1. Os aviões são feitos para voar
O Fairchild F-227 decolou às
8h05 do dia 13 de outubro de 1972
com destino a Santiago. Mas
os Andes estavam no caminho
Quando acordou aturdido de seu primeiro passeio pela morte um coma de três dias no chão gelado dos destroços de um avião bimotor perdido nos Andes , o garotão boa-vida Fernando Parrado, 22 anos, teve uma única certeza: a de que morreria de novo e para sempre. Ele e seus então 28 companheiros de odisséia os que haviam sobrado, muitos deles feridos, de um dos desastres mais espetaculares da história moderna da aviação.
O Fairchild F-227, da Força Aérea Uruguaia, espatifou-se contra os Andes na tarde de uma sexta-feira 13, outubro de 1972. Parrado morreu mais algumas vezes nos 72 dias em que ficaram perdidos nas montanhas, mas o fato é que os Andes perderam a parada.
Nando já havia voado uma dezena de vezes, e o vôo do Fairchild seria, portanto, apenas mais um, para Santiago, Chile, onde ele e os amigos do time de rúgbi Cristãos Velhos pretendiam passear e fazer sucesso com las chicas. A 12 de outubro, quinta-feira, o pai foi levá-los cedinho ao Aeroporto de Carrasco a ele e à mãe, Eugênia, e a irmã, Suzana, que também embarcaram.
O bimotor decolou às 8h05, levando 40 passageiros (o time completo, além de amigos e parentes), cinco tripulantes e a bagagem. O comandante, coronel Julio César Ferradas, e o co-piloto, tenente Dante Hector Lagurara, planejavam um vôo direto, coisa de quatro horas, a última das quais sobre os Andes, onde as montanhas atingem uma altura média de quatro mil metros.
Já entrando nos Andes, Lagurara viu que o mau tempo tornava mais sensato levar o Fairchild para o aeroporto de Mendoza, em território argentino. Os rapazes não gostaram muito, mas aproveitaram a escala, agitando os hotéis, as lojas e os restaurantes de Mendoza, onde pernoitaram.
Voar me fascinava, conta Nando, lembrando que o vôo até Mendoza foi perfeito, e que a mãe comprou, num bazar, uns sapatinhos vermelhos um regalo para o primeiro netinho, filho de Graciela.
Lagurara decolou de Mendoza às 14h18 da sexta, 13, e subiu a seis mil metros, voando na chamada linha de neve-perpétua.
Às 15h21 informou ao Controle do Tráfego Aéreo, em Santiago, que sobrevoava o Desfiladeiro de Planchón.
Às 15h24 avisou que estava sobre a cidade de Curicó, no Chile.
Às 15h30 informou que sua altura era de cinco mil metros e silenciou para sempre.
Recordo todo o vôo com perfeição. Os lagos gelados que vimos, o tempo perfeito. Mas quando entramos sobre as montanhas começou a ficar nublado. O vôo ficou um pouco agitado. Depois começou uma turbulência mais forte, com quedas bruscas. Mas até aí nada que me fizesse pensar que iria acontecer algo já que os aviões são feitos para voar.
Eu estava na janela, mas havia acabado de trocar o lugar com Panchito. Estava exatamente embaixo da asa. Mamãe e Suzana estavam sentadas à direita.
À certa altura olhamos pela janela e nesse momento me dei conta de que estávamos com um problema terrível. Foi muito rápido. Porque vimos umas paredes negras, escuras, muito próximas da asa esquerda, não sei precisar quanto. O avião já havia começado a descer. No momento em que vimos a parede à esquerda, sentimos o motor forçando. Três ou quatro segundos depois houve o impacto.
Como foi esse momento?
Que momento... É mais rápido do que a mente pode conceber. Lembro do ruído, do avião que se parte em cima de mim, e depois o negro total. Já não sentia absolutamente nada. Acordei três dias depois.
