e n t r e v i s t a
JOSÉ ROBERTO
DE ALENCAR
(Helcio Nagamine/Istoé)
Perguntas de Ariovaldo Bonas,
Fernando Mitre, José Nêumane,
Leão Serva, Luis Henrique
Amaral,
Luiz Maklouf Carvalho, Nelson
Blecher e Ricardo Setti.
PERFIL RÁPIDO
Entrei na grande imprensa em 72 e já passei por 46 redações. As mais gostosas foram as de Opinião, Movimento, Realidade, Senhor (fase Mino), Gazeta Mercantil, Jornal da República, Istoé, Folha, Estadão, Jornal do Brasil, Guia Rural da Abril e Hoje em Dia de BH.
A contragosto dirigi, mal e por pouco tempo, redações como a do Diário do Povo de Campinas, do 5 de Março de Goiânia (Fon e eu), do DCI–Visão e, interinamente, sucursais de Brasília e do Rio da Istoé e da Gazeta Mercantil.
A ENTREVISTA
Luiz Maklouf Carvalho - Como, por que e quando você escolheu ser jornalista?
Foi de nascença. Molecote, já locutava no alto-falante da pracinha de Santa Rita. E se me for dado escolher, reencarno repórter, brasileiro - e namorado de uma Guida igual.
O como ficou por conta da sorte. Não fiz faculdade. Ao sair do sanatório de Campos do Jordão em 71, fui posto por Luís Nassif na Exame. Ele me ensinou a escrever e Molina a apurar. Obtive o registro por ter escrito antes da lei (de 69) num jornaleco de Poços.
O porque é obvio: para
mudar o mundo. Busco o furo para atrair o leitor, apuro com rigor para
merecer sua confiança e escrevo caprichado para ver se o vicio em
textos. Quanto mais viciados houver em livros, revistas, jornais, manuais
de aparelhos e bulas de remédio, menos gente vai se intoxicar, levar
choque e votar em safado. Aumentarão a felicidade e o valor da vida,
pois o homem que lê vale mais – como comprova a tabela da pistolagem.
Luiz Maklouf Carvalho - Quais são os maiores inimigos de um repórter dentro de uma redação?
Não nesta ordem:
1 - O ar-condicionado. É anti-higiênico, socializa a gripe e demais mazelas, abafa os sons e o sol que vêm da rua, resseca a respiração de todos e meu olho e lente de contato.
2 - A burocracia. O mundo pegando fogo e o repórter perdendo tempo atrás de chefes que assinem papelinhos de requisição de carro, verba, fotógrafo. Pior é quando marcam até vôos e hotéis, engessando a viagem. Tenho saudades de tempos nem tão distantes. Em 84, tive de cruzar o rio Machado, na Amazônia. Os índios Urueu-au-au haviam recém-matado a família de certo Sebastião e nenhum barqueiro se animava a me levar. Comprei canoa. A Gazeta Mercantil pagou sem pedir explicações.
O Estadão (está no livro) tinha por norma não reembolsar nota fiscal com bebida. O repórter que pedisse ao garçom para botar setenta guaranás em vez dos uísques tomados pelo convidado. Em 89, inventei matéria sobre aids. Na prestação de contas, só birinaite. Pior: notas da putaria, da boca do lixo paulistana. Ninguém chiou. O Senador - como chamávamos carinhosamente o diretor de Redação, Augusto Nunes - elogiou a matéria.
Casos como esses, conto dezenas. Nenhum
desta década.
Luiz Maklouf Carvalho - Quais foram os jornalistas que fizeram a sua cabeça - no melhor sentido da expressão?
O melhor sentido da expressão é o ético. E jornalismo é, mais do que uma profissão, uma ética. Rigor na apuração é questão de ética. Clareza também. Tudo na profissão se enquadra naquele "melhor sentido da expressão". O ético.
Aprendo ética – e, conseqüentemente, jornalismo – com todo mundo. Especialmente, claro, com quem convivo: músicos, mulheres, e colegas de redação. Linotipistas como Pagoto; teletipistas como Roberto e Tupy, desces (contínuos) como João, Clelmo e Hélio (que me mandavam reescrever se não entendiam); motoristas como Luiz; telefonistas; fotógrafos (como quase todos); cartunistas como Laerte e os Carusos; diagramadores como Didi de BH.
Se, de cabeça, não faço a lista das 46 redações pelas quais passei, como vou listar, de cada uma delas, os cem ou duzentos grandes e pequenos mestres, dos quais suguei grandes ou pequenas sabedorias? Sem falar nos mestres que só conheço de nome e leitura, como Gaspari, João Ubaldo, Veríssimo, Márcio Moreira Alves, Barbosa Lima e tantos outros.
