijuca. Encontrei-o numa modesta sala que ocupava na Administração Regional do bairro. Foi uma das melhores coisas que fiz no início da carreira. Mas, na mesma época e no mesmo jornal, fui credenciado para cobrir o festival do Riocentro, em 1981. Estava nos camarins do evento, com o repórter-fotográfico e grande amigo Fernando Maia (hoje, no GLOBO), quando fui informado de que
uma bomba explodira no estacionamento. Corremos para o local e ainda deu
para sentir o cheiro de pólvora no ar. Dei de cara com o corpo do sargento,
em estado lamentável do abdome para baixo.  Não havia nem cordão de
isolamento junto ao Puma. Fiquei perplexo. Era o primeiro corpo que eu via
nessas condições. Na época, muito novo, não escrevi uma linha sobre o caso.
E o Fernando não fez a foto. Fiquei muito frustrado depois. Dezoito anos
mais tarde, ganharia o meu primeiro Prêmio Esso justamente retomando o
episódio. Acho que, de certa forma, paguei a minha dívida.

Em qual matéria/apuração você sentiu que era mesmo do ramo?

O prazer de escrever para jornal apareceu logo no primeiro
instante. Percebi, no entusiasmo de cobrir os blocos de sujo e bandinhas nas
ruas ainda rurais de Jacarepaguá, o prazer de ser repórter.

Qual foi o primeiro prêmio de jornalismo que ganhou, como é que foi a
matéria e que significado teve para a sua carreira?

Os dez prêmios de minha carreira só surgiram depois que me
transferi para o GLOBO. Não posso negar que dei um salto com essa mudança,
embora julgasse ter feito um trabalho consistente no Estadão, que incluiu a
cobertura da Rio-92 e os escândalos dos Precatórios e do Orçamento. O
primeiro prêmio foi dado à primeira reportagem que assinei em O GLOBO, em
1997, mostrando que os fraudadores da Previdência continuavam a lucrar,
mesmo presos, com os bens adquiridos com o dinheiro desviado. Com essa
matéria, ganhei o I Prêmio Previdência Social de Jornalismo no ano seguinte.
Nunca esteve entre os prêmios tradicionais, mas teve um grande peso na minha
carreira.

Seu primeiro prêmio Esso de reportagem foi a série sobre o Riocentro, com Ascânio Seleme e Amaury Ribeiro Júnior. Qual é a história dessa matéria e como é que ela foi feita?

A série surgiu de uma decisão que quase passa despercebida. Depois
de receber depoimentos sobre o caso colhidos pela Comissão de Direitos
Humanos da Câmara dos Deputados, o Ministério Público Federal julgou haver
ali novas provas e deu um parecer pela reabertura do IPM. Nosso trabalho
começou com este parecer.  Cada um cumpriu um papel importante. Li tudo que
obtive sobre o caso, entre matéria de época, livros e peças do primeiro IPM,
para montar uma estratégia de apuração que apresentasse as novidades. Em
Brasília, o Ascânio cuidou do Ministério Público Militar. E o Amaury, sempre
brilhante, circulou pelo país a procura dos principais personagens.

Em 2001, você e o Rubens Valente levaram o Esso com a matéria sobre a Legião da Boa Vontade. Como é que ela foi feita?

A redação já tinha conhecimento de denúncias contra a LBV quando
recebemos uma carta-anônima, incrivelmente consistente, com mais informações sobre o destino dado ao dinheiro dos doadores.
Esta carta serviu de base
para o trabalho desenvolvido. As informações que continha foram confirmadas
com documentos colhidos em cartórios e órgãos públicos, além de depoimentos
e auditorias que tinham com alvo as contas da Legião. Lamentavelmente, em
vez de defender-se, a LBV preferiu espalhar contra informações e, para a
nossa surpresa, tentou tirar o GLOBO de circulação de todas as capitais do
país (com exceção do Rio de Janeiro) no dia em que publicamos a primeira da
série de reportagens. Legionários foram às bancas de jornal e compraram
todos os exemplares em lugares como Porto Alegre, Brasília e Recife.

Também em 2001, você ganhou, com o Boechat e o Bernardo de la Peña, o Esso de Informação Econômica pela matéria "Sinal Verde para o contrabando"? Como é que foi?