2. Descendo a cortina de fumaça
A ordem era sobreviver, não se emocionar
O Fairchild esmigalhou a asa direita contra a parede escura da montanha. A fuselagem corcoveou e a cauda soltou-se no ar gélido, levando os cinco primeiros mortos. A asa esquerda partiu-se e uma pá da hélice rompeu a fuselagem antes que o avião desabasse e encontrasse, no lugar de um provável pedaço de rocha, a maciez de um manto de neve.
A sorte foi fundamental , diz Nando. Além de resistir ao impacto, o avião encontrou uma inclinação livre de obstáculos. Pousou, a 300 quilômetros por hora, sem asas, sem cauda, sem comando, sem nada.
Nando foi lançado do assento e caiu sem sentidos na frente do avião o rosto sangrando, a cabeça inchada, dado como morto pelos estudantes de Medicina Roberto Canessa e Gustavo Zerbino, os primeiros a socorrer os feridos e os quase-mortos. Sua mãe, Eugênia, estava morta, o corpo esmagado. A irmã, Suzana, estava muito ferida. O amigo Panchito Abal não estava melhor.
Ferrara estava morto. Lagurara debatia-se no assento, sem chances. Dos 45, sobraram 32 para o terror da primeira noite e dos próximos dias, a maior parte ferida.
Nando ressuscitou ao terceiro dia:
Não despertei de um golpe, porque vinha de outra galáxia. Lembro que primeiro tentei falar e não consegui. Perguntei por minha mãe e minha irmã. Não havia tempo para sentimentos. Tratei de me recuperar para estar com Suzana.
Suzana morreu na oitava noite, abraçada a ele: Não havia socorro. Ela esteve sempre num estado de semiconsciência, querendo sair para a vida, mas sem conseguir arrancar...
Eu decidi, naquela hora, que não tinha tempo para pensar em sentimentalismo. Não é o lugar, disse. Não posso perder energias no sofrimento. Vou gastar tudo o que tenho para sair desse lugar.
Coloquei uma cortina de aço inoxidável na parte afetiva da minha mente. Essa parte não funcionou. Não tive um segundo de lamento. Queria sair, voltar para o meu pai e dizer: eu estou vivo!
3. A sede, tortura maior que o frio
As bocas são destruídas pelo clima
Lê-se no livro de Piers Paul Read sobre o acidente que o que sobrou do Fairchild estava aproximadamente a 3.500 metros de altura, semi-enterrado num declive da neve, entre o vulcão Tinguiririca, no Chile, e o Cerro Sosneado, na Argentina. Seu nariz curvo apontava para o vale, que desaparecia como um precipício para o leste. Em todas as outras direções, além do tapete de neve, erguiam-se barreiras e montanhas.
Marcelo Pérez, o capitão do time de rúgbi, fez um balanço de toda a alimentação: 7 garrafas e meia de destilados; 13 barras de chocolate; alguns caramelos, tâmaras e ameixas; um pacote de biscoitos; duas latas de mexilhões; três compotas de geléia. Decidiram por um racionamento radical.
Nando Parrado conta:
As noites eram longas, o vento não deixava ninguém dormir. Estávamos amontoados ali, com muito frio, com feridos que gritavam, com muita fome e muita sede. Há gelo lá fora, mas a sede foi o mais difícil para nós. A grandes alturas o corpo se desidrata muito mais e necessita de pelo menos dois litros diários por pessoa. Nós precisaríamos no mínimo de 50 litros mas como se pode fabricar 50 litros de água com temperatura média de 20 graus abaixo de zero?
Só existe uma forma: comer o gelo. Mas todas as bocas estão destruídas pelo frio e pelo vento. Já não se pode falar, porque dói muito e os lábios se partem.
Levávamos cinco horas para fazer um litro, enfiando gelo numa garrafa e apertando-a contra o corpo. Produzíamos dois ou três litros por dia. A sede foi uma tortura constante.
