PROFISSÃO:REPÓRTER

 entrevista

ALTINO MACHADO

Perguntas de Luiz Maklouf Carvalho, Luciano Martins,

Józimo de Souza e Rubens Valente
 
 

PERFIL RÁPIDO
 

Nasci no Acre há 35 anos, no município de Cruzeiro do Sul, região mais ocidental do país, na fronteira com o Peru.
É tão distante do "Triângulo das Bermudas" (São Paulo, Rio e Brasília), que a TV, em preto e branco, chegou por
lá em 76, quando eu tinha 13 anos.

Influenciado por meu pai, quase um colecionador, encontrei no rádio o único meio para me conectar ao mundo.
Costumava desmontá-los e isso me fez sonhar com a possibilidade de ser engenheiro eletrônico.

Acredito que a influência exercida pelo rádio foi determinante para que optasse pelo jornalismo. Sentia prazer em escutar o noticiário sobre países distantes e que se tornavam fantásticos na minha imaginação.

Minhas emissoras prediletas eram: Tupi, Bandeirantes, BBC, Havana e Central de Moscou. Ainda hoje,
eventualmente, arranjo algum tempo à noite para escutar a ufania contida na abertura da Havana.

No final de 78, aos 15 anos, fui morar na capital, sob a alegação de que necessitava estudar. Mas logo me envolvi
com os movimentos políticos e culturais daquele período. Passei colaborar com poema nos jornais O Rio Branco,
Folha do Acre e A Gazeta.

Posteriormente, como julguei que era promissora a vida de jornalista, decidi ser repórter. Trabalhei em todos os
jornais locais até outubro de 88, quando ingressei no Grupo Estado como correspondente em Rio Branco,
indicado por Luciano Martins Costa, atualmente na NetEstado.

Naquele outubro, passei a escrever sobre a luta de Chico Mendes, que já era conhecido internacionalmente. Para
não dizer que todas as reportagens foram parar no lixo, o Estadão publicou uma 17 dias antes da morte do
seringueiro.

Depois fui para o Jornal do Brasil, que deu destaque para o avanço das madeireiras asiáticas sobre a reserva de mogno do
Acre. Mas relevante mesmo foi o JB publicar a reportagem revelando os quatro CPF do governador Orleir Cameli.
Dias depois, durante a madrugada, atiraram na fachada de minha casa e passaram a fazer ameaças de morte.

Posteriormente, no final de 96, uma reportagem sobre a compra de gabaritos serviu para anular o vestibular na
Universidade Federal do Acre. Diante das novas ameaças de morte, o JB decidiu me transferir, sem a família, para
Brasília, onde permaneci até agosto de 97. Ingressei na Folha de S. Paulo em setembro, para trabalhar como correspondente em Manaus, onde permaneci até agosto. Nesse curto período, o mais relevante foi convencer o jornal a publicar a primeira reportagem sobre o incêndio em Roraima.

Atualmente sou repórter do jornal A Gazeta. Não me sinto tão distante do Triângulo das Bermudas (São Paulo, Rio e Brasília) por causa de um
sofisticado notebook carregado de aplicativos para navegar na Internet, como o Real Player. Mas continuo com
meu velho rádio, um muamba, portátil, de 12 bandas.

Quando me convencer que não vale a pena ser repórter, vou cortar seringa ou criar galinha.

P.S.: sou autodidata

A ENTREVISTA


 
 

Luiz Maklouf Carvalho - Como, porque e quando você tornou-se jornalista, exatamente? Lembra a primeira matéria que fez?

Altino – Foi em 83, após considerar enfadonha uma breve carreira como ativista nos movimentos culturais acreanos. Era metido a poeta, participava como ator de um grupo de teatro amador, ajudava a criar textos de peças sobre nosso mundo e editava um caderno chamado Contexto Cultural, no jornal O Rio Branco. Eram publicadas no caderno, basicamente, as resenhas enviadas pelas editoras, os poemas e contos de autores locais. Sinceramente, não lembro qual foi a primeira reportagem. Quando uma equipe do jornal Folha do Acre pediu demissão coletiva, para formar outro jornal, apresentei-me e fui aceito. Obtive registro provisório do Ministério do Trabalho e depois o registro profissional, pois aqui não existe faculdade de comunicação.

LMC - Você é um jornalista autodidata. Como se deu essa trajetória?