Se ao listá-los me esqueço de Cláudio Abramo, Pena Branca, Mário Alves, George Cabral, Aporelli ou Luigi Mamprim, não tem importância, pois não pretendo reencontrá-los tão cedo. Mas, já pensou se me esqueço de Maurício Benassato, de Roberto ou Renato Pompeu, de Kotscho, Ming, Mino, Fairbanks, Lachini, Kleber, Severo, Totti, Kucinski, Bonas, Negreiros, Franklin, Almeida Reis, Noblat, Setti ou Josué? Ou de Ana, a filha do Poeta José? E se não cito Biondi - enternecedor exemplo de integridade e firmeza? Nenhum deles reclamaria ou ficaria sentido. Mas eu não me perdoaria. Não, Maklouf. Não cometerei a lista ingrata.
Luiz Maklouf Carvalho - Seu livro - "Sorte e Arte - como foram feitas algumas reportagens que você leu" - é das coisas mais saborosas que o reportariado pátrio já produziu. Qual é a história do livro? Quantos exemplares vendeu? Como as pessoas podem consegui-lo?
Obrigado pelo elogio, e desculpa pela resposta comprida. A idéia surgiu quando Guida e eu, arquivando matérias minhas, começamos a rir das histórias delas. Era um furo caído do céu, uma peraltice que emplacou minha foto na manchete, uma coisa engraçada qualquer. E sorte, aquela sorte que liqüida em horas a pauta prevista para dias ou meses.
Se as pessoas gostaram das matérias, ririam mais das histórias. Lançado o livro em novembro de 93, fui no Jô Onze e Meia e dei um cacete na editora. Depois, em programas de Moacyr Japiassu e de Roberto Scaringella, baixei o pau nas distribuidoras.
Não foi a melhor estratégia de marketing. Raras livrarias tiveram o livro órfão de editora e distribuição. Da Cultura, uma dessas, amigos me trouxeram a piada. Se alguém pedia Sorte e Arte, um vendedor gritava para outro:
- Traz aquele que já vem autografado.
Na capa horrível, a ferradura
em relevo de fato lembrava um coice -- do autor.
Muito professor adotou o livro país afora, e não só de jornalismo: um de Psicologia, por considerá-lo de auto-ajuda, um de Direito, para estudar crimes ali confessados. O livro vendeu bem nas palestras em faculdades e colégios. E nos lançamentos em cinco capitais – na de Curitiba, a badalação promovida por Lachini na TV foi tal, que um empresário viajou mais de 100 quilômetros para buscar 50 exemplares autografados.
Vendeu também pelo correio. E um dekasegi, Paulo Sanda, em um mês esgotou uma edição no Japão. Aqui, acabou. Tão logo ache tempo, reedito.
Melhor, só se a Folha
o tivesse dado de brinde, como chegou a cogitar. Não pedi um tostão.
Só queria ver cumprida a profecia do Brickmann e ter um milhão
de leitores. Mas Alexandre, do marketing da Folha, disse que "sem
uma editora para negociar, nada feito".
Luiz Maklouf Carvalho - Você conta, no livro, ter recorrido algumas vezes a expedientes eticamente discutíveis (pequenas maracutaias, digamos assim). Qual é o limite ético para um repórter?
É fácil ser ético quando se está entre o belo gesto e o feio, entre o certo e o errado. A porca torce o rabo é quando se fica entre dois valores universais. Quando a Verdade e o sagrado Direito à Informação da sociedade batem de frente com outros valores universais: publico, traindo a fonte que confiou em mim, ou sacrifico a Verdade no altar da Lealdade? Conto que o povo só finge usar cinto de segurança, ou omito essa Verdade para não assanhar os fascistas de plantão contra a Liberdade? Digo que o respeitável ator morreu de aids, ou coloco a Honra do falecido, a Privacidade e a Felicidade de sua família acima do Direito à Informação do público? Divulgo o plano dos tiras para invadir o cativeiro ou sento em cima da Verdade para dar uma chance de Vida ao seqüestrado? Furto a prova para poder contar a Verdade ou minha Honestidade me impede.
Como se vê, a Verdade e o Direito à Informação trombam às vezes com valores não menos respeitáveis e universais. Embora instigue bate-papo de boteco, o dilema massacra o repórter na hora em que ele precisa decidir, na rua e já, se rouba ou não o documento, se chantageia ou não, se faz matéria ou chama a polícia, se salva ou entrevista o suicida.
Para Sorte e Arte, selecionei histórias dessas. Nas palestras, cansei-me de perguntar a alunos e mestres se consideram éticas as atitudes confessadas: Vale paquerar a secretária para obter informações da estatal? É bonito chantagear bagrinho para pegar tubarão?