4. "Vou cortar a carne do piloto"
É preciso viver: surge a idéia do canibalismo
Dividiram-se em equipes de trabalho. Roberto Canessa e Gustavo Zerbino então no primeiro ano de Medicina dedicaram-se aos cuidados médicos com a ajuda desprendida da única mulher que restara viva, Liliana Methol, 35 anos, mãe de quatro filhos e esposa de Javier Methol. O casal embarcara no Fairchild para uma segunda lua-de-mel mas agora Javier estava mal, e Liliana, além de cuidar dele, passou a ser a mãe dedicada e carinhosa de todos.
Uma outra equipe Roy Harley, Carlito Páez, Diego Storm, Gustavo Nicolich cuidava de manter em ordem o exíguo espaço que sobrara; e uma outra, coordenada por Fito Strauch, fazia o que podia para produzir água. Às vezes, quando havia sol, a neve era colocada em improvisadas tigelas de alumínio retirado da costa dos assentos, aumentando a produção em mais algumas gotas.
Nando ajudava em tudo mas estava fanatizado pela idéia de sair.
Eu passava o dia estudando rotas de saída das montanhas; sabia que estávamos completamente rodeados por elas.
Read registra em seu livro que no quarto dia, segunda-feira, Nando confessou a Carlito Páez sua determinação de voltar à civilização a qualquer custo botando para fora, pela primeira vez, uma idéia que já vinha matutando desde que se inteirou da situação real. Travaram o seguinte diálogo:
Carlito É impossível sair. Você congelaria até morrer.
Nando Não se eu usar bastante roupa.
Carlito Então poderia morrer de fome. Não pode subir montanhas com um pedacinho de chocolate e um gole de vinho.
Nando Então vou cortar a carne
de um dos pilotos. Afinal de contas, eles nos meteram nessa confusão.
5. "Não era gente; era alimento"
Só havia dois chocolates. E os corpos dos mortos
O JT pergunta a Nando: Alguns dos rapazes alimentaram esperanças de um resgate e você, não. Por quê?
Eu tinha lido muitos livros de aventura. Gostava de geografia. Era apaixonado pelos atlas, pelos mapas. Não era espiritual. Era mais realista, muito prático e tenaz em conseguir o que queria. Percebia que tínhamos um problema muito grave. Como iam nos encontrar se já havia passado uma semana?
JT Como nasceu na sua cabeça a idéia de comer os corpos dos mortos?
Os dias passavam e não acontecia nada. A comida estava para acabar. Tínhamos dois chocolates. Era uma questão de praticidade... Nós éramos muito amigos, e você não sabe como uma pessoa pode reagir numa situação limite em que não há comida. Pode enlouquecer. Pode...
Eu havia lido um livro sobre isso e o cérebro sempre guarda essas imagens. O livro chama-se Donnes Park. É de um americano que lá por 1800 faz uma viagem de caminhão e fica preso em pleno inverno nas montanhas da costa oeste dos Estados Unidos. Esse é um dos primeiros documentos da história moderna sobre antropofagia. Ou seja: eu já tinha alguma informação sobre isso. E creio que pode ter influído.
Tudo o que nossos olhos podiam olhar era branco... Gelo, neve... Não havia vida. Eu já havia escorraçado todo o sentimentalismo. Minha missão era sobreviver e para mim já não eram corpos humanos. Era alimento.
6. Da teoria à prática, em silêncio
Vinte tiras de carne: a comunhão
No décimo dia na montanha domingo, 22 de outubro Roy Harley achou um radiotransmissor perdido entre duas poltronas. Fez uma antena com fios dos circuitos elétricos do avião e pegou fragmentos de transmissão de rádios chilenas.
A fome estava tendo suas conseqüências registrou Read no livro.
Todo mundo começou a pensar o mesmo. Uma noite eu estava com Carlito Páez e então lhe disse:
Olha, Carlito, a única forma de sobrevivermos é utilizar o corpo das pessoas que morreram.
Carlito respondeu: há dois dias penso na mesma coisa.