Altino – Sempre fui considerado muito curioso. Na escola, quando não entendia, costumava fazer perguntas aos professores ou passava a defender meu ponto de vista. Professores adoram alunos assim. Dessa maneira, os professores me consideravam um aluno pelo menos participativo, mas eu não era de chegar em casa e mergulhar nos livros. Estava lendo outras histórias. Cansei daquele faz-de-conta. Não vislumbrava praticidade alguma no ensino. Interrompi o 2º grau para ficar livre e fazer teatro, poesia, pichar muro, organizar festivais de música etc. Posteriormente, fiz as provas do supletivo e fui aprovado. Estava com o diploma que meus pais tanto cobravam. Tentei vestibular para o curso de direito na Universidade Federal do Acre, mas fui reprovado por causa da nota obtida com a redação. Acho que isso feriu meu orgulho.

LMC - Você passou oito anos como correspondente do Estadão e do Jornal do Brasil na Amazônia. Quais foram os aspectos positivos e negativos dessa relação?

Altino – Nove anos, se incluirmos o ano que permaneci como correspondente da Folha de S. Paulo, em Manaus. Um aspecto positivo foi a oportunidade de me desfazer daquela tormentosa reprovação por causa da nota insuficiente na redação para o vestibular. Além disso, o trabalho de correspondente me possibilitou a oportunidade de trocar experiências e até ser respeitado por profissionais que admirava. Outro aspecto positivo foi servir a setores honestos da sociedade, que tiveram a oportunidade de levantar a voz por intermédio do meu trabalho. O aspecto negativo é a constatação de que o espaço para reportagens sobre a Amazônia está diminuindo na imprensa. Também foi negativa, mas valeu como aprendizado, minha impetuosidade. Lamento que as empresas exijam dos correspondentes uma cobertura isenta dos fatos nas regiões, mas não ofereçam salvaguarda. A Amazônia é uma região que atrai muitos aventureiros, gente envolvida com toda sorte de crime, que não gosta de ser questionada por jornalistas.

LMC - Que matérias considera mais importantes entre aquelas que fez?

Altino – Vou citar apenas quatro. Trabalhei no Estadão de 88 a 93. A primeira reportagem que foi publicada, após muita insistência de minha parte, ocorreu 12 dias antes do assassinato de Chico Mendes. Ele denunciava que a Polícia Federal planejava assassiná-lo. No jornal, as pessoas não sabiam quem era aquele seringueiro, que acusava o então superintendente da PF no Acre, Mauro Spósito, de participar de um complô para assassiná-lo. Quando Chico Mendes morreu na primeira página do jornal The New York Times, a imprensa brasileira correu para acompanhar seu enterro em Xapuri. Hoje, passados 10 anos, a cabeça da cobra continua impune.

Outra matéria importante foi revelar que o governador Orleir Cameli, do Acre, usava quatro registros falsos de CPF, supostamente para sonegar impostos. Também escrevi,ano passado, em Brasília, sobre a existência de um relatório do Incra, revelando que avaliações da superintendência de Tocantins elevaram em até 300% preços de áreas destinadas à reforma agrária. A mais recente, em março, foi sobre o megaincêndio em Roraima.

LMC - Como vê o tratamento que a mídia brasileira dispensa hoje à Amazônia?

Altino – É um tratamento equivocado. Na realidade a Amazônia não está merecendo tratamento da mídia. Os jornais estão preferindo, na eventualidade de algum fato relevante, fazer a apuração pelo telefone, direto de suas redações no Rio, Brasília ou São Paulo. No momento, apenas a Folha mantém um repórter para a cobertura de toda a região. Isso é humanamente impossível. Os demais contratam "frilas". A situação evidencia uma certa irresponsabilidade da mídia. Os jornais se esforçam para ignorar a influência que a opinião pública brasileira tem a desempenhar no destino da região. Mas a vida segue. Vamos torcer para que a mídia brasileira não tenha que correr, trôpega, ao enterro da região.

LMC - Volta e meia você tem sido ameaçado por conta do seu trabalho profissional. Quando essas ameaças começaram, porque, quais foram e como estão as coisas hoje em dia?