Jô Soares me perguntou o que faria se, xeretando(*) a gaveta do prefeito atrás de provas de maracutaias, encontrasse a carta de amor de sua secretária. Respondi que se o prefeito trai e ferra o povo, é problema do povo, mas que não tocaria na carta, pois não é da conta do distinto público se o alcaide trai a alcalina e ferra a secretária (Clinton que o diga).
Nem tudo porém é tão fácil. Teria o eleitorado o direito de saber que seu presidente usava supositório de cocaína? O povo devia saber por que seu governo era tão doidão? Não sei. Ainda que presidencial, fiofó é tão íntimo, né? Você pergunta qual o limite ético para o repórter. Se fosse questão de limite seria fácil: decidiríamos quanto da verdade entregar ao povo; e talvez disséssemos que o presidente entrouxava só a cabecinha do supositório.
É questão de opção, não de limite. Que limite impõe o artigo primeiro do nosso Código de Ética? Se nada pode impedir a informação de interesse público de chegar ao público, o repórter pode entrevistar no pau-de-arara, atropelar pedestre na corrida do fechamento, pode tudo. Nem ética de sinuqueiro, malandro ou pistoleiro é tão permissiva e deslimitada.
Já Sérgio Buarque, que me fez conselheiro do Instituto Gutenberg, adota a lei: age de acordo com ela e critica quem a atropela. Também não me serve. Não confio nos fazedores (nem nos executores ou aplicadores) de leis. Eles não prestam. Inventam leis para aumentar o poder do estado (o seu poder) sobre o indefeso e espoliado cidadão. Raros Hélios Bicudos se mantêm íntegros, corajosos e generosos mesmo depois da posse. A maioria é eleita pelo povo num dia e no outro já virou casaca a favor da elite. Às favas com a lei.
Não uso cinto de segurança
porque ninguém tem nada com isso – a lei fascista que se foda. Respeito
pedestre e sinal vermelho, não porque a lei mande, mas por respeito
ao próximo. Não fumo em lugar fechado porque tenho educação,
e não porque uma lei fascista proíba. Sigo o meu código
de ética – bem mais rigoroso do que o profissional, bem menos safado
do que as leis. Tenho consciência -
e durmo em paz com ela. Só me lasco quando obrigado a decidir entre
valores universais. Aí, qualquer opção me tira o sono
– e a paz. Pois se opto por um, atropelo o outro. E nenhuma lei ou código
me dará refresco íntimo.
(*) – As distrações do Aurelião são um problema. Sorte e Arte por exemplo ia se chamar Sorte e Safadeza. Todo mundo sabe que além dos significados maus, safado também é aquele que se safa, assim como safadeza é o ato de se safar. Todo mundo, menos o Aurelião. Mudei o título.
Agora, o xeretar. Todo mundo sabe que é fuçar, bisbilhotar, coisa de menino abelhudo. O Aurelião, não. Xeretar, para ele, é adular, bajular ou engrossar. Não sei de onde tirou isso. Deve estar certo. Mas precisava ridicar justamente o significado usado por todo mundo?
Aliás, o Aurelião
também ridica o verbo ridicar e o adjetivo ridico, que, como estamos
fartos de ignorar, é sinônimo de avaro, muquirana, avarento,
pão-duro. Entre os 43 sinônimos de avaro, no Aurelião
do windows, há ridico. Mas se você clicar duas vezes
em cima dele aparece "Verbete inexistente". Pena, pois não existem
os verbos avarar, avarentar, muquiranar ou pão-durar, e mesquinhar
é feio, né? Já ridicar é perfeito – mas o Aurelião
ridica.
Luiz Maklouf Carvalho - Como vê o desempenho da mídia brasileira no governo Fernando Henrique Cardoso?
Lamentável. Articulistas como Biondi, Jânio, Cony, Moreira Alves, Elio Gaspari, Veríssimo e poucos outros lavam a alma da gente. Mas até Sarney e Antônio Ermírio têm sido mais críticos ao páleo-liberalismo deslavado do que o grosso dos articulistas e a reportagem em geral. Esta põe no jornal o que ouve, não o que houve. Faz jornalismo declarativo, entre aspas e sem perguntas, como se temesse ofender. Não questiona a doação de estatais, hospitais, pontes, do patrimômio público, enfim. No máximo, cobra pressa nesta ou naquela desnacionalização, como se o povo ansiasse por isso.
Dá náuseas o noticiário sobre a Dutra privatizada. A firma fez da estrada um matadouro: tirou a proteção contra faróis que dividia as mãos (quem viaja à noite leva luz na cara de São Paulo até o Rio), tirou o rodo das curvas (agora planas e expulsantes) e poluiu a sinalização lateral com placas promocionais (falando bem de si mesma e do governo). A TV e os jornais dizem porém que o número de acidentes aumentou porque, privatizada, a estrada ficou tão boa que os motoristas abusam mais.