Boechat recebeu um dossiê sobre as brechas usadas por
contrabandistas para burlar o sistema aduaneiro (sobre as quais eu também
tinha conhecimento) e nos pediu para destrinchá-lo. Ele ficou coordenando
todo o trabalho. É um cara incrível, que surpreende pelo entusiasmo, mesmo
dividindo o tempo com a coluna. Li cada página do documento e procurei ajuda de especialistas para entender melhor o que estava ali. Apesar disso, o
desmentido do Everardo Maciel foi tão grande que teve de ser encadernado.
Mesmo assim, o sistema foi mudado depois que publicamos a série. Posso dizer
que, depois da matéria, passei a entender o modelo alfandegário desde Dom
João VI até a abertura da economia no Governo Collor. Aliás, a história é
bem interessante.

O trabalho de equipe - método muito pouco utilizado nas redações - está
sempre presente em suas reportagens. Qual a importância da equipe e quais são os segredos para que ela funcione bem?

Como a revolução tecnológica encurtou distâncias, as fraudes se
sofisticaram e se espraiaram. Fica difícil, para um repórter solitário,
apurar uma matéria que envolva fraudes complexas e sem endereço fixo, por
exemplo, dentro dos prazos sempre apertados impostos pela redação. Ele teria
de percorrer muitos lugares e entender de muita coisa diferente. Essa é uma
das razões da opção pelo trabalho em equipe. Mas não é a única. Quando o
grupo é afinado, ele ganha também pela troca de opiniões. Gosto de valorizar
o empenho. Quando um colega está chateado, porque a sua apuração não se
mostrou promissora, vem o outro, com um resultado melhor, para animá-lo.
Isso aconteceu comigo muitas vezes em projetos que dividi com meus colegas.

Qual é a importância da leitura na sua formação de jornalista? E qual a sua lista dos dez melhores livros?

É tudo. Sem perceber, você sente mais facilidade no ato, difícil
para muitos, de escrever. Na literatura brasileira, os que mais me marcaram
foram "Os Sertões", "Dom Casmurro", "Grande sertão, veredas", "Sagarana",
"Triste fim de Policarpo Quaresma", e "O Tempo e o Vento", além da edição
das crônicas de Nelson Rodrigues. Estou lendo, agora, a prosa seleta de Lima
Barreto. Especificamente na nossa área,  "A Regra do Jogo" (memórias de
Cláudio Abramo ), "Minha Razão de Viver" e "O Reino e o poder - uma história
do New York Times".

Quais são os seus principais métodos de trabalho como repórter e que métodos você não usa?

A apuração resolve qualquer problema. Se bem feita, ela serve para
consolidar um projeto ou oferece os argumentos necessários para derrubá-lo,
o que também é importante. Portanto, é a etapa fundamental do trabalho do
repórter, sobre o qual concentro o melhor dos meus esforços. Sobre os
métodos que não uso, cito dois: esconder a minha condição de repórter para
obter uma informação ou cometer um ato ilícito para provar outro. Respeito,
contudo, os profissionais que pensam diferente.

Como é o seu dia-a-dia na redação de O GLOBO? Muita encrenca com as chefias? Como você as administra?

Sem demagogia, tenho uma boa relação com as minhas chefes (é no
feminino, mesmo, porque são só mulheres). Vez por outra, lógico, aparece um
probleminha, mas absolutamente normal em nosso dia-a-dia. Atuo como qualquer outro repórter. Faço plantão, cubro as visitas presidenciais, a campanha eleitoral, ajudo no fechamento. A rotina não é leve. Mas, quando surge uma chance, elas me liberam para fazer um trabalho mais profundo.

O furo de reportagem vale uma missa? Quais aqueles que você mais preza?

Na era do jornalismo em tempo real, o furo está cada vez mais
raro. os repórteres são orientados a passar flashes a cada instante. O que
apuram vai para a Internet em poucos minutos. Todo mundo tem acesso.
Encurtar a distância entre o fato e seu conhecimento passou a ser tão
importante quanto o furo. Mas a minha geração se acostumou a ver o furo como um grande êxito, principalmente quando ele repercute, provoca reações e é suitado pela concorrência. Honestamente, acho que ainda estou devendo um grande furo.

A quantas anda a questão da ética profissional na mídia de maneira geral?

A luta pelo reconhecimento do diploma imobilizou as nossas
entidades de classe em outros debates. Não vejo grandes avanços no debate
sobre a ética, mas acho que, inevitavelmente, teremos de encará-lo. A falta
de cuidado, a fobia pela velocidade, a concorrência, a briga por espaço num
mercado restrito têm levado a mídia a cometer alguns exageros. Temos
comissões de ética nos sindicatos que não funcionam. O resultado é que o
controle do nosso trabalho está sendo exercido pelo Judiciário, que ocupou o
vácuo.