Altino – As ameaças mais recentes começaram após a publicação da reportagem sobre os quatro CPF do governador. Chegaram a atirar na fachada da minha casa, além das ameaças de morte. É algo comum por aqui. A situação ficou mais perigosa quando escrevi uma série de reportagens para o JB sobre os grupos de extermínio no Acre e sobre a compra dos gabaritos do vestibular da universidade por políticos da região. Tive que sair do Acre e passar nove meses em Brasília, no JB. Depois, fui ser correspondente da Folha, no Amazonas, durante um ano. Agora a situação aparenta estar sob controle com o governador eleito Jorge Viana, do PT.

LMC - Que tipo de solidariedade você recebeu das empresas em que trabalhou no período em que esteve ameaçado de morte? E da categoria?

Altino – Nesses anos, o jornal mais solidário foi o Estadão. Após o assassinato do governador Edmundo Pinto, em São Paulo, o jornal me transferiu com a família para Brasília e depois para Goiânia, mas depois fui demitido juntamente com outros repórteres. A solidariedade da categoria se limita àquelas notas distribuídas pela Federação Nacional dos Jornalistas e nada mais. A categoria até hoje nunca conseguiu criar uma rede de solidariedade para proteger jornalistas ameaçados. A maior solidariedade, que parece mais forte ou confortante, veio de alguns colegas. Nesse sentido, devo citar Élio Gaspari, Luciano Martins Costa, Antônio Alves, Xico Sá, Mário César Carvalho, Nikão Duarte, Romerito Aquino e Edílson Martins, Wagner Barreira, Edgard Lisboa e Luiz Maklouf Carvalho.

LMC - Qual é a pior coisa para um repórter dentro de uma redação?

Altino – Passei a maior parte do tempo trabalhando no escritório, em casa. Neste caso, a pior coisa é a insegurança decorrente do trabalho, dos perigos que se corre, e da instabilidade gerada pelas próprias empresas. Numa situação assim, com mulher e filhos próximos, os mesmos absorvem uma negatividade à qual não quero mais expô-los. A Folha é o único jornal que oferece, na Amazônia, escritório para o correspondente trabalhar fora de casa. Para tentar responder: talvez a pior coisa para um repórter de verdade dentro de uma redação seja o cinismo da competição desmedida ou desleal.

LMC - O que é que um repórter não pode fazer?

Altino - Mentir.

LMC - Como vê o tratamento que a mídia tem dedicado ao governo FHC?

Altino – O tratamento dispensado a alguém de casa. É evidente que a mídia não seria capaz, por exemplo, de revelar a existência de um filho ilegítimo de FHC. Mas o grampo da conversa de Luiz Mendonça de Barros com FHC sobre a privatização da Telebrás evidenciou melhor o tratamento: "A imprensa está muito favorável, com editoriais", comentou o ministro. " Está demais, né? Estão exagerando até", respondeu FHC.

LMC - Repórter tem que se identificar como repórter, sempre?

Altino – Até pode, mas correrá o risco de não ter o que contar.

LMC - Como vê a imprensa da Amazônia nos dias de hoje?

Altino – Os donos dos jornais e das emissoras de rádio e TV estão cada dia mais ricos devido a cumplicidade com os poderosos de plantão. Desde o começo da ocupação, os Estados da região amazônica possuem uma quantidade elevada de jornais. Em Rio Branco, por exemplo, onde existe uma população de aproximadamente 400 mil habitantes, existem jornais com tiragem diária inferior a 100 exemplares. Mas seus proprietários estão bem protegidos. Na Amazônia, a pauta principal continua sendo os casos de corrupção, crimes ambientais, saques às áreas indígenas e as violações aos direitos humanos. Meu amigo Edilson Martins, acreano que vive no Rio, sempre tenta me convencer a abandonar a região com o argumento de que a mesma é um sepulcro de talentos.

LMC - Quais foram os jornalistas que "fizeram a sua cabeça", no melhor sentido da expressão?

Altino – Cláudio Abramo, Paulo Francis, Luciano Martins Costa, Augusto Nunes, Zuenir Ventura e Elio Gaspari.

LMC - Quais foram os momentos que você considerou particularmente difíceis na profissão?

Altino – Ao receber o holerite e nas vezes que fui obrigado a fugir do Acre.

LMC - E os melhores momentos - ou mais engraçados, ou mais inusitados?