No caso da Vale do Rio Doce, o vagalhão de protestos até chegou aos jornais. Mas como marola. Não foram debatidos ou rebatidos os argumentos contrários. A imprensa preferiu desqualificar os donos dos argumentos. Assim, Bautista Vidal e Aureliano eram contra por serem viúvas da ditadura militar, Darcy Ribeiro por ser doido alucinado, Chico Ferramenta por ser petista e petelho, D. Luciano porque estatal não é alma para ser salva, Barbosa Lima por ser velho, Itamar por ser Itamar e assim por diante.
Mussolini disse que governar a Itália
não era difícil -
era inútil. Com uma imprensa tão louvadeira, o pefelista
FHC deve achar facílimo governar o Brasil. Pena que sua reeleição
seja inútil, pois herdará de si mesmo uma moeda forte e um
país estraçalhado, sem emprego, sem saúde, sem educação,
sem vergonha, sem soberania e, temo, sem saída.
Luiz Maklouf Carvalho - O furo vale uma missa?
Até o Diário Oficial
traz furos. É imprescindível.
Luiz Maklouf Carvalho - Qual foi o seu pior momento profissional? E o melhor?
O pior começou em 20 de maio de 1990. Naquele maldito domingo, dei no JB a foto de um homem pegando dinheiro de camelôs. Na legenda, sua identificação como fiscal da prefeitura. Não era. Era ganso: camelô chantageado para coletar propinas de seus colegas para o fiscal corrupto – e vagabundo. Na errata do dia seguinte, não pude contar que ele era ganso. Arriscaria sua vida. Ali começou o pior tempo de minha vida – profissional ou não, pois não distingo. Ô, vergonha.
O melhor foi quando, no domingo 23
de julho, o JB publicou cineminha com fotos de Américo Vermelho
mostrando a corja de fiscais de verdade achacando uma fila de camelôs
de verdade, e matéria minha e de Márcio Venciguerra contando
como funcionava a máfia, do gabinete do secretário aos bostinhas
da rua. Na matéria, o prefeito Marcello Alencar, indignado ao ver
nossas fotos, prometia fechar o "rapa". Cumpriu.
Luiz Maklouf Carvalho - Que conselhos você daria para editores e chefes de reportagem que lidam com o repórter no dia a dia de uma redação?
Quem sou eu para dar conselho? No máximo, advogo em causa própria: não façam da pauta algemas.
Pautem, mas deixem claro que a rua
pode render matéria mais quente, verdadeira e exclusiva. Leiam a
matéria antes de cortar ou titular. Desburocratizem. E abram essa
janela, que ar-condicionado faz mal.
Luiz Maklouf Carvalho - Você está escrevendo um novo livro - sobre o Theodomiro dos Santos, o primeiro preso político condenado à morte no Brasil e hoje juiz do trabalho. Pode adiantar alguma coisa sobre o projeto?
Téo foi o mais famoso preso político do Brasil no exterior, porque sua foto de menino algemado ouvindo sereno a sentença de morte num tribunal militar correu mundo em revistas, jornais e cartazes da Anistia Internacional. Ao ser seqüestrado por uma equipe de torturadores do DOI-Codi, em Salvador, Téo, já algemado, reagira e matara um deles, sargento da Aeronáutica. Foi por isso o primeiro condenado à morte no Brasil no século (oficialmente, claro: a repressão matou duas centenas de prisioneiros na tortura, e até hoje a polícia mata aos magotes presos comuns e pobres em geral).
A pena capital de Téo foi comutada para prisão perpétua e reduzida para 16 anos. Ele passou nove anos na penitenciária Lemos de Brito, em Salvador. Em 79, a lei da Anistia, feita de forma a exclui-lo, começou a libertar todos os presos políticos. O próprio governador baiano Antonio Carlos Magalhães disse que, sozinho em cana, Téo não duraria muito. Figueiredo ofereceu-lhe indulto. Téo recusou. Fugiu da cadeia e do Brasil quando os exilados já retornavam e ficou na França até a extinção de sua pena. em 1985.
Voltou, estudou Direito, passou (em 12§ lugar) em concorrido concurso para juiz federal do Trabalho e em 1997 foi eleito por seus pares de todo o país vice-presidente da Associação Nacional da Magistratura Federal do Trabalho.
Téo é meu amigo e uma
das pessoas mais generosas da minha vida. Morei na casa dele em Villemomble,
perto de Paris. Tenho um belo livro. Falei com uma penca de gente que militou
e conviveu com ele nos tempos duros. E colhi ótimas histórias.
Ariovaldo Bonas (diretor de redação da Gazeta de Vitória) - Zé Grandão: grandes repórteres como você - além da curiosidade, persistência e apuro na investigação - têm duas características que me intrigam: despertam empatia nas fontes (as mais surpreendentes) e são periodicamente premiados pela sorte. Como fica sua cabeça ao lidar com fatores tão aleatórios? Pira?