Quais foram as mais difíceis questões éticas que você enfrentou - e como
resolveu?

Certa ocasião, tive acesso a uma decisão que fecharia seis grandes
estabelecimentos públicos porque os atos de nomeação de seus gestores eram
ilegais. Assumi com a fonte o compromisso de só publicar em determinado dia.
Mas um colunista soube antes e os meus editores solicitaram que eu
escrevesse a matéria em conjunto com o colega e a publicasse antes do prazo
acertado. A fonte não concordou e, mesmo muito pressionado internamente,
mantive a minha posição. Fiquei muito preocupado com o efeito de minha
decisão. Em tese, tinha uma matéria apurada e me recusara a escrevê-la. Mas
os editores entenderam a minha posição e a matéria não saiu.

Quem fez/faz a sua cabeça, no melhor sentido da expressão?

Muita gente boa. Fica difícil apontar todos. Só para citar um,
fiquei contente ao apertar a mão, na noite de entrega do último Prêmio Esso,
do José Hamilton Ribeiro, uma referência no meu trabalho.

O que é jornalismo investigativo para você?

Um modelo de jornalismo repleto de bons serviços prestados à
democracia. Basta fazer um balanço do passado recente. Esses resultados nos
credenciam a lutar por mais liberdade de ação. Ter, por exemplo, acesso a
documentos públicos, um dos principais objetivos de uma associação que está
sendo criada por jornalistas brasileiros.

A imprensa, de maneira geral, continua a meter aspas em declarações off de record. Também continua a usar, além da conta, o futuro do pretérito. Como vê as duas questões?

No jornal onde trabalho, é vetada a publicação de acusações de
fontes em off. Mas, não havendo exagero, não sou contra as aspas em
declarações off de record. Sempre procurei evitar esse tipo de recurso, mas
há situações em que ele é inevitável e deve ser usado com responsabilidade.
Quanto ao futuro do pretérito, concordo com a crítica sobre o uso além da
conta, o que enche os leitores de dúvidas e afeta a credibilidade do
veículo.

Que balanço faz da relação mídia/FHC? E como vê o tratamento da mídia ao novo governo?

Não há como negar que, nos oito anos da era FH, houve liberdade de
imprensa. Isso é muito para um país onde já se invadiu e destruiu redações e
se assassinou jornalistas em celas públicas. Quanto às relações com o futuro
governo, acho que é cedo para falar. Cheguei a temer o patrulhamento
ideológico, quando surgissem as primeiras críticas, mas não me parece que
isso vá se concretizar.

Como é que é o professor Chico Otavio? Que matéria você leciona e como vê a disposição/interesse dos estudantes?

Dou aulas em duas disciplinas: Texto em Jornalismo Cotidiano e
Jornalismo Político. As turmas não são grandes, o que facilita o trabalho.
Comecei no semestre passado e parece que os alunos gostaram. Transformo as
aulas em debates sobre temas específicos. Preparo um roteiro, apresento o
tema e, depois, abro para debate. A participação é grande. Fico feliz quando
os alunos permanecem em sala, mesmo depois do fim da aula, para continuar a
discussão. O horário (manhã) é que não ajuda muito. Muitas vezes, saio tarde
da redação e sou obrigado a dormir pouco.
 

Como é que você usa a internet em seu trabalho de repórter? Pode dar
exemplos concretos?

Já não consigo imaginar o meu trabalho sem a internet. Na montagem do mapa
da fome no Brasil, feito pelo GLOBO depois que Lula anunciou que o programa Fome Zero seria prioridade em seu governo, usamos muito o site do IBGE. Mas, em geral, não dá para confiar integralmente nas informações encontradas na internet. Sempre que possível, é necessário cruzá-la com outras fontes.

O que vem pela frente, em termos profissionais?

Estou concluindo uma monografia sobre a Amazônia, para um curso de
pós-graduação sobre políticas públicas. O jornal mostrou-se interessado em
publicá-la. Também estou discutindo com o Amaury Ribeiro Júnior e o Rubens
Valente a publicação de um livro, que chamaríamos a princípio de
"Repórteres", com a experiência de cada um com as matérias mais importantes
que escreveu. Cada colega cuidaria de um capítulo. Queremos incluir mais
gente nesta lista.


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