Altino – Trabalhar com horário de Primeiro Mundo no Acre, isto é, com três horas de diferença em relação à Brasília. Tentar convencer editores que uma apuração na região pode ser dificultada pelas distâncias. Foi especialmente engraçado o dia em que o cosmopolita Júlio Moreno, editor do Estadão, queria que eu fosse a Xapuri. Ele perguntou qual era a distância entre Rio Branco e Xapuri. Respondi que era 188 quilômetros. Moreno determinou que viajasse e escrevesse uma reportagem no mesmo dia. Argumentei que não seria possível porque a estrada era de barro e a lama impedia que o trecho fosse percorrido em menos de seis horas de viagem, com risco de não chegar. Autorizou o frete de um avião e reduziu o tempo para cumprimento da tarefa. Ficou irritado quando insisti que a viagem de avião demorava 25 minutos, mas que Xapuri não dispunha de táxi; que levaria 45 minutos da pista de pouso até o centro da cidade. Eu havia cronometrado o percurso anteriormente, durante uma viagem com o Zuenir Ventura. Moreno se convenceu e permitiu que eu mandasse a reportagem no dia seguinte.

Luciano Martins - Caro, de volta ao Acre, agora sob o governo do seu amigo Jorge Viana (PT), sua perspectiva é finalmente a de fazer reportagem sem tanto sobressalto? Como é que vai lidar com essa perspectiva, você que sempre viveu perigosamente?

Altino – Amigo, essa é a pergunta mais perturbadora da entrevista. Só tinha que vir de você, que celebrizou a máxima "perguntar não ofende", de outro jornalista, na Coluna do Estadão. Luciano, você conhece bastante a história do povo do Acre. A vitória do Jorge Viana parece uma revolução. O resultado eleitoral representa uma ruptura sem precedentes. Espero que os sobressaltos desapareçam. A eleição do Jorge ocorre 10 anos após o assassinato de Chico Mendes. Também coincide com o centenário do Estado Independente do Acre, criado por Luiz Galvez, e com o centenário da Revolução Acreana, iniciada em Xapuri, sob o comando de Plácido de Castro. Existem sinais de uma nova era com a qual temos sonhado. Trata-se do reconhecimento popular às lutas que minha geração tem travado nesse fim de mundo. Jorge Viana, Tião Viana e Marina Silva... Governador e senadores do Acre. São os meninos do PT no poder, como se diz por aqui. Compartilho da expectativa positiva que a mídia brasileira tem em relação ao governador Jorge Viana. Acho que o Acre deixará de ocupar a mídia com seus escândalos habituais. Corri perigos fazendo reportagens que influenciaram a opinião pública acreana a mudar. O PT, é natural, sempre se beneficiou disso no Estado, mas não hesitarei em viver perigosamente se for necessário.

Józimo de Sousa (editor de política de A Tribuna, Rio Branco)- Altino, em 1992, quando o governador Edmundo Pinto foi assassinado dentro de um hotel em São Paulo, você produziu uma reportagem para o jornal O Rio Branco que deu uma grande confusão, até a edição inteira do diário foi apreendida e você teve que sair às pressas do Acre, meio que fugido mesmo. O que tinha no texto e como você descobriu tanta coisa na época sobre a morte do governador? Não foi algo meio irresponsável, meio apressado, o que você escreveu?

Altino – Naquele episódio, escrevi um relatório para conhecimentos dos editores do grupo Estado dando conta que o crime poderia ter sido passional ou político. Era apenas um relato, baseado no que a maioria das pessoas falavam nas ruas. O João Lara Mesquita, diretor da Rádio Eldorado, adorou e exigiu que eu gravasse três boletins. Ponderei que as pessoas não tinham a coragem de assumir os comentários. Ele disse: "Esquece isso. Vamos gravar agora e quero que você conte, em tom coloquial, o que você sabe, o que as pessoas comentam nas ruas". O que você faria sendo pressionado por um dos donos da empresa? São dilemas, né? Você deve saber disso, pois é editor de um jornal, mas também é assessor de imprensa do Tribunal de Justiça. Nesta semana, matéria da sua editoria mereceu a manchete "Magistrados ganham salário de fome", no instante em que o governador eleito anuncia que vai combater privilégios no Estado, como o do diretor-geral do Tribunal, que ganha R$ 12 mil. Bem, mas voltando ao assunto: gravei três boletins, com a ressalva de que o momento era de comoção, que os comentários eram feitos em "off". Alguém de uma agência de notícias ouviu e fez um texto afirmativo, mais ou menos assim: "O correspondente do jornal O Estado de São Paulo no Acre, Altino Machado, afirmou que o governador Edmundo Pinto, assassinado na madrugada de hoje em São Paulo, foi vítima de crime político ou passional". E detalhava as hipóteses, sempre atribuindo a mim, afirmativamente, os comentários de terceiros aos quais eu havia me reportado com ressalvas. O texto foi parar no Correio Braziliense, onde um dos editores era amigo do Euflávio Araújo, então editor do jornal O Rio Branco, que estava preparando uma edição especial sobre o caso. O texto foi enviado por fax e editado com uma foto do governador e sua família em frente ao Palácio. Portanto, não escrevi nada para O Rio Branco, cujo proprietário pediu auxílio da polícia para retirar os jornais da banca porque era um dos suspeitos de envolvimento com o crime e não porque estava preocupado com a imagem do morto.