De fato, Bonas, é surpreendente a sorte que tenho com as fontes. Em plena ditadura, coronéis como Darcy Siqueira, que nunca atenderam ninguém, me davam exclusivas. Uma vez, na Folha, Bóris Casoy se impressionou com os elogios feitos a mim, em Brasília, por um assessor do ministro Delfim.
Em parte, a empatia se deve à lealdade. Sou inimigo leal. Nunca escondi da fonte que detesto milico e ditadura. Nunca evitei discutir ou mesmo brigar com a fonte pessoalmente. Mas não brigo com a notícia. Não distorço nem omito opiniões ou informações colhidas na entrevista. Posso contrastá-las com fatos ou outras informações, mas não distorcer.
Jamais dou colher-de-chá ou prometo qualquer coisa à fonte. Se publico um off e o descubro falso, corrijo e entrego ao leitor o nome do mentiroso. Mesmo quando publico algo que prejudica uma fonte, ela não costuma reclamar, pois sabe do meu compromisso maior, com o leitor. Em vez de perdê-las, ganho seu respeito e confiança. E mais fontes.
Isso não me pira, Bonas. Eu
curto. Mas curto mais ainda uma outra série de empatias que tenho
a sorte de estabelecer. Com chefes. Morro de dó deles. Eu detestaria
chefiar alguém tão desobediente, pentelho, implicante, criador
de caso, chato e intransigente como eu. No entanto, meus ex-chefes em geral
me querem bem. Você, por exemplo, apesar de ter me chefiado no Jornal
da República e no Estadão, derrama carinho nesta
entrevista.
Ariovaldo Bonas - Como é descobrir o veio profundo da notícia em coberturas aparentemente burocráticas? Pergunto porque me fascina o início do caso Lutfalla, onde você descobriu uma mutreta colossal numa coletiva de uma autoridade econômica, quando os coleguinhas não perceberam nada.
Que memória, Bonas! Faz 19 anos. Foi manchete e última página do Jornal da República número 8, em 4 de setembro de 79. Na véspera, antes da entrevista no BNDE, no Rio, interessei-me pela única pessoa bonita na sala. Moça linda, Ângela, do JB. Para puxar papo, disse-lhe nada entender de nada e lhe pedi uma aula sobre o que o homem do BNDE falaria. Ela explicou.
Na entrevista, o homem falou de um monte de coisas e, no meio delas, entendi que o BNDE ia fazer uma tal de notitia criminis contra Paulo Maluf, governador e artista principal das maracutaias do caso Lutfalla. No fim da entrevista, chequei se notitia criminis era o que eu pensava. Era.
Da sucursal, num flash para São Paulo, prometo 60 linhas sobre a única coisa que eu havia entendido na entrevista. Em minutos, São Paulo pergunta se dá para fazer 180 linhas. Claro que dava: a aula da moça linda estava fresca na cachola. "Então é manchete", decretou o chefe. Os outros jornais deram em 30 ou 40 linhas a entrevista inteira. Nós, a última toda, só com o Caso Lutfalla.
Isso só ocorreu porque além
de atento o repórter era sortudo: tinha chefe atento e corajoso.
O nome do chefe em São Paulo? Ariovaldo Bonas.
José Nêumane (repórter e articulista do Jornal da Tarde) - Ô, Big Joe, diga-me lá uma coisa. Se o repórter político se afastar demais da fonte, ele vai terminar morrendo de sede, curtindo uma seca de notícia. Mas se aproximar demais, não vai ter capa que evite que ele se molhe com a lama do adesismo fisiológico. Qual é a distância prudente a se manter entre o desconhecimento e a intimidade, hein?
Velho amigo, você sabe responder essa melhor do que eu. Você, que nunca foi de esquerda, fez um livro muito decente sobre Erundina. Nele, não puxou saco de sua conterrânea prefeita da maior cidade industrial do mundo, nem deu pau imerecido na sua adversária política.
Como você, também acho
facílimo manter relações saudáveis com quem
está do outro lado do balcão. Não aceito nem faço
agrados. Quero informação – e muitas fontes, sei lá
por que, me dão a preferência. Não aceito amizade de
fonte – e as informo disso. Se Paulo Ramos, da Montreal Engenharia, e José
Hisbello Campos, da Light, hoje são meus amigos, é porque
estão aposentados e não são mais fontes. Mais: nunca
foram paparicados por mim nos jornais. Os dois foram até prejudicados
por matérias minhas. Como não reclamaram nem se atreveram
a me pedir algo feio, ao se aposentarem foram promovidos da agenda de fontes
para a de meus amigos.