Read data nesse décimo dia a primeira conversa aberta sobre o tema entre os 27 sobreviventes (cinco morreram depois da queda: quatro em decorrência de ferimentos; outro engolido por um buraco na neve). Canessa tomou a iniciativa. Argumentou que teriam de escapar sozinhos, que precisavam de força para fazê-lo, e que o único alimento disponível era carne humana. "Isto é carne, nada mais", disse, segundo Read. "As almas deixaram os corpos e estão no paraíso com Deus."
Nando recorda:
Esses argumentos foram aceitos pela maioria. Houve uns três ou quatro mais espirituais que sentiram repulsa, o que é muito compreensível. No meio da tarde daquele domingo, Canessa, Daniel Maspons, Zerbino e Fito Strauch saíram silenciosos do Fairchild.
"Quase todos os corpos estavam cobertos pela neve relata Read , mas as nádegas de um salientavam-se a alguns metros do avião. Sem dizer nada, Canessa ajoelhou-se, expôs a pele, e cortou a carne com um pedaço de vidro quebrado. Estava congelada e difícil de cortar, mas insistiu até cortar vinte tiras do tamanho de palitos de fósforo. Depois levantou-se, voltou-se e colocou-as sobre o teto do avião".
Alguns, Canessa à frente, comeram no mesmo dia. Nando, no dia seguinte.
Não é que fosse bom ou mal fazê-lo mas se tratava de romper um tabu. Simplesmente era a única solução. Eu era (e sou ) católico, como muitos deles, mas não necessitava do reforço da fé para fazê-lo. Eles, sim. Viam como a comunhão, onde se come o corpo de Cristo, uma comunhão com seus amigos, que te dão a vida.
O que há de melhor do que um presente de um amigo que te dá a vida depois da morte? Hoje pode ser um transplante. Que diferença há? Nenhum dos 16 que sobreviveram comeram carne humana pela garantia da salvação. Muitos dos que comeram, morreram também.
Então o que nos salvou não foi unicamente isso, mas uma conjunção de muitos fatores, uma peça a mais dentro de tudo o que aconteceu: a água, a roupa, a força física, a amizade. A carne humana foi uma coisa entre elas. Se qualquer uma houvesse falhado, todos teríamos morrido.
7. Fim das buscas. É preciso sair
Desespero: o rádio diz que desistiram de procurá-los
Na segunda, 23, Marcelo Pérez e Roy Harley captaram, no rádio improvisado, a pior das notícias o cancelamento oficial da busca do Fairchild. Dez dias depois de procurá-lo, em vão, a Força Aérea Chilena desistira. Parentes e amigos dos passageiros mantiveram-se firmes no esforço continuado de encontrá-los. Carlos Páez Vilaró, pintor famoso e pai de Carlito, foi um dos baluartes.
A notícia abalou a todos e diminuiu a repulsa dos que ainda resistiam a se alimentar com carne humana. Nando mantinha o pique e passou a assumir um papel cada vez mais preponderante.
Os sobreviventes já haviam tentado algumas incursões de saída sem grande sucesso. A primeira, a 17 de outubro, fracassou completamente. A segunda deu-se uma hora após ouvirem a notícia no rádio. Zerbino, Turcatti e Mapons resolveram seguir o rastro que o avião havia deixado na montanha. Andaram, enfrentaram o breu da noite numa gruta improvisada com pedras, onde tiveram de espancar-se mutuamente para manter a circulação do sangue.
Amanheceram vivos e continuaram subindo até encontrarem os restos metálicos da asa do avião, com seis corpos em torno. Resolveram voltar, acabados, e fartaram-se de grandes pedaços de carne. Read registra que pontualmente, quando conseguia fazer fogo com caixas de papelão, a equipe que cuidava do alimento tostava ligeiramente os pedaços na folha quente de alumínio, dando-lhe um sabor "imensuravelmente melhor". Só duas pessoas continuavam resistindo Liliana e Javier.