Em minha carreira profissional respondi a dois processos. O primeiro em relação à reportagem sobre o governador acusado de ter mantido relação sexual com uma cadela quando era vereador. O processo foi arquivado porque apresentei ao juiz o relatório do inquérito policial. O segundo processo foi movido pelo dono do jornal O Rio Branco, Narciso Mendes, o Senhor X, por causa de uma reportagem com Pedro Veras, pai do governador Edmundo Pinto, na qual suspeitava do envolvimento do empresário com o assassinato. O processo também foi arquivado.

Rubens Valente (correspondente da Folha de S. Paulo em Campo Grande) - O Brasil, jornalisticamente falando, é uma federação?

Altino – Você sabe que não é porque vive diariamente o tormento de escrever muito e ver pouca coisa publicada sobre sua região. Certa vez li um artigo do Jânio de Freitas criticando a imprensa, para quem as coisas só acontecem em Brasília, Rio ou São Paulo. O Jânio comparava as três cidades ao Triângulo das Bermudas. O que está acontecendo é que a maioria dos editores não conhece o Brasil. Saem direto das faculdades para assumir seus cargos. Aprendem algumas expressões em inglês, viajam para Nova Iorque, mas não sabem sequer se Boa Vista é a capital de Rondônia ou Roraima. Em julho aconteceu um fato relevante para a mídia brasileira. A família Frias realizou pela primeira vez uma viagem à Amazônia. Apenas Otávio Filho permaneceu em São Paulo. Acho positivo que os donos do principal jornal do país tenham conhecido um pedacinho da região.

LMC - Como vê a questão da invasão da privacidade?

Altino – Isso é complicado. Ainda não consegui formar opinião sobre o tema. É sempre tão paradoxal. Políticos costumam confundir deliberadamente o que é público e privado para obter vantagens. Enaltecemos como modelo a democracia americana, mas achamos hipocrisia quando sua mídia ajuda a devassar a privacidade de um político. No mais, são questionamentos. Quem ingressa na vida pública não deve ter privacidade? Ou só deve perdê-la após um diagnóstico de que é um maníaco? Sinceramente, não sei se existe relevância alguém escrever que alguma figura pública respondeu a inquérito policial, acusado de manter relação sexual com uma cadela.

LMC - Qual é a sua técnica de trabalho? O que considera particularmente mais difícil durante uma apuração?

Altino – Sempre necessito de uma boa dose de intuição, sorte e perseverança. Creio que a maioria dos repórteres desenvolve uma técnica para apurar cada história. O mais difícil é respeitar as diferenças, se desarmar e mergulhar fundo nos detalhes.

LMC - Você diz, no "Perfil rápido", que quando se convencer que não vale a pena ser repórter vai criar galinha. Por que vale a pena ser repórter?

Altino – O poema Tecendo a Manhã, de João Cabral de Melo Neto, é um boa resposta: "Um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos. De um que apanhe esse grito que ele e o lance a outro; de um outro galo que apanhe o grito de um galo antes e o lance a outro; e de outros galos que com muitos outros galos se cruzem os fios de sol de seus gritos de galo, para que a manhã, desde uma teia tênue, se vá tecendo, entre todos os galos. E se encorpando em tela, entre todos, se erguendo tenda, onde entrem todos, se entretendendo para todos, no toldo (a manhã) que plana livre de armação. A manhã, toldo de um tecido tão aéreo que, tecido, se eleva por si: luz balão".

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