Ricardo Setti (diretor de redação de Playboy)- Qual é sua avaliação sobre a correção ética dos jornalistas, hoje, no Brasil?
No último domingo de 1997, o ombudsman da Folha reclamava cadeira de Ética na faculdade. Voto contra. Ética deveria permear todas as disciplinas. Tudo em nosso trabalho é questão de ética. Sei de professor que elogia textos recheados de inglês (ombudsman, por exemplo) e dá boa nota a quem usa o jargão da fonte – esquecido de que clareza é dever de ofício e de que somos pagos exatamente para traduzir a chorumela para nosso infeliz leitor.
Se a escola que não discute ética ensina atitudes antiéticas, as redações não ficam atrás. Estão de tal forma militarizadas que o jornalista mal consegue ser cidadão, quanto mais indignado. Estão, portanto, cada vez mais desertas de jornalistas pois, como diz Mino Carta, o jornalista é um cidadão indignado.
Em 1997, vi repórter receber advertência por escrito e, sem ter brio para se demitir, virar um cidadão acachapado, subjugado, conformado – o antônimo do jornalista, do cidadão indignado. Ora, se o chefe não gosta dele, demita-o – ele continuará jornalista. A advertência é antiética, porque mata o jornalismo. O repórter que havia no menino foi assassinado pela burrice do chefete.
Se não tem com quem discutir
na escola (que lhe ensina a coisa errada) e não pode discutir na
redação (onde cada vez menos se tolera discussão sobre
uma ordem), o jovem jornalista tende a se esquecer dessa história
de ética. A empresa jornalística e a lei que decidam essas
coisas. A ele caberá cumprir ordens. Para azar do jornalismo. E
do Brasil.
Ricardo Setti - O que você sugere para se enfrentar à ameaça à liberdade de informação que significa esse movimento, iniciado pelo ator Antonio Fagundes junto a seus colegas, para que os profissionais do show business só dêem entrevistas à imprensa se forem pagos para isso?
Setti, não faço a menor questão de falar com quem não quer falar comigo. Nunca levei chá-de-cadeira superior a meia hora. Governador de estado, ministro, seja lá o diabo que for, não me deixa esperando. Vou-me embora e no caminho arrumo matéria melhor. Se era só mais um entrevistado em matéria grande, omito-o. Se era fonte off, procuro outra. Se era acusado de alguma coisa, escrevo que recusou a chance de se defender.
Se o Fagundes não quer falar
conosco, acho que não deveríamos falar com ele – pra que
chatear o moço? Agora, se tem uma coisa que não aprovo é
um movimento político contra o movimento imbecil dele. Só
encheria a bola do mercenário bobinho. Eles precisam de nós
– principalmente de você, que dirige uma verdadeira fábrica
de estrelas. Nós sempre podemos criar novas estrelas, quando as
velhas ficam chatas.
Ricardo Setti - O que mais atrapalha sua vida, como repórter?
Como respondi ao Maklouf, a burocracia
e o ar-condicionado. Mas esses são os problemas especificamente
meus. Como faço o serviço completo, da pauta à edição,
não sofro o maior suplício do reportariado: o de ver a matéria
arruinada pelo editor incompetente ou vagabundo, que corta sem ver e titula
sem ler. Pior é o que precisa mostrar serviço e troca palavras.
No Estadão, um desses, além de salpicar vírgulas
entre meus sujeitos e verbos, ainda transformou o motor de caminhão
naufragado havia décadas, que encontrei num mergulho, num motor
de caminhão naufragado "há séculos".
Fernando Mitre (diretor de redação do Jornal da Tarde) - Quais critérios você adota para estabelecer a complicada relação entre os direitos à informação e à privacidade?
Mitre, no último número do boletim do Instituto Gutenberg, o Sérgio Buarque conseguiu explicitar o critério que sempre usei sem saber. Diz ele que a gente deve se colocar como leitor para um teste: "você pode adorar reportagens sobre a intimidade de Vera Fischer, mas note como é errado dizer Eu tenho o direito de ser informado sobre a intimidade de Vera Fischer". Sempre fiz isso sem essa clareza, e atribuía as decisões a algo que chamava vagamente de bom senso. Sérgio definiu com invejável precisão o bom senso.
E seria ótimo que todos os jornalistas tomassem conhecimento dessa definição. Não faz cinco anos, um jornal do Rio deu na primeira página a foto 3 x 4, tirada de um documento e ampliada, de um senhor de cabelos brancos, com nome e endereço. O respeitável aposentado caíra morto na calçada da Voluntários da Pátria, em Botafogo, no Rio. Morte natural. Título e matéria diziam que ele morrera na porta de um cinema de sacanagem. Dá para se confiar no bom senso do repórter, do copy e do editor de Cidades, do copy e do editor daquela primeira página? O policial que julga, condena e mata certamente também se acha dono de um bom senso à toda prova.
Mitre: Em que condição o repórter deve invadir a privacidade de um homem público?
Sempre que o interesse público
estiver em jogo. O povo tem o direito de saber de tudo o que esses patifes
estão tramando. Mesmo porque eles nunca tramam a favor do povo.
Só contra (veja os exageros do novo código de trânsito).
Note, porém, que estou falando do homem público no estrito
senso. Xuxa, Antônio Fagundes, Carla Peres, Caetano. Madona, Angélica,
Romário, Malu Mader e Regina Duarte não são homens
públicos (aliás, a maioria nessa lista nem homem é).
Precisam do público (assim como eu), e são (somos) até
sustentados pelo dinheiro do público - que é coisa
muito diferente de dinheiro público, do contribuinte.
Mitre: O homem público tem direito à privacidade?
Mitre, você tinha de fazer a única pergunta que eu temia, né? Tenho duas respostas paradoxais, verdadeira trombada lógica.
Primeiro, a que uso profissionalmente: tem. O fato de ele ter entrado para o crime – digo, para a vida pública – não lhe tira a condição de ser humano. Se até gaiola de passarinho, que não é ser humano, a gente cobre durante a noite, por que deveríamos manter os poderosos dia e noite sob os holofotes?
Como quando noticiamos que o Zequinha Sarney passeava de barco sei lá onde, no estrangeiro. O que tínhamos com isso? Não é crime passear, o barco não era chapa-branca, o avião que o levou era de carreira, o congresso estava de recesso, todas as despesas corriam por conta dele, que diabo de notícia havia nisso?
Se a questão estava no fato de o salário de deputado permitir vida tão boa, então chegamos à segunda resposta: homem público não deveria ter direito a nada, nem a existir. E, existindo, deveria ser preso e deportado para sempre. Homem público é aquele que se apossa do poder público e vive do dinheiro público – em geral políticos, magistrados e alguns empresários, especialmente banqueiros e cidadãos kanes.
Para justificar essa minha posição "radical" (e que não uso em meu ofício de jornalista), nem cito Mayakovsky ou algum de meus queridos ideólogos de esquerda como Malatesta, Bakunim, Erik Fromm ou qualquer outro. Cito Henry L. Mencken (1880-1956), o mais importante jornalista dos Estados Unidos nos anos 10 aos 40, direitista ferrenho (embora honesto). Vejamos:
– "Todo homem decente se envergonha do governo sob o qual vive."
– "A guerra contra os privilégios nunca terá fim. Sua próxima grande campanha será a guerra contra os privilégios dos desprivilegiados" (não lembra a reforma de alguma Previdência?).
– "A democracia é a arte e a ciência de administrar o circo a partir da jaula dos macacos."
Enfim: não uso profissionalmente
minha aversão à corja, mas tenho sempre na cabeça
que eles vivem muito bem com o meu dinheiro, com o dinheiro do contribuinte.
Nunca esqueço que, como são vagabundos, têm tempo de
sobra para inventar sacanagens cada vez maiores para fazer com o povo que
paga os seus salários, as suas mordomias e as espertezas de seus
apaniguados - vide Proer.
Luiz Henrique Amaral (repórter de política da Folha de S. Paulo) - Entre as diversas redações em que você trabalhou, qual a que mais investia na formação do repórter. Como isso acontecia e quais eram as conseqüências?
Na formação do repórter,
que eu saiba, só a Abril investia: patrocinava cursos, punha dinossauro
criando e pajeando foca. Experiências mais recentes, como a atual
da Folha, eu não vi de perto. (A Folha já investia
na formação do repórter dando-lhe bom salário
sem "promovê-lo" a chefe – nem sempre competente). Fazendo isso –
pagando salário de editor a repórter e mantendo um excelente
quadro de fotógrafos – o Hoje em Dia de BH acaba de faturar os prêmios
Esso regional e Fiat Allis. E em dois anos, seus 20 mil assinantes viraram
42 mil.
Leão Serva (editor chefe de Lance!) - Sobre o José Roberto de Alencar, acho que minha pergunta é delicada, mas me parece um Borges brasileiro, uma pessoa que cada vez que eu encontro está com um problema visual mais grave, cada vez vendo menos, mas cuja vida é ser repórter e escrever (ele, como todos nós, me parece que pensa com as mãos, escrevendo, não sei se está acostumado a narrar as matérias para os outros digitarem). Então, me pergunto sempre como ele vai, a cada momento, se adaptando às dificuldades decorrentes da dificuldade visual.
Sossega Leão, que só sou cego de um olho – o outro é vidro. Conforme a posição e a limpeza da lente de contato de 17,5§ , ainda enxergo de 20% a 40% com o olho bom. Tá ótimo. E, graças ao jornalismo, já vi mais paraísos e mais mulheres bonitas do que 99% dos habitantes do planeta jamais verão com seus olhos todos. Após a cirurgia que me cegou, em 92, ficaram ainda mais belas as paisagens e as mulheres, algo perdidas na neblina (ou numa tela de Renoir). O mundo ficou mais poético, leve e sensual, sem a antiga nitidez pornográfica.
Ademais, é o mundo que se adapta a meus olhos incompetentes: a tela brilhante do laptop substituiu a lauda opaca, o luminoso do táxi livre cresceu e ganhou luz, a impressão dos jornais e revistas melhorou, as lentes também. E a sorte não me larga: na reportagem, continuo sempre achando algo importante – e desprezado por quem viu antes.
Não, meu querido Leão:
nada tenho de Borges, não lhe chego aos pés em nada. Mas
a minha cegueira é bem melhor, muito melhor do que a dele.
Leão Serva - Queria que você contasse a passagem pela Folha de S. Paulo, pela reportagem especial maravilhosa que o jornal montou na época das diretas. Como era aquele time de feras (e egos) e como foi a sua saída.
Era um belo time. Na reportagem, especial ou não, havia Clóvis Rossi, Décio Bar, Galeno de Freitas, Geraldo Hasse, Gilberto Dimenstein, Hamilton de Souza, J. B. Natali, João Victor Strauss, você, Murilo Carvalho, Paulo Markun, Norma Coury, Renato Faleiros, Ricardo Kotscho, Rolan Marim Sierra, Rolf Kuntz, Rui Castro, Theodoro Meismmer, eu... Era uma delícia. A gente não competia – ajudava-se. Éramos (e somos) amigos e torcíamos uns pelos outros. E bela plêiade de fotógrafos. A Folha dava banho todo dia.
Ego inflado, que me lembre, havia o meu. Pudera: assinava no mínimo três manchetes e de dez a doze chamadas de primeira página por mês. E de vez em quando era a minha foto que saia na primeira, como Papai Noel, brincando na matéria de disco voador ou descendo de jipe a estrada velha de Santos que, desabada, não dava passagem a pé para engenheiros do DNER. Era uma estrela no maior jornal de língua portuguesa do mundo e não deveria ficar de ego inchado? Pra falar a verdade, nunca mais desinchou.
Sai porque o clima da redação
começou a ficar ruim para quem não era repórter especial,
e acabou atingindo os especiais. Felizes com o jornal, só restavam
o seu Frias e eu. Numa quinta-feira, daquelas em que ele almoçava
com as chefias e os repórteres especiais, vi que ele também
já não estava tão feliz. Ao contrário, estava
bem chateado. Se até o dono mudava de lado, eu é que não
ia ficar feliz sozinho. Tampouco poderia aderir à infelicidade geral
– não nasci pra sofrer. Pedi demissão.
Nelson Blecher (repórter especial de Exame) - Por que a reportagem está agonizante na imprensa brasileira?
Oi, Nelson. Tenho lido belas reportagens inclusive na Exame, na Veja, na Playboy e em outras revistas da Abril e da Globo. De vez em quando, um jornalão sai com coisa boa, exclusiva, quente, trabalhada e bem escrita. Até eu andei publicando no Hoje em Dia seriados como o de nove páginas sobre um garimpo de esmeraldas meio perigoso (mataram lá um ex-comandante da PM do Estado) e de oito páginas sobre as melhores e as piores cidades de Minas.
Concordo porém com você.
Estão rareando as boas reportagens, e não só por culpa
de muitas empresas jornalísticas, cada vez mais empresas e menos
jornalísticas. Anda baixo o teor de alma de repórter nos
repórteres. Em 1994, um cidadão se trancou com a família
em casa, matou-a e suicidou-se. Brinco que muito repórter moderno,
se tivesse escondido na casa e visto tudo, não teria matéria:
se não sobrou ninguém vivo, a quem ele perguntaria o que
viu? O pessoal acha difícil escrever o que ninguém disse.
PS – Dá licença, Maklouf, para responder a mais duas perguntas que ninguém fez?
1 – Estou, sim, muito honrado e vaidoso por ter sido o entrevistado e pela estatura dos meus entrevistadores.
2 – Como não tenho certeza de nada do que falei, estou à disposição de quem puder me ensinar as respostas que eu não soube dar, de quem não entendeu as respostas mais confusas e de quem discorda de minhas besteiras (atitude previsível e de pouco mérito, pois eu próprio nem sempre concordo comigo). Terei grande prazer em aprender, algum prazer em explicar e nenhum prazer em engolir – embora viva engolindo, pois sou grande pensador de besteira.
Meu telefone é (011) 884.0488
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